A expressividade

A expressividade

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A expressividade do futuro professor de Química: recursos verbais e não-verbais

The expressiveness of future chemistry teacher: verbal and non-verbal resources

Tânia Afonso Chaves

Francisco Ângelo Coutinho Eduardo Fleury Mortimer

Resumo

Este trabalho relata um estudo piloto realizado no âmbito de um projeto de doutorado em Educação – UFMG. O objetivo desta análise foi investigar os recursos verbais e não-verbais utilizados por discentes do curso de química da UFMG em uma atividade de preparação para a docência. A metodologia foi orientada por uma combinação de abordagens qualitativa e quantitativa e a ação comunicativa do futuro docente foi avaliada por meio de análise perceptiva de fitas de vídeo de aulas ministradas por 15 alunos da licenciatura. Os dados encontrados forneceram indícios sobre a pertinência deste trabalho e apontaram para a necessidade de um refinamento metodológico para os estudos posteriores. Quanto à expressividade, os informantes, de um modo geral, utilizaram adequadamente os recursos verbais. A variação melódica e a expressividade nãoverbal constituíram-se os parâmetros em que foram encontradas maiores dificuldades.

Palavras-chave: Ação comunicativa; expressividade; comunicação verbal; comunicação não verbal; formação de professores.

Abstract

This work reports on a pilot study performed in the context of a Doctoral project in Education. The aim of the analysis reported here was to investigate the verbal and non-verbal resources used by university students of Chemistry in activities of teaching training. The methodology was oriented by a combination of quantitative and qualitative approaches and the communicative action of the future teacher was accessed through a perceptive analysis of record lessons in which 15 university students taught Chemistry to high school students. The data

give evidence of the fusibility of the project and they indicate also that the methodology should be refined for application in the doctoral research. Related to the expressiveness, the study shows that the university teachers used quite well the verbal resources. The main difficulties they faced are related to melodic variation and non-verbal expressiveness.

Keywords: Communicative action; expressiveness; verbal communication; non-verbal communication ; professional development of teachers.

Introdução

A atividade do professor constitui-se como atividade social na qual as interações constroem os sentidos e as relações em sala de aula. Segundo Mortimer e Scott (2003), há o desenvolvimento gradual do interesse sobre o processo de significação em salas de aula, gerando pesquisas que procuram responder como os significados são construídos e desenvolvidos por meio do uso da linguagem e outros modos de comunicação. A linguagem talvez seja o instrumento mais importante utilizado na prática de sala de aula (MORTIMER e SCOTT (2002; 2003); KRESS et al., 2001). O uso da linguagem pelos professores, no entanto, ocorre no contexto de uma ação comunicativa. Muitos professores são extremamente hábeis nesta competência comunicativa e nas práticas de interação, que envolvem aptidões naturais e experiência. A qualidade da ação comunicativa em sala de aula é determinada por múltiplas dimensões de expressividade, entre as quais se manifestam elementos verbais tais como inteligibilidade de fala, intensidade vocal, qualidade vocal, prosódia e fluência, e elementos não verbais utilizados por seus participantes.

Sabe-se que o uso calculado e dirigido de diversos parâmetros da expressividade pode ser construído, ou seja, o docente pode transformar seus discursos e aprimorar sua ação a fim de produzir estratégias comunicativas mais efetivas e estimulantes para seus alunos. A necessidade de se estudar a expressividade e a ação comunicativa dos professores em situação de interação em sala de aula se deve ao fato de que estas habilidades são importantes e podem contribuir para regular os processos de interação, realizar ações e direcionar processos de construção de significados. Além disso, as estratégias de expressividade utilizadas pelo docente também revelam pistas sobre o falante e funcionam como “chaves de interpretação”, sinalizando ao aluno como ele deve agir.

Há, no entanto, uma lacuna nos estudos sobre competência comunicativa em sala de aula e, na formação dos professores, o tema é relegado a um segundo plano ou não é abordado. Como

conseqüência, para muitos dos futuros professores poderá existir uma dificuldade na preparação e condução de suas aulas.

O interesse pela problemática da ação comunicativa do professor deve-se também à própria evolução da atuação fonoaudiológica junto à educação. Durante muito tempo, esta foi uma história “clínica”, em que se preferiu trabalhar com patologias, ou prevenção de alterações ao invés de estudar padrões comunicativos. O resultado prático disso é que pouca atenção foi dada à realidade do trabalho educacional do professor, suas habilidades e os conhecimentos necessários para que os docentes possam ser bem sucedidos na especificidade do trabalho de sala de aula. Acreditamos, portanto, que a compreensão de como os índices ou marcadores de expressividade funcionam em contexto de sala de aula seja um aspecto importante a ser considerado para o planejamento do ensino e formação do professor.

