Violência no Transito

Violência no Transito

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262ACTA ORTOP BRAS 15 (5:262-266, 2007) Trabalho recebido em 29/1/06 aprovado em 05/07/07

Internet]. 2007; 15(5):262-266. Disponível em URL: http://w.scielo.br/aob

Citaçªo: Anjos KC, Evangelista MRB, Santos-Silva J, Zumiotti AV. Paciente vítima de violŒncia no trânsito: anÆlise do perfil socioeconômico, características do acidente e intervençªo do Serviço Social na emergŒncia. Acta Ortop Bras. [periódico na

the Internet]. 2007; 15(5):262-266. Available from URL: http://w.scielo.br/aob

Citation: Anjos KC, Evangelista MRB, Santos-Silva J, Zumiotti AV. A patient victim of car traffic violence: an analysis of socioeconomic profile, accident characteristics and social services intervention in the emergency room. Acta Ortop Bras. [serial on

Nas œltimas dØcadas ocorreram grandes transformaçıes no Brasil, principalmente os avanços nas indœstrias automobilísticas que geraram efeitos multiplicadores de transformaçıes urbanas e sociais Todos esses avanços e mudanças tecnológicas fizeram com que o crescimento da cidade acontecesse de forma desordenada, sem infra-estrutura adequada, e os centros urbanos nªo acompanharam o crescimento da frota de veículos. A qualidade insatisfatória dos transportes coletivos fez com que as pessoas optassem por meios de transportes individuais, o que piorou os problemas de trânsito nas grandes cidades. Os acidentes de trânsito e as variÆveis que os circundam: comportamento humano, tecnologia, engenharia de trÆfego, entre outras, tŒm sido foco de preocupaçªo social. As modificaçıes do novo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) foram uma tentativa do Governo e da sociedade brasileira no sentido de reverter as alarmantes estatísticas do trânsito no Brasil. A nova lei prevŒ puniçıes mais severas para os infratores: multas de valores elevados, possibilidade de perda da habilitaçªo e a criaçªo de mecanismos jurídicos para punir os crimes de trânsito (morte provocada por acidente)(1).

KTIA CAMPOS DOS ANJOS1, MARIA ROSA BARRAL EVANGELISTA2, JORGE DOS SANTOS SILVA3, ARNALDO VALDIR ZUMIOTTI4

Trabalho desenvolvido no Pronto-Socorro do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de Sªo Paulo IOTHCFMUSP. Endereço para CorrespondŒncia: Rua Dr. Ovídio Pires de Campos, 3 - Cerqueira CØsar - Sªo Paulo Sªo Paulo, Cep: 05403-010 - E-mail: camposdosanjos@yahoo.com.br

1. Assistente Social do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da FMUSP. 2. Assistente Social Chefe do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da FMUSP. 3. MØdico Diretor do Pronto-Socorro do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da FMUSP. 4. Professor Titular do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Sªo Paulo.

Objetivo: Identificar e analisar o perfil dos pacientes; o meio de transporte que causou o acidente; as normas do Código de Trânsito Brasileiro, se foram ou nªo seguidas; a rede de apoio e as intervençıes do Serviço Social. MØtodo: A pesquisa foi realizada com 100% dos pacientes internados nesta Instituiçªo no período de 15/08/04 a 19/1/04, que foram vítimas de acidente no trânsito. Entrevistamos: 37 condutores de motocicletas, 26 pedestres, 15 condutores de veículo a motor e 06 passageiros, totalizando 84 pacientes. Foram utilizados formulÆrios com questıes abertas e fechadas de abordagem quantitativa e qualitativa. Resultado: A maior demanda foi de motociclistas, sendo que 83% sªo do sexo masculino, jovens com escolaridade atØ o ensino mØdio e renda mensal de dois salÆrios mínimos. 62% residem em Sªo Paulo e somente 36,5% possuem vínculo formal de trabalho. A maior parte das fraturas ocorreu nos membros inferiores (54%). Todos os pacientes necessitaram de cuidados após alta hospitalar, sendo que 98% contaram com o apoio familiar. Conclusªo: Os elevados nœmeros de acidentes nos indicam que a violŒncia no trânsito pode ser considerada um problema de saœde pœblica e estudos devem ser realizados para subsidiar as políticas pœblicas nesta Ærea.

