Vol 14 A historia do movimento psicanalitico, artigo sobre metapsicologia e outros trabalhos

Vol 14 A historia do movimento psicanalitico, artigo sobre metapsicologia e outros...

(Parte 6 de 13)

Em sua ‘História do Movimento Psicanalítico’ (1914d), Freud declarou que ‘a teoria da repressão é pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise’ (ver em [1] acima); e no presente ensaio, juntamente com a Seção IV do artigo sobre ‘O Inconsciente’ que a ela se segue (ver em [1] e segs.), oferece-nos sua formulação mais elaborada dessa teoria.

O conceito de repressão remonta historicamente aos primórdios da psicanálise. A primeira referência a ele que foi publicada, consta da ‘Comunicação Preliminar’ de Breuer e Freud (Edição Standard Brasileira, Vol. II, pág. 51, IMAGO Editora, 1974). O termo ‘Verdrängung‘ fora empregado pelo psicólogo Herbart, no início do século XIX, e possivelmente chegou ao conhecimento de Freud através de seu mestre Meynert, que tinha sido admirador de Herbart. Mas, como o próprio Freud insistiu no trecho da ‘História’ já citado (pág. acima), ‘a teoria da repressão, sem dúvida alguma, ocorreu-me independentemente de qualquer outra fonte’. ‘Foi uma novidade’, escreveu em seu Autobiographical Study (1925d), ‘e nada semelhante havia sido reconhecido anteriormente na vida mental.’ Existem, nos escritos de Freud, vários relatos de como ocorreu a descoberta: por exemplo, nos Estudos sobre a Histeria (1895d), Edição Standard Brasileira, Vol. II, págs. 324-6, IMAGO Editora, 1974, e novamente na ‘História’, pág. 36 acima. Todos esses relatos são unânimes em ressaltar o fato de que o conceito de repressão foi inevitavelmente sugerido pelo fenômeno clínico da resistência, que por sua vez foi trazido à luz por uma inovação técnica - a saber, o abandono da hipnose no tratamento catártico da histeria.

Notar-se-á que no relato feito nos Estudos o termo realmente empregado para descrever o processo não é ‘repressão’ mas ‘defesa’. Nesse período inicial, os dois termos foram utilizados por Freud indiretamente, quase como equivalentes, embora ‘defesa’ fosse talvez o mais comum. Logo, contudo, como observou em seu artigo sobre a sexualidade nas neuroses (1960a), Edição Standard Brasileira, Vol. VII, pág. 288, anamnese do ‘Homem dos Ratos’ (1909d) Freud examinou o mecanismo de ‘repressão’ na neurose obsessiva - isto é, o deslocamento da catexia emocional da idéia objetável, em contraste com a expulsão completa da idéia da consciência, na histeria - e referiu-se a ‘duas espécies de repressão’ (Standard Ed., 10, 196). De fato, é nesse sentido mais amplo que o termo é utilizado no presente artigo, como fica demonstrado pela discussão, que aparece quase no final, sobre os diferentes mecanismos de repressão nas várias formas da psiconeurose. Parece bastante claro, todavia, que a forma da repressão que Freud tinha em mente, aqui, era sobretudo a que ocorre na histeria; e muito mais adiante, no Capítulo XI, Seção A (c), de Inhibitions, Symptons and Anxiety (1926d), ele propôs restringir o termo ‘repressão’ a esse único mecanismo particular, e reviver ‘defesa’ como ‘uma designação geral para todas as técnicas empregadas pelo ego em conflitos que possam levar a uma neurose’. A importância de estabelecer essa distinção foi depois ilustrada por ele na Seção V de ‘Analysis Terminable and Interminable’ (1937c).

O problema especial da natureza da força motora, que permite à repressão operar, constitui uma fonte constante de preocupação para Freud, embora quase não seja abordado no presente artigo. Em particular, havia a questão da relação entre a repressão e o sexo, em relação à qual Freud, inicialmente, não tinha uma posição definida, como se pode ver em muitos pontos da correspondência de Fliess (1950a). Subseqüentemente, contudo, ele rejeitou com firmeza qualquer tentativa de ‘sexualizar’ a repressão. Um exame completo dessa questão (com particular referência aos conceitos de Adler) será encontrado na última seção de “A Child is Being Beaten”, (1919e), Standard Ed., 17, 200 e segs. Mais tarde ainda, em Inhibitions Symptonsand Anxiety (1926d), especialmente no Capítulo IV, e na parte inicial da Conferência XXXII das New Introductory Lectures (1933a), ele lançou nova luz sobre o assunto argumentando que a ansiedade não era, como sustentara anteriormente e como afirma no artigo que se segue, por exemplo nas págs. 157 e 159, uma conseqüência da repressão, mas uma das principais forças motoras conducentes à mesma.

REPRESSÃO

Uma das vicissitudes que um impulso instintual pode sofrer é encontrar resistências que procuram torná-lo inoperante. Em certas condições, que logo investigaremos mais detidamente, o impulso passa então para o estado de ‘repressão’ [‘Verdrängung‘]. Se o que estava em questão era o funcionamento de um estímulo externo, obviamente se deveria adotar a fuga como método apropriado; para o instinto, a fuga não tem qualquer valia, pois o ego não pode escapar de si próprio. Em dado período ulterior, se verificará que a rejeição baseada no julgamento (condenação) constituirá um bom método a ser adotado contra um impulso instintual. A repressão é uma etapa preliminar da condenação, algo entre a fuga e a condenação; trata-se de um conceito que não poderia ter sido formulado antes da época dos estudos psicanalíticos.

Não é fácil deduzir em teoria a possibilidade de algo como a repressão. Por que deve um impulso instintual sofrer uma vicissitude como essa? Condição necessária para que ela ocorra deve ser, sem dúvida, que a consecução, pelo instinto, de sua finalidade produza desprazer em vez de prazer. Contudo, não podemos imaginar facilmente tal eventualidade. Não existem tais instintos: a satisfação de um instinto é sempre agradável. Teríamos de supor a existência de certas circunstâncias peculiares, alguma espécie de processo através do qual o prazer da satisfação se transforma em desprazer.

A fim de melhor determinar a repressão, examinemos algumas outras situações instintuais. Pode acontecer que um estímulo externo seja internalizado - corroendo e destruindo, por exemplo, algum órgão corpóreo -, de modo que surja uma nova fonte de excitação constante e de aumento de tensão. Assim, o estímulo adquire uma similaridade de longo alcance com um instinto. Sabemos que um caso desse tipo é experimentado por nós como dor. A finalidade desse pseudo-instinto, no entanto, consiste simplesmente na cessação da mudança no órgão e do desprazer que lhe é concomitante. Não há outro prazer direto a ser alcançado pela cessação da dor. Além disso, a dor é imperativa; as únicas coisas diante das quais ela pode ceder são a eliminação por algum agente tóxico ou a influência da distração mental.

O caso da dor é por demais obscuro para nos servir de ajuda em nossos propósitos. Tomemos o caso em que um estímulo instintual como a fome permanece insatisfeito. Ele se torna então imperativo e só pode ser aliviado pela ação que o satisfaz, mantendo uma constante tensão de necessidade. Nesse caso, nada da natureza de uma repressão, sequer remotamente, parece estar em questão.

