recuperação de áreas degradadas

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O processo de sucessão na área a ser restaurada através da regeneração natural, dependerá muito dos dispersores e das sementes transportadas por estes, para conduzir a uma condição próxima da original. Os dispersores conectam remanescentes florestais, incrementam ou mantém a diversidade nas áreas perturbadas, facilitando a restauração da estrutura e composição vegetacional.

7 Fator vento como aliado na restauração

Algumas espécies de plantas herbáceas, arbustivas e arbóreas, tais como Ipê, Jacarandá, Cedro, Mogno, Jequitibá vermelho, entre outras, possuem sementes aladas, preparadas para voar bem longe. As sementes aladas são levadas ao vento e alcançam boa distância da planta mãe, facilitando a colonização de outras áreas pela espécie.

Sendo assim é importante saber que o projeto de restauração irá contar com as sementes que chegarão à área perturbada através do vento, vindo de fragmentos florestais próximos (caso haja).

8 A importância dos animais como propagadores de sementes

A fauna, de acordo com Reis (2003), é importante aliada na regeneração natural e na restauração de áreas perturbadas, pois são responsáveis pela propagação de sementes das diversas espécies de plantas das quais se alimentam e até mesmo quando carregam em seus pêlos e plumagens, sementes que acabarão dispostas em novos solos e novas áreas, distante da planta mãe, por onde estes transitam.

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Um bom exemplo é o caso de besouros escarabeídeos, que são comuns em regiões áridas, eles enterram as fezes com sementes de frutos de palmeira (Buttia spp.) para botar ovos sobre eles. Alguns escapam das larvas e germinam. Também as minhocas podem dispersar sementes de orquídeas de solo e de outras famílias como Burmaniaceae ou agir como intermediários quando comidas por pássaros.

Os peixes como Pacu e Piracanjuba se alimentam de frutos e sementes de palmeiras e de ingás e as sementes acabam depositadas às margens dos rios onde acabarão por germinar. Podem transportar sementes como as da taboa do brejo, aderidas à sua pele ou escamas.

Muitas plantas tais como as da família Annonaceae, entre as quais estão o Araticum do cerrado, possuem frutos que são dispersados por répteis. Estes preferem frutos de cheiro forte, que sejam coloridos, que fiquem próximos ao solo ou que caiam quando maduros.

A gralha-azul do Brasil é grande dispersora dos pinhões de ٛngustifó ٛngustifólia.

Aves ao defecarem, depositam sementes embaixo de árvores onde pousam (Galindo Gonzáles et ali, 2000). Algumas utilizam árvores remanescentes em pastagens como poleiro (Galindo Gonzáles et al., 2000).

Algumas espécies de plantas leguminosas tais como Adenanthera pavonina, Pithecellobium spp., Abrus precatorius, Ormosia spp.,tem sementes com coloração atrativa para pássaros que as comem, defecando-as intactas.

Os morcegos cujo hábito alimentar é frugívoro por exemplo, dispersam sementes de todas as formas de vida da floresta tropical desde pioneiras até tardias, depositam sementes durante o vôo, estarão presentes em áreas abertas desde que exista abrigo. Estudos mostraram que alguns morcegos depositam em torno de 13 espécies diferentes por mês (Galindo Gonzáles et ali, 2000).

Outros mamíferos carregam carrapichos, que são comuns em ervas pioneiras como muitas Compositae. A Bidens pilosa,ou picão também é transportada desta forma. Em Cyathula (Amaranthaceae), flores estéreis provêem os ganchos do carrapicho. Algumas Leguminosas possuem legumes com ganchos, Desmodium, o beiço-de-boi, Medicago, etc.). A castanha-do-Pará, Huber (1910), tem seu fruto aberto por grandes roedores (Dasyprocta, cutia) que comem o arilo e enterram as sementes. Algumas palmeiras sofrem o mesmo processo.

Através da dispersão pelo vento e pelos animais, determinadas espécies tais como, serão recrutadas mais á frente em áreas distantes da planta mãe. Então se existe um fragmento de floresta próximo da área a ser restaurada, possivelmente os propágulos de sementes desta área chegarão por lá.

Segundo Reis et ali, (2003) e Webb & Peart (2001), a diversidade de plântulas é maior em áreas onde há diversidade de dispersores com atividade no local. Logo onde a fauna está presente, aves, morcegos, roedores entre outros, aliados ao vento e outras forma de dispersão (FIG. 4), há maior probabilidade de termos mais tipos vegetais se desenvolvendo e facilitando a sucessão nas áreas a serem restauradas.

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De acordo ainda com os autores acima, oferecer condições atrativas a animais acelera o processo de sucessão no local. Proporcionando diversidade de propágulos, zonas de concentração de recursos alimentícios que atraem os consumidores.

FIGURA 4 - Exemplo de dispersão e recrutamento de sementes a partir da planta mãe Fonte: ANDRADE, 2007.

Segundo Reis (2003), a colonização e estrutura de comunidades de plantas, colonizadores influenciam o estabelecimento das espécies subseqüentes, define a estrutura populacional, possibilita o movimento de genes e conservação da biodiversidade.

9 Fatores limitantes da chuva de sementes.

A chuva de sementes, de acordo com Reis et.ali (2004) está sujeita a variáveis diversas, fazendo com que as sementes passem por pelo menos 03 peneiras, durante a sua dispersão. Sendo assim, chegam em quantidade já reduzida a determinada área em determinado período de tempo.

