Caramuru poema épico do descobrimento da Bahia - José de Santa Rita Durão

Caramuru poema épico do descobrimento da Bahia - José de Santa Rita Durão

(Parte 4 de 6)

Gupeva, que no traje mais distinto Parecia na turba do seu Povo, O Principal no mando, meio extinto, Pelo horror de espetáculo tão novo Tremendo em pé ficou, sem voz, e instinto, E caíra sem dúvida de novo, Se nos braços Diogo o não tomara, E d’água ali corrente o borrifara.

Que se a comerdes, tudo em cinza ponho

Não temas (disse afável) cobra alento; E suprindo-lhe acenos o idioma, Dá-lhe a entender, que todo esse armamento Protege amigos, se inimigos doma: Que os não ofende o bélico instrumento, Quando de humana carne algum não coma; E isto dizendo, bate o pé, medonho.

Toma nas mãos (lhe diz) verás que nada Te hão de fazer de mal; e assim falando, Põe-lhe na mão a partasana, e espada, E vai-lhe à fronte o morrião lançando. Diminui-se o horror na alma assombrada, E vai-se pouco a pouco recobrando, Até que a si tornando reconhece Donde está, com quem fala, e o que lhe oferece.

Se d’além das montanhas cá t’envia O grão-Tupá (lhe diz) que em nuvem negra Escurece com sombra o claro dia, E manda o claro Sol, que o Mundo alegra; Se vens donde o Sol dorme, e se à Bahia De alguma nova Lei trazes a regra; Acharás, se gostares, na cabana, Mulheres, caça, peixe, e carne humana.

A carne humana! (replicou Diogo, E como pode, explica em voz, e aceno) Se vir que come algum, botarei fogo; Farei que inunde em sangue esse terreno. Pois se os bichos nos devem comer logo, (O Bárbaro lhe opõe com desempeno) A nós faz-nos horror, se eles nos comem; E é menos triste que nos trague um homem.

O corpo humano (disse o Herói prudente) Como o brutal não é: desde que nasce, É morada do Espírito eminente, Em quem do grão-Tupá se imita a face. Sepulta-se na terra, qual semente, Que se não apodrece, não renasce; Tempo virá, que aos corpos reunida, Torne a noss’alma a respirar com vida.

O Lume da razão condena a empresa, Pois se o infando apetite o gosto adula, Para extinguir a humana Natureza, Sem mais contrários, bastaria a gula. Que se a malícia em vós, ou se a rudeza, O instinto universal de todo anula, É contudo entre os mais coisa temida, Que outrem por vos comer, vos tire a vida.

Disse Diogo, e conduzia à gruta, O Principal da bárbara caterva, Que ali seguido pela gente bruta, O lugar conhecido atento observa: Gupeva a tudo atende, e tudo escuta; Mas sempre o horror, que concebeu, conserva; E olhando as armas, sem que a mais se arroje, Chega com mão furtiva, apalpa, e foge.

Vinha a noite já então seu negro manto Despregando na lúcida Atmosfera, Quando buscam sossego ao seu quebranto No ninho as aves, e na toca a fera: E quando o Sono com suave encanto Aos míseros mortais a dor modera; Mas não modera em Diogo a mordaz cura De amansar o furor da Gente dura.

Por dissipar na gruta a sombra fria, Toma o férreo fuzil, que o fogo ateia; E vendo a rude gente, que o acendia, E brilhar de improviso uma candeia; Notando a pronta luz, que no óleo ardia, Não acaba de o crer de assombro cheia: Crêem portanto que o fogo do Céu nasça, Ou que Diogo nas mãos nascê-lo faça.

Era costume do Selvagem rude Roçar um lenho noutro com tal jeito, Que vinha por elétrica virtude A acender lume, mas com tardo efeito. Mas observando, sem que o lenho o ajude, Em menos de um momento o fogo feito; O mesmo imaginou, que a Grécia creu, Quando viu ferir fogo a Prometeu.

Acesa luz na lôbrega caverna, Vê-se o que Diogo ali da nau levara; Roupas, armas, e, em parte mais interna, A pólvora em barris, que transportara, Tudo vão vendo à luz de uma lanterna, Sem que o apeteça a gente nada avara, Ouro, e prata, que a inveja não lhe atiça: Naçao feliz! que ignora o que é cobiça.

Mas entre objetos vários a que atende, Nota Gupeva extático a Pintura, Que num precioso quadro, que ali pende, Representava a Mãe da formosura: Se seja coisa viva, não entende; Mas suspeitava bem pela figura, Digna a pessoa, de que a Imagem era, De ser mãe de Tupá, se ele a tivera.

