rotaçao de quadril

rotaçao de quadril

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20Rev Bras Ortop _ Vol. 3, Nº 1 – Janeiro, 1998

Influência da prática do balé nas rotações dos quadris

Estudo realizado em crianças e adolescentes na faixa etária de 6 a 17 anos

EVANDRO JOSÉ ÁGUILA GÓIS1, LUIZ ANTÔNIO MUNHOZ DA CUNHA2, RALF KLASSEN3

1.Méd. Resid. do Hosp. de Clín. da Univ. Fed. do Paraná (R3).

2.Chefe do Grupo de Ortop. Pediátr. do Hosp. de Clín. da Univ. Fed. do Paraná.

3.Méd. Resid. do Hosp. de Clín. da Univ. Fed. do Paraná (R2).

Endereço para correspondência: L.A.M. Cunha, Rua Buenos Aires, 1.020 – 80250-070 – Curitiba, PR.

Com o objetivo de determinar a influência da prática do balé nas rotações internas e externas do quadril, foram examinadas 190 bailarinas em diferentes faixas etárias e níveis de especialização e comparadas com um grupo-controle de 208 meninas. As bailarinas e o grupo-controle foram avaliados pelo mesmo examinador, utilizando um goniômetro especial. Elas foram também agrupadas de acordo com a faixa etária em: grupo 1 (6 a 8 anos); grupo 2 (9 a 1 anos); grupo 3 (12 a 14 anos) e grupo 4 (15 a 17 anos). Foi realizada a análise estatística pelo teste t de Student, comparando-se as diferentes faixas etárias entre si e com o grupo-controle. Observou-se que o tempo de prática do balé aumenta a rotação externa e diminui a rotação interna do quadril, exceto quando comparadas as rotações externas dos grupos 2 e 3 (p > 0,05). Na comparação com o grupo-controle observou-se que as bailarinas apresentam rotações externas maiores e rotações internas menores, exceto na comparação com o grupo 1, no qual as rotações externas são semelhantes (p > 0,05). A prática do balé, com método, aumenta as rotações externas e diminui as rotações internas do quadril. Os autores sugerem que essas alterações podem estar relacionadas às adaptações das partes moles do quadril tais como: cápsula, ligamentos e musculatura rotadora.

Unitermos–Balé; rotação interna; rotação externa; partes moles

Influence of ballet dancing in the rotation of the hip joint. Study in children and adolescents (6 to 17 years old)

In order to evaluate the influence of ballet dancing in the range of internal and external rotation of the hip joint, the authors examined 190 classical ballet dancers, at different ages and dancing levels, and compared to a group of 208 girls. The rotation was clinically measured with a goniometer device by the same examiner. The dancers and the control group were divided into four groups: group 1 (6 to 8 years old); group 2 (9 to 1 years old); group 3 (12 to 14 years old) and group 4 (15 to 17 years old). Student “t” test was used for statistical analysis. Classical ballet dancers were observed to have their external rotation increased and internal rotation decreased after some time of practice, except for groups 2 and 3 (p > 0.05). Dancers were also observed to have an increased external rotation and a decreased internal rotation in all groups, except for group 1 (p > 0.05), when compared to the control group. External rotation increase and internal rotation decrease of the hip joint are related to the practice of classical ballet dancing. The authors suggest that the alterations of the movements of the hip joint are related to the modification of soft tissues (capsule, ligaments and musculature).

Key words–Ballet; internal rotation; external rotation; soft tissues

É comum no consultório do ortopedista a alteração da marcha, na qual as crianças apresentam a ponta dos pés voltada para dentro. Isso produz um defeito cosmético que preocupa os pais, principalmente pela possibilidade de seqüelas futuras.

A causa mais freqüente de rotação interna dos membros inferiores está relacionada ao aumento da anteversão do colo

Rev Bras Ortop _ Vol. 3, Nº 1 – Janeiro, 199821 femoral(4,1) que, na maioria das vezes, está dentro dos limi- tes da normalidade(3,4,8,9,1,14-17) .

O tratamento das deformidades em rotação interna com órteses ou exercícios físicos regulares não encontra na literatura embasamento que comprove sua eficácia para reduzir os valores do ângulo de anteversão do colo femoral(6). Mesmo assim, alguns profissionais indicam a prática da dança como “terapêutica” dessa deformidade, baseados simplesmente no fato de bailarinas andarem em rotação externa.

