Geografia Física, Geossistemas e Se

Geografia Física, Geossistemas e Se

(Parte 1 de 4)

Flávio Rodrigues do Nascimento1 José Levi Furtado Sampaio2

O presente trabalho trata de aspectos teóricos ligados à Geografia Física, sobretudo relacionados com a Teoria Geral dos Sistemas – TSG – desenvolvida por Bertallanfy. O desenvolvimento da TGS permitiu uma maior aproximação sistemática com a Geografia Física, na qual variáveis como paisagem e geossistema puderam ser tratadas em particular. Palavras-chave: Teoria Geral dos Sistemas. Metodologia. Geografia Física. Geossistema. Paisagem.

Geography, where variables such as landscape and
Key-words: Systems General Theory. Methodology. Physical

The present work deals with the theoretical aspects linked to the Physical Geography, mainly those related to the Systems General Theory – SGT – developed by Bertallanfy. The SGT theoretical development allowed a more systematic approach to the Physical geosystems/enviromments could be treated as a particular item. Geography. Geosystem. Landscape.

Entende-se por Geografia Física o estudo da organização espacial dos geossistemas, de vez que essa organização se expressa pela estrutura conferida pela distribuição e arranjo espacial dos elementos que compõem o universo do sistema, os quais são resultantes da dinâmica dos processos atuantes e das relações entre os elementos.

Este ramo da Geografia busca auxílio em métodos de outras ciências, incorporando-os e adaptando-os. A Geologia, Biogeografia, Pedologia, Meteorologia, Botânica etc. lhe servem metodologicamente. Em escala geral, a Geografia Física tem tentado trabalhar com a dialética da natureza; mas a teoria sistêmica tem-se configurado como método mais eficaz em seus trabalhos moderno e contemporâneo. Tentativas pormenorizadas da teoria dos sistemas têm sido implementadas na Geografia soviética, norte-americana e sobretudo a inglesa, influenciadas diretamente pela tendência “Sistêmico-Quantitativo”, e como conseqüência produziram-se tendências metodológicas oriundas desta base, confeccionando o estudo da paisagem, os estudos ecossistêmicos, geossistema e a ecogeografia, só para citar os mais importantes.

A Geografia Física ou da natureza possui duas características básicas: (a) sua proximidade com as ciências naturais e (b) direcionada atenção às alterações do quadro natural do planeta, com proximidade da Ecologia e Geografia Humana.

1 Licenciado e Bacharel em Geografia (UFC). Mestre em Geografia pela UECE. Doutor em Geografia pela UFF/RJ. Professor da UECE (Dept° de Geografia da FAFIDAM, Limoeiro do Norte-CE). E-mail: frngeo2001@yahoo.com.br. End. Av. E, Bloco – 145, Apt° 102. Conjunto Esperança. Fortaleza – CE. CEP: 60763-480. 2 Doutor em Geografia. Professor do Departamento de Geografia da UFC. joselevi@uol.com.br.

Contudo, a Geografia Física é uma parte da ciência denominada Geografia e, por isto, é subjugada às ciências humanas, quer com enfoque dicotômico, Geografia Física versus Geografia Humana, quer como aspecto importante de uma geografia global, não enciclopédica; aqui lembramos Lacoste (1982, apud Mendonça, 1991):

Embora haja dificuldades, parece necessário manter o princípio de uma Geografia global, ao mesmo tempo física e humana, encarregada de dar conta da complexidade das interações na superfície do globo entre fenômenos que dependem das ciências da matéria, da vida e da sociedade.

Não obstante, o escopo deste texto não tem pretensão de propor novas metodologias para a Geografia Física, mas sim buscar um melhor entendimento acerca de questões teóricas e metodológicas que a envolvam através de “pesquisa pura”. Para isto discutiu-se a formalização do Geossistema à luz da Teoria Geral dos Sistemas, analisando sua importância para a Geografia Física em seus Estudos Integrados.

O campo de ação da Geografia Física é vasto e complexo. Pode-se destacar, por exemplo, que ela analisa as condições naturais, sobretudo na interpretação da estrutura e processos do espaço geográfico; no estudo geossistêmico, considera os seus subsistemas naturais e todas as influências dos fatores socioeconômicos; atua ainda em planejamentos (territoriais e regionais), no planejamento socioambiental e no ensino.

