Livro Ironia e Argumentação - Jose Manuel Esteves

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Capítulo 2

Ironia, dialéctica, retórica e argumentação – os três mosqueteiros, que afinal também são quatro

La simulation tend à une limite qui est la contradiction. Or toute pensée étant de la nature d’une simulation, il en résulte que toute pensée pressée et poussée à l’êxtreme, dans le sens de sa précision, tend à une contradiction.

Paul Valéry

Simulação e contradição são os dois termos que revestiram sempre a concepção da ironia, quer enquanto tropo linguístico quer enquanto metodologia interrogativa. E foi sempre em torno da conjugação entre ambos que as diversas definições de ironia se organizaram, ao longo de toda a sistematização da filosofia e da retórica. Desde o "piparote"inicial dado na República (47), que a ironia se apresentou mediante esse passe de magia que é o de exprimir a negação, pelo contraste contextual do que afirma. O contexto é determinante, visto que ela introduz um jogo permanente entre o sentido e o não-sentido raiando, aflorando, em função disso, o absurdo e até a contradição oximorizante. Esta dimensão contextualista, presente na linguagem, cria e amplia os sentidos e i i i i i i i i

2 José Manuel Vasconcelos Esteves os significados, problematiza e argumenta, numa direcção sempre precária e, inevitavelmente, interpretativa.

Com toda a propriedade, alguns exemplos, recolhidos avulsamente, podem ser indicadores fiáveis do que se afirma: a) "O homem casado é um quadrúpede."(48) b) "Le supérieur à Itzig, soldat intelligent mais indiscipliné: -Itzig, ta place n’est pas parmi nous. Je te donne un conseil: achète-toi un canon et établistoi à ton propre compte."(49) c) "Noel Coward, escritor e actor inglês, encontrou uma novelista americana, Edna Farber , que usava um fato de homem: "Você quase parece um homem!", disse-lhe ele. "Você também.", respondeu-lhe ela."(50) d) "Je n’ai rien, je dois beaucoup, je donne le reste aux pauvres."Testamento de aristocrata francês. (51)

Nesta estreita relação entre o dito espirituoso, o gracejo humorado, até ao sarcasmo quase cínico, pelos quais sempre se definiu a ironia, numa relação íntima com o humor (52), qualquer destes casos é determinável como ironia por um quadro de referências e de contrastes, mais ou menos explícitos ou implícitos, gerando qualquer deles um aumento retórico de inteligibilidade no dito ou no escrito e, por isso, um empolamento multiplicativo do argumentável.

Apesar do puzzle complexo de ironia da palavra e do pensamento e na misceginação entre os diversos tropos, o que leva à ironia de hipérbole, de perífrase, de alegoria, de sinédoque, etc., até a essa bifurcação, na ironia do pensamento, entre simulatio e dissimulatio, num processo excessivo de entificação, onde se calhar os entes são já meros enteados e exercícios de tédio, todas as formas de ironia são a expressão de uma reversabilidade argumentativa, pela situação de inversão subjacente à linguagem irónica.

A reversabilidade e a inversão são características intrínsecas e maiores da ironia. Através delas, o próprio reverte-se em figurado e este no próprio, numa situação de especularidade invertida, que dissemina uma simultaneidade tópica e lógica entre afirmação e negação, certo e incerto, provável e improvável. Em absoluto, a ironia é a esgrima mais rebuscada de uma estratégia que só é resolúvel na decifração, contextual e probabilística, que indefine e equivale sentidos mas, simultaneamente, insere a necessidade de uma pesquisa interpretativa, que só é determinável em níveis privilegiados de descodificação, isto é, na clarificação de sentidos cruzados e interrelacionados. A reversabi-

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Ironia e Argumentação 23 lidade argumentativa irónica começa por ser o desdobramento de um sentido, em oposição, que transfigura e determina uma teia de sentidos relacionais. Por conseguinte, a ironia, como todos os tropos, é uma lupa que, por leis e feixes retóricos, amplia ao pormenor o sentido do que é enunciado.

