Gramática Portuguesa - Evanildo Bechara

Gramática Portuguesa - Evanildo Bechara

(Parte 1 de 5)

MODERNA GRAMÁTICA Portuguesa

ÍNDICE

COMPANhIA EDITORA NACIONAl # INTRODUÇÃO Que é uma líNgua, ?

Modalidades de uma língua: língua falada e língua escrita

A língua. é um fenómeno cultural . Língua geral e língua regional Objeto da Gramática

Fonemas
Fonética e fonémica
Aparelho fonador
Como se produzem os fonemas
Fonemas surdos e sonoros
~à-is Encontros vocálicos: ditongos, tritongos, hiatos36

DivisÃo da Gramática Partes da Gramática Objeto da Estilística FONÉTICA E FONÉMICA A) ProduçÃo dos fonemas e sua classificaçÃo 1 - Fonética descritiva Fonemas não são letras Vogais e consoantes Classificação das vogais Elevação da língua: quinto critério para a classificação das vogais 35 Classificação das consoantes En~ontro consonantal Diiràfo Letra diacrítica Apêndice:

ouvido: colisão, eco, hiato, cacofonia
B) OrtoepiaI
Vogais
Consoantes
vocábulos

Encontros de fonemas que produzem efeito desagradável ao Ligação dos

Prosódia
Sílaba
Acento de intensidade
Acento de intensidade e sentido do vocábulo
Acento principal e acento secundário
Acento de insistência e emocional1
Acento de intensidade na frase
clíticos

C) Prosódia Quantidade Acentuação Posição do acento tÔnico Vocábulos tônitoà'~e átonos: os Conseqüências da próclise ............................................

Vocábulos que oferecem dúvidas quanto à posição da sílaba tônica
Vocábulos que admitem dupla prosódia
o alfabeto
K, w, Y
H

2 D) Ortografia Consoantes mudas

se
Letras dobradas
Vogais nasais
Ditongos
Hiatos
Parónimos e vocábulos de grafia. dupla
Apóstrofo
Hífen
Emprego das iniciais maiúsculas
Acento diferencial-
1- MORFOLOGIA

Nomes próprios Divisão silábica Sinais de pontuação Regras de acentuação

Próp)rios e comuns
Adjetivo8
Adjetivo explicativo e restritivo8
Substantivação do adjetivo8
Flexões doadjetivo ........... em de nomes
Substantivo coletivo . ,
Género do substantivo
Grau
Artigo94

A) Classes de vocábulos 1 - Substantivo Concretos e abstratos 2 - Adjetivo próprios a comuns 74 Formação do plural do substantivo 3 - Artigo Espécies de artigo

4 - Pronome

Classificação dos pronomes Pronomes pessoais Pronomes possessivos Pronomes demonstrativos Pronomes indefinidos Pronomes interrogativos Pronomes relativos

5 - Numeral

Numeral Espécies de numeral

Verbo
Verbos defectivos e abundantes
Tempos primitivos e derivados
A sílaba tMica dos verbos: formas rizotânicas e arrizotônicas
Verbos notáveis quanto à pronúncia ou flexão
Variações gráficas na conjugação
Erros freqüentes na conjugação de alguns verbos
Paradigma dos verbos regulares
Conjugação de verbos auxiliares comuns
Conjugação composta134
Conjugação do verbo pôr136
1a conjugação
2.a conjugação
3.a conjugação
Advérbio
Locução adverbial
Circunstáncias adverbiais
Os vocábulos denotativos
Advérbios de base nominal e pronominal

6 - Verbo Pessoas do verbo Tempos do verbo Modos do verbo Vozes do verbo Voz passiva e passividade Formas nominais do verbo Conjugar um verbo Verbos regulares, irregulares e anómalos Locução verbal: verbos auxiliares Auxiliares causativos e sensitivos Elementos estruturais do verbo: os sufixos e desinências verbais Alterriância vocálica ou metafonia. Conjugação de um verbo composto na voz passiva: ser amado 138 Conjugação de um verbo na voz reflexiva: apiedar-se 139 Conjugação de um verbo com pronome oblíquo átono: tipo pô-lo 142 Conjugação dos verbos irregulares .144 7 - Advérbio e os denotativos Gradação dos advérbios

Preposição
Locução prepositiva
Acúmulo de preposições
Combinação e contração de preposição com outras palavras
A preposição e sua posição
Principais preposições e locuções prepositivas

8 - Preposição

Conjunção
Tipos de conjunção

9 - Conjunção Locução conjuntiva ............

