Recuperação e preservação de nascentes

Recuperação e preservação de nascentes

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Preocupados com as partes altas da bacia, Castro e Lopes (2001) afirmam que é indispensável para a recuperação e conservação das nascentes a presença de árvores nos topos dos morros e das seções convexas, estendendo-se até 1/3 das encostas, tema devidamente regulamentado pela Resolução CONAMA, n.o 303 de março de 2002.

Na recuperação da cobertura vegetal das APPs já degradadas, deve-se distinguir as orientações quanto ao tipo de afloramento de água, ou seja, sem ou com acúmulo de água inicial, pois o encharcamento do solo ou a submersão temporária nas chuvas, do sistema radicular dos indivíduos plantados, a profundidade do perfil e a fertilidade do solo são alguns dos fatores que devem ser considerados, pois são seletivos para as espécies que vão conseguir se desenvolver (Rodrigues e Shepherd, 2000).

Por outro lado deve-se também distinguir as nascentes quanto ao regime de vazão, ou seja, se é permanente ou temporária, se varia ao longo do ano e, até mesmo a interferência da vegetação no consumo de água da própria nascente, consumo esse, grandemente influenciado pela profundidade do lençol freático no raio compreendido pela Área de Preservação Permanente.

Segundo Rodrigues e Shepherd (2000), diversos trabalhos apontam que o mosaico vegetacional é resultado de alteração diferenciada da umidade ou do encharcamento do solo na seletividade das espécies na faixa ciliar e que tais encharcamentos ocorrem tanto em função do extravasamento do leito do rio, como do afloramento permanente ou temporário do lençol freático, caso das nascentes.

Dentre os tipos de coberturas vegetais, a cobertura florestal (figura 8) é a que maior efeito exerce sobre as nascentes. Não existe a composição ideal e sim aquela mais adequada para cada situação especifica. Assim, é importante conhecer o indivíduo florestal para melhor entender sua contribuição hidrológica e dele fazer-se melhor uso. O planejamento e a orientação de um técnico especializado é fundamental.

5. Cobertura vegetal em torno das nascentes

Figura 8. Vista do interior de uma APP bem constituída.

5.1. Recomposição florestal em áreas de preservação permanente

Rodrigues e Gandolfi (1993), em um trabalho bastante didático sobre métodos aplicados em reflorestamento de áreas ciliares, observam que a maioria deles adota uma seqüência comum de etapas:

1. Escolha do sistema de reflorestamento - depende do grau de preservação das áreas, avaliado por estudos florísticos e/ou fitossociológicos ou mesmo pela avaliação fisionômica da vegetação ocorrente na área. Assim, o sistema de reflorestamento pode ser:

a) Implantações - em áreas bastante perturbadas que não conservam nenhuma das características bióticas das formações florestais ciliares originais daquela condição. Situação típica de áreas cuja floresta original foi substituída por alguma atividade agropastoril. b) Enriquecimento - em áreas com estágio intermediário de perturbações que mantém algumas das características bióticas e abióticas das formações ciliares típicas daquela condição, situação de áreas cuja floresta original foi degradada pela ação antrópica, ocupada por capoeiras, com domínio de espécies dos estágios iniciais de sucessão. c) Recuperação natural - nas áreas pouco perturbadas que retém a maioria das características bióticas e abióticas das formações florestais típicas da área. Devem ser isoladas dos possíveis fatores de perturbações para que os processos naturais de sucessão possam atuar.

2. Escolha das espécies - baseia-se em levantamentos florísticos de formação florestais ciliares originais remanescentes próximas à área em questão ou mesmo mais distantes, mas com as mesmas características abióticas. A lista de plantas poderá ainda ser acrescida de espécies nativas frutíferas e melíferas, não amostradas no levantamento, com o objetivo de fomentar a recuperação da fauna terrestre e aquática.

3. Combinação das espécies - há vários métodos de combinação das espécies em projetos de reflorestamento. Diferem entre si, basicamente, em relação a: combinações que considerem os estádios sucessivos das espécies; proporção de espécies nos vários estádios sucessivos considerados no trabalho; espaçamento e densidade dos indivíduos no plantio, e estratégia usada para a implantação das espécies.