É mesmo este estado de contradição, de afirmar pela negação e negar pela afirmação, que faz da ironia o tropo dialéctico (53), e que materializa a complexidade e a relatividade do antagónico, como se com a ironia a linguagem excedesse a fronteira lógica da negação e absurdizasse o princípio da não contradição. Ao fazer isto, a ironia empurra-nos sempre para uma amplitude estratégica que já não encaixa no reducionismo lógico, impondo, ao invés, uma contrastante polemização da enunciação, a qual só tem sentido interpretativo numa aplicação circunstancial e contextual (54), em que fervilha a visão da linguagem como enunciação de problemas, que insuflam volume à linguagem, tridimensionando-a, multidimensionando-a e anulando-lhe , por isso, a platitude procurada, por vezes, pela dita decantação e depuração lógicas. Aliás, a passagem a uma teoria da linguagem argumentativa e retórica pode ser equiparada, sem rebuço de maior, à passagem de uma geometria euclidiana para uma geometria multi-dimensional ou, noutro contexto, a introdução da terceira dimensão pictórica operada como resposta à secura bidimensional da pintura medieval, como se com aquela o etéreo se corporalizasse e mundanizasse.

Em decorrência de tudo isto, e em apertada conotação com a definição de ironia, se há tropo mais especializado na problematização e o que é, pela densidade problemática que contém, mais difícil de interpretar e de contextualizar e ainda o que corre mais riscos de ser obscuro, é, precisamente, a ironia.

Na verdade, a ironia, em vez de pressupor uma semelhança ou valorização de uma parte em relação ao todo, remete para a negação e para uma desidentificação, o contrário do operado na metáfora, o que lhe gera riscos de má interpretação e ambiguidade que são, apesar da sua dimensão negativa, elementos constituintes e necessários à ironia. Enquanto a metáfora é um símil, e por isso expande-se pela assimilação e pela mimetização, a ironia é desconstrutora, criando uma redescrição e refiguração pelo negativo, cuja captação e compreensão exigem um excesso de inteligibilidade descodificadora em comparação com os outros tropos. Em última análise, quase se poderia dizer que a ironia é um tropo que põe em jogo múltiplos códigos de linguagem, o que sempre vincou a sua dificuldade, a sua raridade e, até, as suspeitabilidades e w.livroslabcom.ubi.pt i i i i i i i i

24 José Manuel Vasconcelos Esteves susceptibilidades com que foi encarada ou recebida, provocando disfunções e perigando, pateticamente, a sociabilidade.

Não é de estranhar então, que sendo a ironia um jogo, é um jogo que leva ao limite o próprio conceito de jogo, ao introduzir uma regra suspeita, que se reveste dum estilo próximo do bluff. Em última instância, poder-se-ia dizer que a ironia é, em certa medida, a perda da inocência da linguagem, dessa "virgindade"de uma linguagem que dissesse só o que diz, numa cooptação indescolável, sem diferenciação e problemas e, a contrario, a descoberta da possibilidade da diferença e da cisão da linguagem consigo própria, como se uma máscara invadisse e negasse a frontal nudez do rosto.

É esta descoberta, este jogo alucinado que a ironia introduz, que sempre a transformou num rastilho de pólvora incómodo e sobre o qual, muitas vezes, incidiram palavras condenatórias e o anátema da moral (5). A ironia é o tropo da diferença e da negação e, por consequência, aquele que leva a linguagem ao ponto mais extremo de si mesma, precipitando-a na dificuldade de tornar o sentido próprio na figura negativa de si mesmo. Deste modo, a ironia é o jogo do subentendido, do sub-inteligido, do que só é visível a contra-luz, o que fomenta mal entendidos que obscurantizam o seu reconhecimento.

O jogo de inteligibilidade que a ironia suscita torna-se ainda mais apurado pelo facto dela poder ser exercida por um mero desvio decimal no discurso, quase imperceptível, uma pequena torção, inflexão capaz de perturbar e subverter profundamente; uma infiltração pelo mínimo, capaz de fissurar toda a coesão argumentacional, provocando perplexidade, contradição, controvérsia, paradoxalidade e até mesmo aporia. É esta reduplicação mínima de sentido e de inteligibilidade que faz da ironia um jogo de negação do referente, pois com ela o que é dito, o que é EXPLÍCITO não é mais do que uma pequena "dobra"redobrada do que é IMPLÍCITO.

Toda a ironia é uma mini-dialéctica entre o implícito e o explícito, o dito e o contra-dito, o texto e o contexto, o enunciado e o referente. Numa sequência de análises, e desembocando no problema pretendido, a ironia introduz-nos na contradição, na interrogatividade que aceleram e projectam a inteligibilidade da linguagem. Mais do que um movimento retráctil, uma espécie de cãibra acerada, a ironia é antes a projecção do interrogativo e do problemático e, naturalmente, um tropo que ultrapassa a "leitura"meramente figurativa, para nos instalar no próprio conflito da linguagem e, nesse sentido, como estilo

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Ironia e Argumentação 25 do conflitual, determinar, elevando a parada, formas múltiplas, projectivas e englobantes de racionalidade.

