Diagnóstico Rural Participativo

Diagnóstico Rural Participativo

(Parte 1 de 6)

Miguel Expósito VerdejoMiguel Expósito Verdejo

Ministério do Desenvolvimento Agrário

Secretaria da Agricultura Familiar

Revisão e Adaptação: Décio Cotrim e Ladjane Ramos

Diagnóstico Rural Participativo - Um Guia Prático

Diagnóstico Rural Participativo Um guia prático Miguel Expósito Verdejo

Secretaria da Agricultura Familiar - MDA Setor Bancário Norte Qd.01 Bl.D 6.º Andar Ed. Palácio do Desenvolvimento - Brasília DF Telefones: (61) 2191-9909/9910 Site: w.mda.gov.br/saf “Documento original elaborado pelo Centro Cultural Poveda" Rua Pina, 210 - Cidade Nova, Santo Domingo, República Dominicana. Telefones: 689-5689 / 686-0210 / Fax: 688-4635 Site: w.centropoveda.org Correio eletrônico: centropoveda@codetel.net.do

Diagramação: Álice Alinne Matos Impresso no Brasil Gráfica da Ascar - Emater-RS

Este documento pode ser reproduzido total ou parcialmente sempre que seja feito de modo literal e sejam mencionados os autores.

Revisão e Adaptação: Décio Cotrim, engenheiro agrônomo - Ascar - Emater - RS Ladjane Ramos, perita da Agência de Cooperação Técnica Alemã (GTZ)

Ilustrações: Sérgio Batsow Brasília, março de 2006

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SumárioSumário

1.1. Um pouco da história
1.2. Propósito e execução do DRP
1.3. As vantagens do DRP

1 . O QUE É UM DRP? 2 . OS DIFERENTES NÍVEIS DE PARTICIPAÇÃO

3.1. Características do DRP
3.2. Princípios básicos do DRP

3 . OS PRINCÍPIOS E CONCEITOS-CHAVE DO DRP

4.1. Preparando-se para o DRP
4.2. Equipe de moderação
4.3. Programação e convocatória
4.4. Localização
4.5. Materiais
4.6. Cronograma do DRP

4 . OS 7 PASSOS NA PREPARAÇÃO

5.1. A apresentação à comunidade

5 . NO TRABALHO DE CAMPO

6 . A CAIXA DE FERRAMENTAS 6.1 Observação participante 6.2 Entrevistas Semi-estruturadas 6.3 Mapas e Maquetes 6.4 Travessia 6.5 Calendários e uso do tempo 6.6 Diagramas 6.7 Matrizes 6.8 Análises de Gênero 6.9 Outras ferramentas

7. ANÁLISE, DOCUMENTAÇÃO E APRESENTAÇÃO 7.1. Análise final 7.2. Qualitativo versus quantitativo 7.3. Documentação 7.4. Apresentação

8. FINALIZAR O DRP É COMEÇAR 9. ALGUNS CONSELHOS FINAIS 10. LITERATURA RECOMENDADA E BIBLIOGRAFIA Anexo - lista de figuras

Anexo - lista de figuras

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ApresentaçãoApresentação

A nova Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural - Pnater preconiza que a Missão da Ater brasileira de ser: "Participar na promoção e animação de processos capazes deve contribuir para a construção e execução de estratégias de desenvolvimento rural sustentável, centrado na expansão e fortalecimento da agricultura familiar e das suas organizações, por meio de metodologias educativas e participativas, integradas às dinâmicas locais, buscando viabilizar as condições para o exercício da cidadania e a melhoria de qualidade de vida da sociedade”.

Na mesma linha, tanto os objetivos como as diretrizes da Pnater enfatizam a necessidade de que a práxis extensionista seja baseada em metodologias que assegurem a participação dos beneficiários em todas as fases do processo de desenvolvimento: diagnóstico, monitoramento, avaliação e reprogramação de ações.

