Livro metodologia científica

Livro metodologia científica

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1 – O CONHECIMENTO CIENTÍFICO Círculo de Viena Texto complementar - O que é indução? Karl Popper Texto complementar – Dedução Thomas S. Kuhn Texto complementar – Paradigmas Visão atual da Ciência

2 – A PESQUISA CIENTÍFICA Tipos de pesquisa A pesquisa em ciências humanas e sociais Texto complementar – Demônio Maniqueu e Demônio Agostiniano Texto complementar – Gonzologia – Gonzo pode dar mais ao mundo do que somente o jornalismo? Texto complementar – O Boto e o rapaz

3 – PROJETO DE PESQUISA 4 – BIBLIOGRAFIA 5 – INFORMAÇÕES SOBRE O AUTOR

4 1 - O CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Ao contrário do que dão a entender a maioria dos livros de metodologia, o conhecimento científico não é algo pronto e acabado, indiscutível. Na verdade, o século X foi palco de uma apaixonada discussão sobre o que é ciência, quais são suas características e sua relação com os outros tipos de conhecimento. Os pensadores que exploraram o tema discordam entre si e há até aqueles que defendem que um método científico é impossível. Outros têm denunciado a ideologia por trás do método científico, tais como Edgar Morin e Hebert Marcuse, que acusam a ciência e a tecnologia de promoverem a transformação do homem em coisa e a compartimentação do saber. Outros apresentam propostas que discordam completamente do que a maioria entende por ciência. Exemplo disso é a gonzologia, uma corrente de pensamento influenciada pelo jornalismo gonzo. Para esses pensadores, a única metodologia possível dentro da ciência é a observação participante. Entretanto, a noção que se tem hoje do conhecimento científico é influenciada pelos pontos de vista do Círculo de Viena e dos pensadores Karl Popper e Thomas S. Kuhn pela influência de suas propostas epistemológicas.

Círculo de Viena

Essa corrente de pensamento de inspiração positivista surgiu na

Europa no início do século X. Acreditava na possibilidade das ciências humanas e sociais seguirem as mesmas metodologias das ciências naturais.

O Círculo de Viena estava preocupado em diferenciar o conhecimento científico dos outros tipos de conhecimento. Eles partiam de algumas perguntas básicas: o que é conhecimento científico? Que tipo de conhecimento pode ser caracterizado como científico?

Eles iniciaram distinguindo dois contextos: o da descoberta e o da verificação.

simplesmente de uma coincidência

O contexto da descoberta é aquele em que o cientista faz sua descoberta. Para o Círculo de Viena, esse era um contexto irrelevante para se definir se esse conhecimento é científico ou não. A descoberta pode ter surgido, por exemplo, de um sonho, de uma alucinação ou Para o Círculo de Viena o que realmente importa na definição do que é científico ou não é o contexto da justificativa. Ou seja, é a forma como o cientista vai explicar sua descoberta aos pares.

O Círculo de Viena dava grande importância à verificação. Assim, o cientista deveria explicar detalhadamente como chegou aos seus resultados para que outros pesquisadores, repetindo a experiência, pudessem chegar aos mesmos resultados.

Para evitar equívocos (intencionais ou não) era necessário usar uma linguagem unívoca. Ou seja, cada termo utilizado no trabalho deveria ter uma única interpretação.

Nas ciências sociais, o pensamento do Círculo de Viena influenciou os pesquisadores a definirem muito bem os termos utilizados.

Em um trabalho sobre aborto em casos de violência sexual, o que é aborto? O que é violência sexual? Será que uma esposa pode acusar o marido de a tê-la violentado? A definição desses termos, e a utilização dos mesmos com uma única significação ao longo de todo o trabalho asseguram a interpretação correta e a cientificidade do trabalho.

O Círculo de Viena também estabeleceu o princípio da verificação.

Ou seja, o cientista deve repetir a experiência e verificar se chega sempre ao mesmo resultado antes de divulgar suas tese. Jamais se deve fazer juízos precipitados.

Essa corrente de pensamento também acreditava que o método cientifico deveria utilizar a indução.

O que é indução?

Indução é o princípio segundo o qual deve-se partir das partes para o todo. Ou seja, ao fazer uma pesquisa, deve-se ir coletando casos particulares e, depois de certo número de casos, pode-se generalizar, dizendo que sempre que a situação se repetir o resultado será o mesmo.

Se, por exemplo, eu quero saber a que temperatura a água ferve.

Coloco água no fogo e, munido de um termômetro, meço a temperatura. Descubro que a fervura aconteceu a 100 graus centígrados.

Repito a experiência e chego ao mesmo resultado. Repito de novo e vou repetindo até chegar à conclusão de a água sempre ferverá a 100 graus centígrados.

