artigo heliconia

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(Parte 1 de 3)

Pesq. agropec. bras., Brasília, v.42, n.9, p.1299-1306, set. 2007

Hastes florais de helicônia sob deficiência de macronutrientes1299

Hastes florais de helicônia sob deficiência de macronutrientes

Ana Cecília Ribeiro de Castro(1), Vivian Loges(2), Andreza Santos da Costa(2), Mario Felipe Arruda de Castro(2) ,

Fernando Antônio Souza de Aragão(1) e Lilia Gomes Willadino(2)

(1)Embrapa Agroindústria Tropical, Caixa Postal 3761, CEP 60511-110 Fortaleza, CE. E mail: cecilia@cnpat.embrapa.br aragao@cnpat.embrapa.br (2)Universidade Federal Rural de Pernambuco, Av. Dom Manuel de Medeiros, s/no, CEP 52171-900 Recife, PE. E mail: vloges@yahoo.com andreza.costa@gmail.com mariocastro@alldeia.com.br lilia@pq.cnpq.br

Resumo – O objetivo deste trabalho foi avaliar características pós-colheita da primeira haste floral de plantas de Heliconia psittacorum x H. spathocircinata Aristeguieta, cultivar Golden Torch, sob deficiência de macronutrientes. O experimento foi conduzido em casa de vegetação, mediante técnica do elemento faltante. As inflorescências produzidas do tratamento sob omissão de N apresentaram coloração laranja-pálido e deformação nas hastes florais. O comprimento e o diâmetro da haste floral e o comprimento da inflorescência foram reduzidos nos tratamentos com omissão de N, P ou K em até 31,23%, em relação ao tratamento completo. A massa de matéria seca e a durabilidade pós-colheita das hastes florais foram reduzidas em 67 e 38,46%, respectivamente, em ambos os tratamentos com omissão de N ou K. As deficiências desses macronutrientes reduziram, ainda, a produção de hastes florais, a partir do segundo perfilho emitido. Hastes florais com maior massa de matéria seca e diâmetro apresentaram maior durabilidade pós-colheita. O teor de carboidrato na parte subterrânea mostrou correlação positiva (0,90) com a massa de matéria seca das hastes florais. Hastes florais com maior teor de carboidratos solúveis nas folhas retardaram a emissão da inflorescência.

Termos para indexação: qualidade da inflorescência, flor de corte, flores tropicais, duração de vida pós-colheita.

Flower stems postharvest characteristics of heliconia under macronutrients deficiency

Abstract – The objective of this work was to evaluate Heliconia psittacorum x H. spathocircinata Aristeguieta 'Golden Torch' first flower stem morphological and physiological characteristics as well as postharvest longevity, under macronutrients omissions. A greenhouse experiment was conducted under the technique of the lacking element. Inflorescences produced under N omission treatment showed a pale orange color and floral stem deformation. Stem length and diameter as well as inflorescence length were reduced under omission of N, P or K, down to 31.23% when compared to the complete solution treatment. Floral stem dry matter and postharvest longevity were reduced on 67% and 38.46%, respectively, on either N or K omission treatments. These nutrients omission treatments reduced floral stem production from the second shoot emitted. Greater postharvest longevity is to be found at higher floral stem diameter and dry matter. Carbohydrate ratio in underground parts presents positive correlation (0.90) with floral stem dry matter. Floral stems showing greater carbohydrate ratio on the leaves withdraw inflorescence appearance.

Index terms: inflorescence quality, cut flowers, tropical flowers, postharvest life duration.

Introdução

O mercado mundial de flores tropicais apresenta elevado potencial de crescimento uma vez que os consumidores de países de clima temperado valorizam este produto. As exportações brasileiras de flores e plantas cresceram mais de 124% entre 2001 e 2006, mantendo crescimento real de pelo menos 10% ao ano (Junqueira & Peetz, 2007).

No Brasil, o cultivo de flores tropicais é realizado, principalmente, nos estados de Pernambuco, Alagoas, Ceará, Bahia, Sergipe, Pará, Amazonas, Rio de Janeiro e São Paulo e no Distrito Federal (Junqueira & Peetz,

2005). Pernambuco, Alagoas e Ceará foram os principais estados exportadores desse tipo de flores (Junqueira & Peetz, 2007).

As helicônias se destacam pela beleza e variedade de formas e cores e estão entre as flores tropicais com

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A.C.R. de Castro et al.1300 maior aceitação nos Estados Unidos e países da Europa, tais como Holanda, Portugal, Espanha, França, Alemanha e Itália (Vallespir, 2005).

A Heliconia psittacorum x H. spathocircinata

Aristeguieta cultivar Golden Torch é uma das helicônias mais comercializadas no mundo. Destaca-se por ser muito produtiva e florescer o ano inteiro (Costa, 2005). Sua inflorescência terminal é ereta e possui de quatro a oito brácteas de cor amarelo-alaranjada com flores alaranjadas em seu interior. Em relação à adequação como flor de corte, apresenta inflorescência leve, com brácteas dispostas em um mesmo plano o que facilita o acondicionamento em caixas (Loges et al., 2005).

