paisagem bertrand

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BERTRAND, G. Paisagem e geografia física global

R. RAE GA, Curitiba, n. 8, p. 141-152, 2004. Editora UFPR141

PAISAGEM E GEOGRAFIA FÍSICA GLOBAL. ESBOÇO METODOLÓGICO1 Georges BERTRAND

“Paisagem” é um termo pouco usado e impreciso, e por isto mesmo, cômodo, que cada um utiliza a seu bel prazer, na maior parte das vezes anexando um qualificativo de restrição que altera seu sentido (“paisagem vegetal”, etc.). Emprega-se mais o termo “meio”, mesmo tendo este termo outro significado. O “meio” se define em relação a qualquer coisa; este termo é impregnado de uma finalidade ecológica que não é encontrada na palavra “paisagem”.2

O problema é de ordem epistemológica. Realmente, o conceito de “paisagem” ficou quase estranho à geografia física moderna e não tem suscitado nenhum estudo adequado. É verdade que uma tal tentativa implica numa reflexão metodológica e pesquisas específicas que escapam parcialmente à geografia física tradicional. Esta é, com efeito, desequilibrada pela hipertrofia da pesquisa geomorfológica e por graves carências, em particular no domínio das ciências biogeográficas. Enfim, ela permanece essencialmente analítica e “separativa”, qualificativo emprestado de P. PÉDELABORDE que opõe a climatologia clássica “separativa” (estudo das temperaturas, das precipitações, etc.) à climatologia “di- nâmica” (estudo global das massas de ar)3 enquanto que o estudo das paisagens não pode ser realizado senão no quadro de uma geografia física global.

A paisagem não é a simples adição de elementos geográficos disparatados. É, em uma determinada porção do espaço, o resultado da combinação dinâmica, portanto instável, de elementos físicos, biológicos e antrópicos que, reagindo dialeticamente uns sobre os outros, fazem da paisagem um conjunto único e indissociável, em perpétua evolução. A dialética tipo-indivíduo é próprio fundamento do método de pesquisa.

É preciso frisar bem que não se trata somente da paisagem “natural” mas da paisagem total integrando todas as implicações da ação antrópica. No entanto, deixaremos provisoriamente de lado as paisagens fortemente urbanas que, criando problemas originais, determinam possivelmente, para alguns de seus aspectos, métodos análogos.

Estudar uma paisagem é antes de tudo apresentar um problema de método.

1 Tradução: Olga Cruz. Trabalho publicado, originalmente, na “Revue Geógraphique des Pyrénées et du Sud-Ouest”, Toulouse, v. 39 n. 3, p. 249-272, 1968, sob título: Paysage et geographie physique globale. Esquisse méthodologique. Publicado no Brasil no Caderno de Ciências da Terra. Instituto de Geografia da Universidade de São Paulo, n. 13, 1972. 2Meio: “Espaço que envolve imediatamente as células ou os organismos vivos e com o qual os seres vivos realizam trocas constantes de matéria e de energia”. Grand Larousse Encyclopédique, t. 7, p. 358. 3PEDELABORDE, P. Introduction à l’étude scientifique du climat. Paris: C.D.U., 1995. p. 3.

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A exposição que se segue dá ênfase sucessivamente a problemas de taxonomia, de dinâmica, de tipologia e de cartografia das paisagens.

A noção de escala é inseparável do estudo das paisagens. As escalas temporo-espaciais de inspiração geomorfológica de A. CAILLEUX e J. TRICART foram utilizadas como base geral de referência para todos os fenômenos geográficos (a ordem de grandeza é indicada entre parêntesis, abreviada G. I, G. I, G. II).4 1 – As classificações elementares - cada disciplina especializada no estudo de um aspecto da paisagem se apóia em um sistema de delimitação mais ou menos esquemático formado de unidades homogêneas (ao menos em relação à escala considerada) e hierarquizadas, que se encaixam umas nas outras. A classificação fitogeográfica de H. GAUSSEN: ANDAR (ex. mediterrâneo) – SÉRIE (ex. carvalho verde) – ESTÁDIO (ex. garrigue) é a melhor ilustração disso. Em qualquer dos casos, trata-se de unidades específicas que podem ser qualificadas de “elementares” em relação ao complexo formado pela paisagem. Esses sistemas são tão variados quanto numerosos; nós não reteremos senão os que apresentam um interesse do ponto de vista da taxonomia das paisagens.