Assim, por certo, a repressão não surge nos casos em que a tensão produzida pela falta de satisfação de um impulso instintual é elevada a um grau insuportável. Os métodos de defesa acessíveis ao organismo contra essa situação devem ser examinados em outra conexão.

Limitemo-nos, portanto, à experiência clínica, tal como encontrada na prática psicanalítica. Aprendemos então que a satisfação de um instinto que se acha sob repressão seria bastante possível, e, além disso, que tal satisfação seria invariavelmente agradável em si mesma, embora irreconciliável com outras reivindicações e intenções. Ela causaria, por conseguinte, prazer num lugar e desprazer em outro. Em conseqüência disso, torna-se condição para repressão que a força motora do desprazer adquira mais vigor do que o prazer obtido da satisfação. Ademais, a observação psicanalítica das neuroses de transferência leva-nos a concluir que a repressão não é um mecanismo defensivo que esteja presente desde o início; que ela só pode surgir quando tiver ocorrido uma cisão marcante entre a atividade mental consciente e a inconsciente; e que a essência da repressão consiste simplesmente em afastar determinada coisa do consciente, mantendo-a à distância. Esse conceito de repressão ficaria mais completo se supuséssemos que, antes de a organização mental alcançar essa fase, a tarefa de rechaçar os impulsos instintuais cabia às outras vicissitudes, às quais os instintos podem estar sujeitos - por exemplo, a reversão no oposto ou o retorno em direção ao próprio eu (self) do sujeito [ver em [1]].

Afigura-se-nos agora que, em vista da grande extensão da correlação entre repressão e o que é inconsciente, devemos adiar o exame mais aprofundado da natureza da repressão até que tenhamos aprendido mais sobre a estrutura da sucessão de agentes psíquicos e sobre a diferenciação entre o que é inconsciente e consciente. [Ver o artigo seguinte em [1] e segs.] Até então, tudo o que podemos fazer é reunir de maneira puramente descritiva algumas características da repressão que tenham sido observadas clinicamente, ainda que corramos o risco de ter de repetir, sem modificação, muito do que já foi dito em outros lugares.

Temos motivos suficientes para supor que existe uma repressão primeva, uma primeira fase de repressão, que consiste em negar entrada no consciente ao representante psíquico (ideacional) do instinto. Com isso, estabelece-se uma fixação; a partir de então, o representante em questão continua inalterado, e o instinto permanece ligado a ele. Isso se deve às propriedades dos processos inconscientes, de que falaremos depois [ver em [1]].

A segunda fase da repressão, a repressão propriamente dita, afeta os derivados mentais do representante reprimido, ou sucessões de pensamento que, originando-se em outra parte, tenham entrado em ligação associativa com ele. Por causa dessa associação, essas idéias sofrem o mesmo destino daquilo que foi primevamente reprimido. Na realidade, portanto, a repressão propriamente dita é uma pressão posterior Além disso, é errado dar ênfase apenas à repulsão que atua a partir da direção do consciente sobre o que deve ser reprimido; igualmente importante é a atração exercida por aquilo que foi primevamente repelido sobre tudo aquilo com que ele possa estabelecer uma ligação. Provavelmente, a tendência no sentido da repressão falharia em seu propósito, caso essas duas forças não cooperassem, caso não existisse algo previamente reprimido pronto para receber aquilo que é repelido pelo consciente.

Sob a influência do estudo das psiconeuroses, que coloca diante de nós os importantes efeitos da repressão, inclinamo-nos a supervalorizar sua dimensão psicológica e a esquecer, demasiado depressa, o fato de que a repressão não impede que o representante instintual continue a existir no inconsciente, se organize ainda mais, dê origem a derivados, e estabeleça ligações. Na verdade, a repressão só interfere na relação do representante instintual com um único sistema psíquico, a saber, o do consciente.

A psicanálise também é capaz de nos revelar outras coisas importantes para a compreensão dos efeitos da repressão nas psiconeuroses. Mostra-nos, por exemplo, que o representante instintual se desenvolverá com menos interferência e mais profusamente, se for retirado da influência consciente pela expressão. Ele prolifera no escuro, por assim dizer, e assume formas extremas de expressão, que uma vez traduzidas e apresentadas ao neurótico irão não só lhe parecer estranhas mas também assustá-lo, mostrando-lhe o quadro de uma extraordinária e perigosa força do instinto. Essa força falaz do instinto resulta de um desenvolvimento desinibido da fantasia e do represamento ocasionado pela satisfação frustrada. O fato de esse último resultado estar vinculado à repressão indica a direção em que a verdadeira importância da repressão deve ser procurada.

Voltando, porém, mais uma vez ao aspecto oposto da repressão, deixemos claro que tampouco é correto supor que a repressão retira do consciente todos os derivados daquilo que foi primevamente reprimido. Se esses derivados se tornarem suficientemente afastados do representante reprimido - quer devido à adoção de distorções, quer por causa do grande número de elos intermediários inseridos -, eles terão livre acesso ao consciente. Tudo se passa como se a resistência do consciente contra eles constituísse uma função da distância existente entre eles e aquilo que foi originalmente reprimido. Ao executarmos a técnica da psicanálise, continuamos exigindo que o paciente produza, de tal forma, derivados do reprimido, que, em conseqüência de sua distância no tempo, ou de sua distorção, eles possam passar pela censura do consciente. Na realidade, as associações que exigimos que o paciente faça sem sofrer a influência de qualquer idéia intencional consciente ou de qualquer crítica, e a partir das quais reconstituímos uma tradução consciente do representante reprimido - essas associações nada mais são do que derivados remotos e distorcidos desse tipo. No correr desse processo, observamos que o paciente pode continuar a desfiar sua meada de associações, até ser levado de encontro a um pensamento, cuja relação com o reprimido fique tão óbvia, que o force a repetir sua tentativa de repressão. Também os sintomas neuróticos devem satisfazer a essa mesma condição, já que são derivados do reprimido, o qual, por intermédio deles, finalmente teve acesso à consciência, acesso este que anteriormente lhe era negado.

Não podemos formular uma regra geral sobre o grau de distorção e de distância no tempo necessário para a eliminação da resistência por parte do consciente. Ocorre aqui um delicado equilíbrio, cujo jogo não nos é revelado; no entanto, sua modalidade de atuação nos permite inferir que se trata de pôr um paradeiro à catexia do inconsciente quando esta alcança certa intensidade - intensidade além da qual o inconsciente venceria as resistências, chegando à satisfação. A repressão atua, portanto, de uma forma altamente individual. Cada derivado isolado do reprimido pode ter sua própria vicissitude especial; um pouco mais ou um pouco menos de distorção altera totalmente o resultado. Nesse sentido, podemos compreender a razão por que os objetos mais preferidos pelos homens, isto é, seus ideais, procedem das mesmas percepções e experiências que os objetos mais abominados por eles, e porque, originalmente, eles só se distinguiam um dos outros através de ligeiras modificações. [ver em [1]] Realmente, tal como verificamos ao remontarmos à origem do fetiche, o representante instintual original pode ser dividido em duas partes: uma que sofre repressão, ao passo que a restante, precisamente por causa dessa ligação íntima, passa pela idealização.