Para se ter uma idéia, entre seus clássicos de renome internacional cita-se De Marttone, com seu “Tratado geral de Geografia Física”, de 1909, com enfoque enciclopédico, além da “Geografia Física”, de Sotchava e Arthur Straler.

Durante a década de 50 surge no Brasil a obra “A terra e Homem: bases físicas”, sob a coordenação de Aroldo de Azevedo. E nos anos 60 e 70 se destaca a coleção de “Geografia do Brasil”, na qual são discutidas as regiões brasileiras.

No campo específico da Geomorfologia, destacam-se os estudos de A. Christofoletti, A- ziz Ab’Saber, Margarida Penteado, com as respectivas obras “Geomorfologia fluvial”, “Os domínios morfoclimáticos na América do Sul”, “Contribuição à geomorfologia da área dos cerrados” e “Fundamentos de Geomorfologia”.

Na Climatologia destacam-se as obras de Carlos A. Figueredo Monteiro: “Teoria e clima urbano”, “Análise rítmica em Climatologia”, “O clima e a organização do espaço no Estado de São Paulo: Problemas e perspectivas” e “A Questão ambiental no Brasil 1960-1980”; e Edmond Nimer publica através do IBGE um trabalho sobre o clima brasileiro.

Por fim, destacam-se algumas das últimas perspectivas da Geografia Física com Jean Tricart e Georges Bertrand, nas décadas de 60 e 70, relacionando o quadro físico do planeta e as organizações sociais numa dinâmica rápida. E é neste último autor – com o exemplo de outros também –, que serão baseados os seguintes escritos referentes aos geossistemas.

O objetivo básico e fundamental da Geografia Física é o estudo dos geossistemas, como já destacado, pois eles fornecerão as informações sobre a dinâmica da natureza, possibilitando o planejamento para o uso prudente do espaço geográfico com fins à eqüidade intertemporal.

Os geossistemas derivam da Teoria Geral dos Sistemas de Bertalanffy, e para a Geografia

Física, em sua totalidade, destaca-se a contribuição de Chorley e Kennedy (1968), conforme referenciado por Christofoletti (1979).

O geossistema deu à Geografia Física melhor caráter metodológico, até então complexo e mundialmente indefinido, facilitando e incentivando os estudos integrados das paisagens. Desta forma, pode-se afirmar que o método geossistêmico calhou bastante às análises ambientais em Geografia, pois, como veremos a seguir, possibilita um prático estudo do espaço geográfico com a incorporação da ação social na interação natural com o potencial ecológico e a exploração biológica (Figura 1).

(Geomorfologia+clima+hidrologia) (vegetação+solo+fauna)

Figura 1: Geossistema (Fonte: BERTRAND, G., 1968).

Esta linha de pesquisa objetiva, dentre outros aspectos, colher dados e fazer correlações para melhor entender a natureza com todos os seus componentes. A rigor, a Teoria Geossistêmica é relativamente recente em Geografia; foi proposta na antiga União Soviética, na década de 1960, e primeiro mencionada pelo Russo Sotchava, no início dessa década, como uma forma de estudo de paisagens geográficas complexas, definida como uma unidade dinâmica com organização geográfica própria e um espaço que permite repartição de todos os componentes de um geossistema, o que assegura sua integridade funcional.

A base dessa teoria corresponde ao conceito de que as geosferas terrestres estão interrelacionadas por fluxos de matéria e energia. O reflexo dessa interação na superfície terrestre é a existência de uma geosfera complexa (esfera físicogeográfica) que comporta a forma geográfica do movimento da matéria (RIBEIRO, 1999, p. 5).

Segundo esta autora, Sotchava destaca que através do enfoque físico-geográfico é necessário analisar as múltiplas interações e transformações, desde o transporte gravitacional até a circulação biogênica de substâncias com todas as suas conseqüências geográficas.

