Capítulo 2 - Princípios e dimensões da sustentabilidade

Capítulo 2 - Princípios e dimensões da sustentabilidade

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Capítulo 2

Diante disso, é importante ressaltar que falar em sustentabilidade significa pensar nela incluindo o ponto de vista ecológico. Para tal, é fundamental perceber como se processa a vida sob todos os aspectos, reconhecendo sua importância e o significado de cada ser, bem como nossa responsabilidade para a manutenção da mesma.

“É injusto e imoral tentar fugir às conseqüências dos próprios atos. É justo que a pessoa que come em demasia se sinta mal e jejue. É injusto que quem cede aos próprios apetites fuja às conseqüências tomando tônicos e outros remédios. É ainda mais injusto que uma pessoa ceda à próprias paixões animalescas e fuja às conseqüências dos próprios atos”. (Mahatma Gandhi).

Diante do pensamento acima, como se pode mensurar a responsabilização do ser humano para o alcance da sustentabilidade ecológica e manutenção da vida?

Para complementar seu entendimento da discussão que estamos iniciando, destacamos o posicionamento de Boff (2004, p. 133) ao mencionar a emergência do cuidado com o nosso único planeta:

Cuidado todo especial merece nosso planeta Terra. Temos unicamente ele para viver e morar. É um sistema de sistemas e superorganismo de complexo equilíbrio, urdido ao longo de milhões e milhões de anos. Por causa do assalto predador do processo industrialista dos últimos séculos este equilíbrio está prestes a romper-se em cadeia. Desde o começo da industrialização, no século XVIII, a população mundial cresceu 8 vezes, consumindo mais e mais recursos naturais; somente a produção, baseada na exploração da natureza, cresceu mais de cem vezes. O agravamento deste quadro com a mundialização do acelerado processo produtivo faz aumentar a ameaça e, conseqüentemente, a necessidade de um cuidado especial com o futuro da Terra.

Será que estamos numa encruzilhada? O método atual de apropriação da natureza coloca em risco as condições físicas de vida no planeta? Perguntamos, ainda, como impor limites ao crescimento, atendendo todas as circunstâncias (energia, alimentos, moradia, água, etc.) que esta demanda implica?

Os questionamentos acima servem de alerta para a seguinte situação: estamos na era do conhecimento e o avanço tecnológico tem proporcionado a

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Capítulo 2 criação de mecanismos que contribuem para intervenções menos impactantes no ambiente, que são, em alguns momentos, negligenciadas em função dos custos de implantação ou manutenção, ou, até mesmo, por falha do sistema, quando as agências reguladoras não realizam a fiscalização necessária.

Isso significa reforçar o conteúdo visto no capítulo anterior dessa disciplina, pois toda a ação antrópica desencadeia um impacto no ambiente. A partir desse pressuposto, é necessário adotar medidas capazes de mitigá-lo. Para isso, é importante que, em cada intervenção, se verifique os cuidados necessários, bem como as formas de compensação para danos inevitáveis.

Assim, é preciso compreender os atributos e a definição de parâmetros de valoração dos impactos ambientais originados nas intervenções ambientais. Estes podem ser entendidos pelo disposto no quadro 3:

AtributospArÂmetros de vAlorAção

• Caráter: expressa a alteração ou modificação gerada por uma ação. Benéfico: quando for positivo

Adverso: quando for negativo.

• Magnitude: extensão do impacto num dado componente do fator ambiental afetado. Pequena, média, grande.

• Importância: o quanto cada impacto é relevante na sua relação de interferência com o meio ambiente ou quando comparado com outros impactos.

Não significativa, moderada, significativa.

• Duração: tempo de permanência do impacto depois da ação que o gerou Curta, média, longa.

• Ordem: relação entre a ação e o impacto.Direta, indireta.

• Reversibilidade: delimita a possibilidade de retorno ou não ao estado original com o fim de determinada intervenção ambiental.

Reversível, irreversível.

• Temporalidade: interinidade da interven-ção ambiental. Temporário, cíclico, permanente.

• Escala: grandeza do impacto com relação à área de abrangência. Local, regional.

Quadro 3 - Conceituação dos atributos e definição dos parâmetros de valoração dos impactos ambientais (TAVARES, 2008)

Estes elementos são indispensáveis para a definição de medidas mitigadoras e compensatórias, ou seja, de formas para atenuar e/ou minimizar os impactos da intervenção humana em determinado fator ambiental.

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Um instrumento que deve ser levado em consideração no atendimento à valoração dos impactos ambientais é o documento Cuidado do planeta Terra (veja o quadro 4). Tal mecanismo é uma estratégia elaborada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNU-MA), o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), cujos princípios fundamentam-se no cuidado. (BOFF, 2004).

1 – Construir uma sociedade sustentável.

2 – Respeitar e cuidar da comunidade dos seres vivos.

3 – Melhorar a qualidade da vida humana.

4 – Conservar a vitalidade e a diversidade do planeta Terra.

