Apostila Homem e Sociedade

Apostila Homem e Sociedade

(Parte 1 de 10)

Porque existe um número tão grande de espécies, freqüentemente tão semelhantes entre si que só podem se distinguir aos olhos de um especialista?

As espécies se modificaram, ao longo de sua história, por meio de transformações lentas e progressivas, num processo de permanente adaptação às circunstâncias do meio externo.

As formas dos vegetais e animais de hoje são originadas de formas anteriores, muitas delas já extintas.

A palavra evoluir tem origem latina, significando literalmente desenrolar, isto é, passar progressivamente de um a outro estado. Aplica-se a inúmeras circunstâncias, como quando dizemos: “a evolução das idéias”, ou “evolução de uma doença”. Aplicada ao estudo dos seres vivos, porém, a palavra evolução tem o significado bem preciso de transformação de espécies vegetais ou animais em novas espécies.

Foi o francês Georges-Louis-Marie Le Clerc de Buffon (1707-1788), um grande naturalista, quem primeiro demonstrou a existência de uma série de substituições de espécies ao longo dos tempos. Ele chegou à conclusão de que “a forma da espécie animal não é inalterável. Ela pode mudar e até mesmo transformar-se completamente, acompanhando a mudança do meio onde vive.

Um aspecto muito importante da concepção de Buffon é que ele relacionou essas mudanças a alterações ocorridas na conformação geológica dos continentes, tendo sido, pois, o primeiro cientista a contestar a idade atribuída à terra pela Bíblia, admitindo que ela é, na verdade, muito mais antiga. Buffon chegou a comparar a fauna de diversas regiões do planeta, concluindo que a história da Terra compreende diversas etapas geológicas e que o Novo Mundo já esteve ligado ao Antigo.

A observação dos fósseis, encontrados em diversos lugares em todo o mundo, constituía, já havia muito tempo, uma fonte de enigmas indecifráveis. Foi Buffon quem apresentou, pela primeira vez, uma teoria transformista unificada da natureza. Seu importante trabalho Épocas da natureza mostra, apoiado na observação dos fósseis e na comparação de animais de diferentes regiões do planeta, que o universo inteiro nasceu de um lento processo de transformação. Foi ele quem, finalmente, abriu para os naturalistas o caminho para a compreensão evolucionista do mundo vivo.

A ciência, aos reunir uma grande quantidade de informações a respeito do objeto de sua pesquisa, ordena-as segundo uma seqüência lógica ou histórica e cria uma teoria explicativa do fenômeno em questão. Para que essa teoria seja válida e aceita pela exigente comunidade científica, é necessário que ela explique o maior número possível de fatos e que não apresente incoerências em si mesma.

A teoria científica representa, pois, aquilo que se conhece, em dado momento, sobre um assunto determinado, sobre um assunto determinado. Mas, se surgir outra teoria que explique melhor, ou com maior abrangência, essa mesma questão, a teoria anterior tem que ser abandonada, em favor da segunda.

A teoria científica origina-se da observação e experimentação dos fatos e fenômenos da natureza. Os fatos da teoria evolucionista, no entanto, não podem ser submetidos à experimentação de laboratório nem repetidos para verificação – o que também acontece com os fatos astronômicos e históricos. Ela usa outras maneiras para comprovação de suas afirmações, principalmente o recolhimento pelos cientistas de evidências materiais na forma ossos e objetos fossilizados. As únicas alterações de caráter evolutivo que podem ser presenciadas ou experimentadas pelos cientistas são as que ocorrem em pequenos animais invertebrados , que produzem várias gerações por ano, ou melhor ainda, em microorganismos, com várias gerações por dia.

Em 1859, o naturalista inglês Charles DARWIN publicou um livro de impacto imediato e gigantesco: Origens das espécies através da seleção natural.

Em 1838, Darwin teve a oportunidade de ler o livro de um sociólogo – o reverendo Malthus, intitulado abreviadamente Teoria das populações. Nessa obra era demonstrado que os meios de subsistência na natureza e na sociedade não conseguem crescer na mesma proporção em que se multiplicam as populações. Por conseguinte, se os povos de todo o mundo continuassem a crescer continuamente, deveria ocorrer um colapso, isto é, a fome generalizada. Se isto não ocorria. Dizia Malthus, era devido à existência de limitações naturais (ou sociais, no caso humano) restringindo a natalidade ou a proporção de nascidos que chegam à idade adulta.