Conjunções coordenativas
Conjunções subordinativas
Que excessivo
Conjunções e expressões enfáticas

4 # 10 - Interjeição

Interjeição Locução interjetiva .

Vocábulo e morfema
Radical
Desinéncias nominais e verbais
Tema e vogal temática
Afixos: prefixos e sufixos
justaposição
Aglutinação
Conceito de raiz ou radical primário
Palavras cognatas
Variantes dos elementos mórficos
Subtração nos elementos mórficos
Acumulação nos elementos mórficos;
Fusão nos elementos mórficos
A intensidade, a quantidade e o timbre e os elementos mórficos

B) 1 - Estrutura dos vocábulos os elementos mórficos Vogais e consoantes de ligação Constituintes imediatos . Neutralização nos elementos mórficos Suplementação nos elementos mórficos 2 - Formação de palavras

divisíveis

Palavras indivisíveis e

Derivação
sufixos
Prefixos

Palavras divisíveis simples e compostas . Processos principais de formação de palavras: composição e derivação

parassintética

Correspondência entre prefixos e elementos latinos e gregos Derivação

reduplicação e conversão
Hibridismo
Radicais gregos mais usados em português
Famílias etimológicas de radical latino

Outros processos de formação de palavras: formação regressiva, abreviaOo, I - SINTAXE

Que é oração194
Entoação oracional194
A importância da situação e do contexto196
Constituição das orações

A) Noções gerais Estruturação sintática: objeto da sintaxe .............

A oração na língua falada e na língua escrita
estilística
Tipos de oração
B) O período simples

5 Sintaxe e estilo: necessidade sintática e possibilidade C) Núcleo

Sujeito
Predicado
Omissão do sujeito ou do predicado
Sujeito indeterminado
Orações sem sujeito
Os principais verbos impessoais

1 - Termos essenciais da oração

Predicativo
Verbos de ligação

- Tipos de predicado: verbal, nominal e verbo-nominal

Verbo intransitivo
Verbo transitivo
Espécie de complementos verbais
Sentidos do objeto direto
Sentidos do objeto indireto
A preposição como posvérbio
Objeto direto preposicionado
Objeto direto interno
Concorrência de complementis diferentes

3 - Constituição do predicado verbal

a) Substantivos
b) Adjetivos
5 - Adjunto: seus tipos
Adjunto adnominal
Adjunto adverbial ,
Advérbios de base nominal ou pronominal212
6 - Agente da passiva*

4 - Complementos nominais

Aposto
Aposto em referência a uma oração inteira
Aposto circunstancial
8 - Vocativo
Oração independente
Oração dependente

7 - Aposto: seus tipos D) O período composto 1 - Orações independentes e dependentes 2 - Oração principal ...............................................

Mais de uma oração principal
Oração principal não é a 1.a oração
Oração principal nem sempre é a do sentido principal
As orações dependentes são subordinadas
Coordenação
Subordinação
Classificação das orações quanto à ligação entre si
3 - Interrogação direta e indireta
orações coordenadas conectivas
5 ~ Orações intercaladas
Substantivas: Funções sintáticas exercidas pelas substantivas
Características das orações substantivas
Adjetivas: Função sintática exercida pelas adjetivas
Adjetivas restritivas e explicativas
Outros sentidos das orações adjetivas
Adverbiais: Função sintática exercida pelas adverbiais
Que é oração reduzida
Orações reduzidas independentes

6 Tipos de orações independentes: coordenadas e intercaladas 6 - Orações subordinadas 7 - Orações reduzidas

a) Substantivas
b) Adjetivas .,
c) Adverbiais
Orações reduzidas fixas
Orações reduzidas do tipo: Deixei-o entrar
Quando o infinitivo não constitui oração reduzida

Orações reduzidas dependenter Quando o gerúndio e o particípio não constituem oração reduzida

Particularidades de estruturação sintática oracional

E) Sintaxe de classes de ~as

1 - Emprego do artigo

Artigo partitivo,

Emprego do artigo definido Emprego do artigo indefinido

Pronome pessoal: empregos e particularidades
Ele como objeto direto
Fun" e empregos do pronome se

2 - Emprego do pronome Combinação de pronomes átonos ........................