O mesmo resultado oriundo de um aumento ou de uma diminuição do grau de distorção também pode ser alcançado na outra extremidade do aparelho, por assim dizer, por uma modificação da condição de produção de prazer e desprazer. Desenvolveram-se técnicas especiais, com o propósito de provocar tais mudanças no jogo das forças mentais, que aquilo que de outra forma daria lugar ao desprazer, pudesse, nessa ocasião, resultar em prazer; e, sempre que um dispositivo técnico desse tipo entra em funcionamento, elimina-se a repressão de um representante instintual que, de outro modo, seria repudiado. Até agora, apenas no que se refere aos chistes, essas técnicas foram estudadas com algum detalhe. Via de regra, a repressão só é removida temporariamente, reinstalando-se imediatamente.

Observações como esta, contudo, permitem-nos notar outras características da repressão. Ela é não só individual em seu funcionamento, conforme acabamos de assinalar, como também é extremamente móbil. O processo de repressão não deve ser encarado como um fato que acontece uma vez, produzindo resultados permanentes, tal como, por exemplo, se mata um ser vivo que, a partir de então, está morto; a repressão exige um dispêndio persistente de força, e se esta viesse a cessar, o êxito da repressão correria perigo, tornando necessário um novo ato de repressão. Podemos supor que o reprimido exerce uma pressão contínua em direção ao consciente, de forma que essa pressão pode ser equilibrada por uma contrapressão incessante. Assim, a manutenção de uma repressão acarreta ininterrupto dispêndio de força, ao passo que sua eliminação, encarada de um ponto de vista econômico, resulta numa poupança. Incidentalmente, a mobilidade da repressão também encontra expressão nas características psíquicas do estado do sono, o único a tornar possível a formação de sonhos. Com o retorno à vida de vigília, as catexias repressivas absorvidas são mais uma vez expulsas.

Finalmente, não nos devemos esquecer de que, na verdade, ao se estabelecer que um impulso instintual é reprimido, muito pouco se disse a respeito dele. Tal impulso pode ocorrer em estados amplamente diferentes, sem prejuízo para sua repressão. Pode ser inativo, isto é, só muito levemente catexizado com energia mental; ou pode ser catexizado em graus variáveis, permitindo-se-lhe, assim, que seja ativo. É verdade que sua ativação não resultará numa eliminação direta da repressão, mas porá em movimento todos os processos que terminam na penetração do impulso na consciência por caminhos indiretos. Com derivados não reprimidos do inconsciente, o destino de uma idéia específica é, com freqüência, decidido pelo grau de sua atividade ou catexia. Enquanto esse derivado representa apenas uma pequena quantidade de energia, quase sempre permanece não reprimido, embora pudesse calcular que seu conteúdo entrasse em conflito com o que é dominante na consciência. O fator quantitativo torna-se decisivo para esse conflito: tão logo a idéia basicamente detestável ultrapassa certo grau de força, o conflito se torna real, e é precisamente essa ativação que leva à repressão. Assim, no tocante à repressão, um aumento da catexia energética atua no mesmo sentido que uma abordagem ao inconsciente, ao passo que uma diminuição dessa catexia atua no mesmo sentido que o caráter remoto do inconsciente ou da distorção. Vemos que as tendências repressivas podem encontrar um substituto para a repressão num enfraquecimento do que é detestável.

Até esse momento, em nosso exame, tratamos da repressão de um representante instintual, entendendo por este último uma idéia, ou grupo de idéias, catexizadas com uma quota definida de energia psíquica (libido ou interesse) proveniente de um instinto. Agora, a observação clínica nos obriga a dividir aquilo que até o presente consideramos como sendo uma entidade única, de uma vez que essa observação nos indica que, além da idéia, outro elemento representativo do instinto tem de ser levado em consideração, e que esse outro elemento passa por vicissitudes de repressão que podem ser bem diferentes das experimentadas pela idéia. Geralmente, a expressão quota de afeto tem sido adotada para designar esse outro elemento do representante psíquico. Corresponde ao instinto na medida em que este se afasta da idéia e encontra expressão, proporcional à sua quantidade, em processos que são sentidos como afetos. A partir desse ponto, ao descrevermos um caso de repressão, teremos de acompanhar separadamente aquilo que acontece à idéia como resultado da repressão e aquilo que acontece à energia instintual vinculada a ela.

Gostaríamos de fazer algumas afirmações genéricas a respeito das vicissitudes de ambos, coisa que, depois de nos situarmos, será efetivamente possível. A idéia que representa o instinto passa por uma vicissitude geral que consiste em desaparecer do consciente, caso fosse previamente consciente, ou em ser afastada da consciência, caso estivesse prestes a se tornar consciente. Essa diferença não é importante, correspondendo à mesma coisa que a diferença entre ordenar a um hóspede indesejável que saia da minha sala de visitas (ou do meu hall de entrada), e impedir, após reconhecê-lo, que cruze a soleira de minha porta. O fator quantitativo do representante instintual possui três vicissitudes possíveis, tal como podemos verificar pelo breve exame das observações feitas pela psicanálise: ou o instinto é inteiramente suprimido, de modo que não se encontra qualquer vestígio dele, ou aparece como um afeto que de uma maneira ou de outra é qualitativamente colorido, ou transformado em ansiedade. As duas últimas possibilidades nos apontam a tarefa de levar em conta, como sendo uma vicissitude instintual ulterior, a transformação em afetos, e especialmente em ansiedade, das energias psíquicas dos instintos.

Recordamos o fato de que o motivo e o propósito da repressão nada mais eram do que a fuga ao desprazer. Depreende-se disso que a vicissitude da quota de afeto pertencente ao representante é muito mais importante do que a vicissitude da idéia, sendo esse fato decisivo para nossa avaliação do processo da repressão. Se uma repressão não conseguir impedir que surjam sentimentos de desprazer ou de ansiedade, podemos dizer que falhou, ainda que possa ter alcançado seu propósito no tocante à parcela ideacional. Evidentemente, as repressões que falharam exercerão maior influência sobre nosso interesse do que qualquer outra que possa ter sido bem-sucedida, já que esta, na maioria das vezes, escapará ao nosso exame.

Agora, devemos tentar obter uma compreensão interna (insight) do mecanismo do processo de repressão. Em particular, desejamos saber se existe apenas um mecanismo isolado, ou mais de um, e se cada uma das psiconeuroses se distingue por um mecanismo de repressão que lhe é peculiar. Contudo já no início dessa indagação nos defrontamos com complicações. O mecanismo de uma repressão só nos será acessível se deduzirmos esse mecanismo a partir do resultado da repressão. Limitando nossas observações ao efeito da repressão sobre a parcela ideacional do representante, descobrimos que, via de regra, ele cria uma formação substitutiva. Qual é o mecanismo através do qual esse substituto é formado? Ou será que devemos, também aqui, distinguir vários mecanismos? Além disso, sabemos que a repressão deixa sintomas em seu rastro. Podemos então supor que a formação de substitutos e a formação de sintomas coincidem, e, admitindo que isso aconteça de um modo geral, será o mecanismo formador de sintomas o mesmo que o da repressão? A probabilidade geral pareceria ser a de que os dois são amplamente diferentes, e a de que não é a própria repressão que produz formações substitutivas e sintomas, mas que estes últimos são indicações de um retorno do reprimido e devem sua existência a processos inteiramente outros. Seria também aconselhável examinar os mecanismos através dos quais se formam os substitutos e os sintomas, antes de considerarmos os mecanismos de repressão.