Seriam, pois, a escassez de alimentos e outras formas de restrições impostas ao ambiente, segundo acrescentaria Darwin, as causas da destruição das formas de vida menos adaptadas, ou menos “aptas”, em favor das que, por alguma singularidade constitucional, fossem mais capazes de se ajustar às peculiaridades ambientais. Darwin imaginou, pois, que a transformação das espécies não seria resultado de um “esforço ativo” da própria espécie no sentido de adaptar-se – como afirmava nessa época Lamarck -, mas sim de um processo de seleção passiva, em que seria viável apenas a forma que melhores condições apresentasse em função das características do meio ambiente. Se essas características mudarem, por força de alterações de clima, de disponibilidade de alimentos ou outras quaisquer, sobreviveriam sempre – e apenas – as espécies mais capazes de aproveitá-las.

Nas últimas décadas, a descoberta de um grande número de antropóides fósseis no leste da África, muitos deles com características “humanóides”, veio trazer novas luzes para a questão da origem do homem. Entre esses fósseis, há várias espécies que apresentam postura ereta permanente, porém um volume cerebral não superior a 500 centímetros cúbicos. Estes são considerados hominídeos, porém não pertencentes ainda ao gênero Homo. Nesse gênero são incluídos apenas os hominídeos de maior capacidade cerebral, sendo que os especialistas divergem quanto a um valor mínimo: 750 centímetros cúbicos, segundo alguns, e 650, segundo outros. O Homo sapiens sapiens, espécie à qual pertencemos e que representa a única sobrevivente do gênero, possui, em média, 1350 centímetros cúbicos, mas esse valor pode variar muito. Na verdade, observa-se um aumento gradual não só do volume, mas também da superfície do cérebro, ao longo da série dos vertebrados, embora o nível de inteligência, dentro de uma mesma espécie, não possa ser deduzido a partir desse parâmetro.

Já vimos que as características ambientais – em particular o clima – constituem o principal fator que irá determinar, por meio da seleção natural, a modificação adaptativa das espécies vegetais e animais. Por outro lado, sabemos que a Terra, desde a sua formação, vem sofrendo várias modificações climáticas que fatalmente teriam causado a extinção da vida terrestre se esta não fosse dotada de uma grande plasticidade, no sentido de transformar-se adaptativamente de maneira contínua. As condições vigentes, por exemplo, no Período Carbonífero, há cerca de 300 milhões de anos, seriam totalmente incompatíveis com as formas de vida hoje existentes, devido à sua alta temperatura e às elevadas concentrações de gás carbônico, entre outros fatores. Tais mudanças climáticas progressivas constituíram, pois, ao longo do tempo, o principal fator selecionador das noivas formas que “espontaneamente” foram surgindo, como se tratasse de “experiências novas” realizadas pela natureza.

Com relação ao ser humano, disse o antropólogo sul-africano C. K. Brain:

“Parece razoável admitir-se que, se não tivessem ocorrido grandes mudanças ligadas à temperatura do ambiente em que viviam os primeiros hominídeos, nós ainda estaríamos ao abrigo de alguma floresta quente hospitaleira, como existiam no Mioceno, vivendo sob as árvores”. De fato, parece que episódios de grande resfriamento do planeta foram acompanhados, sempre, de extinções em massa de espécies e significativas modificações adaptativas.

Há cerca de 12 milhões de anos ocorreu na África uma série de importantes modificações na superfície terrestre, as quais teriam desempenhado um papel decisivo no processo de transformações adaptativas de antropóides, levando à formação do homem. Como conseqüência, ainda, do processo de separação dos continentes, iniciado há 200 milhões de anos, grandes deformações de relevo ocorreram na África e na Ásia, como, por exemplo, o levantamento da cordilheira do Himalaia e a abertura de uma enorme brecha, no sentido norte-sul, unto à costa oriental africana, constituindo o Vale do Grande Rift. Essas significativas alterações de relevo, acompanhadas de um resfriamento constante da superfície terrestre, constituíram as causas principais de severas modificações climáticas em toda aquela vasta região.

