1. CIENCIA E SENSO COMUM Ana Bock

1. CIENCIA E SENSO COMUM Ana Bock

Adaptação do cap. 1 de Bock, A. M. B.et all., Psicologias – uma introdução ao estudo da psicologia, São Paulo, Ed. Saraiva, 1999.

O que é psicologia do senso comum?

Usamos o termo psicologia, no nosso cotidiano, com vários sentidos, como por exemplo, quando falamos do poder de persuasão ou de compreensão de alguém ou da capacidade que algumas pessoas têm de escutar os outros e darem bons conselhos. Essa psicologia, usada no dia-a-dia pelas pessoas, é chamada de psicologia do senso comum.

Durante nossa vida cotidiana vamos adquirindo várias aprendizagens, pela via do hábito e da tradição, que passam de geração para geração. Assim, aprendemos com nossos pais a atravessar a rua, a fazer a televisão funcionar, a plantar alimentos na época e de maneira correta. Com nossos amigos e colegas aprendemos a paquerar, a ficar ou a pedir para namorar a pessoa que desejamos, a nos comportarmos em sala de aula, no trabalho, e assim por diante.

Na vida cotidiana, as teorias científicas são simplificadas, quer seja para viabilizar seu uso no dia-a-dia, quer seja pela interpretação sempre singular dos fatos vividos, que muitas vezes parecem contradizer as considerações feitas pela ciência. É justamente o conhecimento que vamos acumulando no nosso dia-a-dia que é chamado de senso comum. O senso comum mistura e recicla saberes muito mais especializados e os reduz a um tipo de teoria simplificada, produzindo uma determinada visão-de-mundo.

O senso comum vai integrando, ainda que de um modo precário, todo o conhecimento humano, produzindo para cada pessoa ou grupo social um modo particular de interpretar os fatos e o mundo que o cerca. Sem esse conhecimento intuitivo, espontâneo, construído muitas vezes de tentativas e erros, a nossa vida no dia-a-dia seria muito complicada. E é na tentativa de facilitar o dia-a-dia que o senso comum produz suas próprias "teorias" médicas, físicas, psicológicas etc.

O que é ciência?

A ciência é uma atividade reflexiva, que procura compreender, elucidar e alterar o cotidiano a partir de um estudo sistemático e não simplesmente da adaptação à realidade. Quando fazemos ciência, afastamo-nos da realidade para compreendê-la melhor, transformando-a em objeto de investigação - o que permite a construção do conhecimento científico sobre o real.

A ciência é composta de um conjunto de conhecimentos sobre fatos ou aspectos da realidade (objeto de estudo), expresso por meio de uma linguagem precisa e rigorosa. Esses conhecimentos devem ser obtidos de maneira programada, sistemática e controlada, para que se permita a verificação de sua validade.

A ciência tem ainda uma característica fundamental: ela aspira à objetividade. Suas conclusões devem ser passíveis de verificação e isentas de emoção (isto é, busca-se atingir a neutralidade), para, assim, tornarem-se válidas para todos, ou seja, poderem ser generalizadas em todas as situações.

Objeto específico, linguagem rigorosa, métodos e técnicas específicos, processo cumulativo do conhecimento e objetividade fazem da ciência uma forma de conhecimento que supera em muito o conhecimento espontâneo do senso comum. Esse conjunto de características é o que permite denominarmos um conjunto de conhecimentos de científico.

O objeto de estudo da Psicologia

Como dissemos acima, para ser considerado científico, um conhecimento precisa ter um objeto específico de estudo. Assim, por exemplo, o objeto da astronomia são os astros e o da biologia são os seres vivos. Tal classificação aponta para a possibilidade de se isolar o objeto de estudo, tornando-o distante da nossa realidade cotidiana e estabelecendo com ele a neutralidade e objetividade desejadas.

