Caramuru poema épico do descobrimento da Bahia - José de Santa Rita Durão

Caramuru poema épico do descobrimento da Bahia - José de Santa Rita Durão

(Parte 1 de 6)

MINSTÉRIO DA CULTURA Fundação Biblioteca Nacional Departamento Nacional do Livro

CARAMURU: POEMA ÉPICO Santa Rita Durão

De um varão em mil casos agitado, Que as praias discorrendo do Ocidente, Descobriu o Recôncavo afamado Da capital brasílica potente: Do Filho do Trovão denominado, Que o peito domar soube à fera gente; O valor cantarei na adversa sorte, Pois só conheço herói quem nela é forte.

Santo Esplendor, que do grão-Padre manas Ao seio intacto de uma Virgem bela;

Se da enchente de luzes Soberanas Tudo dispensas pela Mãe Donzela; Rompendo as sombras de ilusões humanas, Tu do grão caso! a pura luz revela Faze que em ti comece, e em ti conclua Esta grande Obra, que por fim foi tua.

E vós, Príncipe excelso, do Céu dado Para base imortal do Luso Trono; Vós, que do Áureo Brasil no Principado Da Real sucessão sois alto abono: Enquanto o Império tendes descansado Sobre o seio da paz com doce sono, Não queirais de dignar-vos no meu metro De pôr os olhos, e admiti-lo ao cetro.

Nele vereis Nações desconhecidas, Que em meio dos Sertões a Fé não doma;

E que puderam ser-vos convertidas Maior Império, que houve em Grécia, ou Roma: Gentes vereis, e Terras escondidas, Onde se um raio da verdade assoma, Amansando-as, tereis na turba imensa Outro Reino maior que a Europa extensa.

Devora-se a infeliz mísera Gente, E sempre reduzida a menos terra, Virá toda a extinguir-se infelizmente; Sendo em campo menor maior a guerra. Olhai, Senhor, com reflexão clemente Para tantos Mortais, que a brenha encerra; E que, livrando desse abismo fundo, Vireis a ser Monarca de outro Mundo.

Príncipe do Brasil, futuro dono, À Mãe da Pátria, que administra o mando, Ponde, excelso Senhor, aos pés do Trono As desgraças do Povo miserando: Para tanta esperança é o justo abono, Vosso título, e nome, que invocando, Chamará, como a outro o Egípcio Povo, D. José Salvador de um Mundo novo.

Nem podereis temer, que ao santo intento Não se nutram Heróis no Luso Povo,

Que o antigo Portugal vos apresento No Brasil renascido, como em novo. Vereis do domador do Índico assento Nas guerras do Brasil alto renovo, E que os seguem nas bélicas idéias

Os Vieiras, Barretos, e os Correas. VIII

Dai, portanto, Senhor, potente impulso, Com que possa entoar sonoro o metro Da brasílica gente o invicto pulso, Que aumenta tanto Império ao vosso cetro: E enquanto o Povo do Brasil convulso Em nova lira canto, em novo pletro; Fazei que fidelíssimo se veja

O vosso Trono em propagar-se a Igreja. IX

Da nova Lusitânia o vasto espaço Ia a povoar Diogo, a quem bisonho Chama o Brasil, temendo o forte braço, Horrível Filho do Trovão medonho: Quando do abismo por cortar-lhe o passo Essa Fúria saiu, como suponho, A quem do Inferno o Paganismo aluno, Dando o Império das águas, fez Netuno.

O grão-Tridente, com que o mar comove, Cravou dos Órgãos na montanha horrenda, E na escura caverna, adonde Jove (Outro espírito) espalha a luz tremenda, Relâmpagos mil faz, coriscos chove; Bate-se o vento em hórrida contenda: Arde o céu, zune o ar, treme a montanha, E ergue-lhe o mar em frente outra tamanha.

O Filho do Trovão, que em baixel ia Por passadas tormentas ruinoso, Vê que do grosso mar na travessia Se sorve o lenho pelo pego undoso; Bem que constante, a morte não temia, Invoca no perigo o Céu piedoso; Ao ver que a fúria horrível da procela Rompe a nau, quebra o leme, e arranca a vela.