Descritores: Acidente de trânsito; Caracterizaçªo e anÆlise das vítimas; Intervençıes do Serviço Social.

Na literatura científica temos alguns dados relevantes a respeito deste tema:- a medicina ortopØdica discute a sub-especialidade em trauma devido à crescente demanda de acidentes de trânsito(2); o SUS (Sistema Único de Saœde) gasta mais com traumas do que com doenças(3) ; -os acidentes de trânsito chegam a custar no mundo cerca de US$ 8 bilhıes por ano e no Brasil R$ 3,6 bilhıes (abril de 2003) segundo pesquisa realizada pelo IPEA(4) sob a denominaçªo Impactos sociais e econômicos dos acidentes de trânsito nas aglomeraçıes urbanas . O custo foi determinado com base no tratamento e reabilitaçªo das vítimas, na recuperaçªo ou reposiçªo dos bens materiais danificados, no custo administrativo dos serviços pœblicos envolvidos e nas perdas econômicas e previdenciÆrias. Calcula-se que, nos œltimos 20 anos, 12 milhıes de pessoas perderam a vida em acidentes de trânsito e 250 milhıes sofreram os mais variados tipos de ferimentos. A mÆquina gerou um problema de saœde pœblica(5). No ano de 2003, o MinistØrio da Saœde(6) registrou no Brasil 30.567 mortes de pacientes vítimas de trânsito. Segundo Correa Leite*, os

A PATIENT VICTIM OF CAR TRAFFIC VIOLENCE: AN ANALYSIS OF SOCIOECONOMIC PROFILE,

Objective: To identify and analyze patients profile; the means of transportation that caused the accident; whether the rules of the Brazilian Traffic Code were respected or not; and the support network and actions of social services. Methods: A survey was conducted with 100% of the patients admitted in this institution between August 15th and November 19th, 2004, who were victims of car accidents. We interviewed 37 motorcycle riders, 26 pedestrians, 15 drivers and 6 passengers, totaling 84 patients. Forms with open and closed questions, adopting both a quantitative and a qualitative approach were used. Results: The greatest demand was from motorcyclists, of whom 83% were male, youngsters, who had graduated in high school, with a monthly income equivalent to two minimum wages. Sixty-two percent lived in Sªo Paulo and only 36.5% had a formal job. Most fractures were on the lower limbs (54%). All the patients required further care after hospital discharge and 98% received support from their families. Conclusion: The high number of accidents indicates that traffic violence may be considered a public health problem and there is much to be investigated for the formulation of public policies in this field.

Keywords: Traffic accident; Characterization and analysis of the victims; Social Service interventions.

263ACTA ORTOP BRAS 15(5:262-266, 2007) acidentes automobilísticos, atendidos pelo Corpo de Bombeiros da cidade de Sªo Paulo, contabilizaram em 2003 27.864 atendimentos, dos quais 474 foram vítimas fatais. Os dados atØ outubro de 2004 foram 21.863 atendimentos com 313 vítimas fatais. O Pronto-Socorro do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da FMUSP atende pacientes portadores de afecçıes ósseas de ambos os sexos, sem limite de idade, das mais variadas regiıes da cidade e do país, pelo SUS e ConvŒnios. Esta Instituiçªo Ø considerada referŒncia na Ærea da saœde, em tecnologia e atendimento de casos de alta complexidade. O serviço de emergŒncia mØdica alØm de receber casos por demanda espontânea da populaçªo, atende acidentes automobilísticos, motociclísticos, quedas de maneira geral, agressıes, lesıes ósseas, ortopØdicas e traumatológicas. Atende tambØm grande demanda de pacientes encaminhados de outros hospitais, resgates, bombeiros, Polícia Civil e Militar. O Serviço Social observou o nœmero crescente de acidentados no trânsito. Isto gerou uma inquietaçªo que nos levou à realizaçªo de uma pesquisa para melhor conhecer essa realidade. Procuramos identificar e analisar o perfil dos pacientes vítimas da violŒncia no trânsito, o meio de transporte que causou o acidente, as normas do Código de Trânsito Brasileiro seguidas ou nªo pelos pacientes. TambØm nos propusemos a verificar as intervençıes do Serviço Social e analisar a percepçªo do paciente em relaçªo à internaçªo hospitalar e sua rede social de apoio.

