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Bahia Agríc., v.7, n.1, set. 2005

*Engº Agrônomo, DSc., Professor Titular do Departamento de Ciências Agrárias e Ambientais - Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC - Ilhéus, BA; e-mail: kersul@uesc.br

**Engº Agrônomo, Extensionista do Centro de Ensino e Extensão, CEPLAC-CENEX, Escritório Local de Una, BA; e-mail: eniocoelhojr@bol.com.br

Cultivo do mangostão na Bahia

Célio Kersul do Sacramento* Enio Coelho Júnior**

Omangostão ou mangostin é considerado a fruta mais famosa e mais saborosa do trópico asiático. A rainha Vitória, da Inglaterra (1819-1901), ao prová-la, disse não haver saboreado antes nenhuma fruta tão deliciosa e, a partir daí, ficou conhecida como a fruta-da-rainha.

Pertencente à família Clusiaceae e originário da Ásia, o mangostão é

Foto: Célio Kersul do Sacramento de disseminação bastante restrita, cultivado, principalmente, nas regiões tropicais da Ásia, Índia, Austrália e em alguns países da América. No Brasil, foi introduzido definitivamente por volta de 1935, na Bahia, e em 1942, no Pará

(SACRAMENTO, 2001). O mangostanzeiro é nativo do Sudeste da Ásia e atualmente é encontrado na Indonésia, Malásia,

Filipinas, Tailândia, Vietnam, Camboja, Java, Sumatra, Cochinchina, Ceilão,

Singapura e em outras regiões tropicais, como Costa do Marfim, Madagascar, Sri Lanka, Índia, China,

Austrália. No novo continente, é cultivado na Costa Rica, Porto

Rico, República Dominicana, Jamaica, Panamá, Havaí, Honduras, Guate- mala, Sul da Flórida, Cuba e Brasil (SACRAMENTO, 2001).

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Foto: Célio Kersul do Sacramento O mangostanzeiro

No Brasil, o mangostão é cultivado, principalmente, nos

Estados do Pará e da Bahia, na maioria dos casos, em pomares de um a três hectares e em pequena escala no Espírito Santo e São Paulo.

Na Bahia, a maior concentração de mangostanzeiros localiza-se no município de Una, onde se estima uma área de 50 hectares (aproximadamente 5.0 plantas). Os plantios começaram por volta de 1956 e estima-se que a metade se encontra em produção. Outros municípios baianos (Taperoá, Ituberá,

Uruçuca, Nilo Peçanha e Tancredo Neves) totalizam cerca de 20 ha

(2.0 plantas). A produção brasileira de mangostão tem variado bastante em função de novas áreas implantadas e da alternância de produção apresentada por essa espécie. Nos anos de 1999, 2000 e 2001, em Una, foram comercializadas, respectivamente, 6.0, 10.0 e 60.0 caixas de

1,4kg de frutos (SACRAMENTO, 2001).

Descrição botânica e variedades

O mangostanzeiro Garcinia mangostana L., é agrupado botanicamente no Gênero Garcinia e Espécie Garcinia mangostana Mart. Outras frutíferas conhecidas dessa família são o abricó-do-Pará (Mammea americana), bacuri (Platonia insignis Mart.) e bacupari

(Rheedia macrophylla). No Brasil, é conhecido como “mangostão” ou “mangustão”, entretanto, os produtores de Una e do Pará utilizam comercialmente o nome “mangostin” (aportuguesamento do inglês “mangosteen”).

O mangostanzeiro é uma árvore de oito a dez metros de altura, de formato piramidal, semelhante ao jambeiro, com folhas simples, de coloração verde-escuro e fruto de 4 a 9 cm de diâmetro e 3,6 a 6,5 cm de altura.

A parte comestível é formada por quatro a oito segmentos carnosos brancos translúcidos e com sabor bastante delicado. Possui de zero a três sementes de dois centímetros de comprimento formadas do tecido nucelar.

Não existem variedades de mangostão, uma vez que a reprodução se dá por apomixia, formação do fruto sem fecundação, assim, as plantas são invariavelmente femininas e, portanto, a reprodução por semente funciona como uma clonagem.

Ecologia

O mangostanzeiro é cultivado em áreas onde o clima é quente e úmido, com chuvas bem distribuídas durante o ano. A temperatura ideal situa-se entre 25ºC e 30ºC com mangostão adapta-se bem em solos profundos argilo-arenosos, bem drenados e, preferivelmente, com alto teor de matéria orgânica.

A época de florescimento varia de acordo com as condições climáticas, podendo ser concentrada em um ou mais períodos, durante o ano. O mangostanzeiro apresenta tendência de florescimento em anos alternados e a frutificação varia de planta para planta. O período entre a iniciação floral e a antese (abertura da flor) é de 25 dias e da antese até o fruto maduro decorrem 100 a 120 dias.