Entretanto, o mesmo não ocorre com a Psicologia, que, como a Antropologia, a

Economia, a Sociologia e outras ciências humanas, estuda o homem. Estamos diante, portanto, de uma dificuldade comum a todas as ciências humanas: separar o objeto de estudo e o sujeito que o examina. Por outro lado, dizer que a psicologia estuda o homem é conceituá-la de um modo abrangente demais e apenas coloca a Psicologia entre as outras ciências humanas.

Na verdade, estamos aqui diante de um problema fundamental para a psicologia: na psicologia, o homem é visto de maneiras bem diversas entre si. A diversidade de objetos da psicologia é explicada, principalmente, por dois fatores. Em primeiro lugar, este campo do conhecimento constituiu-se como área do conhecimento científico só muito recentemente. Até o fim do século XIX apenas a filosofia e a teologia preocupavam-se com esse objeto.

Um segundo motivo que contribui para dificultar a clara definição de objeto em

Psicologia é o fato de o cientista - o pesquisador - confundir-se, nessa disciplina, com o objeto a ser pesquisado. No sentido mais amplo, o objeto de estudo da Psicologia é o homem, e neste caso o pesquisador está inserido na categoria a ser estudada. Assim, a concepção de homem que o pesquisador traz consigo "contamina" inevitavelmente a sua pesquisa em Psicologia. Isso ocorre porque há diferentes concepções de homem entre os cientistas (na medida em que estudos filosóficos e teológicos e mesmo doutrinas políticas acabam definindo o homem à sua maneira, e o cientista acaba necessariamente se vinculando a uma destas crenças).

Na realidade, este é um "problema" enfrentado por todas as ciências humanas, muito discutido pelos cientistas de cada área e até agora sem perspectiva de solução. Assim, a Psicologia hoje se caracteriza por uma diversidade de objetos de estudo. Esta situação levanos a questionar a caracterização da Psicologia como ciência e a postular que no momento não existe uma psicologia, mas Ciências Psicológicas embrionárias e em desenvolvimento.

A subjetividade como objeto da Psicologia

Considerando toda essa dificuldade na conceituação única do objeto de estudo da psicologia, preferimos apresentar a você uma definição que sirva como referência para nossas próximas aulas, uma vez que você irá se deparar com diversos enfoques – diversas escolas de psicologia - que trazem definições específicas desse objeto: o comportamento, o inconsciente, a consciência etc.

A identidade da psicologia é o que a diferencia dos demais ramos das ciências humanas, e pode ser obtida considerando-se que cada um desses ramos enfoca o homem de maneira particular. Assim, cada especialidade - a economia, a política, a história etc. trabalha essa matéria-prima de maneira particular, construindo conhecimentos distintos e específicos a respeito dela. A psicologia colabora com o estudo da subjetividade: é essa a sua forma particular específica de contribuição para a compreensão da totalidade da vida humana.

A subjetividade é a síntese singular e individual que cada um de nós vai constituindo conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e cultural; é uma síntese que nos singulariza, de um lado, por ser única, e nos iguala, de outro lado, na medida em que os elementos que a constituem são experienciados no campo comum da objetividade social. Esta síntese - a subjetividade - é o mundo de idéias, significados e emoções, construído internamente pelo sujeito partir de suas relações sociais, de suas vivências e de sua constituição biológica; é, também, fonte de suas manifestações afetivas e comportamentais.

Importa muito ressaltar aqui que a subjetividade não só é fabricada, produzida, moldada pelo campo da cultura, pelos pais, amigos, colegas e grupos. Vale dizer que ela é também automoldável, ou seja, o homem pode promover novas formas de subjetividade, recusando-se ao assujeitamento e à perda de memória imposta pela fugacidade da informação; recusando a massificação que exclui e estigmatiza o diferente, a aceitação social condicionada ao consumo, a medicalização do sofrimento. Nesse sentido, retomamos a utopia que cada homem pode participar da construção do seu destino e de sua coletividade.