Estes pressupostos da Pnater, têm determinado as ações do DATER. Esta publicação é mais uma dessas iniciativas e pretende se constituir numa ferramenta didática, acessível e de fácil entendimento, para ser usada como referência tantos aos processos de capacitação, como na auto-capacitação dos Agentes de Ater em seus diferentes níveis de atuação.

O Guia é uma tradução adaptada e aperfeiçoada pelos colegas Ladjane Ramos e

Décio Cotrim a partir de documento original publicado pelo Centro Cultural Poveda, de autoria do Sr. Miguel Expósito Verdejo, que autorizou ao DATER a sua publicação nas condições ora apresentada.

Esperamos que este material possa ser útil para as entidades e para os Agentes de

Ater, de modo que possamos fazer da Extensão Rural uma prática cada vez mais participativa e democrática, como requerem os agricultores familiares e como recomenda a Pnater.

Por fim, registramos nossos agradecimentos à Emater/RS e à Emater/MG pela inestimável contribuições que deram para que fosse possível publicarmos este texto. Do mesmo modo agradecemos à GTZ-Brasil pelo apoio e colaboração oferecida à realização deste trabalho.

Brasília, março de 2006 Francisco Roberto Caporal Coordenador Geral de Assistência Técnica e Extensão Rural do Dater/SAF/MDA

Como Utilizar esse GuiaComo Utilizar esse Guia

"Diagnóstico Rural Participativo" (DRP) é entendido como um guia prático para a preparação e execução de um DRP.

Nos primeiros capítulos são apresentados o objetivo, a nossa visão de "participação" e os princípios e conceitos-chave do DRP. A seguir são desenvolvidos os passos na preparação de um DRP até chegar ao "prato principal" deste guia prático: as ferramentas de execução. Finalmente são dados alguns conselhos em relação à análise, à documentação e à apresentação dos resultados.

Esperamos que este manual anime as pessoas no assunto e na aplicação desta metodologia. Temos a confiança de que sirva como um guia prático e rápido para as pessoas mais experientes refrescarem a memória.

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O que é um DRP?1. O que é um DRP?

O Diagnóstico Rural Participativo (DRP) é um conjunto de técnicas e ferramentas que permite que as comunidades façam o seu próprio diagnóstico e a partir daí comecem a autogerenciar o seu planejamento e desenvolvimento. Desta maneira, os participantes poderão compartilhar experiências e analisar os seus conhecimentos, a fim de melhorar as suas habilidades de planejamento e ação. Embora originariamente tenham sido concebidas para zonas rurais, muitas das técnicas do DRP podem ser utilizadas igualmente em comunidades urbanas.

O DRP pretende desenvolver processos de pesquisa a partir das condições e possibilidades dos participantes, baseando-se nos seus próprios conceitos e critérios de explicação. Em vez de confrontar as pessoas com uma lista de perguntas previamente formuladas, a idéia é que os próprios participantes analisem a sua situação e valorizem diferentes opções para melhorá-la. A intervenção das pessoas que compõem a equipe que intermedia o DRP deve ser mínima; de forma ideal se reduz a colocar à disposição as ferramentas para a auto-análise dos/as participantes. Não se pretende unicamente colher dados dos participantes, mas, sim, que estes iniciem um processo de auto-reflexão sobre os seus próprios problemas e as possibilidades para solucioná-los.

O objetivo principal do DRP é apoiar a autodeterminação da comunidade pela participação e, assim, fomentar um desenvolvimento sustentável.

Figura 1 - Grupo de Agricultores durante Oficina de DRP 6

1.1 Um pouco de história

Os enfoques de desenvolvimento rural nas décadas de 60 e 70 se baseavam na transferência de tecnologias e na ausência de participação das/os supostas/os beneficiárias/os, tanto na elaboração como na execução dos projetos.