Imbrincado nisto, coloca-se então a questão de saber se a ironia não é por definição a própria negação da figura, a aporia total da linguagem consigo mesma, nesse extremo de, ao atingir a diferença máxima, se aproximar perigosamente de uma descontinuidade radical, oferecendo-se já não como figuração, mas quase desfiguração (56). Desta forma, a ironia é uma espécie de figura-limite, figura da não figura, que a algema a uma negatividade pela qual foi sempre condenada.

Dos pressupostos acima referidos, decorre inevitavelmente a necessidade de desenvolver e explanar alguns dos aspectos que se enunciaram anteriormente, para melhor apreender a variedade de inteligibilidade que a retórica e as suas figuras aditam à linear concepção de uma linguagem desretoricizada. O primeiro ponto a destacar, e dentro do entrelaçado já devidamente referido, é o da ironia como uma infiltração pelo mínimo. Na clareza disto, há que asseverar que entender as figuras retóricas é no fundo dimensionar toda a linguagem e as racionalidades que nela se constróem como a presença de inteligibilidades mínimas, numa aproximação a uma demarcação de problemas cuja formulação não engloba mais do que a sua enunciação e o respectivo uso. Portanto, é dentro de um contexto de pressupostos e regras restritas que se geram conclusões compreensíveis e, destarte, operacionáveis. Este minimalismo não pode ser confundido com um pontualismo e com uma limitação lógica do alcance e do sentido das questões. Bem pelo contrário, ele é a perspectivação de uma globalidade de problemas num contexto demarcado, enveredando-se assim por uma procura de clarificações e compreensões que tragam no seu seio a determinação do que nelas e só nelas é pensável.

Como foi já visto, se a metáfora, devido à sua densidade de identidade, fornece ainda a ilusão óptica de uma expansão é porque ela foi o instrumento retórico e estilístico de uma metafísica, que se envaideceu nas belas e intensas metáforas, espelhos férteis de similitudes, feixe encadeado de tudo querer dizer; ao invés, a ironia, onde o problemático e o interrogativo nunca se anularam ou anestesiaram, como pôde acontecer na metáfora, foi a permanente vigilante e carrasca da grandiosidade e imponência metafórica e racional, talhando e retalhando em sentidos antagónicos e contraditórios e intumescendo de compreensabilidade e inteligibilidade os problemas filosóficos w.livroslabcom.ubi.pt i i i i i i i i

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É por esta característica que a ironia provocou a minimização da racionalidade, empurrando-a inevitavelmente para uma renovação de perspectivas, mais acanhadas, mais escassas, mas ainda assim mais inteligíveis, o que fomentou um pouco a ideia de que a ironia mais do que a arte da guerra seria a arte das escaramuças, da guerrilha. É dentro de um critério de racionalidades mínimas, aplicadas em contextos e circunstâncias específicos, onde há factores determinados, mas instáveis, que a ironia tem o seu habitat: ela não é uma Anti-Razão, uma Des-Razão (57), uma espécie de razão ao contrário, mas é o movimento precário e instável de uma racionalidade que apela permanentemente à clarificação de problemas que assumem contornos, inapelavelmente, entre zonas de sombra e de luz, entre inteligibilidades e ininteligibilidades, embora sempre num campo específico e minimamente determinado e determinável.

De modo evidente, e tendo em conta as questões anteriormente solevadas, a filosofia já não pode ser o pensar muito ou o pensar Mais do que os outros pensares: ela é tão só o pensar entre outros pensares e o configurar de problemas, que não sendo equivalentes e muito menos iguais em relação a outros domínios, são os que a singularizam e a tornam cada vez mais singular no conflito de se pensar como problema. Dizer isto é rejeitar a enfática universalidade, para se aproximar do particular, não como aquilo que é parte ou à parte, mas como o que se determina num contexto de regras próprias e consente uma articulação com problemas filosóficos, cujas premissas, virtualmente enunciáveis, acompanham e nuclearizam a sua própria explanação.

Em sintonia com isto, a ironia, enquanto argumentação contextual produz inteligibilidades complexas, embora singular e minimamente determináveis. A ironia não pode ser uma espécie de solução negativa absoluta para a filosofia, uma ironia global, cósmica ou de destino, capaz de, causticamente, nos conduzir ao nada de todos os nadas dos argumentos e problemas filosóficos, mas tão só a expressão de ironias particulares, habilitadas a suscitar a tensão específica de cada problema e argumento na linguagem filosófica. Isto é conseguido pela relação, sempre de oposição, entre explícito e implícito e pela perfeita e rebuscada forma de implicitação que a ironia põe em campo. Argumentar ironicamente é, sem sombra de dúvidas, implicitar para além do argumento a sua própria negação; é exprimir mais através de diferentes e opostos sentidos no que é enunciado e, por isso, multiplicar os efeitos retóricos pretendidos.