Lança-se ao fogo o ignívomo instrumento, Todo o peso se alija; o passageiro, Para nadar no túmido Elemento, A tábua abraça, que encontrou primeiro: Quem se arroja no mar temendo o vento; Qual se fia a um batel; quem a um madeiro, Até que sobre a penha, que a embaraça, A quilha bate, e a nau se despedaça.

Sete somente do batel perdido Vêm à praia cruel, lutando a nado;

Oferece-lhes um socorro fementido Bárbara multidão, que acode ao brado: E ao ver na praia o Benfeitor fingido, Rende-lhe as mãos o náufrago enganado: Tristes! que a ver algum, qual fim o espera Com quanta sede a morte não bebera!

Já estava em terra o infausto naufragante, Rodeado da turba Americana; Vêm-se com pasmo; ao porem-se diante, E uns aos outros não crêem da espécie humana: Os cabelos, a cor, barba e semblante Faziam crer àquela Gente insana, Que alguma espécie de animal seria Desses, que no seu seio o mar trazia.

Algum chegando aos míseros, que a areia O mar arroja extintos, nota o vulto; Ora o tenta despir, e ora receia Não seja astúcia, com que o assalte oculto. Outros do Jacaré tomando a idéia Temem que acorde com violento insulto; Ou que o sono fingindo os arrebate, E entre as presas cruéis no fundo os mate.

Mas vendo a Sancho, um náufrago que expira, Rota a cabeça numa penha aguda, Que ia trêmulo a erguer-se, e que caíra, Que com voz lastimosa implora ajuda: E vendo os olhos, que ele em branco vira; Cadavérica a face, a boca muda, Pela experiência da comum sorte Reconhecem também que aquilo é morte.

Correm depois de crê-lo ao pasto horrendo; E retalhando o corpo em mil pedaços, Vai cada um famélico trazendo, Qual um pé, qual a mão, qual outro os braços: Outros da crua carne iam comendo; Tanto na infame gula eram devassos: Tais há, que as assam nos ardentes fossos, Alguns torrando estão na chama os ossos.

Que horror da Humanidade! ver tragada Da própria espécie a carne já corrupta!

Quanto não deve a Europa abençoada A Fé do Redentor, que humilde escuta? Não era aquela infâmia praticada Só dessa gente miseranda, e bruta; Roma, e Cartago o sabe no noturno Horrível sacrifício de Saturno.

Os sete em tanto, que do mar com vida Chegaram a tocar na infame areia,

Pasmam de ver na turba recrescida A brutal catadura, hórrida, e feia: A cor vermelha em si, mostram tingida De outra cor diferente, que os afeia; Pedras, e paus de embiras enfiados,

Que na face, e nariz trazem furados. X

Na boca em carne humana ensangüentada Anda o beiço inferior todo caído; Porque a tem toda em roda esburacada, E o labro de vis pedras embutido: Os dentes (que é beleza que lhe agrada) Um sobre outro desponta recrescido: Nem se lhe vê nascer na barba o pêlo, Chata a cara, e nariz, rijo o cabelo.

Vê-se no sexo recatado o pejo, Sem mais que a antiga gala que Eva usava, Quando por pena de um voraz desejo Da feia a desnudez se envergonhava: Vão sem pudor com bárbaro despejo Os homens, como Adão sem culpa andava; Mas vê-se, alma Natura, o que lhe ordenas; Porque no sacrifício usam de penas.

Qual das belas Araras traz vistosas Louras, brancas, purpúreas, verdes plumas: Outros põem, como túnicas lustrosas, Um verniz de balsâmicas escumas: Nem temem nele as chuvas procelosas, Nem o frio rigor de ásperas brumas; Nem se receiam do mordaz besouro, Qual Anta, ou qual Tatu dentro em seu couro.

Por armas, frechas, arcos, pedras, bestas; A espada do pau-ferro, e por escudo As redes de algodão nada molestas, Onde a ponta se embace ao dardo agudo: Por capacete nas guerreiras testas Cintos de penas com galhardo estudo; Mas o vulgo no bélico ameaço Não tem mais que unha ou dente, ou punho ou braço.

