Caramuru poema épico do descobrimento da Bahia - José de Santa Rita Durão

Caramuru poema épico do descobrimento da Bahia - José de Santa Rita Durão

(Parte 6 de 6)

Se pecando o mau espírito solevas, Sucede que talvez cruel se enoje; E como é Pai da noite, e Autor das trevas, Tanto aborrece a luz, que em vendo-a foge: Porém se à Luz eterna o peito elevas, Não há fúria do Averno que se arroje; Talvez por lhe excitar tristes idéias, Das chamas, que tiveram por cadeias.

Admira o pio Herói, que assim conheça A Nação rude as legiões do Averno; Nem já duvida que do Céu lhe desça Clara luz dum Princípio sempiterno. Disse-me, Hóspede amigo, se professa Este teu Povo, diz, com culto externo Adorar algum Deus? qual é? onde ande? Se seja um Deus somente, ou que outros mande?

Um Deus (diz) um Tupá, um ser possante Quem poderá negar que reja o Mundo, Ou vendo a nuvem fulminar tonante; Ou vendo enfurecer-se o mar profundo? Quem enche o Céu de tanta Luz brilhante? Quem borda a Terra de um matiz fecundo? E aquela sala azul, vasta, infinita, Se não está lá Tupá, quem é que a habita?

A chuva, a neve, o vento, a tempestade Quem a rege? a quem segue? ou quem a move? Quem nos derrama a bela claridade? Quem tantas trevas sobre o Mundo chove? E este espírito amante da verdade, Inimigo do mal, que o bem promove, Cousa tão grande, como fora obrada,

Se não lhe dera o ser, quem vence o nada? VII

Quem seja este grande Ente, e qual seu nome, (Feliz quem saber pode) eu cego o ignoro; E sem que a empresa de sabê-lo tome, Sei que é quem tudo faz, e humilde o adoro: Nem duvido que os Céus, e Terra dome, Quando nas nuvens com terror o exploro, Deixando o mortal peito em vil desmaio, Ameaçar no trovão, punir no raio.

Só pasmo se nos fez, como não veio, Devendo amar o que obra de mão sua, Ao Mundo de Anhangás cercado, e cheio

A livrar o Homem dessa besta crua! Como é possível que não desse um meio, Com que a mente ignorante, enferma, e nua Tratar com ele possa, quando é claro Que o Pai não deixa o filho em desamparo?

Sinto bem remorder dentro em meu peito Lembrança, que me acusa: por mim fica Se mais bem do que faz, me não tem feito, Que é néscio quem o ingrato beneficia. Outro Povo talvez mereça eleito A assistência dos Céus de graças rica; Nem contra Deus se justifica a queixa, Que costume deixar, quem o não deixa.

Mas se do Trono Celestial, e Eterno Apesar da malícia nos visita; Quem sabe se por zelo hoje paterno A nosso bem mandar-te aqui medita. Pois creio bem que contra o fogo Averno Trazes a chama, que a do raio imita, Ou que vens como luz, de Etéreo assento, Por levar-nos contigo ao Firmamento.

Pasmava o Lusitano da eloqüência Com tão alto pensar numa alma rude; Notando como a Eterna Sapiência A face a todos mostra da virtude. E reputava por maior clemência, Que a quem, se a fé conhece, ingrato a ilude; Negasse Deus a luz, que os outros viam; Porque tendo-a maior, mais cegariam.

Não deixa nunca os seus o Céu piedoso (Diogo respondeu) que à terra indigna

Manda o seu Unigênito glorioso, Que ofreça, a quem o invoca, a mão benigna: Mas se antevisse no Homem pernicioso Uma livre eleição sempre maligna, Por dar-lhe menos pena em menor falta

Em sombra, como à voz, deixa tão alta. XIII

Que espírito imortal se nos concede

Tendes em tanto um claro sentimento, Sim, diz Gupeva, que o decide atento, Quem tudo quanto sente parte, ou mede: Mas mirando ao seu próprio pensamento, Vê que a medida sempre intacto excede; E sendo indivisível desta forte, Como pode a razão sofrer a morte?

Quantas vezes em mim, se ser pudesse, Um pensamento d’alma eu dividira; Que todo o mal enfim que o homem padece, Vem d’imagem cruel, que dentro gira. Mas a interna impressão tanto mais cresce, Quanto o peito ansiado mais suspira: E vejo que há em mim mesmo oculto, e interno Entre a mente, e a verdade um laço eterno.

Sem chegar ao seu fim perder a essência

Sendo a mente mortal, tornara ao nada, Ao apagar-se a luz no extremo dia; E antes de ser punida, ou premiada, Uma alma justa, ou ré pereceria; Sempre em desejos, nunca saciada; Má sem castigo; e sem fortuna pia; Como é crível, que Deus tem Providência?

Se o fim do inerte bruto se inquirisse, No contexto das obras respondera, Que fora feito, porque nos servisse, E que eterno destino não tivera: Onde era bem que a morte destruisse Quem para imortal fim nunca nascera; Porque lhe dera, a tê-lo, o Céu Divino Outro corpo, outra forma, outro destino.

Que o bruto elege, pensa, que discorre Do que o vemos obrar fica evidente;

Mas cada espécie a um curto fim concorre, Sem órgãos, e aptidão com que outro intente. O homem tudo quer, por tudo corre, Tem órgãos para tudo, e tudo sente; Infinito em pensar, e no que vejo Maior que no pensar no seu desejo.

Tudo domina só, tudo governa, Sem que a outro animal servir costume; Toda outra espécie à sua é subalterna, E se imortal nascera, fora um Nume: Arbítrio Universal, Razão Eterna, Capaz de receber o imenso lume, E fora mais, se a morte o dissipara, Que se Céu, Terra, e Inferno aniquilara.

Pasmado Diogo do que atento escuta, Não crê que a singular Filosofia Possa ser da invenção da Gente bruta; Mas a intérprete bela lhe advertia, Que a antiga Tradição nunca interrupta Em cantigas, que o Povo repetia, Desde a idade infantil todos compreendem, E que dos Pais, e Mães cantando o aprendem.

Que eram pedaços das Canções, que entoam As que ouvia a Gupeva (e talvez tudo) Que em Poético estilo doces soam Feitas por Sábios de sublime estudo. Que alguns entre eles com tal estro voam, Que envolvendo-se o harmônico no agudo, Parece que lhe inflama a fantasia Algum Nume, se o há, da Poesia.

Tendo Paraguaçu dito discreta, Prossegue então Gupeva os seus assuntos: Que se as almas morressem, que indiscreta

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