Exercício e Hipertensão

Exercício e Hipertensão

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AVALIAÇÃO DA PRESSÃO ARTERIAL Exercício Físico e Hipertensªo

Arterial: Riscos e Benefícios Physical Exercise and Hypertension: risks and benefits

Cláudia Lúcia de Moraes Forjaz* Crivaldo Gomes Cardoso Junior Ellen Aparecida de Araújo Luiz Augusto Riani Costa Luiz Teixeira Ricardo Saraceni Gomides Laboratório de Hemodinâmica da Atividade Motora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (LAHAM-EEFEUSP)

Palavras-chave: exercício aeróbio, exercício resistido, pressão arterial, hipertensão, resposta hiperreativa. Key words: aerobic exercise, resistance exercise, blood pressure, hypertension, hypertensive response.

Autores:

*Endereço para correspondência: Av. Prof. Mello Moraes, 65 – Butantã 05508-900 – São Paulo – SP Tel.: (1) 3091-3136 Fax: (1) 3813-5921 E-mail: cforjaz@usp.br

Financiado pela FAPESP, CNPq e CAPES Recebido em 29/1/2005. Aceito em 21/03/2006.

Resumo

O exercício físico tem sido recomendado para a prevenção e tratamento não medicamentoso da hipertensão arterial. Entretanto, é importante diferenciar as respostas dos exercícios aeróbios e resistidos e ponderar seus riscos e benefícios. Os exercícios resistidos não apresentam, cronicamente, efeito hipotensor em hipertensos e, durante sua execução, observa-se um pico de pressão arterial muito acentuado, que não pode ser controlado, pois a medida indireta da pressão arterial nesta situação não é válida. Por outro lado, os exercícios aeróbios reduzem a pressão arterial de repouso, 24 horas e exercício de hipertensos, e durante sua execução, apenas a pressão arterial sistólica aumenta. Esse aumento pode ser controlado pelo ajuste da intensidade e pela medida auscultatória durante sua execução. É interessante observar ainda que a resposta exacerbada da pressão arterial durante o exercício aeróbio progressivo é utilizada para avaliar o risco futuro de normotensos se tornarem hipertensos e de hipertensos terem complicações clínicas. Essa medida também permite identificar indivíduos cuja pressão arterial precisa ser monitorada durante o treinamento físico. Concluindo, o treinamento aeróbio é o recomendado para hipertensos devido a seus benefícios comprovados e baixo risco. Ele pode ser complementado pelo treinamento resistido que trás benefícios músculoesqueléticos, mas deve ser executado com cuidado.

Abstract

Physical exercise is recommended as part of the nonpharmacological treatment of hypertension. Nevertheless, it is important to differentiate between aerobic and resistance exercises’ effects, and to balance exercise benefits and risks. Resistance exercise does not have chronic hypotensive effects in hypertensives, and during its execution, there is an expressive increase in blood pressure that cannot be controlled, because indirectly blood pressure measurement techniques are not valid in this situation. On the other hand, aerobic exercise reduces resting, 24-hour and exercise blood pressures in hypertensive subjects, and during its execution, only systolic blood pressure increases expressively. This increase can be controlled by exercise intensity adjustment, and the auscultatory measurement of blood pressure. It is also interesting to observe that exacerbated blood pressure increase during progressive aerobic exercise is useful to identify normotensives with probability of becoming hypertensives, and

06 - MAPA Exercicio e Hipertensão.pm606/07/06, 16:35104 hypertensives with greater morbidity. Moreover, this blood pressure response to exercise helps to identify subjects, whose blood pressure levels should be monitored during exercise training. In conclusion, aerobic exercise is the type of training recommended to hypertensives because of its proved benefits and low risks. It might be complemented by resistance training, which results in muscle benefits, but should be performed with caution.

Introdução

A inatividade física está relacionada ao maior risco de desenvolvimento de hipertensão arterial. De fato, até mesmo o engajamento em atividades físicas não programadas pode promover ganho substancial no controle da pressão arterial. No entanto, vale ressaltar, que essa relação fica mais bem evidenciada com atividades de lazer e mais vigorosas1. Além disso, a prática de atividades físicas tem efeitos hipotensores bastante conhecidos e comprovados em indivíduos hipertensos, auxiliando no controle da pressão arterial destes pacientes2. Por esses motivos, o exercício físico regular tem sido recomendado como parte integrante e importante na prevenção e reabilitação da hipertensão arterial, conforme explícito nas V Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial3.