Desta arte armada a multidão confusa Investe o naufragante enfraquecido,

Que ao ver-se despojar, nada recusa; Porque se enxugue o mádido vestido: Tanto mais pelo mimo, que se lhe usa, Quando a bárbara gente o vê rendido: Trouxeram-lhe a batata, o coco, o inhame; Mas o que crêem piedade é gula infame.

Cevavam desta forma os desditosos Das fadigas marítimas desfeitos; Por pingues ter os pastos horrorosos, Sendo nas carnes míseras refeitos: Feras! mas feras não, que mais monstruosos São da nossa alma os bárbaros efeitos; E em corrupta razão mais furor cabe, Que tanto um bruto imaginar não sabe.

Não mui longe do mar na penha dura A boca está de um antro mal-aberta, Que horrível dentro pela sombra escura, Toda é fora de ramas encoberta: Ali com guarda à vista se clausura A infeliz companhia, estando alerta, E por cevá-los mais, dão-lhe o recreio De ir pela praia em plácido passeio.

Diogo então, que à gente miseranda, Por ser de nobre sangue precedia, Vendo que nada entende a turba infanda, Nem do férreo mosquete usar sabia; Da rota nau, que se descobre à banda, Pólvora, e bala em cópia recolhia; E como enfermo, que no passo tarda, Serviu-se por bastão de uma espingarda.

Forte sim, mas de têmpera delicada, Aguda febre traz desde a tormenta; Pálido o rosto, e a cor toda mudada; A carne sobre os ossos macilenta: Mas foi-lhe aquela doença afortunada, Porque a gente cruel guardá-lo intenta, Até que sendo a si restituído, Como os mais vão comer, seja comido.

Barbárie foi (se crê) da antiga idade A própria prole devorar nascida;

Desde que essa cruel voracidade Fora ao velho Saturno atribuída: Fingimento por fim, mas é em verdade Invenção do diabólico homicida, Que uns cá se matam, e outros lá se comem: Tanto aborrece aquela fúria ao homem.

Mas já três vezes tinha a Lua enchido Do vasto globo o luminoso aspecto,

Quando o Chefe dos bárbaros temido Fulmina contra os seis o atroz decreto: Ordena que no altar seja oferecido O brutal sacrifício em sangue infecto, Sendo a cabeça às vítimas quebrada, E a gula infanda de os comer saciada.

Em tanto que se ordena a brutal festa, Nada sabiam na marinha gruta Os habitantes da prisão funesta; Que ardilosa lho esconde a gente bruta: E enquanto a feral pompa já se apresta, Toda a pena em favor se lhe comuta; Nem parecem ter dado a menor ordem, Senão que comam, e, comendo engordem.

Mimosas carnes mandam, doces frutas O araçá, o caju, coco, e mangaba; Do bom maracujá lhe enchem as grutas Sobre rimas, e rimas de guaiaba: Vasilhas põem de vinho nunca enxutas, E a imunda catimpuera, que da baba Fazer costuma a bárbara patrulha, Que só de ouvi-lo o estômago se embrulha.

Um dia pois que à sombra desejada Se repousam, passando a calma ardente,

Por dar alívio à dor reconcentrada, De ver-se escravos de tão fera Gente; Fernando, um deles, diz, que aos mais agrada Por cantigas, que entoa docemente, Que em cítara, que o mar na terra lança, Se divirtam da fúnebre lembrança.

Mancebo era Fernando mui polido, Douto em Letras, e em prendas celebrado, Que nas Ilhas do Atlântico nascido, Tinha muito co’as Musas conversado: Tinha ele os rumos do Brasil seguido, Por ver o monumento celebrado De uma Estátua famosa, que num pico Aponta do Brasil ao País rico.

Pedira-lhe Luís, que isto escutara, Da profética Estátua o conto inteiro, Se foi verdade, se invenção foi clara De Gente rude, ou povo noveleiro: Fernando então, que em metro já cantara O sucesso, que atesta verdadeiro, Toma nas mãos a cítara suave, E entoando, começa em canto grave.

(Parte 1 de 6)

Comentários