Função do pronome átono em Dou-me ao trabalho
Pronome possessivo: seu e dele para evitar confusão
Posição do pronome possessivo
Possessivo para indicar aproximação
Valores afetivos do possessivo
Possessivo em referência a um possuidor de sentido indefinido
Repetição do possessivo
Substituição do possessivo pelo artigo definido
Possessivo e as expressões de tratamento do tipo: Vossa Excelência
Pronome demonstrativo
Demonstrativos referidos à noção de espaço
Demonstrativos referidos à noção de tempo
Demonstrativos referidos a nossas próprias palavras
Reforços de demonstrativos
Outros demonstrativos e seus empregos
Posição dos demonstrativos
Pronome indefinido: empregos e particularidades
Pronome relativo: empregos e particularidades

7 Emprego do pessoal pelo possessivo Possessivo expresso por uma locução

3 - Emprego.do, verbo

Indicativo,
Subjuntivo
Emprego das formas nominais
Emprego do infinitivo (flexionado e sem flexão)

Emprego de tempos e modos: Imperativo .: -.* --- * * APÊNDICE: Passagem da voz ativa para passiva e vice-versa

1) . A
5) De
6) Em
7) Entre
8) Para

4 - Emprego de preposições Emprego do à acentuado (crase) 2) Até 3) Com 4) Contra 9) Por (e per) .

Concordância: consideraçõesrais 295

9 - r-ordincia Concordância nominal:

A - Concordância de vocábulo para vocábulo 296 B - Concordância de vocábulo para sentido 298 C - Outros casos de concordância:

3) leso

1) um e outro, nem um nem outro 2) mesmo, próprio, só 4) anexo

6) possível

5) meio 7) a olhos vistos 8) é necessdrio paciência 9) alguma coisa boa ou alguma coisa de bom 10) um pouco de luz e uma pouca de luz 1) Concordância do pronome 12) Nós por eu, vós por tu 131 Alternância entre adietivo e advérbio

15) Concordância com numeral

14) Particípios que passaram a preposição e advérbio Concordincia. verbal:

1) com pronomes pessoais

A - Concordância de vocábulo para vocábulo B ~ Concordância de vocábulo para sentido C - Outros casos de concordância: # 2) sujeito ligado por série aditiva enfática 3) sujeito ligado por com 4) sujeito ligado por nem 5) sujeito ligado por ou 6) a maioria dos homens

1) pronomes relativos
12) verbos impessoais
13) dar aplicado a horas
14) alugam-se casas
15) concordância na locução verbal
16) nãosenéio ......................
17) concordância com títulos no plural
18) concordância no aposto
6 - Regência
1 ) Isto é para eu fazer
2) pedir Para
3) Está na hora da onça beber água
4) Migrações de preposições
5) Complementos de termos de regências diferentes
6) Emprego de relativos precedidos de preposição
7) Relação de regências de alguns verbos e nomes
7 - Colocação: ordem direta e inversa
Colocação dos termos na oração e das orações no período
Colocação de pronomes átonos
Explicação da colocação dos pronomes átonos no Brasil

Figuras de sintaxe 1) Elipse

2) Pleonasmo,
3) Anacoluto
4) Antecipação
5) Braquilogia
6) Haplologia sintática
7) Contaminação sintática
8) Expressão expletiva ou de realce
Vícios e anomalias de linguagem
1) Solecismo
2) Barbarismo
Idiotismo
Ponto de exclamação*
Reticências
Aspas
Travessão
Vírgula
Ponto e vírgula
Ponto
Ponto parágrafo
Asterisco
Alínea
V- SEMANTICA
Semântica
Espécies de alteração semântica
Pequena nomenclatura de outros aspectos semânticos
A nova Estilística
Estilística e Retórica
Análise literária e análise estilística
Traços estilísticos
Traço estilístico e erro gramatical
Campo da Estilística