A Psicologia e o Misticismo

A Psicologia, como área da Ciência, vem se desenvolvendo na história desde 1875, quando Wilhelm Wundt (1832-1926) criou o primeiro Laboratório de Experimentos em Psicofisiologia, em Leipzig, na Alemanha. Esse marco histórico significou o desligamento da psicologia da filosofia e da religião, com suas idéias abstratas e espiritualistas que defendiam a existência de uma alma nos homens, como a morada da vida psíquica. A partir deste marco histórico, a história da Psicologia fortalece seu vínculo com os princípios e métodos científicos. A idéia de um homem autônomo, capaz de se responsabilizar pelo seu próprio desenvolvimento e pela sua vida, também vai se fortalecendo a partir desse momento.

Hoje, a Psicologia ainda não consegue explicar muitas coisas sobre o homem. A invenção dos computadores, por exemplo, trouxe e trará mudanças em nossas formas de pensamento, em nossa inteligência, e a Psicologia precisará absorver essas transformações em seu quadro teórico. Alguns dos "desconhecimentos" da Psicologia têm levado os psicólogos a buscarem respostas em outros campos do saber humano. Com isso, algumas práticas não-psicológicas têm sido associadas às práticas psicológicas. O tarô, a astrologia, a quiromancia, a numerologia, entre outras práticas adivinhatórias e/ou místicas, têm sido associadas ao fazer e ao saber psicológico.

Vale, entretanto, ressaltar que estas não são práticas da psicologia. São outras formas de saber sobre o humano que não podem ser confundidas com a Psicologia, pois não são construídas no campo da Ciência, a partir do método e dos princípios científicos, além de estarem em oposição aos princípios da Psicologia, que vê o homem como ser autônomo. As práticas místicas têm pressupostos opostos, pois nelas há a concepção de destino, da existência de forças que não estão no campo do humano e do mundo material.

A Psicologia, ao relacionar-se com esses saberes, deve ser capaz de enfrentá-los sem preconceitos, reconhecendo que o homem construiu muitos "saberes" em busca de sua felicidade. Mas é preciso demarcar nossos campos. Esses saberes não estão no campo da Psicologia, mas podem se tornar seu objeto de estudo.

Diferenciando áreas do conhecimento

Um questionamento realizado nos últimos períodos, com cerca de 300 alunos de

Marketing da UniverCidade, indicou que apenas um percentual insignificante dos alunos sabe discernir com clareza as diferenças entre psiquiatria, psicologia e psicanálise, apontando para uma variedade de interpretações de senso comum a que estão sujeitos os assuntos que envolvem os aspectos psicológicos. Por isso, achamos por bem clarificar o campo de ação dos três campos. Psiquiatria - A psiquiatria é uma especialização da medicina voltada ao tratamento dos transtornos mentais causados por um funcionamento inadequado do cérebro. De fato, existem evidências exaustivas de que existem correlações entre diversos distúrbios de comportamento e afetações dos mecanismos cerebrais. O psiquiatra é, portanto, um médico que estará estudando as inter-relações entre as funções orgânicas e psíquicas e buscará cessar os sintomas decorrentes das disfunções através do uso de medicamentos adequados a este fim. Psicologia - A psicologia, como vimos, é o conjunto de ciências que estuda a pessoa através de seu comportamento ou dos processos mentais, relacionando-os a fatores sócioculturais e /ou estruturais. Ela foca, principalmente, o funcionamento dos indivíduos e grupos, visando sua melhor condição de interação com o mundo. Podemos dizer que sua ética se dirige para a busca do bem-estar ou da felicidade possível dos/entre os homens, vinculada à vontade do eu ou ao controle dos comportamentos. Psicanálise - A psicanálise, fundada por Sigmund Freud, é um método de investigação do psiquismo humano que busca evidenciar o significado inconsciente das palavras, ações e produções imaginárias de um sujeito (Laplanche e Pontalis, 57:384), bem como investigar os conflitos psíquicos resultantes das intensidades que atravessam o sujeito e que se opõem aos limites sócio-culturais por ele internalizados. Ela dá um golpe no narcisismo da humanidade ao revelar que o eu – investido pela psicologia - não é o Senhor em sua própria casa, além de enunciar uma sexualidade em ruptura com instintos e impulsos naturais. Através da escuta, o psicanalista pretende auxiliar o paciente na busca de um maior conhecimento dos desejos que o atravessam, de sua constituição como diferença e singularidade, através de um instrumento terapêutico essencial: a palavra. .