As classificações climáticas e pedológicas são também tão gerais como teóricas e, além disso, são bastante discutíveis. A hierarquia bem conhecida desde Max Sorre: clima zonal (G. I), clima regional (G. I a G. IV), clima local (G. V - G. VI) e microclima (G. VII), pode fornecer um primeiro ponto de partida. Os geomorfologistas nunca demonstraram muito interesse por questões taxonômicas. Podendo citar somente a classificação morfo-estrutural apresentada por G. VIERS conforme os trabalhos de J. TRICART: o domínio estrutural (ex. Europa herciniana, G. I) a região estrutural (ex. as Ardenas, G. IV) – a unidade estrutural (ex. um anticlinal pré-alpino, G. V).5 A bacia-vertente, unidade hidro-geomorfológica, corresponde a uma descontinuidade essencial da paisagem, mas ela é heterogênea por definição e o limite à jusante é sempre difícil de ser estabelecido. Enfim, as paisagens ditas “físicas” são com efeito quase sempre amplamente remodeladas pela exploração antrópica. A divisão em parcelas, territórios, comunidades, quarteirões e “pays” vai então constituir um dos critérios essenciais da taxonomia das paisagens.6

No entanto, a melhor aproximação do problema é fornecida pela vegetação que se comporta sempre como verdadeira síntese do meio. As unidades fitogeográficas citadas acima (andar-série-estádio) correspondem a massas vegetais perfeitamente definidas tanto no plano fisionômico quanto no plano dinâmico. A fitosociologia moderna com orientação sinecológica vem harmoniosamente completar este sistema, permitindo delimitar unidades homogêneas do ponto de vista florístico (associações e agrupamentos vegetais, G. VI a G. VII).

Como era de se esperar, essas diversas classificações elementares não têm entre elas nenhuma relação lógica porque os fenômenos em causa pertencem a ordens geográficas diferentes. Certos especialistas realizaram reagrupamentos parciais que constituem já uma 1ª etapa para a definição das paisagens. Nesse domínio, os biogeógrafos, já há muito tempo, precederam os geógrafos. 2 – As combinações bio-ecológicas – A biocenose é um agrupamento de seres vivos, correspondendo, pela composição e pelo número das espécies e dos indivíduos, a certas condições médias do meio, agrupamento de organismos, ligados por uma dependência recíproca que se mantém por reprodução de maneira permanente”7

O pântano com rãs é um exemplo dessa combinação. A biocenose coloniza o biótopo que é a unidade elementar correspondente ao menor conjunto homogêneo do meio físico-químico (G. VII-VIII). O ecótopo, a biogeocenose, o microcosmo, o “holocoen”, o “naturcomplex”, o fisiótopo, a geoforma, etc., exprimem com algumas variações, e de diversas maneiras, uma realidade bem próxima.8

As unidades biogeográficas superiores, como a tundra, a savana, a floresta tropical úmida, são

4TRICART, J. Principes et Méthodes de la Géomorphologie. Paris: Masson, 1965, p. 79-90. Ver também GLANGEAUD, L. Degré de régionalité. Bull Soc. Géol. Fr., 1952. 5VIERS, G. Eléments de Géomophologie. Paris: Nathan, 1967, p. 27-29. 6 Terminologia utilizada por R. BRUNET nos estudos a serem publicados: La notion de quartier rural. Bull A.G. F., 1968 et Rev. Géogr.

Pyr. S. - O., 1968. 7ANGELIER, M. Cours de biogéographie animale, proferido no Centro do 3º Ciclo de Biogeografia, da Faculdade de Ciências de

Toulouse, 1963-1964. 8Cf., mais particularmente, KORMONDY, E. S. Readings of ecology, New Jersey, 1965, 220 p.