9 IV - PONTUAçãO VI - NOÇõES ELEMENTARES DE ESTILíSTICA VII - NOÇõES ELEMENTARES DE VERSIFICAÇÃO

Versos agudos, graves e esdrúxulos353

Poesia e prosa Enjambement Versificação regular eÁrregular Ritmo poético 1) Número fixo de sílabas: Como se contam as sílabas de um verso 353 Fenômenos correntes na leitura dos versos: sinérese, diérese, elisão, crase e ectlipse o ritmo e a pontuação do verso Expedientes mais raros na contagem (Ias sílabas 2) Número fixo de sílabas e pausas

Versos de uma a doze sílabas
3)Rima: perfeita e
imperfeita
Rimas consoantes e toantes
Disposição das rimas
4) Aliteração
9) Recitação
Exemplos de análise estilística
1) Um soneto de Antônio Nobre
2) Um soneto de Machado de Assis

10 5) Encadeamento 6) Paralelismo 7) Estrofação 8) Verso livre APêNDICE Prefácio

ilevar ao magistério brasileiro num compêndio escolar escrito em estilo

AO ESCREVER ESTA Moderna Gramática Portuguesa foi nosso intuito simples, o resultado dos progressos que os modernos estudos de linguagem alcançaram,no estrangeiro e em nosso país. Não se rompe de vez com uma tradição secular: isto explica por que esta Moderna Gramática traz uma disposição da matéria mais ou menos conforme o modelo clássico A nossa preocupação não residiu aí mas na doutrina. Encontrarão os colegas de magistério, os alunos e quantos se interessam pelo ensino e aprendizado do idioma um tratamento novo para muitos assuntos im r- tantes que não poderiam continuar a ser encarados pelos prismas por que a tradição os apresentava. Com a humildade necessária a tais empresas, sabemos que as pessoas competentes poderão facilmente verificar que fizemos uma revisão em quase todos os assuntos de que se compõe este livro, e muitos dos quais encontraram aqui um desenvolvimento ainda não conhecido em trabalho congênere. Por outro lado, a esta altura do progresso que a matéria tem tido, não poderíamos escrever esta Moderna Gramática sem umas noções, ainda que breves, sobre fonêmica e estilística.

Isto nos permitiu, na última, tratar da análise literária, que entre nós passa às vezes confundida com análise estilística ressaltamos os objetivos desta e convidamos os nossos colegas de disciplina a que dela se sirvam num dos escopos supremos de sua missão: educar o sentimento estético do,aluno Na arte relativa à estruturação dos vocábulos e sua formação, pretendemos trazer para a gramática portuguesa os excelentes estudos que a lingüística americana tem feito sobre tão im. rtante ca ítulo Seguimos a Nomenclatura Gramatical Brasileira. Os termos que aqui se encontrarem e lá faltam não se explicarão por discordância ou desres peito; é que a NGB não tratou de todos os assuntos aqui ventilados. #

A orientação científica por que se norteia esta nossa Moderna Gra- mática não seria possível sem a lição dos mestres (seria ocioso citá-los) que, dentro e fora do Brasil, tanto têm feito pelo desenvolvimento da disciplina. Devemos-lhes o que de melhor os leitores encontrarem neste livro, e a eles, em cada citação, prestamos sincera homenagem. Elegemos, entre eles, um dos mais ilustres para dedicar-lhe o nosso trabalho de hoje, aquele que para nós nos é tão caro pelo muito que contribuiu para nossa formação lingüística: M. Said Ali. No ano em que seus discípulos e admiradores comemoram o 1.o centenário de seu nascimento, não pode- ríamos deixar de levar ao mestre e amigo o testemunho de nossa profunda amizade e gratidão.

Que é uma língua

Entende-se por língua ou idioma o sistema de símbolos vocais arbi- trários com que um grupo social se entende.

Uma língua pode ser instrumento particular de um povo único, como acontece com o chinês, o romeno, ou comum a mais de uma nação. Este é o caso do português, que serve a Portugal, ao Brasil e colônias ultrama- rinas lusas.

Este fato se explica historicamente pelos capítulos de expansão e colonização dos povos. Falamos o português como língua oficial porque, ao lado de outras instituições culturais, os portugueses no-la deixaram como traço da civilização que aqui fundaram depois de 1500.