Leitura Complementar A PSICOLOGIA DOS PSICÓLOGOS

“(...) somos obrigados a renunciar à pretensão de determinar para as múltiplas investigações psicológicas um objeto (um campo de fatos) unitário e coerente. Conseqüentemente, e por sólidas razões, não somente históricas mas doutrinárias, torna-se impossível à Psicologia assegurar-se uma unidade metodológica. (...)

Por isso, talvez fosse preferível falarmos, ao invés de "psicologia", em "ciências psicológicas". Porque os adjetivos que acompanham o termo "psicologia" podem especificar, ao mesmo tempo, tanto um domínio de pesquisa (psicologia diferencial), um estilo metodológico (psicologia clínica), um campo de práticas sociais (orientação, reeducação, terapia de distúrbios comportamentais etc.), quanto determinada escola de pensamento que chega a definir, para seu próprio uso, tanto sua problemática quanto seus conceitos e instrumentos de pesquisa. (...) não devemos estranhar que a unidade da Psicologia, hoje, nada mais seja que uma expressão cômoda, a expressão de um pacifismo ao mesmo tempo prático e enganador. Donde não haver nenhum inconveniente em falarmos de "psicologias' no plural. Numa época de mutação acelerada como a nossa, a Psicologia se situa no imenso domínio das ciências ”exatas", biológicas, naturais e humanas. Há diversidade de domínio e diversidade de métodos. Uma coisa, porém, precisa ficar clara: os problemas psicológicos não são feitos para os métodos; os métodos é que são feitos para os problemas. (...)

Interessa-nos indicar uma razão central pela qual a Psicologia se reparte em tantas tendências ou escolas: a tendência organicista, a tendência fisicalista, a tendência psicosociológica, a tendência psicanalítica etc. Qual o obstáculo supremo impedindo que todas essas tendências continuem a constituir "escolas" cada vez mais fechadas, a ponto de desagregarem a outrora chamada "ciência psicológica"? A meu ver, esse obstáculo é devido ao fato de nenhum cientista, conseqüentemente, nenhum psicólogo, poder considerar-se um cientista "puro". Como qualquer cientista, todo psicólogo está comprometido com uma posição filosófica ou ideológica. Este fato tem uma importância fundamental nos problemas estudados pela Psicologia. Esta não é a mesma em todos os países. Depende dos meios culturais. Suas variações dependem da diversidade das escolas e das ideologias. Os problemas psicológicos se diversificam segundo as correntes ideológicas ou filosóficas venham reforçar esta ou aquela orientação na pesquisa, consigam ocultar ou impedir este ou aquele aspecto dos domínios a serem explorados ou consigam esterilizar esta ou aquela pesquisa, opondo-se implícita ou explicitamente a seu desenvolvimento.”

Hilton Japiassu. A psicologia dos psicólogos. 2.ed. Rio de Janeiro, lmago, 1983. p. 24-6 .

1. Por que falamos em Ciências Psicológicas e não em uma Psicologia única? 2. Quais os motivos responsáveis pela diversidade de objetos para a Psicologia? 3. Dê um exemplo de uso da psicologia de senso-comum a partir do seu próprio cotidiano. 4. Explique o que entendeu como visão-de-mundo. 5. Quais as características atribuídas ao método cientifico? 6. Quais as diferenças entre senso comum e conhecimento científico? 7. Qual a matéria-prima da Psicologia? 8. Por que a subjetividade não é inata? 9. Estabeleça com suas próprias palavras a diferença entre psicologia, psiquiatria e psicanálise. 10. Qual a principal distinção entre saberes como o tarô, a quiromancia, a astrologia e as ciências psicológicas?

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