Entretanto, quando o assunto versa sobre o exercício físico, torna-se importante separar os efeitos dos exercícios aeróbios dos resistidos. Os primeiros dizem respeito a exercícios realizados de forma cíclica, envolvendo grandes grupos musculares, com intensidade leve a moderada e longa duração, sendo exemplos típicos: andar, correr, nadar, dançar, etc. Por outro lado, os exercícios resistidos, também conhecidos como exercícios de força ou musculação, caracterizam-se pela contração de um determinado seguimento corporal contra uma resistência que se opõe ao movimento4. Esses exercícios podem ser realizados em intensidades leves, moderadas ou intensas. As características mecânicas diferenciadas dos exercícios aeróbios e resistidos fazem com que eles desencadeiem efeitos cardiovasculares distintos e, principalmente, produzam alterações diferentes na pressão arterial.

Dessa forma, ao se discutir os efeitos do exercício em hipertensos é importante diferenciar os efeitos destes dois tipos de exercício, ponderando seus possíveis benefícios e riscos. Os benefícios dizem respeito à capacidade da prática regular do exercício em reduzir a pressão arterial dos pacientes (efeito crônico do exercício). Por outro lado, os riscos se relacionam ao pico de pressão arterial atingido durante a execução do exercício, que pode levar à ruptura de aneurismas cerebrais pré-existentes5. Neste sentido, é importante ressaltar que a presença de aneurismas cerebrais é mais comum em hipertensos que em normotensos6. Uma forma de controlar o risco envolvido no exercício é medir a pressão arterial durante sua execução, porém a aplicabilidade e validade desta medida também diferem entre os exercícios aeróbios e resistidos. Cabe ainda lembrar que a medida da pressão arterial durante o exercício também tem sua utilidade na triagem de risco de indivíduos normo e hipertensos.

Baseado nas considerações anteriores, este artigo versará sobre os benefícios e riscos dos exercícios resistidos e aeróbios nos pacientes hipertensos, discutindo a aplicabilidade e validade da medida da pressão arterial durante o exercício.

Efeito crônico do treinamento físico resistido na pressão arterial

Classicamente, o treinamento físico aeróbio é o que promove importante resposta hipotensora em pacientes hipertensos. Entretanto, nos últimos 10 anos, o interesse científico sobre os efeitos do treinamento resistido sobre o sistema cardiovascular tem crescido sobremaneira. Contudo, os dados científicos existentes ainda são escassos e controversos.

Uma metanálise recente, realizada por Cornelissen e

Fagard 7, concluiu que o treinamento resistido reduz a pressão arterial sistólica e diastólica de repouso em 3,2 e 3,5 mmHg, respectivamente (Tabela 1). No entanto, essa metanálise incluiu apenas nove estudos, que englobaram diferentes populações (normotensos e hipertensos, com ou sem a terapia medicamentosa) e também diferentes protocolos de treinamento (intensidades variando de 30 a 90% de uma repetição máxima - 1RM). Dessa forma, os resultados obtidos não podem ser extrapolados para nenhuma população ou situação específica. De fato, quando separamos os estudos de acordo com a população estudada, observa-se que vários estudos com normotensos 8,9 verificaram queda da pressão arterial após o treinamento resistido, enquanto que dos quatro estudos realizados com hipertensos, em três deles 10-12 a pressão arterial não se modificou com o treinamento (Tabela 2). Vale ressaltar que nesses estudos foram utilizados exercícios de alta intensidade, o que pode ter influenciado nos resultados, visto que no estudo13 realizado com treinamento de baixa intensidade (40% de 1RM) houve uma pequena redução da pressão arterial diastólica.

Desta forma, fica claro que os dados com hipertensos ainda são muito escassos para que qualquer conclusão possa ser tirada. Com os dados disponíveis, não há embasamento para se afirmar que o treinamento resistido tenha efeito hipotensor em longo prazo em indivíduos hipertensos.

Efeito agudo dos exercícios resistidos na pressão arterial

Apesar do efeito hipotensor crônico do treinamento resistido não estar demonstrado na população hipertensa, esse exercício é recomendado nesta população, em complemento ao exercício aeróbio, em função de seus importantes benefícios músculoesqueléticos14, que são primordiais para a manutenção da saúde, sobretudo em mulheres e nos idosos2. Dessa forma, torna-se importante discutir a segurança deste tipo de exercício físico para indivíduos hipertensos.

