Cana Orgânica

Cana Orgânica

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José Roberto Miranda; Ligia Maria de Avellar

RESUMO Há mais de vinte anos, pesquisadores da Embrapa Monitoramento por Satélite vêm desenvolvendo métodos para avaliação da biodiversidade em sistemas agrícolas, com ênfase no estudo da vegetação e da fauna de vertebrados terrestres selvagens. Desde 1990, a equipe de pesquisadores acompanha a conversão para a agricultura orgânica e o manejo agroecológico em diversas propriedades rurais, inclusive na produção de canade-açúcar. Em um desses estudos de caso (Usina São Francisco, São Paulo), a riqueza e a diversidade faunísticas detectadas foram excepcionais: entre 2002 e 2008, foram realizados 1.474 levantamentos zooecológicos, visando os vertebrados terrestres selvagens, sendo detectadas e identificadas pelos especialistas 312 espécies. Os resultados obtidos permitiram uma descrição qualitativa e quantitativa da biodiversidade faunística nos diversos habitats existentes nas fazendas da propriedade. Este trabalho apresenta considerações sobre a qualidade, em termos de espécies presentes, da biodiversidade de vertebrados observada durante a pesquisa e o desenvolvimento de um protocolo metodológico para esse tipo de abordagem.

Palavras-chave: biodiversidade; povoamentos faunísticos; cana-de-açúcar; agricultura orgânica; espécies ameaçadas; sensoriamento remoto.

José Roberto Miranda; Ligia Maria de AvellarINTERFACEHS

Sistemas agrícolas sustentáveis e biodiversidade faunística: O caso da cana orgânica em manejo agroecológico

A presença da fauna selvagem em áreas agrícolas é um fato ainda pouco estudado. Na busca da conservação de espécies selvagens, a prioridade tem sido dirigida no sentido da preservação de remanescentes de ecossistemas naturais (florestas, cerrados, matas de galeria etc.) ou mesmo da sua reconstituição. Pouca atenção tem sido dada ao efetivo papel das propriedades agrícolas na manutenção da biodiversidade animal (GLIESSMAN, 2001). Naquelas em que se pratica o cultivo orgânico e o manejo agroecológico, espera-se encontrar uma biodiversidade ampliada (BEECHER et al., 2002).

As populações de espécies vegetais e animais nos agroecossistemas tropicais variam em função do uso e da ocupação das terras, da estabilidade temporal e espacial dos sistemas de produção, da natureza e da repartição espacial dos remanescentes de vegetação natural e da disponibilidade de recursos hídricos (SUÁREZ-SEOANE, OSBORNE & BAUDRY, 2002). A evolução da biodiversidade em áreas agrícolas tropicais brasileiras tem uma dimensão histórica relativamente recente e bem diferente das terras cultivadas em regiões temperadas (MALCOLM, 1997).

Dentro desse contexto, a equipe monitorou durante vários anos (de 2001 a 2008) a biodiversidade faunística e os sistemas de produção de uma propriedade rural de 7.868 hectares, dos quais aproximadamente 82% são cultivados com cana orgânica. O mapeamento do uso e ocupação das terras foi realizado em diversas datas (1987, 2000 e 2002), com base em imagens de satélite, e a análise se fez como de habitats faunísticos. Estes serviram de base para orientar a estratégia de amostragem e o estabelecimento de um protocolo de coleta de dados sobre a fauna e as condições ecológicas (MIRANDA, 2006).

Esta pesquisa apresentou uma dupla ambição: primeiramente, testar, adaptar e desenvolver um itinerário metodológico de avaliação da biodiversidade em território delimitado. Em segundo lugar, pretendeu analisar a qualidade da riqueza faunística de vertebrados terrestres existente em áreas cultivadas com cana-de-açúcar orgânica e nos habitats adjacentes sob manejo agroecológico. Além dos resultados dos indicadores de riqueza e diversidade visados, destacou-se a ocorrência de espécies consideradas ameaçadas de extinção no estado de São Paulo. Baseamo-nos nos critérios estabelecidos pela União Internacional para a Conservação Natureza (IUCN) e pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), de acordo com a lista das espécies da fauna ameaçada de extinção no estado de São Paulo (Decreto Estadual 42.838, de 4 fev. 1998, Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo).

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Sistemas agrícolas sustentáveis e biodiversidade faunística: O caso da cana orgânica em manejo agroecológico

A área de estudo compreende várias fazendas pertencentes à Usina São Francisco, todas situadas na região de Sertãozinho (Figura 1), a nordeste do estado de São Paulo (aproximadamente 21º 13’ de latitude Sul e 48º 1’ de longitude Oeste), totalizando 7.868 hectares entre áreas agrícolas e outros ambientes. O conjunto está localizado dentro da bacia do rio Mogi-Guaçu, que faz parte da bacia do rio Pardo, afluente do Paraná.