Obviamente não se trata de um assunto para especulação ulterior. O lugar dessa especulação deve ser assumido por uma análise cuidadosa dos resultados da repressão observáveis nas diferentes neuroses. Sugiro, porém, que também adiemos essa tarefa até que tenhamos formado concepções dignas de confiança a respeito da relação entre o consciente e o inconsciente. Mas, a fim de que o presente exame não seja de todo infrutífero, direi de antemão que (1) o mecanismo de repressão de fato não coincide com o mecanismo ou mecanismos da formação de substitutos, (2) existem numerosos e diferentes mecanismos de formação de substitutos e (3) os mecanismos de repressão têm pelo menos uma coisa em comum: uma retirada da catexia de energia (ou da libido, quando lidamos com os instintos sexuais).

Além disso, restringindo-me às três formas mais conhecidas da psiconeurose, mostrarei por meio de alguns exemplos como os conceitos aqui introduzidos se aplicam ao estudo da repressão.

No campo da histeria da ansiedade escolherei um exemplo bem analisado de uma fobia animal. Aqui, o impulso instintual sujeito à repressão é uma atitude libidinal para com o pai, aliado ao medo dele. Após a repressão, esse impulso desaparece da consciência: o pai não aparece nela como um objeto da libido. Substituindo o pai, encontramos num lugar correspondente um animal que se presta, de modo mais ou menos adequado, a ser um objeto de ansiedade. A formação do substituto para a parcela ideacional [do representante instintual] ocorreu por deslocamento ao longo de uma cadeia de conexões determinada de maneira particular. A parcela quantitativa não desapareceu, mas foi transformada em ansiedade. O resultado é o medo de um lobo, em vez de uma exigência, de amor feita aos pais. As categorias empregadas aqui não bastam, naturalmente, para explicar de forma adequada nem mesmo o caso mais simples de psiconeurose: há sempre outras considerações a levar em conta. Deve-se descrever uma repressão, tal como a que ocorre numa fobia animal, como sendo radicalmente destituída de êxito. Ela apenas remove e substitui a idéia, falhando inteiramente em poupar o desprazer. É também por esse motivo que o trabalho da neurose não cessa. Prossegue até uma segunda fase, a fim de atingir seu mais importante e imediato propósito. O que se segue é uma tentativa de fuga - a formação da fobia propriamente dita, de um grande número de evitações destinadas a impedir a liberação da ansiedade. Uma pesquisa mais especializada permite-nos compreender o mecanismo pelo qual a fobia alcança sua finalidade. [Ver em [1] e segs. adiante.]

Somos obrigados a adotar um conceito inteiramente distinto a respeito do processo de repressão, quando consideramos o quadro de uma verdadeira histeria de conversão. Aqui, o ponto relevante reside em que é possível provocar um desaparecimento total da quota de afeto. Quando isso ocorre, o paciente exibe, em relação a seus sintomas, aquilo que Charcot denominava de ‘la belle indifférence des hystériques‘. Em outros casos, essa supressão não se mostra tão bem-sucedida: sensações aflitivas podem ligar-se aos próprios sintomas, ou talvez venha a ser impossível impedir certa liberação de ansiedade, que por sua vez põe em ação o mecanismo de formação de uma fobia. O conteúdo ideacional do representante instintual é totalmente retirado da consciência; como um substituto - e ao mesmo tempo como um sintoma - temos uma inervação surperforte (em casos típicos, uma inervação somática), às vezes de natureza sensorial, às vezes, motora, quer como uma excitação, quer como uma inibição. Num exame mais detido, a área superinervada revela-se como sendo parte do próprio representante instintual reprimido, parte que - como se isso se verificasse através de um processo de condensação, atrai toda a catexia para si própria. Evidentemente, essas observações não trazem à luz o mecanismo completo de uma histeria de conversão; o fator regressão, em especial, a ser considerado em outra conexão, também tem de ser levado em conta. Na medida em que a repressão na histeria [de conversão] só se torna possível pela extensa formação de substitutos, ela pode ser julgada inteiramente destituída de êxito; contudo, ao lidar com a quota de afeto - a verdadeira tarefa da repressão -, ela geralmente significa um êxito total. Na histeria de conversão, o processo de repressão é completado pela formação do sintoma, e não precisa, como na histeria de ansiedade, continuar até uma segunda fase - ou antes, rigorosamente falando, continuar interminavelmente.

Um quadro totalmente diferente da repressão se revela, mais uma vez, na terceira perturbação, que consideraremos para os propósitos de nossa ilustração - na neurose obsessiva. Aqui ficamos inicialmente em dúvida quanto ao que devemos considerar como sendo o representante instintual sujeito à repressão - se se trata de uma tendência libidinal ou hostil. Essa incerteza surge porque a neurose obsessiva tem por base uma regressão devido à qual uma tendência sádica foi substituída por uma afetiva. É esse impulso hostil contra alguém que é amado, que se acha sujeito à repressão. O efeito, numa fase inicial, do trabalho da repressão é bem diferente do que se verifica numa posterior. De início, a repressão é inteiramente cercada de êxito; o conteúdo ideacional é rejeitado, fazendo com que o afeto desapareça. Como formação substitutiva, surge no ego uma alteração sob a forma de maior consciência, quase não se podendo dar a isso o nome de sintoma. Aqui, substituto e sintoma não coincidem. Com isso, aprendemos também alguma coisa sobre o mecanismo da repressão. Nesse exemplo, como em todos os outros, a repressão ocasionou um afastamento da libido; aqui, porém, ela fez uso da formação da reação para atingir esse propósito, intensificando um oposto. Assim, nesse caso, a formação de um substituto tem o mesmo mecanismo que a repressão e, no fundo, coincide com ela, ao passo que cronologicamente, tanto quanto conceptualmente, é diferente da formação de um sintoma. É bastante provável que todo esse processo se torne possível pela relação ambivalente na qual o impulso sádico a ser reprimido é introduzido. No entanto, a repressão, que foi de início bem-sucedida, não se firma; no decorrer dos acontecimentos, seu fracasso se torna cada vez mais acentuado. A ambivalência que permitiu que a repressão ocorresse através da formação de reação, constitui também o ponto em que o reprimido consegue retornar. A emoção desaparecida retorna, em sua forma transformada, como ansiedade social, ansiedade moral e autocensura ilimitadas; a idéia rejeitada é substituída por um substituto por deslocamento, freqüentemente um deslocamento para algo muito pequeno ou indiferente. Uma tendência no sentido de um restabelecimento completo da idéia reprimida acha-se, em geral, inegavelmente presente. O fracasso na repressão do fator quantitativo afetivo põe em jogo o mesmo mecanismo de fuga, por meio de evitação e proibições, tal como vimos em funcionamento na formação de fobias histéricas. A rejeição da idéia oriunda do consciente é, contudo, obstinadamente mantida, porque provoca a abstenção oriunda da ação, um aprisionamento motor do impulso. Assim, na neurose obsessiva, o trabalho da repressão se prolonga numa luta estéril e interminável.