5 – Permanecer nos limites de capacidade de suporte do planeta Terra.

6 – Modificar atitudes e práticas pessoais.

7 – Permitir que as comunidades cuidem do seu próprio meio ambiente.

8 – Gerar uma estrutura nacional para integrar desenvolvimento e conservação.

9 – Construir uma aliança global.

Quadro 4 – Estratégias de cuidado com o planeta Terra (BOFF, 2004, p. 134)

Fica evidente que as estratégias estão postas à mesa, sendo preciso, portanto, compromisso político, uma tarefa extremamente complexa dada a necessidade de fixar limites em nível planetário. Incluir a política nesse diálogo traz a necessidade de pensar fator cultural de cada povo e sua influência em esfera global.

2.2.4 A sustentabilidade cultural

Vivemos no mundo dos modismos arraigados por conceitos estereotipados de feio e belo, de divisão em seres com inteligência superior e inferior e tantas outras subjetividades criadas para afirmar o poder do capitalismo. Essas características tornaram-se mais evidentes com o advento da globalização impulsionada pelo desenvolvimento tecnológico, favorecendo a igualdade de costumes, hábitos e atitudes, entre outras.

Evidenciar um estilo de vida padronizado leva à desconsideração dos saberes e manifestações tradicionais do conteúdo local, por serem percebidos como arcaicos e rudimentares, não atendendo a necessidade de produção massificada. Assim, gera-se uma construção de desigualdades e pobreza.

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Esta destruição da base dos recursos do planeta e seu impacto nos valores culturais e humanos gerou a necessidade de orientar as formas de desenvolvimento para eliminar a pobreza crítica e passar da sobrevivência á melhoria da qualidade de vida. (LEFF, 2008, p. 90)

Esse raciocínio demonstra que, felizmente, o modo de apropriação da cultura, por muito tempo pregado como o ideal, tem sido negado a fim de atender aos princípios da sustentabilidade.

Essa preocupação tem sido percebida pela forma que o estilo de vida adotado por personagens, como Madre Tereza de Calcutá e Mahatma Gandhi, tem estimulado a adoção de comportamentos baseados no cuidado do outro.

Madre Tereza de Calcutá (910-1997), à esquerda, foi uma missionária católica albanesa, nascida na República da Macedônia e naturalizada indiana, beatificada pela Igreja Católica.

Mahatma gandhi (1869 – 1948), à direita, foi um líder político e espiritual da Índia. Soube utilizar-se engenhosamente de toda a tradição para reerguer o orgulho de sua gente, abalada pela dominação e deu muito que pensar àqueles que se consideravam “superiores” e, por isso, dominavam.

Esse pressuposto do cuidado sugere a adoção de estratégias de desenvolvimento, que priorizem os saberes tradicionais de manejo, ou seja, a valorização do local em detrimento do global. Surge, assim, a necessidade de valorização das identidades nacionais, por meio da afirmação de sua cultura e conhecimento acumulado ao longo da evolução humana.

Cabe ainda considerar, nesse aspecto, a sabedoria de povos tradicionais, como camponeses e indígenas, bem como o patrimônio cultural (material e imaterial) constituído na formação dos povos. Como exemplo de patrimônio material e imaterial, podemos citar a arquitetura e a gastronomia local, respectivamente.

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É válido destacar o raciocínio apresentado por Leff (2008, p.93), quando afirma que “a ética ambiental vincula a conservação da diversidade biológica do planeta ao respeito à heterogeneidade étnica e cultural da espécie humana.” Levantar essa questão implica no reconhecimento do espaço individual e coletivo e uma apropriação coerente do mesmo.

2.2.5 A sustentabilidade espacial

No decorrer deste capítulo trouxemos a discussão da sustentabilidade por meio dos princípios e dimensões que a cercam. Incluso neles, está à defesa da sustentabilidade espacial por aqueles que estudam e debatem o tema.

Falar em sustentabilidade espacial significa elencar fatos como concentração populacional, densidade demográfica, urbanização. A esse respeito Leff (2008, p. 340) diz que “o lugar é o locus das demandas e das reivindicações das pessoas pela degradação ambiental, assim como suas capacidades de reconstruir seus mundos de vida”.

Você já parou para pensar no percentual de urbanização planetária? Quais a condições de vida das grandes metrópoles?

Quando trazemos elementos que sugerem a reflexão sobre qualidade de vida para a discussão, temos a intenção de fazê-lo compreender o quanto a concentração populacional em torno das grandes cidades tem contribuído para o caos ambiental. Problemas como: poluição atmosférica, contaminação do lençol freático, consumo excessivo de água, geração de resíduos, precariedade dos assentamentos humanos, segregação socioespacial, entre outros, são mais acentuados nos centros urbanos.

Como forma de ilustrar esse discurso, apresentamos a verticalização de cidades litorâneas em função da especulação imobiliária, em alguns momentos, em outros, pelo déficit habitacional. Essas edificações têm ocasionado o surgimento de ilhas de calor, provocadas pelo aumento da temperatura.

