defencivos e legislação

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Formigas cortadeiras

Acadêmico: Marcelo G. Madalosso

1. As formigas cortadeiras são assim chamadas por cortarem folhas e outras partes de diferentes vegetais a fim de garantirem a sua sobrevivência. O material cortado é introduzido em um ninho e fornecerá um substrato para o desenvolvimento de um fungo que servirá de alimento para a formiga. Desta maneira, as formigas cortadeiras têm grande importância, pois são as responsáveis por prejuízos de grande monta na agricultura brasileira.

2. As formigas cortadeiras são encontradas nas Américas com exceção do Chile. Das 17 espécies e sub-espécies de saúvas existentes, 12 ocorrem no Brasil [Atta capiguara (saúva parda), Atta sexdens (saúva limão), Atta bisphaerica saúva mata-pasto, Atta laevigata (saúva cabeça de vidro), Atta robusta (saúva preta), Atta silvai e Atta vollenweideri]. No Rio Grande do Sul são encontradas: Atta sexdens e Atta vollenweiden.

3. A população dos formigueiros é composta por indivíduos que se diferenciam morfologicamente de acordo com os trabalhos que executam, constituindo as seguintes castas:

Castas temporárias = sexuadas e aladas:

* içãs ou tanajuras (fêmeas reprodutoras).

* bitus (machos).

Castas permanentes = ápteras:

* rainha (sexuada)

* operárias (são maioria, responsáveis pelo alimento na colônia), divididas pelo tamanho em: soldados (grandes – responsáveis pela defesa da colônia), cortadeiras ou carregadeiras (médias – responsáveis pelo corte e transporte das partes vegetais) e jardineiras (pequenas – trituram as folhas, arranjam-nas nas panelas e, sobre este material, cultivam o fungo).

4. As operárias da saúva alimentam-se basicamente da seiva que as plantas liberam enquanto estão sendo cortadas. Pedaços de material vegetal são levados até o formigueiro onde existe um fungo que as formigas cultivam. As operárias então picam em pequeninos pedaços o material vegetal e o inserem no meio do fungo, que vive deste substrato. Envoltas neste fungo são encontradas as larvas que dele se alimentam.

5. Atta sexdens piriventris: chamada “saúva limão sulina” ocorre no sul do PR, parte de SP e RS.

As saúvas limão sulina apresentam formigueiros formados por dezenas ou centenas de câmaras subterrâneas ligadas entre si e com a superfície do solo, por meio de galerias; no exterior caracterizam-se principalmente por apresentarem um monte de terra solta formado pelo acúmulo de terra extraída das câmaras ou panelas.

As numerosas aberturas na superfície externa denominam-se olheiros, que se localizam em funis ou pequenos vulcões.

Na parte interna do formigueiro existem panelas, que são de pelo menos quatro tipos: as “panelas vivas” (que contém a cultura do fungo); as “panelas de lixo”(utilizadas para o descarregamento de resíduos de vegetal esgotado, fungo exaurido e cadáveres de formigas); as “panelas vazias” (nada contém) e as “panelas de terra” (apresentam terra solta em seu interior e são raramente encontradas por ocasião da escavação de sauveiros. Essas panelas são interligadas por meio de canais curtos que se comunicam com outros canais de maiores diâmetros e, finalmente, estes últimos se abrem para o exterior, nos olheiros). Atta vollenweideri: ocupa uma pequena área do RS (Uruguaiana) e MT (Porto Murtinho). É denomina de “formiga isaú”, na Argentina e Paraguai.

Os sauveiros dessa espécie são construídos geralmente em locais sombreados e têm características próprias. O monte de terra solta pode atingir grandes proporções, sendo que os olheiros se abrem na parte superior do “murundum”, protegidos por uma aba que impede a entrada de águas das chuvas; seus carreiros estão distribuídos radialmente, partindo do monte de terra solta.

Quanto a sua estrutura interna, verificou-se que suas panelas assemelham-se em parte com as da A. capiguara, diferindo desta por possuírem todas as panelas situadas sob o “murundum”. Mas, a panela de lixo, é bastante semelhante a da A. capiguara.

Atacam gramíneas e dicotiledôneas.

6. Os ninhos das saúvas são, na maioria das vezes, de fácil visualização. Encontram-se sempre no solo e são formados por montes de terra solta. Sobre estes montes e fora deles podem ser observados vários orifícios, denominados olheiros, por onde as formigas têm acesso ao interior do ninho.

Atta capiguara: esta espécie faz o “murundum” fora da projeção das panelas ativas, enquanto que nas demais o monte de terra fica sob as panelas de fungo.

