O ecossistema bucal

O ecossistema bucal

(Parte 1 de 5)

55© Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA.

JosØ Luiz De Lorenzo

5 O Ecossistema Bucal

Nós vivemos, desde o nosso nascimento, cercados por um número incontável de microrganismos. Muitos deles (calcula-se que cerca de 100 trilhões), na verdade, estabeleceram uma morada perene na superfície de nossa pele, de nossos dentes e das mucosas que têm contato com o meio externo. Assim, vários dos nossos compartimentos orgânicos abrigam uma série de microrganismos que infectam esses locais mesmo no estado de saúde, constituindo as microbiotas próprias de cada local.

Começando a raciocinar em termos de Ecologia — razão deste capítulo — devemos entender, primeiramente, o motivo da não existência de uma microbiota única, igual em todas as regiões do nosso corpo; entender, por exemplo, por que a microbiota nasal é bastante diferente da vaginal e, ambas, da intestinal. Uma boa explicação inicial reside no fato de cada região ser um habitat diferente, de cada região oferecer diferentes condições ambientais. Existem diferentes composições teciduais, portanto diferentes receptores para a aderência e diferentes nutrientes necessários para cada microrganismo, diferentes teores de umidade, diferentes pH, maior ou menor teor de oxigênio, diferentes outros fatores, e é evidente que só colonizam uma certa região, um certo habitat, os microrganismos que se adaptam à sua condição ecológica. Não é por acaso, pois, que o termo “ecologia” é originado do grego óikos, que significa “casa, habitação”.

Existe, porém, no nosso corpo, um órgão ecologicamente especial, um local que, em função de sua complexidade anatômica, não alberga uma microbiota única, mas várias microbiotas com diferenças marcantes em suas composições qualitativa e quantitativa: esse local é a cavidade bucal, o nosso campo de atuação médica. Na verdade, devido à existência dos dentes e do periodonto, a boca não é um sítio ecológico único, mas apresenta vários sítios ecológicos, cada qual com características ambientais próprias e, conseqüentemente, cada qual com sua microbiota peculiar. Assim, existe a microbiota das superfícies mucosas lisas, a microbiota da mucosa do dorso lingual que não é lisa, a microbiota da superfície dental sadia, a microbiota da superfície dental cariada, a microbiota do sulco gengival sadio, a microbiota da bolsa periodontal, portanto várias microbiotas dentro da boca.

Analisada como um todo, a microbiota bucal é a mais complexa de todo o nosso corpo: só de bactérias existem mais de 30 gêneros diferentes, abrangendo mais de 500 espécies diferentes. Socransky e Haffajee (2002) relataram que, na boca, existem aproximadamente 350 espécies bacterianas já cultivadas e mais de 200 que foram reconhecidas por métodos genéticos. Em número total de microrganismos, a microbiota bucal só encontra um concorrente na microbiota intestinal, mas a bucal é bem mais complexa, em nú-

56© Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA.

mero de espécies, porque sem dúvida a boca é um habitat muito mais complexo que o trato intestinal, principalmente devido à existência dos dentes.

Como qualquer outra microbiota encontrada em qualquer outro habitat da Natureza, a microbiota bucal é constituída por microrganismos que são classificados como residentes ou como transitórios.

•Residentes ou autóctones são as espécies sempre presentes na microbiota e, de acordo com sua freqüência, são subclassificadas como indígenas ou como suplementares.

Uma espécie residente é considerada indígena quando existe em altos números na microbiota, em proporção maior do que 1,0% do total de microrganismos.

A espécie residente é considerada suplementar quando ocorre em baixos números, ou seja, em proporção menor do que 1,0%; neste grupo, estão inseridas bactérias patogênicas como os estreptococos do grupo mutans, lactobacilos, Prevotella intermedia, Porphyromonas gingivalis, Candida albicans e Treponema spp, cujos números só aumentam se houver alteração ambiental.

•Transientes ou alóctones são as espécies ocasionais, vindas de outros habitats como ar, alimentos, bebidas e mãos. Essas espécies exógenas só se instalam se ocorrer severo desequilíbrio na microbiota local; é o caso, por exemplo, do encontro de enterobactérias e de Pseudomonas aeruginosa (bactéria ambiental patogênica e muito resistente a antibióticos) na placa dental de pessoas imunodeprimidas e das que se submetem à antibioticoterapia durante tempos prolongados.

A microbiota bucal compõe, com seu habitat, a nossa boca, o complexo ecossistema bucal, alvo da análise deste capítulo, que tem como objetivos fundamentais os estudos: 1o) dos mecanismos e das condições de implantação da microbiota bucal; 2o) das influências do hospedeiro sobre a microbiota bucal; 3o) das relações intermicrobianas, ou seja, das relações bióticas estabelecidas entre os membros da microbiota bucal; 4o) das influências da microbiota bucal sobre o hospedeiro.