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R. RAE GA, Curitiba, n. 8, p. 141-152, 2004. Editora UFPR143 qualificadas de “biomas”. São massas relativamente homogêneas de vegetais e de animais, em equilíbrio entre elas, e com o clima. As “zonas ecológicas equipotenciais” de P. REY poderiam servir de unidades intermediárias entre a biocenose e o bioma, tanto mais que elas tentam integrar certos dados geológicos e humanos (G. V-VI). Apoiando-se nessa noção de “equipotencialidade” ecológica e aplicando métodos de análises multifatoriais preconizadas por B. L. J. BERRY no domínio da pesquisa sócio-psicológica, M. PHIPPS tem a ambição de achar as estruturas da “paisagem biogeográfica” e de definir matematicamente um “modelo biogeográfico” da paisagem.9

Os biogeógrafos modernos foram ainda mais longe a caminho da síntese, definindo o “ecossistema”. Acentuaram as cadeias e as redes tróficas, isto é, as ligações alimentares que unem os indivíduos e as comunidades vivas: “Qualquer que seja o ecossistema estudado, (…) trata-se sempre, em definitivo, de um problema de elaboração, de circulação, de acumulação e de transformação de energia potencial pela ação dos seres vivos e seu metabolismo”.10 Entre as melhores aplicações desse sistema, em particular no plano cartográfico, é preciso citar os trabalhos dos norteamericanos, dos belgas, dos alemães, dos soviéticos e dos poloneses.1 O ecossistema não tem nem escala nem suporte especial bem definido. Ele pode ser o oceano, mas também pode ser o pântano com rãs. Não é, portanto, um conceito geográfico. Nessas condições é melhor renunciar e reajustar a taxonomia biogeográfica, a escolher livremente unidades geográficas globais adaptadas ao estudo da paisagem. Diversas tentativas já foram realizadas nesse sentido. 3 – As primeiras sínteses geográficas - A “região natural” foi durante longo tempo o pilar da geografia francesa. “O termo de região se aplica (…) tanto a conjuntos físicos, estruturais ou climáticos como a domínios caracterizados pela sua vegetação”.12 Realmente, a “região natural” escapa a toda definição racional tanto pelo conteúdo como pela superfície coberta (G. I à G. V). Pode-se conservar esta unidade maleável e cômoda com a condição de colocá-la em um sistema taxonômico coerente. De uma maneira geral, as sínteses de geografia física, realizadas durante a “idade de ouro” da geografia regional francesa, pecavam pela falta de cultura biológica e ecológica. É fora da França que devem ser procuradas as raras tentativas para apreender a paisagem na sua totalidade. Nós deixaremos por enquanto de lado todas as delimitações mais ou menos agronômicas ligadas ao “land-use” britânico ou ao “soil-survey” norte-americano.

A noção de “Landschaft” domina toda a geografia germânica. Desde a 2ª metade do século XIX, uma “Landschaftskunde” tentou precisar as relações do homem e do meio. O determinismo abrupto desta ciência da paisagem arruinou completamente a iniciativa e certamente contribui a desviar os geógrafos franceses da ecologia, então em nascimento.13 Ele lançou as bases da “Landschaftsökologie” que é um estudo da paisagem do ponto de vista ecológico. As paisagens são divididas em “ecótopos” (ou em “landschaftzellen”) que são unidades inteiramente comparáveis ao ecossistema. Este método representa um progresso decisivo sobre os estudos fragmentados dos geógrafos e dos biogeógrafos, porque ele reagrupa todos os elementos da paisagem, e o lugar reservado ao fenômeno antrópico é bem importante nele. No entanto, trata-se mais de uma atitude de espírito do que de um método de estudo cientificamente estabelecido. A definição dos “ecótopos” permanece imprecisa e a hierarquização dos fatores não é evocada. Nenhuma tipologia sistemática permite lançar claramente o problema da representação cartográfica. Trata-se em suma de um método mais ecológico que geográfico.

