Caramuru poema épico do descobrimento da Bahia - José de Santa Rita Durão

Caramuru poema épico do descobrimento da Bahia - José de Santa Rita Durão

(Parte 5 de 6)

Que eu acordado esteja, ou que adormeça, Vigia em guarda minha o fogo oculto, E a traição pagará com a cabeça, Quem tentasse fazer-me um leve insulto. Porém se eu mal não quero, que aconteça, Pode um menino, como pode o adulto, E o mais fraco, que houver na vossa Gente,

Ter o trovão nas mãos, sem que arrebente. LVI

Porém guardai-vos vós, que só no peito, Só n’alma, que tenhais tenção malina, Vereis que trovão faz por meu respeito, E que vem no estampido a vossa ruína. Treme Gupeva, ouvindo este conceito, E humilde a fronte ao grão-Diogo inclina: Certo de não faltar na fé que rende,

Donde o raio, e trovão crê que depende. LVII

Convoca em tanto o Principal temido As esquadras da turba, então dispersa,

E ao grão-Caramuru pede rendido Que eleja casa no País diversa: E que a gruta deixando, suba unido,

Onde em vasta cabana o Povo versa; Nem duvide que a Gente fera, e brava O sirva humilde, e se sujeite escrava.

No Recôncavo ameno um posto havia De troncos imortais cercado à roda,

Trincheira natural, com que impedia, A quem quer penetrá-lo, a entrada toda: Um plano vasto no seu centro abria, Aonde edificando à pátria moda, De troncos, varas, ramos, vimes, canas Formaram, como em quadro, oito cabanas.

Qualquer delas com mole volumosa Corre direita em linhas paralelas; E mais comprida aos lados, que espaçosa, Não tem paredes, ou colunas belas: Um ângulo no cume a faz vistosa, E coberta de palmas amarelas, Sobre árvores se estriba, altas, e boas, De seiscentas capaz, ou mil pessoas.

Qual o velho Noé na imensa barca, Que a bárbara cabana em tudo imita, Ferozes animais próvido embarca, Onde a turba brutal tranqüila habita: Tal o rude tapuia na grand’arca; Ali dorme, ali come, ali medita; Ali se faz humano, e de amor mole, Alimenta a mulher, e afaga a prole.

Dentro da grã-choupana a cada passo Pende de lenho a lenho a rede extensa: Ali descanso toma o corpo lasso; Ali se esconde a marital licença: Repousa a filha no materno abraço Em rede especial, que tem suspensa: Nenhum se vê (que é raro) em tal vivenda, Que a mulher de outrem, nem, a filha ofenda.

Ali chegando a Esposa fecundada A termo já feliz, nunca se omite De pôr na rede o Pai a prole amada, Onde o amigo, e parente o felicite: E como se a mulher sofrera nada, Tudo ao Pai reclinado então se admite, Qual fora, tendo sido em modo sério Seu próprio, e não das Mães o puerpério.

Quando na rede encosta o tenro infante, Pinta-o de negro todo, e de vermelho; Um pequeno arco põe, frecha volante, E um bom cutelo ao lado; e em tom de verme Com discurso patético, e zelante, Vai-lhe inspirando o paternal conselho; Que seja forte diz, (como se o ouvisse) Que se saiba vingar, que não fugisse.

Dá-lhe depois o nome, que apropria Por semelhança que ao Infante iguala, Ou com que o espera célebre algum dia; Senão é por defeito que o assinala: A algum na fronte o nome se imprimia, Ou pintam no verniz, que tem por gala; E segundo a figura se lhe observa, Dão-lhe o nome de fera, fruto, ou erva.

Trabalha em tanto a Mãe sem nova cura, Quando o parto conclui, e em tempo breve, Sem mais arte que a próvida natura, Sente-se lesta, e sã, robusta, e leve: Feliz Gente, se unisse com fé pura A sóbria educação, que simples teve! Que o que a nós nos faz fracos, sempre estimo, Que é mais que pena, ou dor, melindre, e mimo.

Vai com o adulto filho à caça, ou pesca O solícito Pai pelo alimento:

O peixe à mulher traz, e a carne fresca, E à tenra prole a fruta por sustento: A nova provisão sempre refresca, E dá nesta fadiga um documento, Que quem nega o sustento a quem deu vida, Quis ser Pai, por fazer-se um parricida.

Que se acontece que a enfermar se venha, Concorre com piedade a turba amiga; E por dar-lhe um remédio, que convenha, Consultam-no entre si com Gente antiga: Buscam quem de erva saiba, ou cura tenha, Que possa dar alívio ao que periga, Ou talvez sangram numa febre ardente, Servindo de lanceta um fino dente.

