AF, deficiência e inclusão - volume V

AF, deficiência e inclusão - volume V

(Parte 1 de 4)

Eliana Lucia Ferreira (organizadora)

AtividAde FísicA, deFiciênciA e inclusão escolAr volume 5

Niterói Intertexto 2010

© 2010 by Eliana Lucia Ferreira (organizadora).

Direitos desta edição reservados à Secretaria de Educação Especial/SEESP/MEC. e à Intertexto Editora e Consultoria Ltda.

Capa: Camilla Pinheiro

Ilustrações: Leonardo Fortes de Paiva e Rose Mary Pinto Valverde de Carvalho Projeto gráfico, diagramação e editoração: Camilla Pinheiro

Revisão: Juliana Machado de Britto

Os textos são de responsabilidade total de seus autores.

SEESP/MEC 2010

FAEFID – Faculdade de Educação Física e Desportos

Campus Universitário da UFJF Bairro Martelos – CEP 36036-900 – Juiz de Fora, MG

Distribuição gratuita

Reitor

Henrique duque de Miranda chaves Filho

Vice-Reitor José luiz rezende Pereira

Pró-Reitor de Pós-graduação luiz carlos Ferreira de Andrade

Centro de Educação a Distância (CEaD) Flávio iassuo takakura

Faculdade de Educação Física

Diretora edna ribeiro Hernandez Martim

Grupo de Pesquisa em Atividade

Física para Pessoas com Deficiência e Análise do Discurso (GPAFA) eliana lucia Ferreira

A872 Atividade física, deficiência e inclusão escolar
/ Eliana Lucia Ferreira (organizadora). ─ Ni-
terói : Intertexto, 2010
167 p. : il. ; 21 cm. ─ (Inclusão e deficiên-
cia ; v. 5)
Inclui bibliografias
ISBN 978-85-7964-011-7
1. Esportes para deficientes físicos. 2. De-
ficientes físicos – Reabilitação. I. Ferreira,
Eliana Lucia. I. Título. II. Série

Dados internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) CDD 796.109 suMÁrio

PreFÁcio 7

APresentAÇão 1 dAnÇA eM cAdeirA de rodAs 15 Eliana lucia FErrEira

1 dAnÇA eM cAdeirA de rodAs 17 2 dAnÇA ArtísticA eM cAdeirA de rodAs 19 3 ProPostA MetodolÓGicA de dAnÇA ArtísticA eM cAdeirA de rodAs 21 3.1 PROPOSta DE DESENVOLVIMENtO Da DaNça EM

CaDEIRa DE RODaS 26 3.2 OBJEtIVOS Da DaNça EM CaDEIRa DE RODaS 37 4 ProPostA de AtividAdes PrÁticAs PArA o desenvolviMento dA dAnÇA eM cAdeirA de rodAs 4 4.1 O MOVIMENtO DO CORPO 62 4.2 SuGEStão DE MontAGEM CoREoGRáFICA 6 5 dAnÇA esPortivA eM cAdeirA de rodAs 72 5.1 ESPECIFICIDaDES Da DECR 74 5.1.1 controle da cadeira de rodas 75 5.1.2 controle corporal 7

5.1.3 ocupação de espaço 81 6 reAliZAÇão de PAssos BÁsicos de cAdA estilo de dAnÇA: FiGurAs cArActerísticAs de cAdA estilo de dAnÇA 83 6.1 CaRaCtERíStICaS DaS DaNçaS LatINaS 84 6.2 AlGuMAS ConSIDERAçõES SoBRE A ClASSIFICAção

FunCIonAl 131 6.3 AlGuMAS ConSIDERAçõES SoBRE A ARBItRAGEM 133 6.4 MoVIMEntoS ConSIDERADoS FAltAS téCnICAS 137 7 considerAÇÕes FinAis 138 reFerênciAs 140 dAnÇA esPortivA eM cAdeirA de rodAs no BrAsil 143 MichEllE alinE BarrEto Eliana lucia FErrEira