A parte externa e os olheiros são semelhantes aos da A. sexdens rubropilosa, pois se apresentam em forma de funil no monte de terra fofa, porém maiores, com abertura mais alongada e menos numerosos. Essas diferenças dificultam seu controle, pois os métodos usuais de aplicação de formicidas não funcionam para esta espécie.

Atta laevigatta: apresentam os ninhos semelhantes aos da A. sexdens rubropilosa, porém com menos número de olheiros, localizados no centro das crateras mais ou menos largas e mais baixas, às vezes, rodeados de gravetos secos.

Atta bisphaerica: apresentam sauveiros com monte de terra fofa, porém sem crateras, com olheiros de aberturas estreitas na sua superfície.

Atta cephalotes: o sauveiro dessa espécie é encontrado geralmente em sombras de árvores, em locais úmidos; formam elevações de terra, de aproximadamente, 1m de altura por 2 a 10m de diâmetro, porém, de pouca profundidade, pois em sua região o lençol d’água está sempre próximo ao nível do solo.

Atta opaciceps: os sauveiros dessa espécie, quando novos assemelham-se aos da A. sexdens, porém, os mais velhos apresentam olheiros de diâmetros bem grandes.

Atta vollenweideri: os sauveiros são construídos geralmente em locais sombreados e têm características próprias. O monte de terra solta pode atingir grandes proporções, sendo que os olheiros se abrem na parte superior do “murundum”, protegidos por uma aba que impede a entrada de águas das chuvas; seus carreiros estão distribuídos radialmente, partindo do monte de terra solta.

Atta robusta: constrói formigueiros pouco profundos e mais espalhados que os da “saúva limão”. Ocorrem, às vezes, panelas construídas na terra fofa acima do nível do solo. Neste caso, a terra solta adquire forma cônica atingindo mais de 1m de altura.

7. Os formigueiros do gênero Acromyrmex são pequenos e geralmente constituídos de poucas panelas.

Acromyrmex niger (“quenquém mineira de duas cores”) constrói formigueiros com uma única panela, de difícil localização com galerias longas e sinuosas, atingindo, às vezes, mais de 15m de extensão; a abertura do orifício é pequena e quase imperceptível. As panelas podem chegar a atingir um volume superior a 250l de capacidade e a terra escavada é distribuída de tal modo que não há formação de montículos na superfície.

A. landolti balzani (“formiga de raspa ou boca de capim”) constrói o seu formigueiro com 2 ou 3 panelas pequenas, superpostas e ligadas por uma galeria vertical. Essa galeria é guarnecida por um tubo de palha com uma ou várias saídas.

A. disciger (“quenquém mirim”) constrói o seu formigueiro coberto de palha ou mistura de terra e palha, pouco saliente, medindo de 25 a 60cm de diâmetro, ficando parcialmente enterrado.

A. subterraneus (“formiga caiapó”) constrói ninhos relativamente grandes e bastante populosos. São facilmente identificados porque acumulam a terra escavada formando um monte de terra fofa, que pode atingir 2 m de diâmetro, com diversos olheiros localizados no fundo das crateras.

A. crassispinus (“quenquém do cisco”) constrói o seu formigueiro sob um monte de palha, com 30 a 60cm de altura e 50 a 80cm de diâmetro.

A. rugosus rugosus constrói o ninho subterrâneo, depositando a terra escavada na superfície, formando montes.

A. coronatus (“quenquém de árvore”) constrói o ninho sob troncos de árvores, com fragmentos de folhas secas, gravetos ou outros resíduos vegetais, com formato oblongo.

Saúvas: os ninhos das saúvas são, na maioria das vezes, de fácil visualização. Encontram-se sempre no solo e são formados por montes de terra solta. Sobre estes montes e fora deles podem ser observados vários orifícios, denominados olheiros, por onde as formigas têm acesso ao interior do ninho.

8. O fenômeno da revoada ou vôo nupcial no formigueiro caracteriza-se pela liberação de grande número de forma aladas de machos e fêmeas que voarão juntos e se acasalarão no ar. Isso promove um intercruzamento, em razão do sincronismo entre machos e fêmeas virgens de mesma espécie de diferentes colônias, favorecendo o aumento da combinação gênica promovendo dispersão a longa distância.

Não se conhece exatamente o mecanismo que dispara a revoada, entretanto, esta só ocorre sob condições climáticas propícias e que garante à nova rainha sucesso na escavação do ninho.

A formação do formigueiro se realiza, geralmente, no período de outubro a dezembro; após o acasalamento, que se verifica no ar, o bitu e a içá caem, sendo que o macho morre imediatamente após a queda.

Os bitus fazem uma nuvem de atração sexual (NAS), acerca de 100m de altura, que provavelmente, devido à liberação de ferormônios, atraem as içás para cópula em pleno vôo. A fêmea fecundada livra-se das asas e inicia a construção no solo do ninho.