A curta série de comparações apresentada aqui pode facilmente convencer-nos de que se fazem necessárias pesquisas mais abrangentes, antes que possamos esperar compreender inteiramente os processos ligados à repressão e à formação de sintomas neuróticos. A extraordinária complexidade de todos os fatores a serem levados em consideração nos permite apenas uma maneira de apresentá-los. Devemos selecionar primeiro um e, depois, outro ponto de vista, e acompanhá-lo através do material enquanto sua aplicação pareça proporcionar resultados. Cada abordagem isolada do assunto será incompleta em si mesma, não podendo deixar de haver obscuridades sempre que ela se defrontar com material ainda não examinado; no entanto, podemos esperar que uma síntese final conduza a uma compreensão adequada.

O INCONSCIENTE (1915)

NOTA DO EDITOR INGLÊS DAS UNBEWUSSTE

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1915 Int. Z. Psychoanal., 3 (4), 189-203 e (5), 257-69

1918 S.K.S.N., 4, 294-338. (1922, 2ª ed.)

1924 G.S., 5, 480-519.

1924 Techinik und Metapsychol., 202-41.

1931 Theoretische Schriften, 98-140.

1946 G.W., 10, 264-303.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

The Unconscious’

1925 C.P., 4, 98-136. (Trad. C.M. Baines.)

A presente tradução inglesa, embora baseada na de 1925, foi amplamente reescrita.

Parece que o presente artigo levou menos de três semanas para ser escrito - de 4 a 23 de abril de 1915. Posteriormente, no mesmo ano, foi publicado no Internationale Zeitschrift em duas partes, a primeira contendo as Seções I-IV e a segunda, as Seções V-VII. Nas edições anteriores a 1924, o artigo não foi dividido em seções, mas o que agora constitui os títulos foi impresso como subtítulos na margem. A única exceção a isso é que a expressão ‘O Ponto de Vista Topográfico’, que agora faz parte do título da Seção II, se encontra originalmente na margem, no início do segundo parágrafo da seção, à altura das palavras ‘Passando agora…’ (ver em [1]). Algumas pequenas alterações também foram feitas no texto da edição de 1924.

Se a série ‘Artigos Sobre Metapsicologia’ talvez seja considerada como o mais importante de todos os escritos teóricos de Freud, não há dúvida alguma de que este ensaio sobre ‘O Inconsciente’ constitui seu ponto culminante.

O conceito segundo o qual existem processos mentais inconscientes, é, naturalmente, fundamental para a teoria psicanalítica. Freud nunca se cansou de insistir nos argumentos que o apóiam e de combater as objeções levantadas contra ele. Na realidade, até mesmo a última parte não concluída de seus escritos teóricos, o fragmento escrito por ele em 1938, a que deu o título, em inglês, de ‘Some Elementary Lessons in Psycho-Analysis’ (1940b), constitui uma nova justificação daquele conceito.

Contudo, deve-se esclarecer de imediato que o interesse de Freud por essa suposição jamais foi de natureza filosófica - embora, sem dúvida, problemas filosóficos se encontrassem inevitavelmente próximos. Seu interesse era prático. Ele achava que, sem fazer essa suposição, era incapaz de explicar ou mesmo de descrever a grande variedade de fenômenos com que se defrontava. Por outro lado, procedendo assim, encontrou o caminho aberto para uma região imensamente fértil em novos conhecimentos.

Desde o início, e em seu ambiente mais próximo, não pode ter havido grande resistência a essa idéia. Seus professores diretos - Meynert, por exemplo -, na medida em que se interessavam pela psicologia, orientavam-se principalmente pelos conceitos de J. F. Herbart (1776-1841), e parece que um livro de texto contendo os princípios herbartianos era usado na escola secundária freqüentada por Freud (Jones, 1953, 409 e segs.). O reconhecimento da existência de processos mentais inconscientes desempenhou papel essencial no sistema de Herbart. Apesar disso, porém, Freud não adotou imediatamente essa hipótese nas primeiras fases de suas pesquisas psicopatológicas. É verdade que ele parece, desde o início, ter sentido a força do argumento a que dá tanta ênfase nas páginas iniciais do presente artigo - isto é, o argumento segundo o qual restringir os fatos mentais aos que são conscientes e entremeá-los de fatos puramente físicos e neurais, ‘rompe as continuidades psíquicas’ e introduz lacunas ininteligíveis na cadeia de fenômenos observados. Havia, no entanto, duas formas pelas quais essa dificuldade poderia ser superada. Poderíamos desprezar os fatos físicos e adotar a hipótese de que as lacunas são preenchidas com eventos mentais inconscientes; mas, por outro lado, poderíamos desprezar os fatos mentais conscientes e estruturar uma cadeia puramente física, ininterrupta, que abrangeria todos os eventos da observação. Para Freud, cuja carreira científica, no princípio, fora inteiramente voltada para a fisiologia, essa segunda possibilidade mostrou-se de início irresistivelmente atraente. Atração esta sem dúvida fortalecida pelos conceitos de Hughlings-Jackson, por cuja obra Freud revelou admiração em sua monografia sobre afasia (1891b), encontrando-se adiante, no Apêndice B (pág. 213), um trecho pertinente à mesma. Conseqüentemente, Freud começou por adotar o método neurológico de descrição dos fenômenos psicopatológicos, e todos os seus escritos do período de Breuer se baseiam confessadamente naquele método. Ele ficou intelectualmente fascinado pela possibilidade de construir uma ‘psicologia’ a partir de ingredientes puramente neurológicos, tendo dedicado vários meses do ano de 1895 à realização dessa tarefa. Assim, a 27 de abril daquele ano (Freud, 1950a, Carta 23), escrevia ele a Fliess: ‘Estou tão profundamente mergulhado na “Psicologia para Neurologistas”, que ela me consome inteiramente, a ponto de me ver obrigado a interromper minhas atividades por excesso de trabalho. Jamais estive tão intensamente preocupado com alguma coisa. E será que isso redundará em alguma coisa? Espero que sim, mas a caminhada é árdua e lenta.’ Isso redundou em alguma coisa muitos meses depois - a obra incompleta que conhecemos como o ‘Projeto para uma Psicologia Científica’, encaminhado a Fliess em setembro e outubro de 1895. Essa surpreendente produção visa a descrever e explicar toda a gama do comportamento humano, normal e patológico, por meio de uma manipulação complicada de duas entidades materiais - o neurônio e a ‘quantidade numa condição de fluxo’, uma energia física ou química não especificada. A necessidade de postular quaisquer processos mentais inconscientes foi, dessa forma, inteiramente evitada: a cadeia de eventos físicos era ininterrupta e completa.