5 iv cAMPeonAto BrAsileiro de dAnÇA esPortivA eM cAdeirA de rodAs (JuiZ de FORA/MG – 26 DE NOVEMBRO DE 2005) 157 6 v cAMPeonAto BrAsileiro de dAnÇA esPortivA eM cAdeirA de rodAs (PIRACICABA/SP – 17 DE JUNHO DE 2006) 158 7 vi cAMPeonAto BrAsileiro de dAnÇA esPortivA eM cAdeirA de rodAs (João PESSOA/PB – 17 DE NOVEMBRO DE 2007) 160 8 vii cAMPeonAto BrAsileiro de dAnÇA esPortivA eM cAdeirA de rodAs (sAntos/sP – 19 DE JULHO DE 2008) 162 9 viii cAMPeonAto BrAsileiro de dAnÇA esPortivA eM cAdeirA de rodAs (JuiZ de FORA/MG – EM 12 DE DEZEMBRO DE 2009) 164 10 iX cAMPeonAto BrAsileiro de dAnÇA esPortivA eM cAdeirA de rodAs (sAntos/sP – 09 DE JULHO DE 2010) 165 1 conclusão 166 reFerênciAs 167

PreFÁcio

O Ministério da Educação lançou em 2007 o Plano de

Desenvolvimento da Educação – PDE (Decreto nº 6.094), que tem como um dos seus eixos norteadores a formação de professores para a educação especial, a implantação de salas de recursos multifuncionais e a acessibilidade das escolas da rede pública de ensino, garantindo condições para o acesso e a permanência dos alunos público alvo da educação especial no ensino regular e a oferta do atendimento educacional especializado.

No âmbito do PDE, a SEESP criou o Programa da Rede de

Formação Continuada de Professores em Educação Especial, na modalidade a distância, com o objetivo de apoiar os sistemas de ensino na implementação da política de formação continuada de professores na educação especial. a perspectiva da educação inclusiva, que contribui no âmbito da união, Estados, Distrito Federal e Municípios, para a construção de projetos pedagógicos que atendam a necessidade de organização das escolas e de desenvolvimento de práticas pedagógicas que respeitem a diversidade humana, consolidando uma educação para todos, em todo o território brasileiro.

Na perspectiva do desenvolvimento inclusivo da escola, que acompanha os avanços do conhecimento acadêmico, das lutas sociais e da própria legislação/política no que tange aos direitos humanos do cidadão, o MEC por meio de sua Secretaria de Educação Especial (SEESP), com o fim de aprofundar as políticas públicas promotoras de uma educação de qualidade para todos, publica a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva no Brasil, em 2008. Dentre outros objetivos desta Política está a formação de professores para o atendimento educacional especializado e demais professores para as práticas pedagógicas no contexto da inclusão escolar.

Sendo assim, a Rede de Formação Continuada de Professores em Educação Especial promove a oferta de cursos gratuitos de formação continuada (níveis de extensão, aperfeiçoamento e de especialização lato sensu), na modalidade a distância, na área da Educação Especial, no âmbito da universidade Aberta do Brasil – uAB, para os professores da rede pública de educação básica ofertados por Instituições Públicas de Ensino Superior integradas ao apoio efetivo das Secretarias de Educação Municipal, Estadual e do Distrito Federal.

Para implementar o Programa da Rede de Formação

Continuada de Professores em Educação Especial, na modalidade a distância, a SEESP/MEC utilizou-se de Editais com chamadas públicas, do Plano de Ações Articuladas – PAR e a partir de 2009, da Plataforma Freire. Estes mecanismos possibilitam que gestores e educadores possam ter acesso a oferta de cursos e que as instituições de educação superior organizem suas turmas, promovendo cursos de formação continuada na área da educação especial.

E foi na primeira Chamada Pública, Editais MEC/SEESP no 2 e 6/2007, que a universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) obteve a aprovação da proposta do Curso de Extensão “Atividade Física para Pessoas com Deficiência Física”. Nesse sentido, desde então a UFJF pertence a Rede e tem sido uma das parceiras e agentes na efetivação de uma política pública de educação inclusiva.

Assim, é com muita satisfação que apresentamos a Série

Inclusão e Deficiência, tendo como título Atividade física, deficiência e inclusão escolar como um dos resultados do trabalho de qualidade desenvolvido pelo grupo de pesquisadores coordenados pela Profa. Dra. Eliana L. Ferreira vinculados ao Curso de Aperfeiçoamento em Atividade Física para Pessoas com Deficiência Física do Programa da Rede de Formação Continuada de Professores em Educação Especial do MEC/SEESP.