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Em consequência disto, e no horizonte de uma análise retórica e argumentativa da linguagem, há que substituir a relação lógica instituída pela implicação, pela relação argumentacional da implicitação (58). Acresce a isto que o processo irónico da implicitação não sucumbe a uma relação de mero antecedente e consequente, mas desdobra e diverge a relação num sentido de probabilidades, onde se jogam simultaneamente identidades e diferenças, numa graduação de interpretações e validades, cujo sentido só é possível pelo contexto, circunstancial e situacional.

No limite, a implicitação amplia a possibilidade relacional de inteligibilidade e acresce o grau de probabilidade argumentativa, sugestionante e convincente, abrangendo formas de argumentação que ultrapassam e excedem as fronteiras determinadas e militarizadas de uma validade formal e lógica. O critério que sustenta a sua aceitação já não é lógico-demonstrativo, mas retórico, ou seja, gerador de anuências que são, por si próprias, manifestações de uma inteligibilidade e racionalidade que se reconhecem implicitamente nos problemas. Ao invés de uma evidenciação ou de uma demonstração, a implicitação lida, como toda a retórica, com o verosímil (59), numa cadeia de argumentos, cuja textura é indeterminável, o que garante inferências múltiplas e abertas. Na linha disso, implicitar não significa, liminar e estranguladamente, uma inferência particular, uma relação linear logicamente verificável, mas é a abertura a uma complexidade inteligível de relações e associações possíveis e que permanecem virtualmente determináveis, nos múltiplos factores presentes na linguagem, que não é só o organigrama ou o circuito integrado de uma máquina, mas também a abertura diversa às heterogéneas perspectivas dos problemas.

Globalmente, o que diferencia profundamente a implicação lógica da implicitação retórica é que a primeira é exaurível, nas suas determinações do possível, enquanto a segunda é inesgotável nas relações que estabelece e, por isso, comporta uma potencialidade superior do racional e do retórico, uma dimensão alastrante e expansiva, que vai à revelia do sentido redutor e verificador, inerente à lógica.

O que se exprime de implícito e, por conseguinte, na relação de implicitação proporcionada por uma metáfora ou uma ironia, mesmo as mais simples, é de uma densidade de combinações possíveis que aumentam excruciantemente o poder argumentativo e de verosimilhança das mesmas, lidando com relações w.livroslabcom.ubi.pt i i i i i i i i

28 José Manuel Vasconcelos Esteves e associações que não se esgotam numa estrutura lógica, mas só têm foros de cidadania numa perspectiva argumentacional. (60)

Partindo desta base, pode-se afirmar que toda a linguagem é um processo crescente de implicitação, do qual quer os tropos quer os conceitos são nítidos exemplos. A ironia, enquanto argumentativa, é uma forma peculiar e particular de implicitação, visto que é o implicitar o seu contrário, a sua negação, numa cadeia de associações e relações, cuja verosimilhança ou inverosimilhança é determinante.

Inelutavelmente, a ironia, como tropo, lida muitas vezes não com o verosímil, mas com o inverosímil, ou seja, com a incompatibilidade contextual e circunstancial do que é dito. Nos meandros disto, há que reconhecer que esta incompatibilidade é, naturalmente, a base do problema irónico, que se nucleariza na contradição e a sustenta. Desta forma, a ironia distorce o sentido até a um limite insuportável, que causa inverosimilhança, que é o meio de determinar o verosímil que lhe é implícito. (61)

No novelo destas questões, ressalta claramente a pertinência de uma concepção irrestrita do processo de implicitação, que modele a diversidade e a contingência do racional, numa multiplicação das possibilidades do pensável e argumentável. O implícito não é desta forma a sombra e o correlato do explícito, mas é a pluralidade de associações a estabelecer e que medem o próprio explícito, que ganha tão mais sentido plural quanto o que nele se implicita é também a antífona de graus heterogéneos de sentido, cujo desvendamento é determinado pelo efeito retórico no auditório. Toda a linguagem tem efeitos retóricos, não no sentido de um artificialismo rebuscado e enviesado, numa espécie de show off das palavras e dos argumentos, como efeitos especiais, imagem peregrina de uma retórica de salão de beleza (62), cuja futilidade é venial e capitalmente condenável, mas no sentido que nela algo se excede e um novo grau de inteligibilidade e racionalidade se atinge.