Pesquisadores soviéticos e americanos ultrapassaram por generalização o conceito de ecossistema e tentaram abordar as paisagens sob o aspecto estritamente quantitativo. (TROLL, 1966). A paisagem é considerada como um sistema energético cujo estudo se lança em termos de transformação e de produtividade bioquímica. Esta “geochemical landscape” enriquece e simplifica ao mesmo tempo a noção tradicional

9REY, R. CABAUSSEL, ARLES, Les bases biogéographiques de la restauration forestière et pastorale dans de département de l‘

Aude-Corbières, Razès, Piegè. Toulousse, 1961 (C.N.R.S., Service de la carte de la vegétation, 39 p. ronéo) PHIPPS, M. Introduction au concept de modèle biogéographique. Actes 2º Symposium Internat. Phot. Interprétation, Paris, 1966, v. 4, n. 2, p. 41-49. 10 DUVIGNEAUD, P.; TANCHE, M. Ecosystème et biosphère. L’ écologie, science moderne de synthese (v. 2). Trav. Centre Ecologie générale, minist. Education Nationale, Bruselles, 1962, 127 p. 1 Entre outros citemos: CROWLEY, J. M.; JURDANT, M.; KUCHLER, A. W.; SHELDFORD, V. (Canadá, U.S.A.) J. SMITHUSEN, C.

TROLL e R. TUXEN (Allemagne), P. DUVIGNEAUD (Belgique), ICHACHENKO, NEOSTRUEV, PALYNOV, SOTCHAVA, VILENSKY, VINK, etc. (U.R.S.S.), KONDRACKI (Pologne) et PLESNIK (Tchécoslovaquie). Ver mais particularmente J. M. CROWLEY, La Biogéographie vue par um géographe, C. R. som. Soc. Biogéographie, 1967, n. 380-382, p. 20-27. 12 CHOLLEN, A. La géographie guide de l‘ etudiant. Paris, 1951, p. 31. 13 TROLL, C. retomou esta idéia apoiando-se nos trabalhos dos ecologistas anglo-saxões, tirando proveito de sua própria experiência sobre foto-interpretação. TROLL, C. Landscape ecology. Public of the I.T.C UNESCO Centre for Integrated Surveys, 1966, Delft S. 4, 23 p.

BERTRAND, G. Paisagem e geografia física global

R. RAE GA, Curitiba, n. 8, p. 141-152, 2004. Editora UFPR144 de “paisagem”. Mas os próprios especialistas se perguntam como poderão medir (posta de lado, a fotossíntese) as transformações de energia ao nível de outros elementos que não os vegetais, particularmente ao nível da microfauna. Mesmo o cálculo aproximado do balanço energético de uma paisagem não é ainda possível. No momento, o principal interesse da “geochemical landscape” é chegar a uma tipologia dinâmica das paisagens em função da migração das substâncias geoquímicas. Distinguem-se 3 categorias de paisagens: um tipo “residual” (estável), um tipo de “trânsito” (perda de substância) e um tipo de “acumulação”. Sob uma formulação diferente, reencontra-se a bioresistasia de H. ERHART que certos geógrafos tentam adaptar à geografia física.14 Neste nível de concepção, a paisagem aparece como um objeto de estudo bem definido que apela para um ponto de vista metodológico.

Todas as delimitações geográficas são arbitrárias e “é impossível achar um sistema geral do espaço que respeite os limites próprios para cada ordem de fenômenos.”15 Contudo, pode-se vislumbrar uma taxonomia das paisagens com dominância física sob a condição de fixar desde já limites. 1º)A delimitação não deve nunca ser considerada como um fim em si, mas somente como um meio de aproximação em relação com a realidade geográfica. Em lugar de impor categorias pré-estabelecidas, trata-se de pesquisar as descontinuidades objetivas da paisagem.

2º)É preciso de uma vez por todas renunciar a determinar unidades sintéticas na base de um compromisso a partir das unidades elementares; seria certamente um mau método querer superpôr, seja pelo método cartográfico direto, seja pelo método matemático (sistema de rede), o máximo de unidades elementares para destacar daí uma unidade “média” que não exprimiria nenhuma realidade por existir a estrutura dialética das paisagens. Ao contrário, é pre- ciso procurar talhar diretamente a paisagem global tal qual ela se apresenta. Naturalmente a delimitação será mais grosseira, mas as combinações e as relações entre os elementos, assim como os fenômenos de convergência aparecerão mais claramente. A síntese, no caso, vem felizmente substituir a análise.