Mas vendo-se o mortal já na agonia, Sem ter para o remédio outra esperança, Estima a bruta Gente; ação mui pia, Tirar-lhe a vida com a maça, ou lança: Se morre o tenro filho, a Mãe seria Estimada cruel, quando a criança, Que pouco antes ao Mundo dela veio, Não torna ao seu lugar no próprio seio.

Tal era o Povo rude, e tal usança Se lhe vê praticar no vício iluso: Tudo nota Diogo, na esperança De corrigir por fim tão cego abuso. No lugar da cabana, em que descansa Menos da gente, e multidão confuso, Põe-lhe a rede Gupeva, que o convida De rica, e mole pluma entre tecida.

Mas eis que um grande número o rodeia De emplumados feiíssimos Salvagens: Ouve-se a casa de clamores cheia; Costume antigo seu nas hospedagens. Qualquer chegar-se a Diogo ainda receia, Por ter visto as horríficas passagens; Mas mair ma apadu de longe explicam, E bem-vindo o estrangeiro significam.

Por costumado obséquio os mais luzidos Tomam Diogo nos braços; e no peito A frente lhe apertavam comedidos: Sinal entr’eles do hospital respeito. Tiram-lhe em pressa as roupas, e vestidos; E pondo-o sobre a rede, como em leito, Sem mais dizer-lhe nada, e sem ouvi-lo, Tudo se afasta, e deixam-no tranqüilo.

Com maior cerimônia outra visita Festiva celebrava o seu cortejo; Femínea turba, que o costume incita A oferecer-se honesta ao seu desejo; Senta-se sobre os pés, e felicita, Cobrindo o rosto a mão, como por pejo; Vestidas vêm de folhas tão brilhantes, Que o que falta ao valor, têm de galantes.

Parece ser da mesa o dispenseiro Um Salvagem, que o nome lhe pergunta: Se tem fome, lhe diz; ou se primeiro Quereria beber? e logo ajunta, Sem mais resposta ouvir, sobre o terreiro A comida que trouxe em cópia munta: Põe-se-lhe Uiçu de peixe, e carne crua,

E o mimoso Cauim, que é paixão sua. LXXIV

Todos com gula comem furiosa, Sem olhar, sem falar, nem distrair-se: Tanto se absorvem na paixão gulosa,

Que mal pudera ao vê-los distinguir-se, Se são feras, ou homens. Vergonhosa, Triste miséria humana! confundir-se Um peito racional c’um bruto seio No horrendo vício, donde o mal nos veio.

Acabada a comida, a turba bruta O estrangeiro bem-vindo outra vez grita; E a tropa feminina, que isto escuta, Cobre a face co’as mãos, e o pranto imita: Gupeva pois que o hóspede reputa, Causa do seu prazer, e autor da dita; O Sacro fogo a roda lhe ateava, Cerimônia hospital, que o povo usava.

Bem presumia Diogo, no que explora, Que algum mistério se ocultava interno; Lembra-lhe a chama, que o Caldeu adora; O fogo das Vestais recorda eterno; Nem duvidava que de origem fora Costume da Nação, rito paterno; Trazido, se é possível que se creia, Na dispersão das Gentes, da Caldéia.

Perguntá-lo dos bárbaros quisera; Mas como o aceno, e língua muito engana, Acaso soube que a Gupeva viera Certa Dama gentil Brasiliana: Que em Taparica um dia compreendera Boa parte da língua Lusitana; Que Português escravo ali tratara, De quem a língua, pelo ouvir, tomara.

Paraguaçu gentil (tal nome teve) Bem diversa de Gente tão nojosa; De cor tão alva, como a branca neve; E donde não é neve, era de rosa: O nariz natural, boca mui breve, Olhos de bela luz, testa espaçosa: De algodão tudo o mais, com manto espesso,

Quanto honesta encobriu, fez ver-lhe o preço. LXXIX

Um Principal das terras do contorno A bela Americana tem por filha; Nobres sem fasto, amável sem adorno; Sem gala encanta, e sem concerto brilha: Servia aos Carijós, que tinha em torno, Mais que de amor, de objeto a maravilha: De um desdém tão gentil, que a quem olhava, Se mirava imodesto, horror causava.

Foi destinada de seus Pais valentes, Esposa de Gupeva; mas a Dama Fugia de seus olhos impacientes, Nem prenda lhe aceitou, porque o não ama: Nada sabem de amor bárbaras gentes, Nem arde em peito rude a amante chama; Gupeva, que não sente o despeito, Tratava-a sem amor, mas com respeito.