No final da década de 70, o fracasso da "transferência tecnológica" causou uma mudança radical de estratégias: o conhecimento das condições locais, dos grupos beneficiários e de suas tradições se transformou no enfoque principal da identificação e planejamento de projetos de desenvolvimento rural. Utilizando métodos tradicionais de pesquisa, como questionários e análises de dados regionais, foram geradas enormes quantidades de dados que acabaram não tendo como ser geridos e se transformaram em "cemitérios de dados".

Nos anos 80, a estratégia mudou de novo: o levantamento de informação foi reduzido ao necessário, levando em consideração as opiniões e o ponto de vista dos grupos beneficiários. Os instrumentos clássicos de pesquisa deram lugar a novos conceitos, mais participativos, muitos deles baseados nas teorias e metodologias da educação popular.

Esta foi a hora do nascimento do "Diagnóstico Rural Rápido" (DRR). O DRR propõe, principalmente, um levantamento de dados participativo e menos trabalhoso que um levantamento tradicional. Além disso, procura uma maior participação do chamado beneficiário, para se aproximar mais das suas necessidades e realidade. Em geral o DRR é utilizado para se obterem os dados necessários para um projeto novo ou para analisar o desenvolvimento de um projeto. Sendo possível adaptá-lo a partir desta análise.

Mas, mesmo com estas mudanças, as medidas tomadas pelos projetos acabaram sendo pouco sustentáveis. Como conseqüência, o processo de identificação participativa se estendeu à execução participativa de projetos.

Então se deu voz e voto aos grupos em todos os passos de um projeto, criando, assim, o Diagnóstico Rural Participativo (DRP).

O Diagnóstico Rápido Rural não foi o único fundamento para o desenvolvimento do DRP, além disso, “a educação popular”, inspirada no livro "A pedagogia do oprimido", de Paulo Freire (1968), foi outro movimento iniciado nos anos 60, que teve grande importância para os conceitos.

Os conceitos de desenvolvimento das décadas de 60 a 80, descritos anteriormente, refletem a discussão "teórico-intelectual" da época; no entanto isto quer dizer que, independentemente das tendências respectivas, existiam projetos participativos nos anos 60, como hoje existem projetos com escassa participação dos supostos beneficiários.

1.2 Propósito e execução do DRP

Além do objetivo de impulsionar a auto-análise e a autodeterminação de grupos comunitários, o propósito do DRP é a obtenção direta de informação primária ou de "campo" na comunidade.

Esta é conseguida por meio de grupos representativos de seus membros, até chegar a um autodiagnóstico sobre o estado dos seus recursos naturais, sua situação econômica e social e outros aspectos importantes para a comunidade.

O que é u

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Tenta-se avaliar os problemas e as oportunidades de solução, identificando os possíveis projetos de melhoria dos problemas mais destacados e portanto das condições de vida de homens e mulheres.

O DRP permite colher dados de maneira ágil e oportuna. Apesar de sua rapidez, a coleta de dados não é incompleta nem superficial.

Diferentemente dos métodos convencionais de pesquisa, o DRP usa fontes diversas para assegurar uma coleta compreensível de informação. Estas podem ser a revisão de dados secundários; as fotografias aéreas e imagens de satélite; a observação direta de eventos, processos, as relações entre as pessoas, que a equipe vai anotando; as entrevistas semi-estruturadas; os diagramas; os mapas e travessia e os calendários de atividades.

Seu objetivo, mais que a perfeição científica, é a complementaridade de informação recebida pelas diferentes fontes, mantendo, assim, um cruzamento de dados que incrementa a precisão crítica de análise. Não requer grandes acumulações de dados sistemáticos, já que se levaria muito tempo para produzi-los e interpretá-los objetivamente.

No entanto os dados que produzem um DRP são os necessários e suficientes para desencadear os processos de auto-ajuda que se perseguem.