Os autores estão de parabéns pela publicação e divulgação dessa Série, que apresenta os volumes de Atividade física, deficiência e inclusão escolar, atendendo aos objetivos da Rede, de fomento a produção de conhecimentos, desenvolvimento e disseminação de metodologias educacionais inovadoras na área da Educação Física inclusiva. Este traba- lho constitui um referencial importante para a formação inicial e continuada dos professores no que se refere às novas práticas de uma educação especial na perspectiva da educação inclusiva.

Claudia Pereira dutra Secretária de Educação Especial do MEC

Maria Medianeira Padoin Professora da Universidade Federal de Santa Maria

APresentAÇão a obtenção da igualdade de oportunidades das pessoas com deficiência passa, necessariamente, pela tomada de consciência de seus direitos sociais e também corporais, assim como das contribuições que a sociedade tende a oferecer.

os estudos têm mostrado que as pessoas com deficiência proclamam uma urgência de experimentar vivências corporais e de sobreviver socialmente. é uma espécie de necessidade, não apenas de encontrar um modelo de vida diferente, mas de buscar a partir do contraste histórico entre deficiência e as propostas de inclusão, uma identidade mais definida, isto é, uma nova forma de organização para o que já existe.

na área da Educação Física, entre outros avanços, um importante passo para a efetivação dessas conquistas tem ocorrido nas escolas através do desenvolvimento de atividades físicas inclusivas que estão cada vez mais presentes.

Sendo assim, a publicação desta série Inclusão e Deficiência ora proposta, destina-se a orientar professores de Educação Física que estão na busca de uma sociedade mais justa e consequentemente mais participativa.

o nosso interesse aqui é intensificar as ações de atividades físicas inclusivas que estão ocorrendo no interior das escolas. Queremos assim, estimular cada vez mais, a participação das pessoas com deficiência nas aulas de Educação Física.

Metodologicamente, a série está dividida em quatro momentos: nos dois primeiros, os autores buscaram discutir sobre a questão da inclusão, mostrando suas especificidades e memórias. Nos momentos seguintes desta série foram construídos tendo como referencial as possibilidades do movimento corporal através de atividades físicas e esportivas. Comum em todos os textos, está o alargamento da compreensão do que é o corpo, do que é a deficiência.

nos textos aqui apresentados, os autores foram além de buscar o entendimento corporal para a melhora de uma técnica de movimento, mostraram as possibilidades e as capacidades expressivas do corpo.

Mas, sabemos que não podemos delimitar os caminhos que as pessoas com deficiência são capazes de percorrer. no entanto acreditamos, como um primeiro passo, que é necessário o compromisso de romper com as barreiras corporais e depois dar a oportunidade a estes indivíduos de decidirem sobre o seu próprio corpo, pois acreditamos que a partir do momento em que as pessoas com deficiência conseguem enfrentar o processo de deficiência, elas elaborarão os seus próprios movimentos.

As propostas, aqui, de atividade física, não abordam sobre as possibilidades de oportunizar o corpo à realização de movimentos corporais, mas de criar tensões que lhe provoquem a necessidade de extravasar o seu corpo real para uma vida social calcada na diversidade corporal/social.

dAnÇA eM cAdeirA de rodAs Profa. Dra. Eliana lucia fErrEira *

1 dAnÇA eM cAdeirA de rodAs a dança em cadeira de rodas pode ser abordada em suas interfaces com outras áreas de conhecimento, podendo ser utilizada, como forma de lazer, educação do movimento, terapia, esporte e como arte. Pode também ser compreendida em diferentes aspectos como sua função social, seu caráter educativo, seu caráter performático, dentre outros. Como produto artístico, resultante de um dado contexto cultural, pode ser interpretada em relação aos seus aspectos ontológicos e epistemológicos pela via antropológica, estética, sociológica, semiótica, tecnológica, dentre outras.