Sem dúvida, muitas razões contribuíram para que o ‘Projeto’ jamais tenha sido concluído e para que toda a linha de raciocínio por detrás dele fosse logo abandonada. O motivo principal, porém, foi que Freud, o neurologista, estava sendo superado e deslocado por Freud, o psicólogo: tornava-se cada vez mais evidente que até mesmo o elaborado mecanismo dos sintomas neurônicos era canhestro e grosseiro demais para lidar com as sutilezas que estavam sendo trazidas à luz pela ‘análise psicológica’, sutilezas que só poderiam ser explicadas na linguagem dos processos mentais. De fato, vinha ocorrendo, muito gradativamente, um deslocamento do interesse de Freud. Na altura da publicação da Afasia, seu tratamento do caso de Frau Emmy von N. já datava de dois ou três anos, e sua anamnese foi escrita mais de um ano antes do ‘Projeto’. É numa nota de rodapé a essa anamnese (Edição Standard Brasileira, Vol. II, pág. 120, IMAGO Editora, 1974) que se encontra publicado pela primeira vez o termo ‘o inconsciente’; e, embora a teoria ostensiva subjacente à participação de Freud nos Estudos sobre a Histeria (1895d) pudesse ser neurológica, a psicologia - e com ela a necessidade de processos mentais inconscientes - já se insinuava firmemente. Na realidade, toda a base da teoria de repressão da histeria e a do método catártico de tratamento clamavam por uma explanação psicológica, e só através dos mais penosos esforços elas foram explicadas neurologicamente na Parte II do ‘Projeto’. Alguns anos depois, em A Interpretação de Sonhos (1900a), ocorrera uma estranha transformação: não só o relato neurológico da psicologia desaparecera completamente, como também grande parte do que Freud escrevera no ‘Projeto’ em termos de sistema nervoso se tornara agora válido, e muito mais inteligível, ao ser traduzido em termos mentais. Estabeleceu-se o inconsciente de uma vez por todas.

Deve-se, porém, repetir que Freud não estabeleceu uma mera entidade metafísica. O que ele fez no Capítulo VII de A Interpretação de Sonhos foi, por assim dizer, revestir a entidade metafísica de carne e sangue. Pela primeira vez, revelou o inconsciente, tal como era, como funcionava, como diferia de outras partes da mente, e quais eram suas relações recíprocas com elas. São essas as descobertas que ele retoma, ampliando-as e aprofundando-as, no artigo que se segue.

Numa fase anterior, todavia, tornara-se evidente que o termo ‘inconsciente’ era ambíguo. Três anos antes, no artigo que escreveu em inglês para a Sociedade de Pesquisas Psíquicas (1912g), e que, sob muitos aspectos, é preliminar ao presente artigo, Freud investigara cuidadosamente essas ambigüidades e estabelecera diferenças entre os empregos ‘descritivo’, ‘dinâmico’ e ‘sistemático’ da palavra. Ele repete as distin-ções na Seção II deste artigo (ver em, [1] e segs.), embora de forma ligeiramente diversa, tendo novamente voltado a elas no Capítulo I de The Ego and the Id (1923b) e, numa extensão ainda maior, na Conferência XXXI das New Introductory Lectures (1933a). A maneira desordenada pela qual o contraste entre ‘consciente’ e ‘inconsciente’ se ajusta às diferenças entre os vários sistemas da mente já é mencionada claramente adiante (ver em [1]); mas a posição em seu todo só foi posta em perspectiva quando, em The Ego and the Id, Freud introduziu um novo quadro estrutural da mente. Apesar, contudo, da atuação insatisfatória do critério ‘consciente ou inconsciente’, Freud sempre insistiu em dizer (como o faz em dois pontos aqui, (ver em [1] e [2] ), e novamente tanto em The Ego and the Id como nas New Introductory Lectures) que esse critério ‘é, em última instância, o nosso único farol nas trevas da psicologia profunda’.

O INCONSCIENTE

Aprendemos com a psicanálise que a essência do processo de repressão não está em pôr fim, em destruir a idéia que representa um instinto, mas em evitar que se torne consciente. Quando isso acontece, dizemos que a idéia se encontra num estado ‘inconsciente’, e podemos apresentar boas provas para mostrar que, inclusive quando inconsciente, ela pode produzir efeitos, incluindo até mesmo alguns que finalmente atingem a consciência. Tudo que é reprimido deve permanecer inconsciente; mas, logo de início, declaremos que o reprimido não abrange tudo que é inconsciente. O alcance do inconsciente é mais amplo: o reprimido não é apenas uma parte do inconsciente.

Como devemos chegar a um conhecimento do inconsciente? Certamente, só o conhecemos como algo consciente, depois que ele sofreu transformação ou tradução para algo consciente. A cada dia, o trabalho psicanalítico nos mostra que esse tipo de tradução é possível. A fim de que isso aconteça, a pessoa sob análise deve superar certas resistências - resistências como aquelas que, anteriormente, transformaram o material em questão em algo reprimido rejeitando-o do consciente.

I - JUSTIFICAÇÃO DO CONCEITO DE INCONSCIENTE

Nosso direito de supor a existência de algo mental inconsciente, e de empregar tal suposição visando às finalidades do trabalho científico, tem sido vastamente contestado. A isso podemos responder que nossa suposição a respeito do inconsciente é necessária e legítima, e que dispomos de numerosas provas de sua existência.

Ela é necessária porque os dados da consciência apresentam um número muito grande de lacunas; tanto nas pessoas sadias como nas doentes ocorrem com freqüência atos psíquicos que só podem ser explicados pela pressuposição de outros atos, para os quais, não obstante, a consciência não oferece qualquer prova. Estes não só incluem parapraxias e sonhos em pessoas sadias, mas também tudo aquilo que é descrito como um sintoma psíquico ou uma obsessão nas doentes; nossa experiência diária mais pessoal nos tem familiarizado com idéias que assomam à nossa mente vindas não sabemos de onde, e com conclusões intelectuais que alcançamos não sabemos como. Todos esses atos conscientes permanecerão desligados e ininteligíveis, se insistirmos em sustentar que todo ato mental que ocorre conosco, necessariamente deve também ser experimentado por nós através da consciência; por outro lado, esses atos se enquadrarão numa ligação demonstrável, se interpolarmos entre eles os atos inconscientes sobre os quais estamos conjeturando. Uma apreensão maior do significado das coisas constitui motivo perfeitamente justificável para ir além dos limites da experiência direta. Quando, ademais, disso resultar que a suposição da existência de um inconsciente nos possibilita a construção de uma norma bem-sucedida, através da qual podemos exercer uma influência efetiva sobre o curso dos processos conscientes, esse sucesso nos terá fornecido uma prova indiscutível da existência daquilo que havíamos suposto. Assim sendo, devemos adotar a posição segundo a qual o fato de exigir que tudo quanto acontece na mente deve também ser conhecido pela consciência, significa fazer uma reivindicação insustentável.

Podemos ir além e afirmar, em apoio da existência de um estado psíquico inconsciente, que, em um dado momento qualquer, o conteúdo da consciência é muito pequeno, de modo que a maior parte do que chamamos conhecimento consciente deve permanecer, por consideráveis períodos de tempo, num estado de latência, isto é, deve estar psiquicamente inconsciente. Quando todas as nossas lembranças latentes são levadas em consideração, fica totalmente incompreensível que a existência do inconsciente possa ser negada. Aqui, porém, encontramos a objeção de que essas lembranças latentes já não podem ser descritas como psíquicas, pois correspondem a resíduos de processos somáticos a partir dos quais o psíquico pode mais uma vez aflorar. A resposta óbvia a isso é a de que uma lembrança latente é, pelo contrário, um resíduo inquestionável de um processo psíquico. Contudo, é mais importante conceber claramente que essa objeção se baseia na equivalência - que, na verdade, não é explicitamente declarada, embora considerada axiomática - entre o consciente e o mental. Essa equivalência ou é um petitio principii, que incorre em petição de princípio ao supor que tudo que é psíquico é também necessariamente consciente, ou é uma questão de convenção, de nomenclatura. Nesse último caso, como qualquer outra convenção, não está evidentemente sujeita à refutação. Permanece, contudo, a questão de saber se a convenção é suficientemente adequada para estarmos propensos a adotá-la. A isso podemos responder que a equivalência convencional entre o psíquico e o consciente é totalmente inadequada. Ela rompe as continuidades psíquicas, mergulha-nos nas dificuldades insolúveis do paralelismo psicofísico, está sujeita à censura de, sem um motivo óbvio, superestimar o papel desempenhado pela consciência, forçando-nos prematuramente a abandonar o campo da pesquisa psicológica sem ser capaz de nos oferecer qualquer compensação de outros campos.