4. Distribuição das espécies no campo – decide-se de acordo com as características adaptativas e biológicas das espécies escolhidas para o projeto. Assim, as espécies adaptadas ao encharcamento permanente ou temporário serão alocadas, em área de brejo ou passíveis de encharcamento ou elevação temporária do lençol freático, enquanto as espécies não tolerantes plantadas em áreas não sujeitas a altos teores de umidade.

5. Plantio e manutenção - em relação a essa última etapa, TABAI (2002) aponta, resumidamente, os passos, orientações gerais e cuidados na recomposição da mata nativa de uma Área de Preservação Permanente.

a) Preparo do terreno: deve ser executada a limpeza do terreno na área onde será feito o plantio, facilitando a entrada da equipe de trabalho e também protegendo as mudas. Faz-se uma roçada para eliminar as plantas daninhas, preservando as espécies de interesse e retirando os entulhos que estejam dentro da área.

b) Combate às formigas: deve-se eliminar os olheiros das formigas, pois desfolham e matam as mudas. Contra as cortadeiras (saúvas e quenquéns), pode-se usar a isca granulada, pouco tóxica e fácil de ser aplicada. Devem ser colocadas 10g de isca em pequenos sacos plásticos e distribuídas nos carreiros das formigas a cada 1m2 de terra. Isso deverá ser realizado, preferencialmente, em épocas de seca. De modo geral, recomenda-se que seja eliminado tudo que possa contribuir para a formação de terra solta próxima à nascente.

c) Abertura e marcação das covas: as covas de plantio deverão ser marcadas e abertas em linha à distância de 3 m uma da outra; entre as covas a distância poderá ser de 2 em 2 metros. A abertura das covas, no tamanho de 40 x 40 x 40 cm poderá ser feita com enxadão ou uma cavadeira.

d) Adubação: a adubação realizada nas covas pode ser orgânica, empregando 6 litros de esterco de curral curtido, ou 3 litros de esterco curtido de galinha, por cova, ou adubação química, misturando na terra da cova, a fórmula NPK (4:14:8) ou outra fórmula comercial disponível, na quantidade de 200g por cova. Deve-se misturar o adubo químico e/ou o orgânico com a parte de cima do solo retirado da cova, colocando essa mistura no fundo e completando com o restante do solo.

e) Distribuição das espécies de árvores na área: na distribuição das mudas na área deve-se procurar imitar o modo como as árvores crescem na natureza - primeiramente nascem as espécies que precisam de luz para germinar e que crescem rápido, chamadas pioneiras, depois aparecem as espécies que precisam da sombra das outras árvores para crescer, chamadas secundárias.

Portanto, no plantio deve-se colocar uma linha com as pioneiras e uma linha de espécies secundárias que irão crescer devagar na sombra das primeiras.

Segundo Artigo da Lei (Resolução SMA-47ampliada e alterada), há obrigação de utilizar-se espécies de árvores nativas típicas da própria região no reflorestamento de uma área de preservação permanente. Este artigo obriga, também, plantar-se um número de diferentes tipos de árvores para ser imitada a diversidade própria da natureza, tomando-se o cuidado de plantar espécies mais indicadas a cada condição especifica de tipo de solo e clima, incluindose quanto ao encharcamento. Assim, é disposto que – ”para reflorestamento de até 1ha, é necessário plantar 30 espécies diferentes de árvores, e acima de 1ha a recuperação florestal será efetivada mediante o plantio de 80 (oitenta) espécies arbóreas”.

Ao distribuir as mudas no campo deve-se procurar não repetir espécies iguais lado a lado (Figura 9).