A língua é um jen&n~ cultural

A língua não existe em si mesma: fora do homem é uma abstração, e no homem é o resultado de um património cultural que a sociedade a que pertence lhe transmite. "É evidente - ensina-nos Sapir - que, até certo ponto, o indivíduo humapO está predestinado a falar, mas em vir- tude da circunstância de não ter nascido meramente na natureza, e sim no regaço de uma sociedade, cujo escopo racional é chamá-lo para as suas tradições" (1).

Modalidades de uma língua Uma língua de civilização apresenta as seguintes modalidades:

a) língua falada: instrumento de comunicação cotidiana, que, sem preocupação artística, tem a seu dispor os múltiplos recursos lingüísticos

(1) E. SAPiR, A Linguagem (trad. brasileira de J. MATOSO CAMARA jr.). 17-18.

da entoação e extralingüísticos da mímica, englobados na "situação" em que se acham falante e ouvinte;

ções, etc., etcExagerando um pouco, poder-se-ia dizer que a língua

b) língua escrita: instrumento de comunicação menos freqüente em que o escritor tem de suprir os recursos que estão à disposição da língua falada. Foge, por isso, muitas vezes às expressões comuns da linguagem ordinária para fins estéticos e expressivos. Na língua escrita a "situação" tem de ser criada através da ordenação especial das idéias. "Isto é o que, segundo Bally, dá à língua escrita sua fisionomia particular: e assim se explica por que não é e por que não será jamais idêntica à língua falada. Pode-se dela aproximar, pode copiá-la, porém essa cópia é sempre uma transposição ou uma deformação. Sentidos particulares dados a vocábulos vagos, criação de vocábulos novos, conservação de outros que estão a ponto de morrer, ressurreição de vocábulos já há muito tempo fora de circulação, fenômenos semelhantes no tratamento da sintaxe e da construção das ora- es- crita é "acrônica": longe de dar uma idéia do estado contemporâneo de um idioma, combina, num amálgama, um pouco heteródito, os diversos está- gios por que passou o idioma"(').

Os escritores modernos - uns com certo exagero - têm procurado diminuir a distância entre a língua falada e a escrita.

O ponto culminante deste afastamento é a língua literária, que é um aspecto da língua escrita, mas que com esta não se confunde. É o instrumento de que se utilizam os escritores nas suas obras; exige um cultivo especial e um ideal superior de expressão, além de estar sujeita aos preceitos das modas dominantes.

Falar com termos da língua escrita, mormente do seu aspecto lite- rário, no trato normal de todos os dias, provoca um defeito de adequação lingüística a que se- dá o nome de preciosismo.

Língua geral e língua regional

A língua espalhada por grande extensão de terra pode apresentar par- ticularidades cujo conjunto caracteriza a língua regional, e os traços lin- güísticos que aí ocorrem recebem o nome de regionalismos.

Objeto da Gramática

Mas dentro da diversidade das línguas ou falares regionais se sobrepõe um uso comum a toda a área geográfica, fixada pela escola e utilizada pelas pessoas cultas: é isto o que constitui a língua geral, língua padrão ou oficial do país.

(1) Ch. BALLY, Le Langage et la Vie, 112.

r- a o

Cabe à Gramática registrar os fatos da língua geral ou padrão, esta- belecendo os preceitos de como se fala e escreve bem ou de como se pode falar e escrever bem uma língua.

Daí ser a Gramática, ao mesmo tempo, uma ciência e uma arte. Assim sendo, o gramático não é um legislador do idioma nem tam- pouco o tirano que defende uma imutabilidade- do sistema expressivo. Cabe-lhe ordenar os fatos lingüísticos da língua padrão na sua época, para servirem às pessoas que começam a aprender o idioma também na sua época.

Divisão da Gramatica

A Gramática pode estudar: a) uma época determinada, b) uma seqüência de fases evolutivas de um idioma ou c) de vários idiomas.

A que interessa mais de perto à comunidade social, pela sua utili- zação imediata de código de bem falar, é a que estuda apenas a fase con- temporánea do idioma, por isso chamada gramática expositiva, normativa ou tão-somente grámatica.