3°)O sistema taxonômico deve permitir classificar as paisagens em função da escala, isto é, situá-las na dupla perspectiva do tempo e do espaço. Realmente, se os elementos constituintes de uma paisagem são mais ou menos sempre os mesmos, seu lugar respectivo e sobretudo suas manifestações no seio das combinações geográficas dependem da escala temporo-espacial. Existem, para cada ordem de fenômenos, “inícios de manifestações” e de “extinção” e por eles pode-se legitimar a delimitação sistemática das paisagens em unidades hierarquizadas.16 Isto nos leva a dizer que a definição de uma paisagem é função da escala. No seio de um mesmo sistema taxonômico, os elementos climáticos e estruturais são básicos nas unidades superiores (G. I a G. IV) e os elementos biogeográficos e antrópicos nas unidades inferiores (G. V a G. VIII).

O sistema de classificação finalmente escolhido comporta seis níveis temporo-espaciais; de uma parte a zona, o domínio e a região; de outra parte, o geosistema, o geofácies e o géotopo (observar a tabela 1 - a seguir). 1 – As unidades superiores – As pesquisas têmse limitado às unidades inferiores. No entanto, pareceu necessário apresentar um sistema taxonômico completo. Para as unidades superiores, é suficiente retomar o sistema de delimitação consagrado pelo uso, precisando somente a definição e o lugar relativo de cada unidade.

O qualificativo de “zona” deve ser imperativamente ligado ao conceito de zonalidade planetária. É então reservado aos conjuntos de 1ª grandeza (zona

14 ERHART, H. La genèse des sols entant que phénomène géologique. Esquisse d’une théorie géologique et géochimique. Exemples d’application. Paris, 2. ed., 1967, 177 p. 15 CLAVAL, P. La division regionale de la Suisse. Rev. Géogr. de 1’ Est, 1967, p. 83-94. 16 BRUNET, R. Les phénomènes de discontinuité en géographie (These complém. Toulouse, 1965, p. 2-28), sur ex-ronéo (Em vias de publicação no “Memoires e Documents du Centre de Recherches et Documentation cartogra-phiques et géographiques du C.N.R.S.”).

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R. RAE GA, Curitiba, n. 8, p. 141-152, 2004. Editora UFPR145 temperada). Na realidade, a zona se define primeiramente pelo seu clima e seus “biomas”, acessoriamente por certas megaestruturas (os estudos das áreas tropicais...).

O “domínio” corresponde a unidade de 2ª grandeza.

O domínio mediterrâneo s.s. é um exemplo deste tipo com suas paisagens vigorosamente individualizadas. Da mesma maneira, define-se um domínio cantábrico caracterizado por uma certa combinação de relevos montanhosos e de climas oceânicos. A definição do domínio deve ficar suficientemente maleável para permitir reagrupamentos diferentes nos quais a hierarquia dos fatores pode não ser a mesma (domínio alpino, domínio atlântico europeu...).

A região natural, já apresentada, situa-se entre a 3ª e 4ª grandeza. Os Picos de Europa constituem, no interior do domínio cantábrico, uma região natural bem circunscrita que corresponde à individualização tectônica de um maciço calcário vigorosamente compartimentado e carstificado. Ele constituiu uma “frente montanhosa” hiperúmida e hipernebulosa caracterizado por um an- dar biogeográfico original (mistura faia-carvalho verde nas baixas encostas, ausência de resinosas, limites superior da floresta bem baixa, passagem da “terra fusca” oceânicas aos solos alpinos húmicos). 2 – As unidades inferiores - Foi necessário montar todas as peças das unidades globais inferiores à região natural. Após numerosos ensaios, forjaram-se 3 entidades novas: o geosistema, o geofácies e o geótopo. Estes termos têm a vantagem de não terem sido utilizados, de serem construídos em um modelo idêntico e de evocar cada um o traço característico da unidade correspondente. Na verdade, geo “sistema” acentua o complexo geográfico e a dinâmica de conjunto; geo “facies” insiste no aspecto fisionômico e geo “topo” situa essa unidade no ultimo nível da escala espacial.17 a) O geosistema – O exemplo de geosistema