É neste ponto, neste cruzamento que a ironia, perplexidade entre o verosímil e o inverosímil, intersecção nítida entre o sentido e o absurdo, entre a certeza e a dúvida, activa todos os processos conducentes à constante problematização filosófica, sem a qual a filosofia cede à nodização de si própria, na contemplação beatífica de um ponto de fuga perdido num horizonte nulo. Por adveniência, a ironia é o que torna incompleto todo o pensável e que desfoca a tentação de uma concepção holística do pensamento. Determinada por aquilo que nega e indeterminada por aquilo que afirma, a argumentação irónica é

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Ironia e Argumentação 29 a que mais nos aproxima da dialéctica, quer dizer, da pluralização dos problemas e da sua perspectivação numa comunidade de interesses ou relações. A dialéctica irónica exprime-se não como uma técnica ou metodologia, mas como uma relação problemática que dá conta, adequada ou inadequadamente, das dificuldades da linguagem, do homem e do mundo. A polemicidade (63) é o espírito fulgurante da ironia, a manifestação constante de uma argumentatividade que lhe é co-natural.

Em consequência disto, poder-se-á falar de uma ruptura problematológica provocada pela ironia, o que se subentende na noção de que a ironia causa dois efeitos fundamentais : por um lado, institui uma nova dimensão e perspectiva sobre o tema, que resulta directamente da tensão e da oposição; por outro lado, prepara a reordenação global do problema, no sentido em que figurando a contradição imprime uma nova inteligibilidade do problema, que advém da abertura a uma nova possibilidade de argumentação e pensabilidade que só é concretizável após a ironização.

Na linhagem destas questões, a ironização (64) é o método, instável e assistemático, de simulação de todos os possíveis, na formulação do hipotético, que é percorrido na contingência implícita à hipótese, que não é mais do que uma simulação do possível (65), o que nos aproxima fortemente da análise do verosímil, como uma possibilidade e hipótese de validade e veracidade. Deste modo, a linguagem, e aqui deve residir a perspectiva retórica da mesma, é uma formulação do hipotético, sendo este a convergência entre o possível e a simulação. Esta convergência não nos empurra cegamente para uma teoria da representação, como de imediato e com excessiva pressa se poderia ilacionar a partir da ideia de simulação, que está conotada com uma mediação e representação, com um desdobramento entre real e aparente, entre mundo e linguagem mas, bem pelo contrário, provoca-nos e convoca-nos a uma unidade inteligível entre mundo, homem e linguagem, como simulação permanente do possível, através do qual se alarga a compreensão de um e de outro que é, afinal, a mesma.

Radicar-se a linguagem, e todas as formas de racionalidade, na simulação fará, com certeza, despoletar todo um coro trágico de vozes, esgrimindo o problema da autenticidade face à inautenticidade, no brilho divino e na sombra demoníaca de uma consciência juíza de si mesma. No entanto, este coro açulado de protestos só tem actuação pela ideia de um dualismo fatal, que faz da linguagem uma forma secundária da presença do homem perante si mesmo e w.livroslabcom.ubi.pt i i i i i i i i

30 José Manuel Vasconcelos Esteves o mundo. Esta dualidade, tipificável na maioria das filosofias da consciência, esbate-se de imediato se se conceber a partir de uma unidade a linguagem, o homem e o mundo e em que cada um é uma construção e uma simulação dessa unidade. Assim, e sem sobressaltos e pesadelos, a simulação é a própria possibilidade dessa unidade e toda a linguagem realiza essa simulação, na materialização de hipóteses verosímeis e prováveis, que clarificam a nossa intelecção dos problemas e a nossa auto-compreensão.

Interligada aos quesitos anteriores, a ironia, a par de todos os tropos, intensifica brutalmente a possibilidade da negação ou do inverosímil, como um limite não manietante e esfaqueante da inteligibilidade, mas como exigência de uma contingência, passe a contradictio in terminis , que dinamiza e multiplica a compreensão racional do homem.

Ao contrário do célebre hypotheses non fingo, a simulação irónica, metafórica ou outra é a expressão do hypotheses fingo , onde a linguagem é a existência de uma realidade virtual, cujo sentido só é inteligível no jogo de virtualmente o expressarmos: mais do que isto é postular a essencialidade de algo, para o qual estaríamos, em definitivo, desarmados e incapazes de lhe acedermos.

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