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Jeff Belmonter

Figura 1 - Verticalização nas Praias do Leblon e Ipanema, no Rio de Janeiro.

Além disso, podemos acrescentar ainda a ocorrência de sobrecarga nos sistemas de abastecimento de água e energia, bem como no esgotamento sanitário, como consequência da urbanização crescente nessas áreas, localizadas especialmente em regiões metropolitanas.

Imbuídas do desejo de melhores condições de vida, por meio do alcance do emprego ideal, as pessoas se inserem no contexto das grandes cidades, pois são elas que apresentam as melhores oportunidades. Entretanto, o que se observa são fatos como: o aumento da periferia nas regiões metropolitanas e o empobrecimento da população em função da oferta precária de trabalho.

Tratar dessas questões significa considerar que o processo de urbanização traz consigo a necessidade do planejamento para atender as demandas dos assentamentos humanos, que se instalam nas metrópoles e em seu entorno. “No mundo de hoje, cada vez mais pessoas se reúnem em áreas mais reduzidas, como se o hábitat humano minguasse. Isso permite experimentar, através do espaço, o fato da escassez.” (SANTOS, 2007, p. 80).

Dessa forma, é imprescindível mitigar os efeitos desse aglomerado populacional por meio de iniciativas que considerem aspectos como: possibilidades de fixação das comunidades tradicionais em suas regiões de origem, garantido a elas condições de sobrevivência; democratização do espaço para o assentamento humano, oferecendo condições necessárias de educação, moradia, mobilidade, transporte, saúde e segurança; tratamento adequado e técnico para abastecimento de água, energia,

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Capítulo 2 destinação dos resíduos sólidos, qualidade do ar, distribuição racional dos equipamentos públicos, acessibilidade e inúmeros outros, menos óbvios, porém não menos importantes.

Sendo assim, as informações apresentadas neste capítulo evidenciam a necessidade de pensar sobre a sustentabilidade de forma prática e em todas as dimensões da intervenção humana no ambiente.

Vale salientar que é imprescindível considerar os princípios norteadores para tal pressuposto: econômico, social, ecológico, cultural e espacial. Pensar e agir usando como fundamento essa premissa é uma maneira de garantir o alcance do desenvolvimento sustentável.

2.3 Aplicando a teoria na prática

Venha para Natal: a cidade sustentável

O turismo é a principal atividade econômica da cidade do Natal, responsável pela geração de divisas, bem como de ocupação e renda. Sendo um dos principais destinos de sol e mar do Brasil, a prefeitura local realiza constantemente investimentos em divulgação do destino.

Neste sentido, para convencer os turistas, que buscam sol, praias, dunas e emoções, de que Natal é o melhor lugar para passar suas férias a Secretaria de Turismo do Município decide produzir um clipe sobre os atrativos locais.

Tal peça publicitária será veiculada em horário nobre das principais emissoras de TV aberta do país, para o público do principal centro emissor de turistas para a cidade: São Paulo e região metropolitana.

Assim, são contratados os serviços de uma agência de publicidade para realizar tal tarefa. Como o slogan da cidade é ser uma cidade sustentável, é imprescindível que esta intervenção ocorra atendendo os princípios e dimensões da sustentabilidade. Outro detalhe da atividade é a exigência de uma ação interdisciplinar entre profissionais de turismo, comunicação e gestão ambiental.

Diante da problemática apresentada, quais fatores nortearão essa produção audiovisual?

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Para responder a esse questionamento, devem-se considerar os princípios e dimensões da sustentabilidade ambiental como fatores norteadores para a gravação do vídeo, requerendo dos profissionais envolvidos a adoção de uma consciência representada por ações práticas.

É sabido que toda intervenção no ambiente provoca impacto. Seguir o modelo apresentado no quadro 4, que trata do consumo de água virtual, ou seja, da quantidade de água utilizada direta ou indiretamente na produção de algo é uma ferramenta para mitigar o consumo de água na produção do vídeo.

É a quantidade de água usada, direta ou indiretamente, na produção de algo.

veja quantos litros de água virtual existem em cada produto.

32 litros Microchip (2 g)

140 litros Xícara de café (125 ml)

10 litros Folha de papel A4 (80 g/m2)

2.0 litros Camiseta de algodão (250 g)

Em produtos de origem animal, a maior parte da água virtual tem origem na produção da ração que alimenta a criação

135 litros Ovo (40 g)

2.325 litros Carne bovina (150 g)

720 litros Carne suína (150 g)

8.0 litros Par de sapatos de couro

Quadro 5 – Consumo de água virtual (ALMANAQUE ABRIL, 2010)

A equipe também pode aplicar esse modelo aos demais insumos utilizados no trabalho, como combustível, fitas de vídeo, bateria, entre outros. Os dados provenientes desse levantamento do consumo provocado podem ser utilizados para a realização de medidas mitigadoras do impacto causado.

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