Assim, este trabalho objetiva analisar alguns dos recursos verbais e não verbais utilizados por discentes do curso de química da UFMG em uma atividade de preparação para a docência, visando conhecer as necessidades referentes ao aprimoramento da ação comunicativa de professores.

Um olhar sobre a ação comunicativa dos professores

A voz do professor tem sido objeto da fonoaudiologia há bastante tempo. Vários pesquisadores têm tomado a voz do docente sob diferentes enfoques: à partir da caracterização do perfil e comportamento vocal do professor (ALMEIDA, MOREIRA, NASCIMENTO, FERREIRA e TRINDADE, 2004); a incidência de queixas vocais e disfonias nessa população (AZEVEDO e ALMEIDA, 2004) a consciência e o conhecimento vocal por parte do professor; as estratégias para o enfrentamento dos problemas vocais enfrentados pelos docentes, dentre outros. Entretanto, são ainda poucos os trabalhos sobre expressividade do professor, pois relativamente pouca atenção foi dada a esse aspecto.

Chieppe (2004) investigou, por meio de um Grupo Focal, os conteúdos e conceitos relativos à expressividade direcionada à prática docente, presentes no discurso de estudantes do último ano de Pedagogia de uma Universidade Pública. O conceito de expressividade esteve presente, entretanto, não como um recurso valorativo para a prática docente e em seus enunciados.

Arruda e Ferreira (2004) realizaram uma pesquisa sobre a expressividade de professoras: análise de recursos vocais. O objetivo desse trabalho foi avaliar, por meio da análise perceptivo-

auditiva, a qualidade da voz, a variação de loudness e pitch, o alongamento da sílaba, a velocidade de fala, a pausa e a articulação, presentes em trechos de fala de quatro professoras do ensino médio, em contexto profissional, partindo do julgamento de futuros professores quanto à sua expressividade oral. A clareza e objetividade da professora mais bem avaliada, destacada pelos alunos, justificou-se pela maneira como essa professora empregou seus recursos vocais. A velocidade de fala, o emprego da pausa, a qualidade da voz e a intensidade vocal foram aspectos valorizados pelos alunos, e determinantes na escolha da ordem de preferência das professoras.

A análise das várias dimensões da expressividade, embora não muito comum, nos parece importante para a compreensão do processo de comunicação e interações em salas de aula. A investigação desse processo foi fortalecida nos últimos anos por meio de trabalhos que procuram analisar a construção do conhecimento científico escolar como um processo que envolve a apropriação pelos estudantes dos significados e da linguagem veiculada pelo professor (MORTIMER e MACHADO, 1997). Ainda assim, algumas questões permanecem, dentre elas: a expressividade do professor apresenta nuances que podem contribuir para delinear diferentes práticas discursivas em sala de aula?

A expressividade

Ser expressivo é uma habilidade comunicativa fundamental e configura um componente essencial e poderoso para permitir a interação do professor com seus alunos em sala de aula. A expressividade pode ser definida como o produto do bom uso dos recursos disponíveis. Os recursos de expressividade escolhidos para este trabalho podem ser divididos em 2 grandes grupos: expressividade verbal e expressividade não verbal.

Na avaliação da expressividade verbal, Behlau e Pontes (1995) indicam que podem ser analisados os seguintes parâmetros: 1) Qualidade vocal, que é a impressão geral que se tem a respeito da voz de um determinado sujeito. 2) Pitch, que é a sensação psicofísica da altura, considerando a variação entre sons graves e agudos. Conforme Servilha (2000), situações mais alegres tendem ao uso de sons mais agudos, enquanto as mais sérias inclinam-se aos sons mais graves. 3) Loudness, que é a impressão psicofísica da intensidade julgando-se ser a voz forte ou fraca. 4) Entonação, que se traduz na melodia ou padrão que engloba inflexões e pausas, entendendo a palavra inflexões a partir de Servilha (2000), como a altura vocal que se desloca durante a emissão, em curvas ascendentes - por exemplo, evidenciada pela colocação de uma pergunta convidando o aluno a intervir, complementar; e/ou descendentes – perceptível nas frases declarativas ou quando se quer concluir sua fala, como se estivesse oferecendo o turno de

fala para o ouvinte. 5) Articulação da fala, que se expressa nos movimentos harmônicos de língua, lábios, bochechas e palato, entre outras estruturas, que garantem a emissão dos sons da fala de forma inteligível. 6) Velocidade de fala, que é o ritmo próprio que cada sujeito imprime à sua fala, segundo sua personalidade. 7) E finalmente a fluência, que é o fluxo suave e contínuo da fala, que além de ser o produto de uma programação cerebral altamente complexa, é também produto da experiência, da visão de mundo e da imagem pessoal do falante.