Umberto Eco dá um outro exemplo curioso: os sacos de feijões. Vejo um saco opaco sobre a mesa. Quero saber o que tem no mesmo. Uso o método indutivo: vou tirando o conteúdo do saco um a um. Da primeira vez, me deparo com um feijão branco. Na outra tentativa, de novo um feijão branco. Repito a experiência até achar que está bom (ou até acabar a verba). Então extraio uma lei: dentro deste saco só há feijões brancos.

Para esse autor inglês, a ciência é caracterizada pelo falseamento.

Ou seja, uma teoria só é científica se for possível provar que ela está errada.

Assim, seria não-científico afirmar que vai chover amanhã. É certo que amanhã vai chover em algum lugar do planeta, em algum horário. É científico dizer que vai chover amanhã às 17 horas em Macapá, pois essa afirmação é passível de falseamento.

A ciência não aceita formulações vagas, que não podem ser falseadas, características dos videntes e cartomantes: “Você vai viver um grande amor”; “Um grande reino vai cair”. É impossível provar que essas afirmações são falsas. Em algum momento a pessoa vai viver um grande amor.

Para Popper, O cientista não deveria procurar fatos que comprovassem sua tese, mas fatos que o falseassem, que provassem que ela é falsa. Imaginemos que estejamos estudando as galinhas. Pesquiso uma e descubro que ela bota ovos. Encontro outra galinha e observo o mesmo comportamento. Por indução, chego à conclusão de que todas as galinhas botam ovos. Para Popper isso não é científico, pois se eu encontrar uma única galinha que não bote ovos, minha tese cai por terra. Para Popper, a indução é falha e a única maneira de sermos científicos é usarmos a dedução.

Assim, eu crio uma lei geral: todas as galinhas botam ovos. Então pego uma galinha ao acaso e verifico se ela bota ovos. Se isso ocorrer, a tese está correta, por ora. Se um dia aparecer uma galinha que não bote ovos, a tese será falseada. Popper nos ensinou que as verdades científicas são provisórias. São apenas hipóteses esperando pelo falseamento.

TEXTO COMPLEMENTAR Dedução

A dedução é uma forma de raciocínio científico segundo o qual devemos partir do geral para o particular. Assim, devemos primeiro criar uma lei geral e depois observar casos particulares e verificar se essa lei não é falseada. Para os adeptos da dedução, o cientista não precisa de mil provas indutivas. Basta uma única prova dedutiva para que a lei possa ser considerada válida.

No exemplo do saco, imaginem que o vendedor nos disse que ele estava cheio de feijões brancos. Eu então retiro um feijão de dentro do saco. Se for um feijão branco, então minha hipótese está, por enquanto, correta.

Um problema da dedução é que ela geralmente se origina de induções anteriores. Geralmente fazemos uma lei geral depois de já ter observado casos particulares.

Thomas Kuhn percebeu uma falha na teoria de Popper: nenhum cientista procura falsear sua hipótese. Ninguém passa a vida toda pesquisando clonagem para depois chegar à conclusão de que clonar um ser vivo é impossível (falseamento).

Ele percebeu que a ciência caminha através de revoluções científicas. Para melhor explicar sua teoria, ele criou o termo Paradigma. Paradigmas são grandes teorias que orientam a visão de mundo do cientista.

Uma mudança de paradigma pode representar uma alteração total na maneira como as pessoas vêm o mundo. São as chamadas revoluções científicas. Por que as coisas queimam? Antes de Lavoisier: porque contém flogisto, um produto altamente inflamável. Lavoisier: por que entram em contato com oxigênio. Os paradigmas fornecem uma visão de mundo que orienta os pesquisadores. De tempos em tempos surgem as anomalias, fenômenos que não se encaixam no paradigma. Para explicá-los os cientistas mais jovens criam um novo paradigma, que leva bastante tempo para ser aceito, pois os cientistas antigos não mudam de idéia.

evolução, a lei da gravidade, a teoria da relatividade, A psicanálise

Exemplos de revoluções científicas: O heliocentrismo, a teoria da

Paradigmas

Uma das expressões mais recorrentes no vocabulário de quem tenta falar difícil é paradigma. No entanto, são poucas as pessoas que conhecem o real significado dessa palavra. O termo paradigma, no sentido definido pelo filósofo T.S. Kuhn, está intimamente relacionado à ciência e às revoluções científicas. Ele representa um guia, para análise e interpretação da natureza. Ou, como costumo dizer, é um óculo que ajuda o cientista a ver e compreender a natureza. Vamos a um exemplo. Durante uma aula de ciências, o professor solta uma pedra e ela cai ao chão. O mestre, em seguida, explica aos alunos que o objeto despencou em decorrência da força da gravidade, que o puxou para baixo.