A pesquisa foi realizada com pacientes vítimas de acidentes de trânsito internados no Pronto-Socorro entre 15/08/04 a 19/1/04. Neste período foram internados 389 pacientes, sendo que 2% devido a acidente de trânsito (Figura 1). O instrumento de pesquisa foi dividido em: dados pessoais, situaçªo socioeconômica, acidente de trânsito e rede social de apoio. No item acidente de trânsito utilizamos quatro formulÆrios distintos para cada tipo de paciente: motorista de veículo a motor; motorista de motocicleta; pedestre e passageiro. Os formulÆrios continham questıes abertas e fechadas de abordagem quantitativa e qualitativa. As questıes foram aplicadas nos pacientes após concordância e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Na abordagem quantitativa utilizamos anÆlise estatística e na abordagem qualitativa, a metodologia do discurso do sujeito coletivo (7) que consiste em extrair de cada depoimento as expressıes chaves que sªo as particularidades do pensamento que se assemelham, e as idØias centrais que sªo a expressªo que descreve de forma sintØtica o depoimento analisado, gerando um discurso œnico. A pesquisa foi aplicada em 84 pacientes, 100% da amostra do período: 15 condutores de veículo a motor; 37 condutores de motocicletas; 06 passageiros e 26 pedestres (Figura 2). Devido às particularidades de cada tipo de acidente apresentaremos os resultados separando-os de acordo com cada tipo de paciente.

Condutor de Veículo a Motor

no mundo modernoos desafios somados à inexperiŒncia na

Foram entrevistados 15 pacientes condutores de veículo a motor: 54% sªo jovens entre 18 e 28 anos dos quais 93% do sexo masculino. De acordo com Montal(5), a habilitaçªo do jovem condutor de veículos automotores representa verdadeiro rito de passagem conduçªo de veículos, o desconhecimento das normas de trânsito, a facilidade no uso do Ælcool, a sensaçªo de invulnerabilidade causando a impressªo de imortalidade, fruto da falta de consciŒncia de risco . Dos entrevistados: - 40% possuíam ensino mØdio completo; - 46% possuem vínculo formal de trabalho (Tabela 1); - 47% sªo casados.

Grande parte dos acidentes ocorreu durante a semana (67%), o horÆrio de maior freqüŒncia dos acidentes foi das 12h01 às 18 horas (46%) e 60% estavam em horÆrio de trabalho. Vale salientar que os acidentes de final de semana (80%) foram de madrugada e 53% dos condutores do veículo a motor nªo possuíam seguro particular do automóvel (Tabela 2). Destacamos que o socorro a estes acidentados foi feito em 46% pelo Resgate e 26% pelo helicóptero da Polícia Militar, o que evidencia a eficiŒncia destes serviços. Verificamos que 74% usavam cinto de segurança e 93% possuíam habilitaçªo para dirigir.

Condutor de Motocicletas

Foram entrevistados 37 condutores de motocicletas internados no período da pesquisa: 95% do sexo masculino; a faixa etÆria mais representada situa-se entre 29 a 38 anos (43%), seguida por jovens de 18 a 28 anos (41%). Segundo Bastos Junior apud Sparti(8) , na cidade de Sªo Paulo, 50% dos acidentes fatais com motociclistas acontecem com pessoas com menos de vinte e quatro anos, 23% dos acidentes de trânsito com morte envolvem adolescentes . Quanto ao nível de escolaridade 35% possuíam ensino mØdio completo, 62% sªo casados, 43% trabalham informalmente, sem vínculo empregatício, ou seja, à margem das leis trabalhistas, e apenas 40% trabalham com registro em carteira (Tabela 1). De acordo com Koizumi(9), os acidentes com motos passaram a nªo ser apenas de trânsito, mas tambØm acidentes de trabalho . Estes dados sªo muito preocupantes, pois 43% dos entrevistados nªo possuíam nenhum vínculo previdenciÆrio, ou seja, após o acidente ficaram afastados do seu trabalho, nªo tendo uma fonte de renda nesse período, o que agrava a situaçªo econômica do grupo familiar. Dos entrevistados 72% sofreram o acidente durante a semana e com 58% o acidente ocorreu durante a primeira meia hora em que estavam dirigindo. O horÆrio de maior freqüŒncia foi das 12h01 às 18 horas (43%), sendo que 65% estavam em horÆrio ou percurso para o trabalho. Ressalta-se que 51% trabalhavam como motoboys (Tabela 3). Verificamos que 59% jÆ tinham sofrido outros acidentes de trânsito, o que comprova os riscos que correm ao conduzirem motocicletas, e tambØm os gastos sociais e hospitalares que estªo envolvidos em todo esse processo. Foram socorridos 73% pelo Resgate e 5% pelo helicóptero da Polícia Militar.