Esta modalidade é um novo modo de compreender o movimento concebendo a dança não apenas como método auxiliar – funcionando como adaptação – mas concernida nela mesma e nos sujeitos que a praticam. Sujeitos que deixam de ser pessoas com dificuldades motoras, do ponto de vista de seu corpo empírico e passam a ser sujeitos afetados pelo simbólico na sua história e parte de uma sociedade como a que vivemos, relacionando-se com seu próprio corpo, atravessado por outros sentidos antes não experimentados. Isso resulta em outras relações sociais que são afetadas por outras maneiras de significar a diferença entre seus sujeitos. o que implica em novas maneiras de significar a própria sociabilidade, pois a dança em cadeira de rodas é embasada na ética da solidariedade.

a arte/dança/esporte em cadeira de rodas assume um caráter plural, estabelecendo interfaces e procurando associar possibilidades de interações corporais e sociais. Com a oportunidade destas experimentações muitos coreógrafos, professores e pesquisadores apresentaram mudanças, adaptaram técnicas, recriaram propostas metodológicas abrindo um novo espaço para as pessoas com deficiência.

os procedimentos sistematizados, ou métodos, que desenvolvem esta modalidade independente de quaisquer diferenças físicas que possam apresentar os dançarinos, vêm transgredindo regras em favor da liberdade de movimentos fazendo o corpo um instrumento tradutor de diferentes ideias e não apenas um mero reprodutor de movimentos.

toda esta disposição para criar e não impor propostas unilaterais de movimento revela o homem e suas interrelações mais abrangentes, não dicotomizado. a dança em cadeira de rodas é, então, uma possibilidade corporal, visto que a deficiência física enquanto estado congresso é um fator que dificulta o movimento, mas não é capaz de impedi-lo.

os procedimentos da dança em cadeira de rodas têm possibilitado diferenciados gestos corporais técnico/criativo, em que o corpo deficiente pressupõe domínio dos movimentos, não com o objetivo principal de demonstração de destreza, qualidades físicas e habilidades motoras, mas, ges- tos compatíveis com a liberdade de criação da arte de nosso tempo, considerando a necessidade da técnica como instrumento ampliador das possibilidades de movimento objetivo e subjetivo.

o desenvolvimento dos trabalhos de dança artística e esportiva tem sido usado como um instrumento que contribui para ser integrado no ambiente de inclusão social.

Nestas duas possibilidades de gesto corporal de dança, há especificidades nos movimentos que separa um do outro. Mas comum a estes dois trabalhos de dança, tem-se um corpo que movimenta e se expressa.

a dança esportiva em cadeira de rodas está solidificada com vocabulário definido e com regras determinadas. Já a dança artística está estruturada de acordo com as subjetividades que a compõem.

2 dAnÇA ArtísticA eM cAdeirA de rodAs

Para falar da dança artística para as pessoas com deficiência, têm-se muitas teorias que reconhecem e embasam a construção de movimentos corporais e a beleza específica de um corpo diferente que dança.

o importante do gesto corporal na dança artística é que um movimento tem o objetivo de desencadear uma sequência de outros movimentos produzindo fluxos de continuidade, que é em suma, produzir o pensamento do corpo. Se o corpo da dança funciona assim, não importa se ele está numa cadeira de rodas ou não. Não importa se ele é diferente ou não. o importante é que cada grupo de dança desenvolva uma técnica de movimento o mais próximo do tipo de linguagem praticada pela cultura local e pelas possibilidades corporais de cada individuo.

Como toda obra de arte, muitas coreografias podem não ser reconhecidas, como um produto artístico, no entanto, os traços desenhados no espaço, mostram um corpo em movimento, que resguarda o direito de realizar o seu possível, que até pouco tempo era tido pelo social, como impossível de se realizar. a dança é um estilo de arte predominantemente visual, por isto, coloca em choque os conceitos que temos enraizados sobre o que é dança e o que é corpo. no entanto, quando se apaga os pré-conceitos, o que mais se afasta deste cenário é o modelo padrão de movimentos.

3 ProPostA MetodolÓGicA de dAnÇA ArtísticA eM cAdeirA de rodAs

Para formar um dançarino que possui uma deficiência física, é necessário ampliar as possibilidades de gestos corporais que garantam a versatilidade necessária a um bailarino contemporâneo, assim desenvolvendo uma técnica própria para o trabalho de dança em cadeira de rodas. é importante ressaltar que a técnica, de uma maneira menos ortodoxa, não se trata de um conjunto de passos estereotipados, mas sim de um meio sistematizado de se chegar a um fim e, se o fim da dança contemporânea é a tradução de idéias ecléticas diversificadas através da criação de movimentos, então a técnica ou o meio deve levar o indivíduo a desenvolver primeiramente o objetivo da criação.

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