A Gramática que se preocupa com os aspectos b) e c) formam o que chamamos, respectivamente, Gramática Histórica e Gramática Com- parada, e divergem da Gramática anterior porque são apenas obra de ciência.

Partes da Gramatica A Gramática estuda:

a) os sons da fala: Fonética e Fonêmica b) as formas: Morfologia c) as construções: Sintaxe d) os sentidos e suas alterações: Semdntica(l).

Objeto da Estilística

Estilística é um campo novo dos estudos de linguagem que procura investigar o sistema expressivo que o idioma põe a serviço do falante e sua eficiência estética.

Todos estes ramos do estudo e da pesquisa dos fatos da linguagem fazem parte de uma disciplina maior conhecida pelo nome de Ciência da Linguagem ou Lingüística.

(1) A Nomenclatura oficial põe de lado a Fonémica, a SemMica e a.Esfilística.

1 - Fonetica e fonêmica , A) Produção dos fonemas e sua classificação I - F ÊTICA DESCRI IVA

Fonemas. - Chamam-se fonemas os sons elementares e distintivos que o homem produz quando, pela voz, exprime seus pensamentos e emoções.

Fonemas não são letras. - Desde logo uma distinção se impõe: não se há de confundir fonema com letra. Fonema é uma realidade acústica, realidade que nosso ouvido registra; enquanto letra é o sinal empregado para representar na escrita o sistema sonoro de uma língua. Não há identidade perfeita, muitas vezes, entre os fonemas e a maneira de repre- sentá-los na escrita, o que nos leva facilmente a perceber a impossibilidade de uma ortografia ideal. Temos, como veremos mais adiante, sete vogais orais tônicas, mas apenas cinco símbolos gráficos (letras): a, e i, o, u.

Quando queremos distinguir um e tônico aberto de um e tônico fechado - pois são dois fonemas distintos - geralmente utilizamos sinais subsidiá- rios: o acento agudo (fé) ou o circunflexo (vê). Há letras que se escre- vem, por várias razões, mas que não se pronunciam, e portanto não repre- sentam a vestimenta gráfica do fonema; é o caso do h em homem ou oh ! Por outro lado, há fonemas que se ouvem e que não se acham registrados na escrita; assim, no final de cantavam, ouvimos um ditongo em -am cuja semivogal não vem assinalada /cantávãw/. A escrita, graças ao seu conven- cionalismo tradicional, nem sempre espelha a evolução fonética. Neste livro, diferençamos a letra do fonema, pondo este entre barras; dessarte indicaremos o e aberto e e fechado da seguinte maneira: /é/, /é/.

Fonética e Fonèmica. - Na atividade lingüística, o importante para os falantes é o som, e não a série de movimentos articulatórios que o determina. Assim sendo, enquanto a análise fonética se preocupa tão- # somente com a articulação, a fonêmica atenta apenas para o SOM que, reunindo um feixe de traços que o distingue de outro som, permite a comunicação lingüística. A fonética pode reconhecer, e realmente o faz, diversas realizações para o 1t1 da série ta-te-ti-to-tu; a fonêmica não leva em conta as variações (que se chamam alofones), porque delas não tomam conhecimento os falantes de língua portuguesa. Um fonema admite uma gama variada de realizações fonéticas que vai até a conservação da inte- gridade do vocábulo: quando isto não ocorre, diz-se que houve mudança de fonema. O /1/ admite várias realizações no Brasil, de norte a sul (e estas variantes não interessam à analise fonêmica, que deveria ter primazia em nosso estudo de língua); mas haverá mudança de fonernas quando se não puder fazer a oposição mal/mau. Como bem ensina Matoso Câmara, "o fonema, entendido como um feixe de traços distintivos, indi- vidualiza-se e ganha realidade gramatical pelo seu contraste com outros feixe~ em idênticos ambientes fonéticos. Não é, pois, a diferença articula- tória e acústica que distingue primariamente dois fonemas, senão a possi- bilidade de determinarem significações distintas numa mesma situação fonética. Compreende-se assim que um mesmo fonema possa~variar ampla- mente na sua realização, conforme o ambiente fonético ou as peculiari- dades do sujeito falante" (1).

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