Sem irrigação, o plantio deverá ser feito na época das águas, ou seja, entre os meses de novembro a março nas regiões do sul do Brasil. A figura 9 mostra como pode ser feito o plantio com as espécies pioneiras e secundárias e um exemplo de recomposição da vegetação visando unir fragmentos de mata ciliar.

f) Plantio: as mudas devem ter boas condições de sanidade e com altura mínima de 30cm. No plantio, retirar do saco plástico com cuidado, sem destruir o torrão, colocar a planta na cova sobre a porção de terra já com o adubo e, com o resto da mistura, cobrir o torrão compactando a terra ao redor. Caso não ocorra chuva, deve-se fazer, pelo menos, uma irrigação por semana no primeiro mês de plantio, e uma a cada duas semanas no segundo. As mudas devem ser amarradas em varetas guias de bambu com altura de 1 m que, além da orientação de crescimento, servirão para ajudar na localização das mudas no campo.

g) Manutenção do Plantio e Replantio: a manutenção do plantio se faz executando o coroamento das mudas, roçando um raio de 50cm ao redor da muda, para evitar que sejam sufocadas pelo mato. Também deve ser roçado nas entrelinhas de plantio quando o mato estiver com altura de 50cm do solo. Após 60 dias do plantio, executa-se o replantio das mudas que morreram, não sendo necessário adubar novamente.

h) Adubação de Cobertura: após 90 dias do plantio, faz-se a adubação de cobertura distribuindo-se a lanço o adubo químico em torno da planta, evitando-se uma distância de 20cm ao redor da muda. Pode ser usada a formulação NPK (20-0-20), aplicando 20g por planta.

Figura 9. Disposição das pioneiras e secundárias na área de plantio e uma recomposição da vegetação visando unir fragmentos de mata ciliar. Adaptado de Tabai (2002).

5.2. Faixa vegetada de interface

Recentemente, uma nova corrente de pesquisa tem apontado para a implantação de uma faixa vegetada cumprindo a função de interface (Figura 6) entre a área vegetada da APP e a área de cultivo de contorno, que pode ser constituída por vegetação nativa desenvolvida naturalmente.

Esta interface teria a função de proteger a parte periférica da vegetação da

APP, diminuindo-se tanto a exposição da APP a defensivos agrícolas e herbicidas, como inibindo o desenvolvimento de plantas indesejáveis, como cipós, etc. Deve apresentar uma largura adequada para a proteção efetiva e que, de preferência, auxilie na contenção do escoamento superficial proveniente dos terrenos situados em cotas superiores. Interfere na definição da largura o tipo e a intensidade das práticas culturais executadas na área cultivada de entorno (pulverizações, por exemplo), a declividade do terreno, o potencial de erodibilidade do solo, a intensidade e freqüência das precipitações pluviais, as espécies vegetais e a densidade de população.

5.3. Cobertura morta natural

Por fim, deve ser ressaltado que, a exemplo da parte aérea das plantas, arbóreas ou herbáceas, a cobertura morta exerce proteção física da superfície do solo, tanto na diminuição da velocidade ou mesmo eliminação do escorrimento superficial, como no impedimento do impacto da gota da água da chuva ou irrigação com as partículas da superfície do solo, o que provocaria o selamento do solo.

Segundo Molchanov (1963), as áreas arborizadas contendo boa cobertura morta na superfície sobre um solo bem estruturado apresentam baixo grau de erosão, independente de seu declive.

5.4. Particularidades da cobertura vegetal nas nascentes

5.4.1. Em nascentes de restrita ou de significativas alterações temporárias de vazão

Notadamente em regiões áridas, há nascentes que apresentam vazão restrita, que diminuem significativamente, ou mesmo secam, temporariamente. Para essas condições, o tipo de vegetação circundante pode representar uma preocupação quanto ao consumo que as próprias plantas, no seu processo de evapotranspiração, possam vir a exercutar do já escasso recurso hídrico.

Essa preocupação baseia-se na hipótese de que diferentes plantas, com diferentes profundidades do sistema radicular, tendem a explorar, hidricamente, diferentes profundidades do solo, em diferentes também intensidades.