As respostas cardiovasculares aos exercícios resistidos foram pouco estudadas. No entanto, os estudos existentes relatam aumentos expressivos das pressões arteriais sistólica, e diastólica durante a sua execução15, e os valores máximos

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Autor População Intensidade Duração Freqüência Resultado da PA (mmHg) % de 1RMsemanalsemanal(95% dos limites de confiança)

Harris e HollyHTCircuito 40%93PAS = +0,9 (-8,7 a 10,5) 1987PAD = -2,5 (-10,0 a 5,0)

Cononie et al.HTDinâmico263PAS = -3,0 (-16,2 a 10,2) 199172-79%PAD = 0,0 (-14,7 a 14,7)

Blumenthal et al.HTNão relata162PAS = +2,0 (-4,1 a 8,1) 1991PAD = -1,0 (-4,4 a 2,4)

Cononie et al.NTDinâmico263PAS = -3,0 (-1,9 a 5,9) 199172-79%PAD = -4,0 (-12,5 a 4,5)

Katz e WilsonNTCircuito 30%63PAS = -7,1 (-15,7 a 1,5) 1992PAD = -5,1 (-10,9 a 0,7)

Wiley et al.NTEstático 30%83PAS = -15,3 (-2,5 a –8,1) 1992PAD = -16,5 (-24,6 a –8,4)

DinâmicoPAS = -9,5 (+2,4 a 3,4) 75-85%PAD = -6,3 (-14,1 a 1,5)

Wood et al.NTDinâmico123PAS = -1,2 (-24,2 a 21,8) 200172-79%PAD = -4,5 (-15,8 a 6,8)

Dinâmico 80%PAS = -2,3 (-1,2 a 6,6) PAD = -4,0 (-10,6 a 2,6)

Efeitos da meta-análise:

Ponderada pelo nPAS=- 3.2 (-7,1 a +0,7) p = 0,10 PAD=- 3,5 (-6,1 a –0,9) p < 0,01

Ponderada por 1/σPAS=-6,0(-10,4 a –1,6) p < 0,01 PAD=-4,7 (-8,1 a –1,4) p < 0,01

HT – hipertensos; NT – normotensos; PA – pressão arterial; PAS – pressão arterial sistólica; PAD – pressão arterial diastólica

Autor PAS PAD

Blumenthal et al. 1991Sem diferença significanteSem diferença significante Cononie et al., 1991Sem diferença significanteSem diferença significante Harris e Holly, 1987Sem diferença significanteDiminuição de 4 mmHg Van Hoof et al., 1996Sem diferença significanteSem diferença significante

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variam muito como se observa na Tabela 3. Vários fatores podem explicar essa grande variação de resultados, sendo os principais: a intensidade do exercício; o número de repetições, atingir ou não a fadiga concêntrica e, principalmente, a técnica da medida de pressão arterial.

Em relação à intensidade, alguns autores16 têm demonstrado que, para o mesmo número de repetições, quanto maior for a intensidade, maior é o aumento da pressão arterial. Da mesma forma, ao longo de uma série de exercícios, mesmo que a intensidade seja mantida, à medida que as repetições vão sendo realizadas, a pressão arterial vai se elevando, e os maiores picos de pressão arterial são atingidos próximo à fadiga concêntrica17,18. Assim, se exercícios de diferentes intensidades forem realizados até a fadiga concêntrica, valores máximos semelhantes de pressão arterial serão atingidos18.

Em relação à forma da medida da pressão arterial, Wiecek et al.17 demonstraram que a medida indireta auscultatória da pressão arterial, realizada imediatamente após a finalização do exercício resistido, subestima em mais de 30% os valores reais obtidos durante o exercício e, mesmo quando a medida é realizada durante a execução do exercício em um membro passivo, os valores são subestimados em mais de 15%.

Esses são resultados bastante relevantes do ponto de vista clínico, visto que alguns podem pensar que para controlar o aumento da pressão arterial durante o exercício resistido, basta medir essa pressão e interromper o exercício caso ela aumente muito. Porém, os resultados anteriores demonstram que isso não pode ser feito, pois não existem métodos não invasivos de medida da pressão arterial validados para esse exercício.

Diante do exposto, os exercícios resistidos podem representar uma situação de risco para hipertensos, devido ao fato de promoverem grandes aumentos da pressão arterial. Esse risco pode ser minimizado com a realização de exercícios de baixa intensidade e interrompendo-se o exercício antes da fadiga concêntrica, ou seja, quando a velocidade do movimento começa a diminuir e nota-se, no executante, a tendência à realização da manobra de Valsalva. Porém, esse risco não pode ser evitado ou controlado, pois não é possível medir, com técnicas não-invasivas, a pressão arterial durante o exercício.

AutorCasuísticaExercícioMedida da PressãoResposta Máxima Arterial (mmHg)

Harris & Holly, 1987Hipertensos40% de 1RMAuscultatóriaPAS: 155 ± 12

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