∗Capitªo do Corpo de Bombeiros da cidade de Sªo Paulo, contato pessoal realizado no dia 09/12/2004.

Figura 1 - Causa das internaçıes no Pronto-Socorro do Instituto de Ortopedia e Traumatologia no período de 15/08/2004 a 19/1/2004.

Figura 2 - Total de pacientes entrevistados que foram internados no Pronto- Socorro, por tipo de acidente, no período de 15/08/2004 a 19/1/2004.

31% (26)

7% (6)4% (37)

18% (15)

Condutor Veiculo a Motor Condutor de Motocicleta

Passageiro Pedestre

2% (84)

72% (389)

Causas diversas Acidente de Transito

264ACTA ORTOP BRAS 15 (5:262-266, 2007)

Os motociclistas usavam: capacete fechado (92%); refletivo na roupa (32%); roupa de couro (2%); só a jaqueta (19%); roupa de chuva (16%). A maioria possuía habilitaçªo (89%). Segundo Greve(10) , para os motociclistas Ø importante o uso de roupas adequadas que podem amortizar uma queda e diminuir o impacto durante a queda. PorØm, para o motociclista Ø fundamental o respeito às leis de trânsito, visto que sªo os mais exposto aos acidentes e tem alta possibilidade de sofrer lesıes graves .

Pedestre

(Tabela 4)

Foram entrevistados 26 pedestres, sendo a maioria do sexo masculino (62%) com idade variando entre 39 e 48 anos (27%). Salientamos que 15% dos entrevistados estavam na faixa dos 09 aos 16 anos. Segundo Mello Jorge(1) , em Sªo Paulo tem sido possível demonstrar que em cerca de 60% das mortes por acidentes de trânsito a vítima Ø o pedestre, o percentual se eleva a 75%, quando se estudam somente os óbitos dos menores de 15 anos

QuestıesCondutor de Veículo a MotorCondutor de MotocicletaPedestrePassageiro

Renda em SalÆrios Mínimos3 a 4 (26%)1 a 2 (30%)1 a 2 (65%)1 a 2 (49%)

Lesıes 90% Fraturas95% Fraturas92% Fraturas100% Fraturas

Membros Acometidos33% Membro Inferior68% Membro Inferior50% Membro Inferior33% Membro Inferior 3% de Membro Inferior +

Superior

Nœmero de pacientes com Fraturas Expostas3 Membro Inferior17 Membro Inferior5 Membro Superior7 Membro Inferior2 Membro Superior2 Membro Inferior

Tabela 1 - Distribuiçªo dos resultados mais significativos por tipo de acidente, no período de 15/08/2004 a 19/1/2004.

Tabela 2 - Descriçªo dos acidentes com os condutores de veículo a motor

Queda seguida de atropelamentopor um ônibus0103

Tabela 3 - Descriçªo dos acidentes com os dos condutores de motocicletas

Tabela 4 Descriçªo dos acidentes com pedestres

Em relaçªo ao nível de escolaridade, 43% possuem apenas o ensino fundamental incompleto; 50% trabalham informalmente (Tabela 1); 61% sªo solteiros; 80% residem em Sªo Paulo; apenas 8% encontravam-se em situaçªo de rua. Quando questionados sobre a imprudŒncia no momento do acidente, os pesquisados referem que a culpa foi do motorista do veículo a motor (35%); 14% assumem sua imprudŒncia e 15% de ambos. O horÆrio do acidente na maioria dos casos foi entre as 18h e 24h (38%), no domingo (27%), e os pacientes foram socorridos pelo Resgate (69%). Ressalta-se que 96% dos entrevistados nªo receberam nenhuma assistŒncia do atropelante.

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