Sierras Planas (Espanha do noroeste, domínio cantábrico região dos picos de Europa). As Sierras Planas são plataformas escalonadas entre 180 e 450m de altitude entre o oceano Atlântico e o maciço Cantábrico. Talhadas no arenito e os quartzitos do primário, elas

17 Em um 1° estudo consagrado à análise de um caso concreto (BERTRAND, G. Esquisse biogéographique de la Liébana, La dynamique actuelle des paysages, R.G.P.S. – O, 1964, fasc. 3, p. 225-262), havia-se utilizado um vocabulário diferente que tinha sido criticado por um certo número de especialistas.

TABELA 1 –

BERTRAND, G. Paisagem e geografia física global

R. RAE GA, Curitiba, n. 8, p. 141-152, 2004. Editora UFPR146 representam os vestígios de superfícies de aplainamento de idade miocênica que se ligam ao piemonte norte-cantábrico hoje em sua maior parte afundado e afogado sob o oceano. Esses planaltos, talhados em estreitas línguas, por sulcos de erosão plioquaternários, mergulham em um clima hiperoceânico particularmente úmido e nebuloso. As “landes” atlânticas partilham a superfície com as turfeiras oligotróficas de “Sphagnum” e “Polytricum”. As Sierras Planas foram desmatadas e usadas como pastagens desde o neolítico. Atualmente, elas são sub-utilizadas: alguns pedaços para pastoreio, reflorestamentos recentes com Eucalyptus globulus e Pinus insignis, uma exploração arcaica da turfa. É uma paisagem nítida e bem circunscrita que se pode, por exemplo, identificar instantaneamente nas fotografias aéreas. Portanto as Sierras Planas se ligam a unidades elementares discordantes e de extensão variável: um piemonte complexo que franjeia toda a vertente norte-cantábrica, um clima comum ao conjunto do litoral asturiano, fenômenos de podzolização que são vistos em todas rochas matrizes quartzíticas das montanhas cantábricas, uma série vegetal dominada pelo carvalho pedunculado que cobre uma superfície muito mais vasta, enfim uma exploração silvo-pastoral, que não é muito diferente das encontradas nas regiões vizinhas. A unidade da paisagem é portanto incontestável. Ela resulta da combinação local e única de todos esses fatores (sistema de declive, clima, rocha, manto de decomposição, hidrologia das vertentes) e de uma dinâmica comum (mesma geomorfogênese, pedogênese idêntica, mesma degradação antrópica da vegetação que chega ao paraclimax “lande” podzol ou à turfeira). A paisagem das Sierras Planas caracteriza-se por uma certa homogeneidade fisionômica, por uma forte unidade ecológica e biológica, enfim, fato essencial, por um mesmo tipo de evolução. Este exemplo permite esboçar uma definição teórica do geosistema (vide figura 1 – abaixo).

O geosistema situa-se entre a 4ª e a 5ª grandeza temporo-espacial. Trata-se, portanto, de uma unidade dimensional compreendida entre alguns quilômetros quadrados e algumas centenas de quilômetros quadrados. É nesta escala que se situa a maior parte dos fenômenos de interferência entre os elementos da paisagem e que evoluem as combinações dialéticas mais interessantes para o geógrafo. Nos níveis superiores a ele só o relevo e o clima importam e, acessoriamente, as grandes massas vegetais. Nos níveis inferiores, os elementos biogeográficos são capazes de mascarar as combinações de conjunto. Enfim, o geosistema constitui uma boa base para os estudos de organização do espaço porque ele é compatível com a escala humana.

O geosistema corresponde a dados ecológicos relativamente estáveis. Ele resulta da combinação de fatores geomorfológicos (natureza das rochas e dos mantos superficiais, valor do declive, dinâmica das

FIGURA 1 –ESBOÇO DE UMA DEFINIÇÃO TEÓRICA DE GEOSSISTEMA.

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