Está claro, em todo caso, que essa questão - a de saber se os estados latentes da vida mental, cuja existência é inegável, devem ser concebidos como estados mentais conscientes ou como estados físicos - ameaça transformar-se numa controvérsia verbal. Portanto, é melhor focalizarmos nossa atenção naquilo que conhecemos com certeza a respeito da natureza desses estados controvertidos. No que se refere às suas características físicas, elas nos são totalmente inacessíveis: nenhum conceito psicológico ou processo químico pode dar-nos qualquer idéia a respeito de sua natureza. Por outro lado, sabemos com certeza que possuem abundantes pontos de contato com processos mentais conscientes; com o auxílio de um pouco de trabalho podem ser transformados em processos mentais conscientes ou substituídos por eles, e todas as categorias que empregamos para descrever os atos mentais conscientes, tais como idéias, propósitos, resoluções, e assim por diante, podem ser aplicadas a eles. Na verdade, somos forçados a dizer de alguns desses estados latentes que o único aspecto em que diferem dos estados conscientes é precisamente na ausência de consciência. Assim, não hesitaremos em tratá-los como objetos de pesquisa psicológica, e em manipulá-los na mais íntima conexão com atos mentais conscientes.

A obstinada recusa em atribuir um caráter psíquico aos atos mentais latentes se deve à circunstância de que a maioria dos fenômenos em foco não fora estudada fora da psicanálise. Basta que qualquer pessoa não familiarizada com os fatos patológicos, que considera as parapraxias de pessoas normais como acidentais, e que está satisfeita com o velho adágio de que os sonhos são futilidades [‘Träume sind Schäume‘], ignore mais alguns problemas da psicologia da consciência, para abster-se de qualquer necessidade de admitir uma atividade mental inconsciente. Incidentalmente, mesmo antes da época da psicanálise, as experiências com a hipnose, especialmente a sugestão pós-hipnótica, já tinham demonstrado tangivelmente a existência e o modo de operação do inconsciente mental.

A suposição de um inconsciente é, além disso, uma suposição perfeitamente legítima, visto que ao postulá-la não nos estamos afastando um só passo de nosso habitual e geralmente aceito modo de pensar. A consciência torna cada um de nós cônscio apenas de seus próprios estados mentais; que também outras pessoas possuam uma consciência é uma dedução que inferimos por analogia de suas declarações e ações observáveis, a fim de que sua conduta fique inteligível para nós. (Indubitavelmente, seria psicologicamente mais correto expressá-lo da seguinte maneira: que sem qualquer reflexão especial atribuímos a todos os demais a nossa própria constituição, e portanto também a nossa consciência, e que essa identificação é uma condição sine qua non para a nossa compreensão.) Essa inferência (ou essa identificação) foi anteriormente estendida pelo ego a outros seres humanos, a animais, a plantas, a objetos inanimados e ao mundo em geral, e revelou-se útil enquanto sua semelhança com o ego individual era esmagadora; contudo, tornou-se menos digna de confiança na medida em que a diferença entre o ego e esses ‘outros’ aumentou. Hoje em dia, nosso julgamento crítico já se põe em dúvida quanto à questão da existência de consciência nos animais; recusamo-nos a admiti-la nas plantas e encaramos como misticismo a suposição de sua existência nas coisas inanimadas. Mas, mesmo onde a inclinação original à identificação resistiu à crítica - isto é, quando os ‘outros’ são nossos semelhantes - a suposição da existência de uma consciência neles se apóia numa inferência, e não pode participar da certeza imediata que possuímos a respeito de nossa própria consciência.

A psicanálise exige apenas que também apliquemos esse processo de inferência a nós mesmos - procedimento a que, na verdade, não estamos por natureza inclinados. Se o fizermos, deveremos dizer: todos os atos e manifestações que noto em mim mesmo, e que não sei como ligar ao resto de minha vida mental, devem ser julgados como se pertencessem a outrem; devem ser explicados por uma vida mental atribuída a essa outra pessoa. Além disso, a experiência mostra que compreendemos muito bem como interpretar em outras pessoas (isto é, como encaixar em sua cadeia de eventos mentais) os mesmos atos que nos recusamos a aceitar como mentais em nós mesmos. Aqui, evidentemente, algum impedimento especial desvia nossas investigações de nosso próprio eu, impedindo que obtenhamos dele um conhecimento real.

Esse processo de inferência, quando aplicado ao próprio indivíduo, apesar da oposição interna, não leva, contudo, à revelação de um inconsciente; leva, logicamente, à suposição de uma outra segunda consciência que, no próprio eu do indivíduo, está unida à consciência que se conhece. Mas, a essa altura, certas críticas mostram-se cabíveis. Em primeiro lugar, uma consciência a respeito da qual seu próprio possuidor nada conhece é algo muito diferente de uma consciência pertencente a outra pessoa, e é discutível que tal consciência, carente, como está, de sua característica mais importante, mereça qualquer exame. Aqueles que resistiram à suposição de um elemento psíquico inconsciente provavelmente não estão dispostos a trocá-lo por uma consciência inconsciente. Em segundo lugar, a análise revela que os diferentes processos mentais latentes que inferimos desfrutam de alto grau de independência mútua, como se não tivessem ligação um com o outro, e nada soubessem um do outro. Nesse caso, devemos estar preparados para supor a existência em nós não apenas de uma segunda consciência, mas também de uma terceira, de uma quarta, talvez de um número ilimitado de estados de consciência, todos desconhecidos para nós e desconhecidos entre si. Em terceiro lugar - e este é o mais convincente de todos os argumentos -, devemos levar em conta o fato de que a investigação analítica revela alguns desses processos latentes como possuidores de características e peculiaridades que parecem estranhas a nós, ou mesmo incríveis, e que vão diretamente de encontro aos atributos da consciência que nos são familiares. Assim, temos motivos para modificar nossa inferência a respeito de nós mesmos e dizer que o que está provado não é a existência de uma segunda consciência em nós, mas a existência de atos psíquicos que carecem de consciência. Também estaremos certos em rejeitar o termo ‘subconsciência’ como incorreto e enganoso. Os casos notórios de ‘double cosncience‘ (divisão da consciência) nada provam contra nossa concepção. Podemos descrevê-los com o máximo de propriedade como casos de uma divisão das atividades mentais em dois grupos, e dizer que essa mesma consciência se volta, alternadamente, para um ou outro desses grupos.