9. Uma colônia de formigas começa, em geral, quando uma rainha, isto é, uma fêmea alada que acabou de realizar o vôo nupcial em que foi fecundada por um ou mais machos, desce a terra, perde as asas e encontra um abrigo ou escava uma câmara.

Neste local protegido, que chamamos ninho (e que não precisa necessariamente ser uma estrutura construída pela(s) formiga(s), mas pode, por exemplo ser uma câmara que já existia sob uma pedra), a rainha começa a colocar ovos, dos quais após certo período, emergem as larvas.

A fase larval é quando as formigas crescem e as larvas devem, portanto, ser continuamente alimentadas.

A rainha pode procurar alimento fora do ninho ou regurgitar sua musculatura ligada às asas liquefeita, que jamais será utilizada de novo. Neste período inicial a rainha é responsável por todas as tarefas da colônia, não só a alimentação das larvas e dela mesma, mas a manutenção do ninho e defesa da colônia.

Com a eclosão das primeiras operarias a rainha deixa de fazer a maioria dos comportamentos necessários para a manutenção do ninho e desenvolvimento da colônia e passa a apenas botar ovos e a limpar-se, enquanto as operárias fazem as outras tarefas, inclusive alimentar a rainha. A colônia passa por um período de crescimento tanto em população quanto no ninho que ocupa e na área em que forrageia.

A fase de crescimento colonial pode demorar alguns anos e a colônia pode atingir um número expressivo de indivíduos, às vezes até alguns milhões convivendo ao mesmo tempo.

Após um certo tempo, que varia de espécie para espécie, mas em geral demora alguns anos, a colônia produz a primeira geração de sexuados, isto é, machos e fêmeas aladas. Em geral os sexuados produzidos pelas colônias de uma mesma região voam no mesmo dia e hora, aumentando as chances de que se encontrem no vôo nupcial e fechem o ciclo.

Em geral os sexuados produzidos pelas colônias de uma mesma região voam no mesmo dia e hora, aumentando as chances de se encontrarem no vôo nupcial e fecharem o ciclo.

10. Em razão de sua importância econômica, as formigas cortadeiras têm sido alvo das mais diversas tentativas de controle que incluem desde receitas caseiras até recursos de alta tecnologia, tudo isso sem grandes sucessos. Ressalta-se que há pouquíssimos trabalhos que determinam níveis de dano econômicos para essas formigas.

Deste modo, não se sabe as quantidades de inseticidas aplicados para o controle dessa praga. Se elas estão superestimadas ou se os critérios adotados são adequados.

Independente do método utilizado para controle das formigas cortadeiras deve-se tomar medidas especiais para que esse seja eficiente, já que cifras consideráveis poderiam ser economizadas se o controle fosse embasado nas estimativas apresentadas por estudiosos do assunto, podendo-se talvez, tolerar certa densidade de ninhos que não provocassem prejuízos reais.

11. A tentativa de controle das formigas cortadeiras vem de antigamente. Primeiramente, tentou-se eliminar o problema com receitas caseiras, que passava de geração em geração sem sucesso. Após, com controle mecânico e cultural como a escavação do formigueiro, a aração, o uso de culturas-armadilhas, etc.

Já nas décadas de 60/70 começou a ser utilizado o controle químico, com uma série de produtos químicos como gases liquefeitos, líquidos termonebulizáveis e iscas granuladas.

Mais atualmente, tem-se o uso de variedades de plantas mais resistentes às formigas, assim como a utilização de controle biológico, ferormônios, substâncias psicotrópicas e juvenóides, estes últimos em menor escala.

12. O brometo de metila é um formicida fumigante, não inflamável e não explosivo. É comercializado sob a forma de um líquido em embalagens resistentes a altas pressões. Por ser muito tóxico ao homem (o contato prolongado com o gás pode causar sérias queimaduras), sua formulação inclui 2% de cloropicrina, que causa irritação nos olhos e nariz do aplicador. Assim, sua presença é detectada, já que é inodoro e incolor.

A utilização do brometo de metila dispensa o emprego de equipamentos mecânicos de aplicação. Entretanto, é um processo de alto custo, em razão do preço do produto, além de sua aplicação envolver maiores custos com a mão-de-obra.

A termonebulização consiste em se introduzir, através dos olheiros, um inseticida que produz fumaça tóxica dentro do formigueiro. O método implica a atomização, por intermédio do calor de um formicida veiculado em óleo diesel ou mineral, utilizando-se equipamentos denominados termonebulizadores. Apresenta grandes desvantagens operacional e econômica, pois requer o transporte e a manutenção de equipamentos e formulação especial do inseticida.

Um aspecto positivo de ambos os métodos, quando empregados com sucesso, é a paralisação rápida das atividades de corte e transporte nos formigueiros, o que se torna importante em áreas recém plantadas de reflorestamentos, por exemplo.