De acordo com o autor, a distância dos fragmentos florestais é considerada como um dos principais fatores limitantes da regeneração natural de áreas degradadas. Sendo assim, quanto maior a distância da área perturbada de um fragmento florestal, menor a diversidade e quantidade de sementes que chegarão lá. A ausência da fauna dispersora no local também é fator limitante de regeneração natural. (FIG. 5)

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FIGURA 5 - Filtro ou peneira ecológica pela qual passam as sementes no caminho entre a dispersão e a formação do banco de sementes do solo Fonte: ABREU, 2007.

10 Estratégias para incrementar a chuva de sementes na área em processo de restauração

A manutenção dos dispersores na área através da escolha de espécies vegetais nucleadoras, oferta de alimento e abrigo, poleiros para forrageio e descanso, escolha das técnicas para restauração da área perturbada.

A coleta de sementes de áreas próximas poderá ser útil para garantir diversidade adequada de sementes na área a ser restaurada, acelerando a regeneração natural.

Reis et.ali ( 2004), Vencovsky (1987) discutem a representatividade de gens dentro das populações e sugerem que as sementes a serem utilizadas sejam coletadas de no mínimo 12 a 13 plantas diferentes, evitando assim que as mudas sejam provenientes de uma única planta ou sejam meio irmãs.

Reis et ali, ( 1999) sugere coletores de sementes permanentes, que são estruturas simples de madeira e sombrite, com as quais poderá se fazer a coleta de sementes o ano todo. O coletor, segundo Três et ali.(2006), poderá ser confeccionados com molduras de madeira de 1m², de1m de altura do solo e fundo de sombrite, malha de 5mm.

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Deverão ser colocado próximo as árvores dos fragmentos florestais de entorno das áreas perturbadas (FIG. 6).

FIGURA 6 - Coletor de sementes Fonte: REIS, 2004.

As sementes coletadas periodicamente, poderão ir para sementeiras e posterior repicagem para outros recipientes ou direto para o campo, formando pequenos núcleos com folhas e sementes dentro das áreas degradadas, como sugerido por Reis et al. (1999).

1 Poleiros artificiais

Os poleiros, são muito procurados por aves, morcegos, para descanso, proteção e alimentação e poderão ser usados para incrementar a chuva de sementes e acelerar o processo de regeneração natural.

Arbustos e árvores mais esparsas servem de poleiros onde acontece alta atividade de frugívoros promovendo o processo de invasão das áreas abertas, (Armesto et al., 2001).

Reis et ali, (2003) sugere a implantação de poleiros artificiais para atrair aves e morcegos e incrementar a chuva de sementes, que utilizam estes poleiros, conforme estudos realizados por Mcclanhan & Wolfe (1993), para forragear suas presas e para descanso (FIG. 7-8).

As sementes dispersadas através da defecação e regurgitação destes animais nestes local irá formar novo banco de sementes no solo, formando núcleo de regeneração de alta diversidade na sucessão secundária.Além disto atrairá consumidores para o local , como sugerem Reis et.ali (2003) e Janzen (1970), por se tornarem regiões de concentração de recursos.

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FIGURA 7 - Poleiros artificiais, feitos com bambus e trepadeira Fonte: REIS, 2004.

FIGURA 8 - Poleiros artificiais para aves, cabos aéreos ou cordas que irão promover maior probabilidade de chegada de propágulos e de nucleação em áreas degradadas Fonte: REIS, 2004.

Os poleiros poderão ser secos ou vivos e pensados para atender a idéia de se tornarem atrativos para a fauna local. Os poleiros vivos são aqueles que imitam árvores vivas, servindo de abrigo ou alimento para a fauna. Para um poleiro vivo, basta plantar uma liana, cipó,

Copyright © Serviço Brasileiro de Respostas Técnicas - SBRT - http://www.sbrt.ibict.br 17 trepadeira, de preferência frutífera, na base de um poleiro seco de bambu. Bromélias epíditas, caídas muitas vezes poderão ser colocadas no alto dos poleiros, como atrativo.

As torres de cipós são poleiros vivos que quando colocadas uma ao lado da outra podem servir de barreira ao vento, Reis (2003) e ainda servem de abrigos aos morcegos, imitando árvores de borda de mata.

Já os poleiros secos, imitam de acordo com Reis et al, (2003), galhos secos de árvores onde as aves costumam descansar. Poderá ser confeccionado com restos e madeira ou bambus e devem ter terminações com ramificações onde as aves possam pousar. È importante que sejam altos para proporcionar bom local de caça e ficarem esparsos na paisagem.

Bechara (2003), sugere ser de grande utilidade colocar cabos aéreos, feitos de cordas ou outro material, ligando dois poleiros secos, imitando fiação, aumentando a área de dispersão e disposição de sementes pelas aves.

12 Transposição de solo

Reis et al, (2003), defende que o banco de sementes do solo é um dos fatores mais importantes para a regeneração natural e recolonização em áreas perturbadas, pois as primeiras plântulas que crescem no solo após os distúrbios serão importantes para evitar erosão e perda dos nutrientes deste solo. Assim outras espécies poderão germinar, crescer e se desenvolver nestas áreas, isto é a sucessão.

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