eficiente, o que pode levar o interlocutor ao desinteresse

Gonçalves (2000) ressalta que para falar deve-se usar o tom de voz natural, e a entonação adequada, pois estes são recursos eficientes para uma boa comunicação. Pode-se, com esses recursos, mostrar autoridade e confiabilidade, sem a necessidade de se recorrer a uma voz de comando. A mesma autora complementa dizendo que as inflexões de voz (entonação) estabelecem diferentes curvas melódicas no discurso e, associadas ao recurso da pausa, são essenciais para o “brilho da fala”, constituindo elementos muito importantes da comunicação verbal. Sem esses recursos, a fala torna-se muito monótona, tornando-se menos inteligível e

Segundo Kyrillos (2005), a comunicação verbal será considerada eficiente quando o indivíduo possuir a habilidade de persuadir o outro por meio da palavra. Mas, essa palavra deverá vir acompanhada de uma série de elementos fundamentais, sem os quais perde muito da sua força: a postura corporal, a fluência, o tom de voz, os gestos, a forma de olhar, a linguagem corporal, o entusiasmo ao falar, o domínio do conteúdo, bem como a criatividade e a motivação. Assim, temos que os gestos, expressão facial, postura e aparência, são alguns dos canais nãoverbais da comunicação muito importantes para a efetividade do discurso, pois podem complementar o discurso, modificar ou reforçar as idéias.

Nesse contexto, a utilização das estratégias não-verbais com harmonia de movimentos e naturalidade cumpre o propósito de completar o que se fala, não devendo ser apenas um ato mecânico desvinculado de emoção. Sinais como tristeza, alegria, raiva, medo, dentre outros, podem ser percebidos pela expressão facial, pelos movimentos corporais e pela postura.

Paul Ekman (1999), um dos pioneiros no estudo das expressões faciais, gestos e emoções, classifica os gestos em três categorias: “emblemas”, “ilustradores” e “adaptadores”.

“Emblemas” são atos não-verbais que têm uma tradução verbal específica. Esse tipo de gesto é pouco utilizado em grupos, sendo mais freqüente quando o silêncio é necessário ou quando queremos conversar com alguém que se aproxima, mas estamos em uma conversa com outra pessoa.

Os “ilustradores” são gestos mais comuns. São movimentos, realizados principalmente pelos braços e mãos, que acompanham o fluxo da fala e estão intimamente relacionados com ela. Têm um importante papel na efetividade da comunicação e adicionam, esclarecem ou repetem informações transmitidas pela fala, especialmente sobre formas, objetos e relações espaciais.

Os “adaptadores” são atividades ou posições nas quais partes do corpo tomam contato com outras partes, com objetos ou outras pessoas. Eles revelam estados internos de ansiedade, nervosismo ou inibição.

Alguns trabalhos sobre a expressividade não verbal já foram realizados a partir dessas premissas. Mortimer e Santos (2003) demonstraram a importância de se relacionar: linguagem, expressividade não-verbal e emoções em sala de aula. Os autores relatam que os gestos, postura e imagens pressupõem-se mutuamente e por isso integram-se uns aos outros. Desta forma, tornam-se potencialmente significantes e integrados com o discurso. De acordo com Mortimer e Santos (2003) a comunicação não verbal constitui-se parte do processo de comunicação do conhecimento científico em sala de aula.

Deste modo, a habilidade comunicativa faz parte da atividade profissional do professor e pode implicar um uso calculado e mais consciente de diversos parâmetros já citados anteriormente, para um resultado final satisfatório. Assim, este tipo de análise constitui-se em um objeto importante para a formação do professor em geral, e do professor de Ciências em particular.