O fungicida Bunema 330CS (Sódio N-metilditiocarbonato 330g/l , solução concentrada) apresentou ação fumigante e promissor no controle de Atta sexdens rubropilosa e Atta capiguara, porém a quantidade de água necessária para a sua aplicação torna-o inviável em áreas extensas e em períodos de seca.

O emprego de iscas granuladas, principalmente através de porta-iscas e micro porta-iscas (embalagens plásticas contendo iscas) é o método de combate mais eficiente, econômico e prático do mercado, atualmente.

A isca granulada eficiente e mais econômica deve ser atrativa às formigas, de modo que sejam transportadas para o interior dos ninhos; deve conter um inseticida altamente específico e de toxicidade tal que se manifeste em toda a colônia após sua introdução. Além disso, essa toxicidade a mamíferos tem que ser baixa, porém deve mostrar-se resistente à umidade, chuvas e temperatura, apesar de ser biodegradável.

A utilização da isca granulada Mirex contendo 0,45% de ingrediente ativo (dodecacloro), 8,5% de óleo de soja, como atraente efetivo e 91,05% de poupa de citros como veículo foi a melhor opção até janeiro de 1993, tendo existido várias marcas comerciais no mercado, com características semelhantes e o mesmo princípio ativo. Entretanto, apesar dessas iscas terem constituído os únicos meios de controle em grande escala, seu princípio ativo, o dodecacloro, já era proibido em quase todo mundo. Em razão da sua alta solubilidade em lipídios, os clorados tendem a se acumular nos tecidos dos animais e das plantas. São pesticidas altamente persistentes e estáveis no ambiente e sua movimentação no ecossistema é afetada pelas águas das enxurradas e pelo vento. Além disso, os clorados são citados como responsáveis, em longo prazo, por efeitos mutagênicos, teratogênicos e carcinogênicos.

As aplicações requerem o uso dos porta-iscas, que são distribuídas via trator, a lanço, etc., para que as formigas cortadeiras entrem em contato com as unidades confeccionadas em sacos plásticos, de onde retiram os grânulos e os transportam para o interior da colônia.

Já os inibidores de quitina, o diflubenzuron, comercializado com o nome de Formilin®, tem menor impacto ambiental, pois inibe o desenvolvimento do fungo simbiótico, não atuando diretamente sobre as formigas.

A isca Relux®, cujo ingrediente ativo é o cobre, teve seu desenvolvimento paralisado por problemas de inconstância em sua eficiência.

O Finitron® (sufluramida – N-etilperfluorooctano sulfonamida, que é uma sulfonamida fluooroalifática), e o Amdro® apresentaram resultados comparáveis ou superiores ao do Mirex®, em termos de aceitação e eficiência para A. texana. As iscas à base de sufloramida foram superiores ou equivalentes ao Mirex®, quanto à aceitação por A. sexdens rubropilosa, A. laevigata e Acromyrmex subterraneus subterraneus.

Também, encontram-se disponíveis as iscas granuladas Lakree® à base de clorpirifós, registradas para o controle de A. capiguara, na dose de 10g/m2 de terra solta no formigueiro, equivalente a 12,5mg de ingrediente ativo.

Carbosulfan e Terbufós, comercializados como formulação suSCon®, forma testados para proteção de mudas de eucaliptos, roseiras e citros, tentando se evitar, assim, o corte pelas formigas, entretanto, os resultados foram desencorajadores.

Além desses, produtos à base de vegetais repelentes ou tóxicos como sementes de girassol, capim braquiarão e outras espécies poderão via a ser investigados e utilizados sem grandes problemas.

13. A área da sede aparente de um sauveiro é obtida através do cálculo da área de terra solta dos formigueiros. Esta área é formada pelas medidas do maior comprimento vezes a maior largura dos conjuntos de “murunduns” (montes de terra solta) dos sauveiros.

14. Um formigueiro fica amuado quando o controle é feito de forma inadequada, permitindo a sobrevivência de parte da colônia.

Por exemplo: Se a dose de isca formicida aplicada foi insuficiente para eliminar o formigueiro, ou mal distribuída, ignorando uma parte da área menos evidente do formigueiro, ou ainda, se o horário de aplicação não foi observado e houve pouco tempo para um carregamento satisfatório antes da interrupção da atividade de coleta das formigas.

Percebe-se que um formigueiro está amuado quando ele rejeita uma isca formicida que você já tenha usado com sucesso. Essa rejeição pode ser imediata ou ocorrer alguns minutos após o início da coleta, através da devolução das iscas.

O formigueiro poderá ficar resistente a esse tipo de controle por aproximadamente três meses, que é o tempo médio de vida das operárias.

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