A durabilidade pós-colheita é um dos principais aspectos a serem observados na produção de flores para corte. Além disso, constitui um pré-requisito para a qualidade do produto e para o sucesso da comercialização. Entre os fatores que influenciam esses aspectos está o manejo pré-colheita que envolve propriedades nutricionais da cultura. A adubação inadequada pode acarretar deficiências nutricionais e afetar o desenvolvimento, a produtividade e a qualidade do produto comercial, conseqüência da redução do acúmulo de fotoassimilados, principalmente carboidratos. As flores de corte com maior concentração de carboidratos apresentam maior durabilidade pós-colheita (Nowak & Rudnicki, 1990; Marissen, 2001).

Existe variação na recomendação de adubação para helicônias (Clemens & Morton, 1999; Lamas, 2002). Essas recomendações não consideram as diferentes fases de desenvolvimento da cultura e exigência nutricional de espécies e cultivares de helicônias, uma vez que estas respondem diferentemente à aplicação da adubação de NPK (Ferreira & Oliveira, 2003).

O objetivo deste trabalho foi avaliar características pós-colheita da primeira haste floral de plantas de Heliconia psittacorum x H. spathocircinata cultivar

Golden Torch, sob deficiência de macronutrientes.

Material e Métodos

O experimento foi conduzido em casa de vegetação do Dep. de Agronomia da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife, PE, de setembro de 2004 a maio de 2005. Foram utilizados rizomas de Heliconia psittacorum x H. spathocircinata Aristeguieta cultivar Golden Torch, selecionados com 30 cm de comprimento e 120 g de matéria fresca. Na limpeza dos rizomas, as raízes foram removidas. Em seguida, os rizomas foram lavados com água desmineralizada e secados ao ar.

O delineamento experimental foi inteiramente casualizado com dez repetições por tratamento, sendo a unidade experimental, um rizoma por vaso. Os rizomas foram plantados em vasos de plástico preto, com capacidade de 12 L, contendo substrato composto exclusivamente de areia grossa lavada e peneirada (com malha de 2 m), coberta por uma camada de 3 cm de brita, a fim de reduzir a evaporação da superfície do substrato.

As plantas foram irrigadas diariamente apenas com água destilada durante os 30 dias iniciais. Após este período, foram realizados tratamentos completos que consistiram de solução de Hoagland a ½ força iônica (Hoagland & Arnon, 1951) e ausência de macronutrientes (água), e os demais tratamentos constituídos por solução nutritiva, a ½ força iônica, com a omissão de N, P, K, Ca, Mg ou S, o que totalizou oito tratamentos.

Na prevenção do acúmulo de sais ou depleções de nutrientes, os tratamentos foram irrigados diariamente com o volume de solução equivalente à sua capacidade de pote acrescido de 25%, e a cada sete dias irrigados com água em duas vezes a capacidade de pote. O pH das soluções foi mantido em torno de 5,5, pelo uso de NaOH ou HCl.

Os perfilhos emitidos foram identificados e, na observação da produção de hastes florais, foram utilizadas cinco repetições escolhidas aleatoriamente. Após o início do florescimento, as primeiras hastes florais de cada tratamento foram colhidas quando as inflorescências apresentavam duas brácteas abertas. As avaliações foram realizadas até 260 dias após o plantio (DAP).

As hastes foram cortadas, pela manhã, no nível do substrato de cultivo e os seguintes caracteres foram avaliados: número de dias para emissão do perfilho (NDEP); número de dias para emissão da inflorescência, a partir da formação do perfilho (NDEI); número de dias para a colheita da inflorescência a partir da sua emissão (NDCI); número de dias a partir da emissão do perfilho até a data da colheita (CICLO); massa de matéria seca da haste floral sem as folhas (MSH), determinada após a avaliação da durabilidade pós-colheita; diâmetro da haste medido a 20 cm abaixo da inflorescência (DH); comprimento da haste floral, medido da base do pseudocaule ao ápice da inflorescência (CH); comprimento da inflorescência, medido da parte colorida do pedúnculo ao ápice da inflorescência (CI) e durabilidade pós-colheita em dias

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(POSC). Os teores de carboidratos solúveis totais da parte subterrânea (raízes + rizoma) (CBS), das folhas (CBF) e das hastes florais (CBH), foram determinados pelo Método de Antrona (Bezerra Neto & Barreto, 2004), após a avaliação da POSC.

Para a obtenção da POSC, imediatamente após as medições dos caracteres, as hastes florais foram colocadas em recipientes com água deionizada, renovada a cada dois dias. As hastes foram mantidas em sala refrigerada a 25oC, em níveis de luminosidade de 15 µmol m-2 s-1. A fonte de luz foi parcialmente fornecida por tubos de lâmpada fluorescente fria (General Electric F400 Extralife, 40W) e luz proveniente do ambiente exterior. A umidade relativa média da sala foi de aproximadamente 75%. As avaliações foram diárias e realizadas sob o critério de notas adaptado de Castro (1993): nota 0, aspecto geral excelente (aspecto de recém-colhido); nota 1, aspecto geral bom (sinais de senescência pouco característicos, com perda de brilho); nota 2, aspecto geral regular (com início de murcha ou com discreto escurecimento das brácteas).