Deseja vê-la o forte Lusitano; Porque interpreta a língua, que entendia; E toma por mercê do Céu soberano Ter como entenda o idioma da Bahia: Mas quando esse prodígio avista humano, Contempla no semblante a louçania: Pára um, vendo o outro; mudo, e quedo,

Qual junto de um penedo outro penedo. LXXXII

Só tu, Tutelar Anjo, que o acompanhas, Sabes quanto a virtude ali se arrisca, E as fúrias da paixão, que acende estranhas Essa de insano amor doce faísca: Ânsias no coração sentiu tamanhas, (Ânsias, que nem na morte o tempo risca) Que houvera de perder-se naquel’hora, Se não fora Cristão, se Herói não fora.

Mas desde o Céu a Santa Inteligência

Com doce inspiração mitiga a chama; Onde a amante paixão ceda à prudência, E a razão pode mais, que a ardente flama: Em Deus na natureza, e na consciência Conhece, que quer mal quem assim ama; E que fora sacrílego episódio Chamar à culpa amor, não chamar-lhe ódio.

Que pode ser? sou fraco: ela é formosa
Eu livreela donzela... será esposa.

No raio deste heróico pensamento Em tanto Diogo refletiu consigo, Ser para a língua um cômodo instrumento Do Céu mandado na donzela amigo: E por ser necessário ao Santo intento, Estuda no remédio do perigo, LXXXV

Bela (lhe disse então) gentil Menina, (Tornando a si do pasmo, em que estivera) Sorte humana não é, mas é Divina, Ver-me a mim; ver-te a ti na nova esfera: Ela a frase, em que falo, aqui te ensina; Ela, se não me engana o que a alma espera, Um fogo em nós acende, que de resto Eterno haja de arder, se arder honesto.

Se amor éporque amor quem é que o esconde,

Desde hoje se a meus olhos corresponde O meigo olhar das lúcidas pupilas; Se por ele essas lágrimas destilas: Com que chamas meu peito te responde, Com mão de Esposa poderás senti-las; Disse; e estendendo a mão, ofereceu-lha; Ela que nada diz, sorriu-se, e deu-lha.

Põe-lhe de fuga os olhos, que abaixara; E ou de amante, ou também de vergonhosa, Um tão belo rubor lhe tinge a cara, Como quando entre os lírios nasce a rosa: Três vezes quis falar, três se calara; E ficou do soçobro tão formosa, Quanto ele ficou cego; e em tal porfia, Nem um, nem outro então de si sabia.

Mas refletindo logo o Herói prudente, Fixou no coração com fé segura, Não cumprir as promessas de presente, Antes que lhe entre n’alma a formosura: Rende-lhe o seu amor, mas inocente, E faz-lhe prometer, que com fé pura, Enquanto se não lava, e regenera, Em continência viverão sincera.

E esta fé (lhe diz) Esposa em Deus querida, Guardar-te hoje prometo em laço eterno, Até banhar-te n’água prometida, Por cândida afeição de amor fraterno: Amor, que sobreviva à própria vida; Amor, que preso em laço sempiterno, Arda depois da morte em maior chama; Que assim trata de amor, quem por Deus ama.

Esposo (a bela diz) teu nome ignoro; Mas não teu coração, que no meu peito Desde o momento, em que te vi, que o adoro: Não sei se era amor já, se era respeito: Mas sei do que então vi, do que hoje exploro, Que de dois corações um só foi feito. Quero o Batismo teu, quero a tua Igreja, Meu Povo seja o teu, teu Deus meu seja.

Ter-me-ás, caro, ter-me-ás sempre a teu lado: Vigia tua, se te ocupa o sono; Armada sairei, vendo-te armado; Tão fiel nas prisões, como num trono: Outrem não temas, que me seja amado: Tu só serás, Senhor, tu só meu dono: Tanto lhe diz Diogo, e ambos juraram; E em fé do juramento, as mãos tocaram.

Já nos confins extremos do Horizonte Dourava o Sol no ocaso rubicundo Com tíbio raio acima do alto monte; E as sombras caem sobre o vale fundo: Ia morrendo a cor no prado, e fonte; E a noite, que voava ao novo Mundo, Nas asas traz com viração suave O descanso aos mortais no sono grave.

Só com Gupeva a Dama, e com Diogo Gostosa aos dois de intérprete servia; E perguntado sobre o Sacro fogo, A qual fim se inventara? a que servia? Deu-lhe simples razão Gupeva logo: Supre de noite (disse) a luz do dia; E como Tupá ao Mundo a luz acende, Tanto fazer-se aos hóspedes empreende.

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