Na Bahia, onde as chuvas são bem distribuídas, o mangostanzeiro floresce de dezembro a janeiro e a colheita inicia-se entre abril e maio, prolongando-se até junho, entretanto, dependendo da distribuição de chuvas, o mangostanzeiro começa a florir em outubro e novembro e a safra ocorre entre fevereiro e março estendendo-

Propagação

O mangostanzeiro é propagado, principalmente, por meio de sementes, produzindo árvores idênticas à planta mãe. As sementes

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Bahia Agríc., v.7, n.1, set. 2005 devem ser semeadas imediatamente após a eliminação da polpa, pois perdem a viabilidade rapidamente. Em condições favoráveis de calor e umidade, as sementes germinam entre 1 e 15 dias após a semeadura.

Após a germinação as mudas devem ser transplantadas para sacos de polietileno com dimensões de 40 x 20 cm com espessura de 15 micras, onde as plantas devem permanecer até alcançarem 40 cm de altura (o que ocorre por volta de 18 a 24 meses). A propagação assexuada pode ser feita por enxertia, mas na prática não constitui nenhuma vantagem, pois as plantas adultas enxertadas tendem a produzir menos.

Implantação do pomar

Na escolha da área, para investimento em cultivo de mangostão, o produtor deve avaliar, além dos aspectos eda- foclimáticos, os aspectos estratégicos de localização da propriedade em relação ao mercado consumidor e a proximidade de outros produtores, visando à formação de volume para comercialização em grandes centros.

Considerando que o mangostanzeiro inicia a frutificação somente a partir de seis a oito anos, após o plantio, o produtor deve planejar o preparo da área para a exploração de outros cultivos de produção mais precoce, para consórcio durante o período improdutivo dessa frutífera, objetivando reduzir os custos de implantação e propiciar maior proteção do solo. Uma das opções utilizadas com ótimo resultado, durante os quatro primeiros anos de crescimento do mangostanzeiro, é o consórcio bananeira.

Tendo em vista o porte da planta quando adulta, o espaçamento mínimo, para locais onde o mangostanzeiro apresenta bom desenvolvimento, deve ser 9x9 m ou

10x10 m, em triângulo, resultando em uma densidade de 141 ou 115 plantas por hectare. A abertura de covas de 60x60x vai depender da análise do solo, recomendando-se a aplicação de 15 a 20 litros de esterco curtido de gado, junto com o adubo. Após o plantio, recomenda-se a colocação de cobertura morta de material disponível no local (palha de arroz, capim seco), ao redor da planta. Pseudocaules de bananeira partidos ao meio e colocados com o lado partido para baixo, junto a muda, constituem uma boa opção para manter a umidade do solo. O mangostanzeiro, após o plantio, desenvolve-se melhor sob sombreamento inicial, pois a luz solar direta afeta o seu crescimento, tornando as folhas endurecidas e de cor verde-amarelada. O sombreamento inicial pode ser feito com sombrite, folhas de palmeira, ou capim seco ou com outras espécies vegetais, sendo a bananeira a que proporciona melhor sombra e umidade para o desenvolvimento do mangostanzeiro.

O sombreamento é raleado gradativamente à medida que o mangostanzeiro se desenvolve e, por volta do quarto ano, quando a planta estiver com dois a três metros, já deve estar totalmente eliminado.

Ressalta-se, contudo, que a retirada repentina do sombreamento pode causar a queima das folhas.

Tratos culturais

Não há trabalhos de pesquisa sobre calagem e adubação do mangostanzeiro, desse modo, em cada região produtora, são utilizadas diferentes misturas e quantidades de adubo, as quais carecem de validação da pesquisa. Como em qualquer cultivo racional, há necessidade, inicialmente, da avaliação da fertilidade do solo, para balizamento da aplicação correta da calagem e adubação. Um programa balanceado de adubação, sem falta e sem excesso, é essencial para garantir alta produção com elevada qualidade dos frutos. Com relação aos aspectos fitossanitários, o mangostanzeiro apresenta problemas com a abelha arapuá, ácaros e tripes, porém essas pragas não justificam a aplicação de qualquer defensivo. O principal problema ocorrente na Bahia é a murcha do mangostanzeiro, cujo agente causal não foi ainda identificado.

Floração e frutificação

Em condições de clima e solo favoráveis e manejo adequado, o mangostanzeiro pode iniciar a frutificação a partir de quatro anos (planta enxertada) ou seis anos (pé- franco), em ambos os casos, após o plantio. A produção do mangostanzeiro varia, nos diversos países produtores, em função das condições edafoclimáticas, manejo e idade da planta e oscila entre 200 e 2.0 frutos por planta. No Brasil, são observados casos de produção de até 1.500 frutos por árvore, entretanto, mais importante é a produção de frutos graúdos, com peso médio acima de 100 g. Desse modo, em mangostanzeiros acima de 15 anos, em espaçamento de 10 x 10 metros, pode-se considerar como uma boa produção, 600 frutos, o que resultaria em uma produtividade de 6 t/ha.

Produção e colheita

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