A POSC foi obtida a partir da média do número de dias até a obtenção da nota 2.

Os dados foram submetidos à análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade. A análise de coeficiente de correlação simples das médias (teste t de Student) foi realizada com base nas médias de cada tratamento nas 13 características avaliadas pelo coeficiente de correlação de Pearson (r).

Resultados e Discussão

A omissão de macronutrientes em Heliconia psittacorum x H. spathocircinata cultivar Golden Torch influenciou, significativamente, o número de dias para emissão da inflorescência (NDEI); o número de dias para a colheita da inflorescência a partir da sua emissão (NDCI); o número de dias a partir da emissão do perfilho até a data da colheita (CICLO); a massa de matéria seca da haste floral sem as folhas (MSH); o diâmetro da haste (DH); o comprimento da haste floral (CH); o comprimento da inflorescência (CI) e a durabilidade pós-colheita (POSC), à exceção de número de dias para emissão do primeiro perfilho (NDEP) (Tabela 1).

O NDEP foi 21,20 dias, em média, para os tratamentos. Nesta fase inicial de desenvolvimento, as plantas ainda não haviam sido submetidas aos tratamentos, portanto, este crescimento inicial deve-se exclusivamente às reservas dos rizomas.

As plantas do tratamento completo apresentaram número de dias para emissão de inflorescência (NDEI) de 165,20, e diferiram dos demais tratamentos, à exceção do tratamento com omissão de Mg (165,80 dias). Em experimentos com adubação completa foram registrados, para essa cultivar, os seguintes resultados: 168 dias em vaso (Catley & Brooking, 196a); 9,28 dias a pleno sol e 1,09 dias sob sombreamento em campo (Costa, 2005); 150 dias, em condições de campo (Ferreira & Oliveira, 2003). Essas variações são, provavelmente, influenciadas pelas condições em que as plantas foram expostas. A omissão de P foi o tratamento que resultou em maior NDEI, de 195,60 dias.

Tabela 1. Características de ciclo e produção da primeira haste floral de helicônia da cultivar Golden Torch (Heliconia psittacorum

(1)Médias seguidas da mesma letra na coluna não diferem entre si pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade; NDEP, número de dias para emissão de perfilhos; NDEI, número de dias para emissão da inflorescência a partir da formação do perfilho; NDCI, número de dias para a colheita da inflorescência a partir da sua emissão; CICLO, número de dias a partir da emissão do perfilho até a data da colheita; MSH (g), massa da matéria seca da haste floral, sem as folhas, determinada após a avaliação da durabilidade pós-colheita; DH (m), diâmetro da haste 20 cm abaixo da inflorescência; CH (cm), comprimento da haste, medido da base do pseudocaule ao ápice da inflorescência; CI (cm), comprimento da inflorescência, medido da parte colorida do pedúnculo ao ápice da inflorescência.

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Plantas sob deficiência de P apresentam atraso no florescimento (Malavolta, 2006), e alteração na formação de botões florais, de frutos e de sementes (Mengel & Kirkby, 2001). Em diversas culturas, o efeito do P na floração sugere que esse macronutriente está relacionado com mudanças nos níveis de fitormônios envolvidos nessa fenofase (Marschner, 1995).

O maior número de dias para colheita da inflorescência a partir da sua emissão (NDCI) foi observado no tratamento completo (19,40 dias), que diferiu de todos os outros tratamentos. Este valor foi semelhante aos observados em cultivo de campo, com a mesma cultivar, por Costa (2005). A omissão de Ca acarretou o menor NDCI (1,60 dias).

O ciclo das plantas do tratamento completo foi de 184,60 dias, não diferindo dos tratamentos com omissão de Ca (184,0 dias) e S (186,0 dias). O menor ciclo foi observado nas plantas com omissão de Mg (181,20 dias). A omissão de P acarretou o maior ciclo (210,80 dias), o que confirma a influência desse nutriente na floração (Malavolta, 2006). Catley & Brooking (1986a) observaram ciclo de 180 dias em plantas de helicônia cultivar Golden Torch, em vaso com nutrição completa. Salomão et al. (2006) verificaram uma crescente exigência de P no período de florescimento em plantas de lichia (Litchi chinensis).

A massa de matéria seca da haste floral sem as folhas

(MSH) do tratamento completo (4,91 g) diferiu dos demais tratamentos. O nutriente que mais influenciou a produção da MSH foi o N (1,62 g), o que acarretou redução de 67% em comparação com as plantas cultivadas com solução completa. A redução da massa de matéria seca em razão da carência de N é relatada em diversas culturas ornamentais, como Spathiphyllum (Yeh et al., 2000) e Helianthus annus (Cechin & Fumis, 2004).

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