Esta (pergunta o Bárbaro) tão bela, Tão linda face, acaso representa Alguma formosíssima Donzela, Que esposa o grão-Tupá fazer intenta? Ou por ventura que nascesse dela, Esse, que sobre os Céus no Sol se assenta? Quem pode geração saber tão alta? Mas se há Mãe, que o gerasse, esta é sem falta.

Encantado está o pio Lusitano De ouvir em rude boca tal verdade;

E adorando o Mistério soberano, Mãe ter não pode (disse) a Divindade. Mas sendo Deus eterno, fez-se humano, E sem lesão da própria Virgindade, A Donzela o gerou, que pisa a Lua, Digna Mãe de Tupá, Mãe minha, e tua.

Peçamos pois, que é Mãe, que nos defenda; Que te dê para ouvir dócil orelha; E contigo o teu Povo recomenda, Dizendo o Herói assim, devoto ajoelha. Gupeva o mesmo faz com fé estupenda; E pendente de Diogo, que o aconselha, Levanta as mãos, como ele levantava; E vendo-o lagrimar, também chorava.

Mas crendo rude, como então vivia, Que fosse coisa viva a Imagem Santa; Que por Mãe de Tupá tudo sabia, Tendo poder conforme a glória tanta; Repete o que houve a Diogo com voz pia, E à Mãe de Deus o coração levanta: E encostando entre os rogos a cabeça, Faz a noite, e o desvelo que adormeça.

Já no purpúreo, e trêmulo Horizonte, Rosas parece que espalhava a Aurora; E o Sol que nasce sobre o oposto monte, A bela luz derrama criadora: Ouvem-se as avezinhas junto à fonte, Saudando a manhã com voz sonora; E os mortais já do sono desatados Tornavam novamente aos seus cuidados.

Quando Gupeva manso, e diferente, Do que antes fora na fereza bruta, Convoca a ouvi-lo a multidão fremente, Que à roda estava da profunda gruta: Posto no meio da confusa Gente, Que toda dele pende, e atenta escuta: Valentes Paiaiás (diz desta sorte) Que herdais o brio da prosápia forte.

Se ontem do vil Sergipe surpreendidos, Vimos o grão-terreiro posto a saco; Fomos cercados sim, mas não vencidos; Não foi vitória, foi traição de um fraco. Sabia bem por golpes repetidos, Com quanto esforço na peleja ataco; E como sem traição faria nada, Não tendo eu armas, vêm com mão armada.

Sombra do grão-Tatu, de quem me ferve Nestas veias o sangue; de quem trago A invicta geração, que em guerra serve De espanto a todos, de terror, de estrago: Porque a glória a teu nome se conserve, E porque a cante da Bahia o lago, Mandas de lá de donde o Mundo acaba Para o nosso socorro este Imboaba.

Tu lhe mudaste em ferro a carne branda; Tu fazes que na mão se acenda, e lhe arda A viva chama, que Tupá nos manda; Tupá, que rege o Céu, que o Mundo guarda. Com ele hei de vencer por qualquer banda Com ele em campo armado, já me tarda O cobarde inimigo, que a encontrá-lo, Vivo, vivo me animo a devorá-lo.

Sabeis, Tapuias meus, como morrendo Nossos Irmãos, e Pais, que eles matavam,

Postos debaixo já do golpe horrendo, Vosso nome aos vingar tristes chamavam. Também vistes na guerra combatendo, Que estrago neles estas mãos causavam, E as vezes que vos dei no campo vasto, Mil e mil deles por sabroso pasto.

Mas não come o Estrangeiro, nem consente Comer-se carne humana; e só teria

Outra carne qualquer por inocente,

Aves, feras, Tatus, Paca, ou Cotia; Receba pois de nós grato presente, De quanto houver nos matos da Bahia; Saia-se à caça; e como lhe compete, Prepare-se a hospedagem de um banquete.

Separa-se o Congresso em breve espaço, Dispõe-se em alas numerosa Tropa: Quem com taquaras donde pende o laço, Onde a avezinha cai, se incauta o topa: Quem dos ombros suspende, e quem do braço Armadilhas diferentes; outro ensopa Em visgo as longas ramas do palmito, Onde impróvido caia o Periquito.

Os mais com frecha vão, que a um tempo seja Tiro, que ofenda a fugitiva caça;

Ou armas (se ocorresse) na peleja, Quando o inimigo de emboscada a faça: E porque aos mais presida, e tudo veja, À frente do Esquadrão Gupeva passa; Nem fica Diogo só, que tudo via, Mas segue armado a forte companhia.

Mais arma não levou, que uma espingarda; E posto ao lado de Gupeva amigo, Pronto a todo o acidente, e posto em guarda, Traz na cautela o escudo ao seu perigo. Em tanto a destra gente a caça aguarda, E algum se afouta a penetrar no abrigo, Onde esconde a Pantera os seus cachorros, Outro a segue por brenhas, e por morros.