A análise das imagens dos satélites Landsat 7 e Spot 5 associada às incursões no campo permitiram evidenciar e cartografar as categorias de uso e ocupação das terras. Através da análise da carta de uso das terras foram caracterizados dez tipos de habitats faunísticos. As dez classes consideradas são estas:

• Habitat 1 – Canaviais orgânicos; • Habitat 2 – Matas exóticas;

• Habitat 3 – Várzeas com herbáceas;

• Habitat 4 – Várzeas com matas ciliares;

• Habitat 5 – Matas nativas restauradas;

• Habitat 6 – Matas mistas em regeneração;

• Habitat 7 – Matas nativas;

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Sistemas agrícolas sustentáveis e biodiversidade faunística: O caso da cana orgânica em manejo agroecológico

• Habitat 8 – Valetas de drenagem; • Habitat 9 – Matas em regeneração espontânea;

• Habitat 10 – Campo em regeneração espontânea.

A detecção e identificação da fauna na área de estudo envolveu uma série de técnicas e procedimentos práticos, incluindo binóculos, locais camuflados para espreita, armadilhas, redes etc. Além da detecção direta, tanto visual como auditiva, também verificou-se a presença de vestígios, como rastros, fezes, penas, ninhos, tocas, pêlos, pelotas de regurgitação etc. Vários guias de identificação e chaves de classificação foram utilizados (PETERS & OREJAS MIRANDA, 1970; DUNNING, 1987; EMMONS, 1990; SOUZA, 1998; BECKER & DALPONTE, 1999).

A carta dos habitats faunísticos induziu a escolha da estratégia de amostragem estratificada aleatória. Ela considerou a heterogeneidade espacial da área de estudo e garantiu uma comparação judiciosa entre os povoamentos faunísticos dos diferentes habitats (FRONTIER, 1983). Uma ficha de levantamento pré-codificada foi estabelecida em razão do grande número de observações a serem realizadas. A descrição objetiva e uniforme das condições ecológicas no campo garantiu os tratamentos estatísticos ulteriores (DAGET & GODRON, 1982; MIRANDA, 1986, 2003).

Os povoamentos faunísticos e os habitats foram caracterizados mediante índices que consideraram a composição, definida em termos de riqueza específica, e a estrutura, delineada pela abundância relativa. Foram estabelecidos quatro tipos de riqueza: total, média, acumulada e exclusiva, cada uma apresentando características próprias (BLONDEL, 1979). Para o estudo da estrutura dos povoamentos foram calculados vários índices de diversidade, derivados da função ∑−=pipiH2log' de Shannon e Weaver, baseada na teoria da informação (MACARTHUR & MACARTHUR, 1961). Esse índice pondera o número de espécies de um povoamento por suas abundâncias relativas (MARGALEF, 1982), permitindo definir três tipos de diversidades (WHITTAKER, 1972): a tipo alfa (H’α), ou diversidade intra-habitat; a gama (H’γ), ou diversidade setorial ou ainda macrocósmica; e a beta (H’β), que representa um índice de similaridade de Jaccard, interhabitats (DAGET & GODRON, 1982).

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Sistemas agrícolas sustentáveis e biodiversidade faunística: O caso da cana orgânica em manejo agroecológico

Realizaram-se inúmeras campanhas de levantamentos entre os meses de julho de 2002 e março de 2008 nos dez habitats mapeados, totalizando 1.474 levantamentos zooecológicos. Foram detectadas e identificadas 312 espécies de vertebrados terrestres (26 anfíbios, 17 répteis, 230 aves e 39 mamíferos (MIRANDA & MIRANDA, 2004). O grupo das aves foi o mais rico em espécies e representou, aproximadamente, 74% da fauna identificada, enquanto os mamíferos corresponderam a 12,5%, os répteis a 5,5% e os anfíbios a 8%.

Dentre as espécies mais freqüentes destacaram-se a asa-branca (Patagioenas picazuro), o anu-preto (Crotophaga ani) e o bem-te-vi (Pitangus sulphuratus). O sanhaço (Thraupis sayaca), o quero-quero (Vanellus chilensis), o carcará (Caracara plancus) e a corruíra (Troglodytes musculus), entre outros, foram mediamente freqüentes, enquanto o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), o veadomateiro (Mazama americana), o tucanuçu (Ramphastos toco) e a maria-faceira (Syrigma sibilatrix), entre outros, foram pouco freqüentes. As espécies raras corresponderam a 78,5% do número total.

Dentre as 312 espécies de vertebrados terrestres identificadas, 35 estão presentes no catálogo da Fauna ameaçada no estado de São Paulo. A onça parda (Puma concolor), a jaguatirica (Leopardus pardalis), o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), o loboguará (Chrysocyon brachyurus), o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), o papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), o balança-rabo-leitoso (Polioptila lactea), o jacaré-coroa (Paleosuchus palpebrosus) e a sucuri (Eunectes murinus) são exemplos de algumas dessas espécies.