Todavia, houve críticas sobre a definição de Sotchava para geossistemas, sobretudo pela ausência de uma maior precisão espacial em sua definição, bem como pelo seu caráter pouco dialógico. De uma forma geral, ele os conceituou em homogêneos ou diferenciados em três níveis: planetário, regional e topológico, de sorte que qualquer desses níveis pode ser chamado de geossistema, sem maiores critérios.

No entanto, em 1968 o francês Georges Bertrand otimiza o conceito de Sotchava e dá à unidade geossistêmica conotação mais precisa, estabelecendo uma tipologia espaço-temporal compatível com a escala socioeconômica, enfocando os fatores biogeográficos e socioeconômicos enquanto seus principais conformadores, além de considerar a teoria da bio-resistasia do pedólogo alemão Erhart, relacionando a evolução dos solos à cobertura vegetal e às condições de evolução do relevo e seus processos adjuntos.

Numa tentativa de síntese da paisagem, Bertrand estabelece um sistema taxonômico para o geossistema, possibilitando sua classificação em função da escala, caracterizando-o como uma unidade, um nível taxonômico na categorização da paisagem, a saber: a zona, o domínio e a região, como unidades superiores, e o geossistema, o geofácies e o geótopo, como unidades inferiores; sendo o geossistema proporcionado pela dinâmica entre potencial ecológico, exploração biológica e ação antrópica. Isto permite situá-lo na dupla perspectiva do tempo e do espaço, fundamentais ao geógrafo. O que nos leva a dizer, conforme esse autor, que a definição de paisagem é função da escala” (BERTRAND, op. cit).

Potencial ecológico Exploração biológica

GEOSSISTEMA Ação antrópica

O geossistema, ou sistemas ambientais físicos, é um sistema natural, não necessariamente homogêneo, aberto, ligado a um território que se caracteriza por possuir certa morfologia (estruturas espaciais, verticais e horizontais), por um funcionamento (energia solar, gravitacional, ciclos biogeoquímicos, processos morfogenéticos e pedogenéticos) e comportamento específico (mudanças em seqüência temporal). Reagrupa geofácies e geótopos dinamicamente, e do ponto de vista vegetacional, por exemplo, representa um mosaico (CHRISTOFOLETTI, 2001)

Portanto, é um conceito territorial, uma unidade espacial, que pode ser delimitada e analisada em determinada escala. É também um complexo dinâmico até numa perspectiva de espaço e tempo breve, por exemplo, em uma escala histórico-social. Na verdade o geossistema acentua o complexo geográfico e a dinâmica de conjunto, bem como uma forte unidade ecológica e biológica.

Registre-se que devem ser consideradas três questões estruturais iniciais no geossistema: sua morfologia – é a expressão física do arranjo dos elementos e da conseqüente estrutura espacial; sua dinâmica – é o fluxo de energia e matéria que passa pelo sistema variando no tempo e no espaço; e a exploração biológica – flora, fauna e o próprio homem.

Ainda no estabelecimento da tipologia dos geossistemas devem ser considerados certos aspectos básicos, tais como:

- o sistema de evolução – considerando a série de agentes e processos hierarquizados que atuam sobre o geossistema e as relações entre morfogênese, pedogênese e ação antrópica; - o estágio em relação ao clímax; e

- o sentido geral da dinâmica: progressiva, regressiva ou estável. (SOUZA, 2000).

Entretanto, a classificação das paisagens por Bertrand considerou como principal critério a escala de perspectiva espaço-temporal de A. Cailleux e J. Tricart, que dividiu a Terra em zona, domínio, região natural, geossistema, geofácies e geótopo. Isto é mostrado no Quadro 1.

Unidade da paisagem

Escala espaço-temporal (CAILLEUX; TRICART)

Exemplo tomado numa mesma série de paisagens Relevo

Elementos fundamentais

Climáticos e estruturais

Domínio G.I

100.0 a 10.0 mm²Das caatingas semi-áridas Domínio estrutural

Região natural G.I-IV

1000 a 100000 km²

Litoral do Nordeste brasilei-ro ou depressão sertaneja Região estrutural

Geossistema G. IV-V +10 a 1 km²

Planície litorânea de Fortaleza ou depressão sertaneja de

Baturité Unidade estrutural

Biogeográ- ficos e antrópicos

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