Até que de Gupeva comandada, Em círculo se forma a linha unido,

Onde quanto há de caça já espantada, Fique no meio de um cordão cingido: A rés ali do estrondo amedrentada, Num centro está de espaço reduzido: À mão mesmo se colhe: cousa bela! Que dá mais gosto ver, do que comê-la.

Não era assim nas aves fugitivas, Que umas frechava no ar, e outras em laços

Com arte o Caçador tomava vivas:

Uma porém nos líquidos espaços Faz com a pluma as festas pouco ativas, Deixando à lisa pena os golpes laços. Toma-a de mira Diogo, e o ponto aguarda: Dá-lhe um tiro, e derriba-a co’a espingarda.

Estando a turba longe de cuidá-lo, Fica o bárbaro ao golpe estremecido, E cai por terra no tremendo abalo Da chama, do fracasso, e do estampido: Qual do hórrido trovão com raio, e estalo Algum junto a quem cai, fica aturdido: Tal Gupeva ficou, crendo formada No arcabuz de Diogo uma trovoada.

Toda em terra prostrada exclama, e grita A turba rude em mísero desmaio, E faz o horror, que estúpida repita Tupá, Caramuru, temendo um raio. Pretendem ter por Deus, quando o permita, O que estão vendo em pavoroso ensaio, Entre horríveis trovões do márcio jogo, Vomitar chamas, e abrasar com fogo.

Desde esse dia é fama, que por nome Do grão-Caramuru foi celebrado

O forte Diogo; e que escutado dome Este apelido o Bárbaro espantado: Indicava o Brasil no sobrenome, Que era um dragão dos mares vomitado: Nem doutra arte entre nós a antiga idade Tem Jove, Apolo, e Marte por Deidade.

Foram qual hoje o rude Americano, O valente Romano, o sábio Argivo; Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano, Do que outro Rei fizera em Creta altivo. Nós que zombamos deste Povo insano, Se bem cavarmos no solar nativo, Dos antigos Heróis dentro às imagens, Não acharemos mais, que outros Salvagens.

É fácil propensão na brutal gente, Quando em vida ferina admira uma arte, Chamar um fabro o Deus da forja ingente; Dar ao guerreiro a fama de um Deus Marte. Ou talvez por sulfúreo fogo ardente, Tanto Jove se ouviu por toda a parte: Hércules, e Teseus, Jasões no Ponto Seriam cousas tais, como as que eu conto.

Quanto merece mais, que em douta Lira Se cante por Herói, quem pio, e justo, Onde a cega Nação tanto delira, Reduz à humanidade um Povo injusto? Se por Herói no Mundo só se admira, Quem tirano ganhava um nome Augusto; Quanto o será maior, que o vil tirano, Quem nas feras infunde um peito humano?

Tal pensamento então n’alma volvia O grão-Caramuru, vendo prostrada A rude multidão, que Deus o cria, E que espera desta arte achar domada: Política infeliz da Idolatria, Donde a antiga cegueira foi causada; Mas Diogo, que abomina o feio insulto, Quando aumenta o terror, recusa o culto.

De Tupá sou (lhe disse) Onipotente Humilde escravo, e como vós me humilho; Mas do horrendo trovão, que arrojo ardente, Este raio vos mostra, que eu sou filho. (Disse, e outra vez dispara em continente) Do meio do relâmpago, em que brilho, Abrasarei qualquer, que ainda se atreva A negar a obediência ao grão-Gupeva.

Deu logo a amiga mão com grato aspecto Ao mísero Gupeva, que convulso

No horror daquele ignívomo prospecto, Jazia sem sentido, e já sem pulso: Não temas (diz-lhe) amigo, que eu prometo, Que de meu braço se não mova impulso, Senão contra quem for tão temerário, Que sendo-te eu amigo, é teu contrário.

Recobra o bom Gupeva um novo alento, Sentindo a grata mão, que à vida o chama; Nem pode duvidar pelo experimento, De quanto Diogo com fineza o ama; Mas sempre com receio do instrumento Teme que outra vez lance a horrível chama; E deixa-o no erro Diogo, a fim que incerto, Nenhum pelo pavor se chegue ao perto.

Mas por deixar incerta a Gente infida, Dá-lhe astuto o arcabuz, que não tem carga; E quem (diz) é fiel, pode com vida Tê-lo na mão sem hórrida descarga; Porém se algum faltasse à fé devida, Sentirá da traição por pena amarga, Com próprio dano seu, com mortal risco, Relâmpago, e trovão, fogo, e corisco.

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