A microbiota bucal passa por várias alterações, muitas vezes significantes, no decorrer da nossa vida.

•Na vida intra-uterina, a boca é isenta de microrganismos. Os primeiros chegam à nossa boca na hora do nascimento e são transitórios; quando o parto é normal, são microrganismos vindos do canal vaginal da mãe, tais como estreptococos, lactobacilos, difteróides, coliformes, leveduras como Candida albicans e alguns vírus e protozoários.

•Algumas horas após o nascimento, a boca começa a ser infectada por microrganismos bucais provenientes das pessoas que estão em maior contato com o bebê, sobretudo da mãe (transmissão vertical). Nessa fase, a boca é constituída apenas por uma mucosa lisa bastante arejada, portanto as bactérias que se instalam são as tolerantes ao oxigênio, ou seja, as aeróbias e as anaeróbias facultativas adaptáveis à mucosa. Numerosos estudos nos mostram que as primeiras espécies que se instalam como indígenas são Streptococcus salivarius, do mesmo sorotipo encontrado na boca da mãe, S. oralis e S. mitis biovar 2. No primeiro ano de vida, cerca de 70% da microbiota bucal são constituídos por Streptococcus spp, principalmente da espécie S. salivarius, que tem grande afinidade pela mucosa; o restante da microbiota é constituído principalmente por estafilococos, Veillonella spp e Neisseria spp.

•A complexidade da microbiota bucal iniciase com a erupção dos dentes, que cria duas novas situações ecológicas, dois novos habitats ímpares no nosso corpo: a superfície dental e o sulco gengival.

A superfície dental propicia as condições necessárias para a instalação de bactérias que têm a capacidade de se fixar a ela, tais como S. sanguinis, S. gordonii, S. oralis e algumas espécies de Actinomyces, consideradas como as colonizadoras iniciais da superfície do esmalte (fase de formação inicial da placa dental). Em circunstâncias especiais analisadas nos Capítulos 6 e 7 (Placa Dental e Cariologia: Etiopatogenia da Cárie Dental, respectivamente), os estreptococos

57© Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA.

do grupo mutans também se instalam na superfície do dente; o estabelecimento de S. mutans ocorre posteriormente ao de S. sanguinis, mostrando sua dependência do ácido para-aminobenzóico (PABA) produzido por S. sanguinis. Também é interessante salientar que certas regiões anatômicas do dente, como as áreas interproximais e os sulcos e fissuras do esmalte, por serem menos atingidas pelo oxigênio, fornecem condições para o desenvolvimento de bactérias anaeróbias, sejam facultativas ou até mesmo estritas.

Por sua vez, o sulco gengival é um nicho com baixíssimo teor de oxigenação, possibilitando a instalação de bactérias anaeróbias estritas. O aumento numérico de bactérias periodontopatogênicas no sulco gengival, como Porphyromonas gingivalis e Prevotella intermedia, geralmente só ocorre a partir da puberdade, pois elas são favorecidas por hormônios sexuais (fatores de desenvolvimento) que se fazem presentes no exsudato ou fluido gengival.

•Na fase de adulto dentado, a microbiota bucal atinge as suas proporções máximas: em 1,0ml de saliva, existe uma média de 100 milhões (108) de bactérias, e, na placa dental, a concentração bacteriana é ainda maior, cerca de 109 a 1010/g (10 bilhões/g).

•Se a pessoa perder alguns dentes, a microbiota integral só persiste nas regiões providas de dentes.

•Se ocorrer perda total dos dentes, praticamente vão desaparecer as bactérias que têm tropismo para os dentes e para o periodonto, voltando ao predomínio das formas aeróbias e facultativas que apresentam afinidade pelas mucosas. Portanto, nos desdentados totais, ocorre severa redução do número total de microrganismos bucais.

•Quando a pessoa coloca dentadura artificial, voltam a instalar-se várias espécies que apresentam afinidade para superfícies duras e vários anaeróbios, devido à presença dos dentes artificiais e de regiões de baixa oxigenação existentes na base interna da prótese. Se a prótese for implantosuportada, haverá recolonização das espécies próprias do periodonto, desde as nãonocivas até as nocivas, conforme o grau de higienização e de inflamação dos tecidos de suporte.

Após esta análise, podemos concluir que a composição da microbiota bucal vai-se alterando de acordo com as mudanças do ambiente bucal, obedecendo, portanto, às leis básicas da Ecologia.

Baseados nessas leis, devemos entender por que, de todas as espécies bacterianas de “A” a “Z”, somente as espécies “A”, “B”, “C” e “D” conseguem implantar-se na boca humana. Avançando mais neste raciocínio, devemos entender os motivos pelos quais a bactéria “A” consegue colonizar facilmente o epitélio bucal e não a superfície dos dentes, pelos quais as bactérias “B” e “C” só são encontradas em grande número no ambiente subgengival e pelos quais a bactéria “D” é isolada das fissuras oclusais dos dentes e quase nunca das suas superfícies lisas.