A curva logaritmizada da riqueza total acumulada foi obtida com a alocação acumulativa das 312 espécies detectadas (eixo ordenadas) nos 1.474 levantamentos zooecológicos executados (eixo coordenadas) (Figura 2). Quando havia sido executada a primeira metade dos levantamentos zooecológicos, 7% das espécies de vertebrados terrestres já estavam detectadas. Durante a execução dos 30% de levantamentos para finalização das campanhas, foram encontradas 47 das 312 espécies detectadas, ou seja, aproximadamente 15% do total repertoriado.

Todos os índices de riqueza biológica (total, média e exclusiva) apresentaram grande variabilidade nos habitats (Tabela 1). A riqueza total foi mais elevada nas Várzeas

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Sistemas agrícolas sustentáveis e biodiversidade faunística: O caso da cana orgânica em manejo agroecológico

com Herbáceas, com 150 espécies. Em ordem decrescente estiveram: as Matas Nativas Restauradas, 137 espécies; as Matas Nativas, 127 espécies; as Várzeas com Matas Ciliares, 126 espécies; as Valetas de Drenagem, 119 espécies, e as Matas em Regeneração Espontânea, 92 espécies. A Mata Exótica foi o habitat mais pobre em biodiversidade, com 82 espécies, número inferior às 8 encontradas nas áreas de Canaviais Orgânicos.

A riqueza média apresentou grande variação de valores. O maior ganho médio em espécies foi registrado nas Várzeas com Matas Ciliares, indicando uma grande oferta de nichos para as espécies, em oposição às áreas agrícolas com Canaviais Orgânicos, onde há maior homogeneidade de condições ecológicas oferecidas à fauna (Tabela 1).

A riqueza exclusiva mostrou que todos os habitats possuem povoamentos originais, ou seja, a fauna é determinada e sensível às condições ecológicas oferecidas em cada um desses ambientes. As Várzeas com Herbáceas são o habitat com o povoamento mais rico em espécies exclusivas (26 sp); o restante apresenta valores bem menores, em torno de dez espécies, salvo as Matas Exóticas, onde ocorreram somente quatro espécies exclusivas (Tabela 1). Este último parece ser o ambiente menos original ou diferenciado do ponto de vista faunístico.

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Sistemas agrícolas sustentáveis e biodiversidade faunística: O caso da cana orgânica em manejo agroecológico

Os valores dos índices de diversidade intra-habitat alfa (H’α) foram relativamente próximos, mas apresentam certa variabilidade (Tabela 2). A tabela completa, com todos os valores obtidos para cada espécie, encontra-se no documento da Série Embrapa n.27 (MIRANDA & MIRANDA, 2004).

Legenda: Habitat 1 – Canaviais Orgânicos; Habitat 2 – Matas Exóticas; Habitat 3 – Várzeas com Herbáceas; Habitat 4 – Várzeas com Matas Ciliares; Habitat 5 – Matas Nativas Restauradas; Habitat 6 – Matas Mistas em Regeneração; Habitat 7 – Matas Nativas; Habitat 8 – Valetas de Drenagem; Habitat 9 – Matas em Regeneração Espontânea; Habitat 10 – Campo em Regeneração Espontânea.

Os maiores valores do índice de diversidade intra-habitat tipo alfa (H’α) correspondem aos povoamentos das Valetas de Drenagem e Matas Nativas. Esses habitats podem ser considerados bastante estáveis do ponto de vista da riqueza total. Portanto, é pequena a probabilidade de serem agregadas novas espécies. A quantidade de recursos oferecidos

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Sistemas agrícolas sustentáveis e biodiversidade faunística: O caso da cana orgânica em manejo agroecológico já está sendo explorada quase que no seu limite. Conseqüentemente, os efetivos das populações não deverão variar muito ao longo do tempo.

As Várzeas com Matas Ciliares, as Matas Nativas Restauradas e as Várzeas com

Herbáceas tiveram índices de diversidade intra-habitat com valores bastante elevados, mas apresentam indícios de possibilidade de aumento de suas riquezas totais, sobretudo as áreas de Matas Nativas Restauradas, onde ainda o equilíbrio entre as taxas de imigração e extinção não foi estabelecido.

Os valores dos índices das Matas Exóticas, das Matas em Recuperação

Espontânea, das Matas Mistas em Regeneração, dos Canaviais Orgânicos e do Campo em Regeneração Espontânea indicam povoamentos com uma riqueza total menor, mas com estabilidade dos efetivos populacionais, ou seja, as espécies presentes estão relativamente bem implantadas nesses habitats.

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