Na psicanálise, não temos outra opção senão afirmar que os processos mentais são inconscientes em si mesmos, e assemelhar a percepção deles por meio da consciência à percepção do mundo externo por meio dos órgãos sensoriais. Podemos mesmo esperar que novos conhecimentos sejam adquiridos a partir dessa comparação. A suposição psicanalítica a respeito da atividade mental inconsciente nos aparece, por um lado, como uma nova expansão de animismo primitivo, que nos fez ver cópias de nossa própria consciência em tudo o que nos cerca, e, por outro, como uma extensão das correções efetuadas por Kant em nossos conceitos sobre percepção externa. Assim como Kant nos advertiu para não desprezarmos o fato de que as nossas percepções estão subjetivamente condicionadas, não devendo ser consideradas como idênticas ao que, embora incognoscível, é percebido, assim também a psicanálise nos adverte para não estabelecermos uma equivalência entre as percepções adquiridas por meio da consciência e os processos mentais inconscientes que constituem seu objeto. Assim como o físico, o psíquico, na realidade, não é necessariamente o que nos parece ser. Teremos satisfação em saber, contudo, que a correção da percepção interna não oferecerá dificuldades tão grandes como a correção da percepção externa - que os objetos internos são menos incognoscíveis do que o mundo externo.

II - VÁRIOS SIGNIFICADOS DE ‘O INCONSCIENTE’ O PONTO DE VISTA TOPOGRÁFICO

Antes de prosseguirmos, enunciemos o fato importante, embora inconveniente, de que o atributo de ser inconsciente é apenas um dos aspectos do elemento psíquico, de modo algum bastando para caracterizá-lo. Há atos psíquicos de valor muito variável que, no entanto, concordam em possuir a característica de ser inconsciente. O inconsciente abrange, por um lado, atos que são meramente latentes, temporariamente inconscientes, mas que em nenhum outro aspecto diferem dos atos conscientes, e, por outro lado, abrange processos tais como os reprimidos, que, caso se tornassem conscientes, estariam propensos a sobressair num contraste mais grosseiro com o restante dos processos conscientes. Acabaríamos com todos os mal-entendidos se, doravante, ao descrevermos os vários tipos de atos psíquicos, desprezássemos a questão de saber se são conscientes ou inconscientes, e os classificássemos e correlacionássemos apenas em função de sua relação com instintos e finalidades, de sua composição e da hierarquia dos sistemas psíquicos a que pertencem. Isso, contudo, e por várias razões, é impraticável, de modo que não podemos escapar à ambigüidade de empregar as palavras ‘consciente’ e ‘inconsciente’ algumas vezes num sentido descritivo, algumas vezes num sentido sistemático, sendo que, neste último, elas significam a inclusão em sistemas particulares e a posse de certas características. Podemos tentar evitar a confusão, atribuindo aos sistemas psíquicos que distinguimos certos nomes arbitrariamente escolhidos, sem qualquer referência ao atributo de ser consciente. Apenas, temos que primeiro especificar os motivos pelos quais distinguimos os sistemas, e, ao fazê-lo, talvez não sejamos capazes de fugir ao atributo de sermos conscientes, visto que ele constitui o ponto de partida de todas as nossas investigações. Talvez nos possamos valer da proposta para empregar, pelo menos por escrito, a abreviação Cs. para consciência e Ics., para o que é inconsciente, quando estivermos usando as duas palavras em seu sentido sistemático.

Passando agora para um relato das descobertas positivas da psicanálise, podemos dizer que, em geral, um ato psíquico passa por duas fases quanto a seu estado, entre as quais se interpõe uma espécie de teste (censura). Na primeira fase, o ato psíquico é inconsciente e pertence ao sistema Ics; se, no teste, for rejeitado pela censura, não terá permissão para passar à segunda fase; diz-se então que foi ‘reprimido’, devendo permanecer inconsciente. Se, porém, passar por esse teste, entrará na segunda fase e, subseqüentemente, pertencerá ao segundo sistema, que chamaremos de sistema Cs. Mas o fato de pertencer a esse sistema ainda não determina de modo inequívoco sua relação com a consciência. Ainda não é consciente, embora, certamente, seja capaz de se tornar consciente (para usar a expressão de Breuer) - isto é, pode agora, sob certas condições, tornar-se um objeto da consciência sem qualquer resistência especial. Em vista dessa capacidade de se tornar consciente, também denominamos o sistema Cs. de ‘pré-consciente’. Se ocorrer que uma certa censura também desempenhe um papel em determinar se o pré-consciente se torna consciente, procederemos a uma discriminação mais acentuada entre os sistemas Pcs. e Cs. [ver em [1] e segs.]. Por ora contentemo-nos em ter em mente que o sistema Pcs. participa das características do sistema Cs., e que a censura rigorosa exerce sua função no ponto de transição do Ics. para o Pcs. (ou Cs.).

Aceitando a existência desses dois (ou três) sistemas psíquicos, a psicanálise desviou-se mais um passo da ‘psicologia da consciência’ descritiva e levantou novos problemas, adquirindo um novo conteúdo. Até o momento, tem diferido daquela psicologia devido principalmente a seu conceito dinâmico dos processos mentais; agora, além disso, parece levar em conta também a topografia psíquica, e indicar, em relação a determinado ato mental, dentro de que sistema ou entre que sistemas ela se verifica. Ainda por causa dessa tentativa, recebeu a designação de ‘psicologia profunda’. Viremos a saber que ela poderá ser bem mais enriquecida se ainda se levar em conta um outro ponto de vista. [ver em [1].]

Se vamos considerar seriamente a topografia dos atos mentais, devemos dirigir nosso interesse para uma dúvida que surge nesse ponto. Quando um ato psíquico (limitemo-nos aqui a um ato que seja da natureza de uma idéia) é transposto do sistema Ics. para o sistema Cs. (ou Pcs.), devemos nós supor que essa transição acarreta um registro novo - por assim dizer, um segundo registro - da idéia em questão, que, assim, pode também ser situada numa nova localidade psíquica, paralelamente à qual o registro inconsciente original continua a existir? Ou, antes, devemos acreditar que a transposição consiste numa mudança no estado da idéia, mudança que envolve o mesmo material e ocorre na mesma localidade? Essa questão pode parecer obscura, mas deve ser levantada, caso desejemos formar um conceito mais definido a respeito da topografia psíquica, da dimensão da profundidade na mente. Isso é difícil, porque vai além da psicologia pura e aborda as relações entre o mecanismo mental e a anatomia. Sabemos que, mesmo no sentido mais grosseiro, tais relações existem. A pesquisa nos tem fornecido provas irrefutáveis de que a atividade mental está vinculada à função do cérebro como a nenhum outro órgão. Avançamos - não sabemos até que ponto - com a descoberta da importância desigual das diferentes partes do cérebro e de suas relações especiais com partes específicas do corpo e com atividades mentais específicas. Mas todas as tentativas para, a partir disso, descobrir uma localização dos processos mentais, todos os esforços para conceber idéias armazenadas em células nervosas e excitações que percorrem as fibras nervosas, têm fracassado redondamente. O mesmo fim aguardaria qualquer teoria que tentasse reconhecer, digamos, a posição anatômica do sistema Cs. - atividade mental consciente - como estando situada no córtex, e localizar os processos inconscientes nas partes subcorticais do cérebro. Verifica-se aqui um hiato que, por enquanto, não pode ser preenchido, e não constitui tarefa da psicologia preenchê-lo. Nossa topografia psíquica, no momento, nada tem que ver com a anatomia; refere-se não a localidades anatômicas, mas a regiões do mecanismo mental, onde quer que estejam situadas no corpo.

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