Como primeira explicação, o tecido infectado tem que fornecer uma série de condições favoráveis para o desenvolvimento desta ou daquela espécie. Isto é absolutamente fundamental, mas não é suficiente. É preciso haver “alguma coisa” que fixe ou que retenha a bactéria no seu nicho ecológico. Para que uma determinada bactéria se instale em qualquer estrutura, ela deve, preferencialmente, aderir ativamente a essa estrutura ou, então, pelo menos ficar retida em reentrâncias existentes nessa estrutura. O inverso desse raciocínio é totalmente verdadeiro: se a bactéria não dispuser de recursos para aderir ou se não ficar retida nesse local, ela será meramente transitória, sendo rapidamente eliminada.

Aderência ou Adesão de Bactérias

Aderência significa a fixação ativa de uma bactéria, com recursos próprios, a uma determinada superfície, que pode ser qualquer estrutura orgânica ou inorgânica, inclusive a superfície de outra bactéria (coagregação). Portanto, existem dois tipos de aderência que permitem que uma bactéria inicie a colonização de uma superfície: a) a aderência direta da bactéria à superfície

(Fig. 5.1); b) a aderência da bactéria a outra que já esteja previamente aderida à superfície (Fig. 5.2).

Por exemplo, muitas bactérias periodontopatogênicas Gram-negativas não aderem à superfí-

58© Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA.

cie dental, mas têm sítios de aderência ao epitélio da bolsa periodontal e também a Streptococcus spp e a Actinomyces spp, que estão entre os colonizadores iniciais da superfície dental. Fusobacterium nucleatum (representado em posição vertical na Fig. 5.2) parece ser um elo de ligação importante neste aspecto, pois apresenta afinidade de ligação para com colonizadores iniciais da película adquirida da superfície dental, como S. mitis, S. oralis e S. gordonii e, também, com patógenos periodontais como Actinobacillus actinomycetemcomitans , Prevotella intermedia, Porphyromonas gingivalis e outros.

•Aderência a superfícies bucais: na boca, as bactérias têm duas possibilidades de aderência: a fixação a uma superfície mole como a mucosa e a fixação à estrutura dura, mineralizada do dente.

Em qualquer desses casos, a aderência é mediada por dois elementos básicos. Na superfície das bactérias, existem macromoléculas ligantes genericamente chamadas adesinas, geralmente encontradas nas fibrilas e principalmente nas fímbrias. Na superfície dos tecidos do hospedeiro, existem moléculas receptoras que reconhecem as adesinas bacterianas e com elas interagem especificamente. Dessa interação bioquímica altamen- te específica, formam-se pontes de ligação, que são as bases da aderência bacteriana.

As adesinas mais bem conhecidas são as lectinas e as adesinas hidrofóbicas.

Lectinas são adesinas protéicas que têm afinidade específica por carboidratos. Assim, elas só se fixam nos tecidos (mucosa ou superfície dental) em cujas superfícies exista o carboidrato que lhes é afim, que funciona como receptor (Fig. 5.3).

Importantes exemplos desta interação são

S. sanguinis e S. oralis, que estão entre os poucos colonizadores iniciais da superfície dental por possuírem lectinas específicas para sacarídios (galactose e o trissacarídio ácido siálico) existentes na película adquirida de saliva que recobre os dentes (glicoproteína salivar).

Por outro lado, a interação hidrofóbica envolve dois componentes lipídicos, como os triglicerídios (gorduras), os fosfolipídios (principais constituintes das membranas celulares) e os esteróis. Essas moléculas contêm ácidos graxos com cadeia longa, constituídas por muitos radi- cais hidrocarboneto (CH2) desprovidos de carga elétrica (apolares), portanto insolúveis em água

Fig. 5.2 — Aderência interbacteriana (coagregações homo-típicas e heterotípicas). Fig. 5.1 — Aderência direta a superfícies.

Fig. 5.3 — Representação esquemática da adesão bacteriana a estruturas orgânicas, por meio de lectinas.

Estrutura orgânica Bactéria

= lectina bacteriana (adesina)

= carboidrato receptor

59© Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA.

(hidrofóbicos). Nesse tipo de ligação, tanto as adesinas bacterianas como os receptores teciduais são hidrofóbicos (Fig. 5.4). Em presença de água, esses elementos de ligação se agrupam, pois não se solubilizam. A. naeslundii, S. sanguinis, S. mitis e P. gingivalis são altamente hidrofóbicos para a hidroxiapatita do dente, enquanto S. mutans, S. salivarius e P. intermedia o são moderadamente.

(Parte 1 de 5)

Comentários