Metodologia

em uma atividade de preparação para a docência

Este estudo foi orientado por uma abordagem qualitativa e quantitativa e caracteriza-se por ser um estudo piloto que teve como objetivo geral realizar um exercício analítico para verificar a aplicabilidade da proposta apresentada no projeto de doutorado em Educação – UFMG, intitulado A ação comunicativa do professor universitário e o uso de práticas de expressividade em situação de interação em sala de aula. O objetivo específico desta análise foi investigar os recursos verbais e não verbais utilizados por discentes do curso de química da UFMG

Para a coleta dos dados, servimo-nos da gravação em fitas de vídeo de aulas ministradas por quinze alunos da licenciatura do curso de Química da UFMG aos estudantes do Colégio Técnico da mesma instituição. Esses alunos de química encontravam-se no oitavo período do curso de graduação e estavam matriculados na disciplina Prática de Ensino de Química I. Onze

alunos eram do sexo feminino e quatro do sexo masculino. Inicialmente fez-se uma análise mais geral das fitas de vídeo dos informantes com objetivo de ter uma visão mais descritiva e empírica sobre os dados. Em seguida, os recursos de expressividade utilizados pelos futuros professores de Química foram analisados. Esta análise pode ser considerada perceptivo-auditiva-visual, pois foi feita por meio de observação sistemática de parâmetros relativos a variações entonacionais, padrões de pitch e loudness, análise de velocidade de fala, articulação, pausas e padrões de fluência, além da análise da comunicação não verbal que incluiu gestos e postura dos informantes.

A análise da expressividade verbal, para cada indivíduo, foi realizada de acordo com o protocolo adaptado de Behlau & Pontes (1995) e foi dividido em: Qualidade vocal (normal ou alterada); pitch (normal, agudo ou grave); loudness (normal, aumentado ou reduzido); articulação (precisa ou imprecisa); pausas (restritas, médias ou freqüentes); fluência (disfluências mais comuns ou menos comuns); e, finalmente, variação melódica (pobre, neutra ou rica). Cada um dos parâmetros analisados fornece uma informação sobre as características de expressividade verbal.

A análise da expressividade não verbal foi realizada de acordo com adaptação da classificação de gestos proposta por Ekman (1999): emblemas, ilustradores e adaptadores. Para esta pesquisa não consideramos os emblemas, pois este é um tipo de gesto pouco utilizado em grupo, sendo mais freqüente quando o silêncio é necessário. Para a análise da postura, utilizamos as orientações de Behlau & Pontes (1995), que apontam que a postura deve ser equilibrada e têm um importante papel na efetividade da comunicação. A postura foi avaliada como adequada ou inadequada.

Esta análise perceptivo-auditiva e perceptivo-visual, por ser subjetiva, foi realizada por 3 avaliadores: 2 estudantes de Fonoaudiologia da FEAD-Minas (do programa de iniciação científica) e uma fonoaudióloga (especialista em Linguagem, mestre em Lingüística e doutoranda em Educação, primeira autora deste trabalho). Os dados observados por cada avaliador foram comparados e forneceram um relatório com a descrição das estratégias de expressividade utilizadas por cada informante.

A análise quantitativa restringiu-se apenas ao cálculo de ocorrências de respostas, uma vez que, em função do tempo, técnicas estatísticas mais refinadas que envolvem validação de conteúdo, critério e constructo não foram levadas em consideração neste artigo.

Ao final da pesquisa, foi realizada uma palestra para os informantes, com o objetivo de abordar conceitos que tem interesse para o docente e fornecer subsídios para a construção de uma comunicação que facilite a interação e que seja uma ferramenta na ação educacional.

Resultados e Discussão

A fim de facilitar a análise dos dados, os resultados serão divididos em três seções. A primeira caracterizará os informantes quanto aos aspectos de expressividade verbal. A segunda apontará para os resultados referentes à comunicação não verbal e a terceira comparará os resultados obtidos com a os dados de Arruda e Ferreira (2004) e Vasconcellos e Otta (2003). Esses resultados possibilitar-nos-ão averiguar quais são os recursos verbais e não verbais utilizados por discentes do curso de química da UFMG em uma atividade de preparação para a docência.

Análise da expressividade verbal

pregas vocais, laringe, faringe, palato mole, mandíbula, lábios e língua (KENT e READ, 1992)

Como se pode ver pela Tabela 1, que apresenta a caracterização das variáveis verbais, a expressividade verbal é constituída de parâmetros sonoros audíveis, percebidos pelo ouvinte (qualidade vocal; loudness; pitch; articulação; pausas; fluência; e variação melódica). Esta expressividade verbal ocorre em decorrência do movimento coordenado de órgãos fonoarticulatórios e, do ponto de vista estritamente motor, depende da atividade coordenada das

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