A explicação é baseada no paradigma newtoniano, segundo o qual matéria atrai matéria. Quanto maior o objeto, mais atração ele exerce. Como nosso planeta é muito maior que a pedra, ele a atrai, e não o contrário. Assim, o paradigma estabelecido por Newton nos ajuda a observar e entender o fenômeno das coisas que caem. A explicação pode parecer óbvia, mas não é. Os aristotélicos, anteriores a Newton, tinham uma maneira diferente de compreender o fenômeno. Para eles, a tendência das coisas é voltar ao seu estado natural. O estado natural dos objetos pesados é os locais baixos, assim como o estado natural das coisas leves são os locais altos. Assim, uma pedra cai pelo mesmo motivo pelo qual um balão sobe: ela está voltando ao seu estado natural. Digamos, no entanto, que, ao invés de cair, a pedra fique flutuando no ar. Professores e alunos certamente ficariam estarrecidos. Por quê? Porque a natureza estaria contrariando o paradigma. A pedra voadora seria uma anomalia, um fenômeno que não se encaixa na expectativa que temos com relação à natureza. (Detalhe: um bebê não acharia nada de anormal no episódio, pois ele ainda não aprendeu o paradigma segundo o qual as coisas caem quando soltas)

A maioria dos cientistas tende a ignorar as anomalias. “Ei, crianças! Isso é apenas uma alucinação. Essa pedra não está flutuando”, diria o professor. Mas alguns pesquisadores, jovens e aventureiros, decidem pesquisar a anomalia e descobrem que, para explicá-la, é necessário mudar a maneira como vemos o mundo. São as chamadas revoluções científicas. A história é repleta de revoluções científicas: o Heliocentrismo de Galileu; a Teoria da Evolução, de Darwin; a Teoria da Relatividade, de Einstein e, mais recentemente, a Teoria do Caos. Ao contrário do que se poderia pensar, ou do que nos fazem crer os livros de história, os cientistas revolucionários dificilmente são aclamados pela sociedade de seu tempo. Galileu quase morreu na fogueira. Darwin sofreu todo tipo de crítica. A Teoria do Caos chegou a ser acusada de charlatanismo. A principal contribuição da noção das revoluções científicas parece ter sido acabar com o mito da ciência acumulativa, vista como um muro no qual cada cientista ia acrescentando seu tijolinho. Durante as revoluções científicas, gerações de novos pesquisadores entram em conflito com os cientistas “normais”. E o que definirá se um paradigma irá sobreviver não é a sua cientificidade, e sim sua capacidade de explicar o mundo. E, bem, há uma outra razão: a comunicação. Triunfam aquelas teorias cujos adeptos divulgam seu ponto de vista.

(OLIVEIRA, Ivan Carlo Andrade de. Cultura Pop. Macapá: Faculdade Seama, 2002, p. 46-49)

A visão de ciência que se tem hoje é orientada pelos pontos de vista do Círculo de Viena, Popper e Kuhn. Ela inclui os princípios abaixo.

PRINCÍPIO DA VERIFICAÇÃO – o conhecimento científico deve ser verificado. O cientista deve comunicar seus resultados e como chegou a eles exatamente (com linguagem unívoca) para permitir que outros cientistas verifiquem se os resultados estão corretos.

PRINCÍPIO DO FALSEAMENTO – Princípio segundo o qual o cientista deve estar preparado para o falseamento de suas hipóteses. As verdades não são eternas em ciências.

Todas os cisnes são brancos até que se encontre cisnes de outras cores. O movimento dos objetos é governado pelas leis da gravidade até que se encontre um local em que os objetos não obedecem a essa lei. PARADIGMAS – a ciência é guiada por paradigmas. É o paradigma que vai costurar os vários conhecimentos sobre o mundo, diferenciando do senso comum, que é composto de conhecimentos isolados. As pesquisas procuram verificar e confirmar o paradigma. O argumento da autoridade é retomado como sendo importante.

2 – A PESQUISA CIENTÍFICA

TIPOS DE PESQUISA PESQUISA PURA - Tem como objetivo principal a busca do saber. PESQUISA APLICADA – Busca de solução para problemas concretos e imediatos. Muitas vezes pesquisas puras revelam grande importância em nossa vida. É o caso da eletricidade. Quando os primeiros cientistas começaram a pesquisá-la, o único objetivo era a curiosidade.

PESQUISA BIBLIOGRÁFICA É feita a partir de documentos (livros, livros virtuais, cd-rom, internet, revistas, jornais...). A pesquisa bibliográfica deve anteceder todos os tipos de pesquisas.

natureza, suas características, sua relação com outros fenômenos

PESQUISA DESCRITIVA Observa, registra e analisa os fenômenos, sem manipulá-los. É muito utilizada em pesquisas sociais. Procura descobrir a freqüência com que o fenômeno ocorre, sua

PESQUISA EXPERIMENTAL Manipula diretamente as variáveis relacionadas ao objeto de estudo. Quer saber as causas e efeitos, como o evento ocorre. O cientista cria situações de controle para evitar interferências (o placebo, por exemplo).

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