O objetivo deste estudo é demonstrar a influência da prática do balé clássico, em diferentes faixas etárias e níveis de aprendizado, nos movimentos de rotações dos quadris.

Foram avaliadas a rotação interna e externa dos quadris de 190 alunas de balé clássico de uma renomada escola estatal, com idades entre 6 e 17 anos e em diferentes níveis de aprendizado.

QUADRO 1

Curso Horas/semana

Nessa escola, a idade mínima do aluno para iniciar seus estudos é de 6 anos. As mudanças de nível ocorrem, após as devidas avaliações teórico-práticas, exceto para o aperfeiçoamento, que não tem duração determinada.

O tempo de prática semanal da dança modifica-se de acordo com o nível de especialização, conforme o quadro 1.

O exame das rotações do quadril foi realizado sempre pelo mesmo examinador, utilizando-se um goniômetro especialmente desenvolvido para esse fim (figs. 1 e 2).

As medidas obtidas foram comparadas com as de grupocontrole de 208 meninas, não praticamentes de balé, distribuídas na mesma faixa etária e pertencentes a uma escola pública com as mesmas características socioeconômicas do grupo de bailarinas.

O exame das rotações dos quadris foi realizado com as alunas em decúbito ventral com os quadris em extensão e os joelhos em flexão de 90º sobre a placa menor, sendo a perna do membro examinado apoiada ao longo da placa maior. A rotação interna (RI) e a externa (RE) dos quadris foram mensuradas com o goniômetro adaptado ao respectivo lado da placa.

As alunas do curso de balé e as do grupo-controle foram divididas em quatro faixas etárias descritas na tabela 1. A distribuição das alunas de dança e das alunas do grupo-con-

Fig. 1 – Detalhe do goniômetro

Fig. 2 O aparelho consiste de duas placas de polipropileno, uma delas medindo 30 x 30cm e a outra, 30 x 60cm, unidas por uma dobradiça; nas bordas das placas adapta-se um goniômetro, de modo a impedir a distorção do centro de rotação.

22Rev Bras Ortop _ Vol. 3, Nº 1 – Janeiro, 1998 rém, existe diferença estatisticamente significativa nos valores das rotações internas.

A avaliação das rotações dos quadris entre os grupos 3 e 4 das bailarinas mostra que a RI diminui, como nas avaliações anteriores, e a RE sofre acréscimo.

Os resultados obtidos da comparação das rotações entre o grupo de bailarinas e o grupo-controle estão nas tabelas 7 a 10.

Ao comparar o grupo etário 1 entre bailarinas e o grupocontrole, observamos que não houve modificação estatisticamente significativa das rotações externas, porém houve

TABELA 1 Distribuição das faixas etárias por grupos

Grupo 1Grupo 2Grupo 3Grupo 4 6-8 anos9-1 anos12-14 anos15-17 anos

TABELA 2 Número de alunas por grupo

Grupo Bailarinas Grupo-controle

TABELA 3 Tempo de prática de dança por grupo etário

GrupoTempo médio de balé trole em relação à faixa etária está na tabela 2. O tempo de prática da dança por grupo etário está na tabela 3.

Os valores das rotações obtidas nos exames das bailarinas foram comparados entre si (grupos 1 a 4) e cada grupo etário das bailarinas foi comparado com o similar das alunas do grupo-controle. Assim, aplicamos o teste t de Student, ao nível de significância p < 0,05, para avaliação das médias das rotações do quadril.

A avaliação das rotações dos quadris dos lados direito e esquerdo de ambos os grupos, bailarinas e controle, não mostrou diferença estatisticamente significante. Foram, então, consideradas para finalidade de resultado apenas a RE e a RI dos quadris.

Os resultados obtidos da avaliação entre os grupos 1 e 4 das bailarinas estão nas tabelas 4 a 6.

Ao comparar os grupos etários 1 e 2, observamos que existe aumento das rotações externas e redução das rotações internas no grupo etário 2.

Ao comparar os grupos etários 2 e 3, não observamos diferenças significativas nos valores das rotações externas; po-

TABELA 4

Comparação das rotações das bailarinas nos grupos etários 1 e 2

Grupo Média DP p < 0,05 DP – desvio-padrão

TABELA 5

Avaliação das médias das rotações do quadril entre os grupos etários 2 e 3 das bailarinas

Grupo Média DP

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