Verifica-se na literatura alguma divergência de resultados e conclusões. Lima (1986), ressaltando ser possível a influência da cobertura vegetal sobre o comportamento das nascentes, afirma não ser possível uma conclusão generalizada, uma vez que os fatores envolvidos na origem e no funcionamento de uma nascente são complexos, acrescentando que são poucos os trabalhos relativos aos efeitos da vegetação sobre o fluxo das nascentes. Citando próprio trabalho realizado em Piracicaba, SP (Lima, 1975) informa que monitorou a água do solo durante dois anos em povoamentos de Eucalyptus saligna e Pinus caribaea, ambos com seis anos de idade e uma parcela contendo vegetação herbácea natural. Não encontrou diferença marcante no regime da água do solo entre as três coberturas vegetais, embora tenha se observado comportamentos relativos alternados entre os tratamentos em diferentes épocas do ano. Cita que comparações similares entre espécies arbóreas e herbáceas, com a mesma tendência de resultados, foram obtidas por Lima (1983) e HERRING (1970). Em Lima (1996), o mesmo autor afirma que, em condição de suprimento adequado de umidade no solo, o efeito da diferença no sistema radicular tende a desaparecer, ficando as diferenças na transpiração mais associadas às diferenças no balanço de energia.

Gyenge et al. (2002), em experimento realizado na Patagônia, comparando consumo hídrico de uma espécie arbórea, Pinus ponderosa, com uma herbácea nativa, Stipa speciosa, observaram que não houve diferença estatística nas variações de umidade dos primeiros 80 cm do solo; de 80 a 100 cm já houve significância no começo do verão, fim do período chuvoso. Em relação a todo o perfil (0-140 cm), no período de janeiro a abril (período seco), a umidade do solo na pastagem foi em média 6,8% maior, equivalente a uma lâmina de 95 m dos quais, 3,5 m corresponderia à interceptação pelas árvores e 59,5 m à diferença na evapotranspiração entre o sistema arbóreo e o herbáceo.

Segundo Castro e Lopes (2001), reflorestamento mal planejado tende a reduzir o volume de água das nascentes quando: a) a evapotranspiração for maior que a precipitação anual, com efeito mais notável em alguns meses da estação seca, b) em solos profundos, a intensa regeneração das arvores aumenta significativamente tanto a interceptação da chuva pelas copas como o consumo da água armazenada no solo, diminuindo a recarga do lençol freático e, c) espécies freatófitas lenhosas ou herbáceas extraem água de forma intensa.

Molchanov (1963) observa que, em áreas com restrição hídrica no período seco, quando se utilizam espécies arbóreas, deve-se optar por espécies de menor consumo.

À despeito das divergências, deve-se ter bem claro os seguintes pontos e conceitos:

- Essa discussão aplica-se, mais propriamente, à cobertura vegetal imediatamente circundante à nascente, ou seja, à área de preservação de raio de 50 m circundante às nascentes de vazão restrita.

- Vários fatores interferem no consumo de água pelas plantas, cuja condição particular pode determinar a vantagem para um ou outro tipo de cobertura vegetal. Os fatores mais condicionantes parecem ser: a planta, quanto ao grau de consumo e densidade de população; a profundidade e o regime de flutuação do lençol freático; o clima, principalmente o regime pluviométrico e a temperatura e; o tipo de solo.

- Pela legislação atual, a APP, uma vez bem constituída, não deve ser alterada; não cabendo, portanto, substituição de indivíduos em busca de menor consumo de água.

- Ocorrem, na natureza, APPs cuja vegetação natural compõe-se de gramíneas, principalmente Brachiárias, adaptadas a determinadas situações restritivas de grau e manutenção das condições de umidade alta e fertilidade do solo. Formam os chamados “campos úmidos”.

Espera-se que novos estudos de pesquisa venham contribuir para um melhor entendimento desse assunto que passa a ser cada vez mais importante, não só para nascentes de regiões semi-áridas ou de vazão intermitente, como também nas de regiões úmidas já sob configurada condição de competição conflitiva pela água.

5.4.2. Nas nascentes com acúmulo d’água

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