A forma em que são coletados os dados procura, em primeiro lugar, permitir que as pessoas da comunidade pensem sistematicamente em seus problemas, nas possíveis soluções, e os compartilhem com os Agentes de Ater, mediadores do DRP; em segundo lugar, que os Agentes de Ater compreendam as condições e circunstâncias locais; finalmente, procurem analisar os problemas e as possíveis opções para enfrentá-los em conjunto.

O DRP é similar ao diagnóstico que faz um médico: ao nos sentirmos doentes, visitamos o médico, e ele se encarrega de nos perguntar: o que estamos sentindo? O que está doendo? E depois procede a um exame geral do nosso corpo (os olhos, a boca, o coração, os ouvidos, a pressão, etc.). Esse processo de exame denomina-se diagnóstico, e, ao final, o médico sabe que medicamento vai receitarnos para curar a doença.

No caso do DRP os médicos são os integrantes da comunidade e os Agentes de Ater.

Os homens e as mulheres da comunidade devem agir como o médico: precisam analisar todos os elementos que formam o ambiente da comunidade para encontrar uma forma de solucionar os problemas, designando responsáveis locais e procurando apoio institucional.

1.3 As vantagens do Diagnóstico Rural Participativo são:

ú Põe em contato direto os que planejam, os Agentes de Ater com as pessoas da comunidade e vice-versa; todos participam durante todo o processo do diagnóstico.

ú Facilita o intercâmbio de informação e a verificação desta por todos os grupos da comunidade.

ú O DRP, como metodologia, aponta a multidisciplinaridade. Ideal para estabelecer nexos

O que é u entre setores, tais como: floresta, agricultura, saúde, educação e outros.

ú As ferramentas do DRP prestam muito bem para identificar aspectos específicos de gênero.

ú Facilita a participação tanto de homens como de mulheres e dos diferentes grupos da comunidade.

O que é u

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Os Diferentes Níveis de Participação2. Os Diferentes Níveis de Participação

Nas últimas duas décadas ficou na moda a "participação", e todos os projetos têm um enfoque participativo, e todas as atividades são um resultado de um "processo participativo". Mas o que significa participação?

O gráfico a seguir visualiza os diferentes níveis de participação e mostra que, efetivamente, todos os projetos são participativos, porém a diferença se baseia em cada nível.

Passividade: o projeto fixa os objetivos e decide sobre as atividades. A informação necessária é gerada sem se consultar os beneficiários.

Fonte de informação: a equipe de pesquisa pergunta ao beneficiário, porém não o deixa decidir nem sobre o tipo de perguntas nem sobre as atividades posteriores.

Consulta: leva-se em consideração a opinião do beneficiário; integram-se as opiniões no enfoque da pesquisa, mas o grupo-meta não tem poder de decisão.

Participação à base de incentivos materiais: propõe-se, por exemplo, a participação em troca de insumos de produção ou de colocar à disposição terras com fins de exibição ("unidade demonstrativa"), mas a possibilidade de intervir nas decisões é muito limitada.

Participação funcional: o beneficiário se divide em grupos que perseguem objetivos fixados anteriormente pelo projeto. Na fase de execução participa da tomada de decisões e se torna independente no transcurso do projeto.

Participação Interativa: o beneficiário é incluído do ponto de vista da fase de análise e definição do projeto. Participa plenamente do planejamento e execução.

Auto-ajuda: a comunidade toma a iniciativa e age independentemente.

Escada da ParticipaçãoEscada da Participação

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Figura 2 - Escada da Participação

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Diferentes Níveis de ParticipaçãoDiferentes Níveis de Participação

O que nos interessa é o grau de participação que queremos (ou devemos?) alcançar para estabelecer um desenvolvimento sustentável.

Muitos projetos estabelecem um grau de "participação com base em incentivos materiais" ou, em casos excepcionais, alcançam uma participação funcional. O DRP tem como objetivo a participação interativa, ou seja, a participação dos beneficiários em todas as fases de um projeto.

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