Nessa época, ou seja, há 12 milhões de anos, a maior parte de Europa, da Índia, da Arábia e do oriente africano era coberta por espessas florestas onde viviam, desde os últimos 50 milhões de anos, inúmeras espécies de símios arborícolas. Em conseqüência das transformações climáticas, essas florestas foram se tornando mais rarefeitas, substituídas na maior parte por vegetação mais rala e rasteira. Passaram a predominar as espécies herbáceas e arbustos de menor porte, que vieram a constituir as savanas de hoje. Estas, que atualmente se estendem por grande parte do território africano, não oferecem as mesmas condições de proteção a um animal arborícola. Não há muitos frutos nem grandes árvores onde se esconder e, além disso, constituem um ambiente muito favorável aos grandes predadores, como os leões e outros felinos.

O novo ambiente favorecia particularmente outro tipo de adaptação. Era a situação ideal para um símio capaz de caminhar em pé, pois, além de lhe permitir realizar longas caminhadas à procura de alimentos, proporcionava-lhe a liberação das mãos, que passaram a ser utilizadas em sua defesa, sobretudo com o uso de artefatos que ele começou a elaborar e a empregar com habilidade crescente. Animais com essas características constituíram a família dos hominídeos primitivos, da qual são conhecidos, hoje, vários representantes fósseis (nenhum sobrevivente), principalmente pertencentes ao gênero Australopithecus. O mais antigo deles parece ter sido o Australopithecus afarensis, descoberto há poucos anos na Etiópia. O primeiro espécime encontrado, uma fêmea, foi batizado com o cognome afetivo de “Lucy”. Esses animais teriam vivido na África oriental há cerca de 5 milhões de anos.

A partir de Lucy, originaram-se várias outras espécies de Australopithecus. Há cerca de 2 milhões de anos, aquela região da África era habitada por inúmeros hominídeos, que tinham em comum a bipedia e uma notável diferença de talhe entre machos e fêmeas, sendo os primeiros, em média, 30% maiores e 45% mais pesados.

Eram animais com uma estrutura social semelhante à dos chimpanzés atuais e sua dentição indica uma alimentação vegetariana, com grande capacidade para trituração, típica de animais que se alimentam de sementes e outras partes fibrosas, mais que de frutos carnosos, como os símios arborícolas. Sua estatura era um pouco mais de 1 metro e seu cérebro tinha cerca de 500 centímetros cúbicos.

Também nessa época, 2 milhões de anos, começaram a aparecer, ans mesmas regiões, outros tipos de hominídeos, porém dotados de capacidade cerebral bem maior. São os do gênero Homo, dos quais o mais antigo que se conhece foi denominado Homo habilis, descoberto, em 1960, pelo antropólogo africano Louis Leakey. A capacidade craniana do Homo habilis era de apenas 680 centímetros cúbicos, o que, entretanto, condicionou várias modificações importantes na morfologia e hábitos desses animais.

Há cerca de 1,6 milhões de anos, surge um novo personagem nesse cenário.

Trata-se do Homo erectus, antigamente conhecido como Pithecantropus erectus, primeiramente descoberto na Ilha de Java. Nos últimos anos, um grande número de esqueletos fósseis dessa espécie tem sido desenterrado na África oriental por Richard Leakey e seus colaboradores. A capacidade craniana do Homo erectus é de 900 centímetros cúbicos, e essa espécie, ao que tudo indica, há cerca de 1 milhão de anos começou a espalhar-se pelo mundo. Essas migrações parecem ter tido uma grande influência na evolução do homem, por terem colocado essa espécie primitiva em confronto com diferentes situações ambientais. Particularmente, o contato com o frio, nas grandes glaciações que ocorreram durante o último milhão de anos, deve ter exercido forte pressão no sentido de uma hominização mais rápida.

O Homo erectus parece ter sido o primeiro hominídeo a utilizar o fogo.

Migrando para regiões frias, aprendeu a viver em cavernas. Dessa espécie ter-se-iam originado diferentes variedades de Homo sapiens, como o neandertalense (antigamente considerado uma espécie diferente, denominada Homo neandertalensis), muito semelhante ao atual, porém mais robusto e que não deixou descendentes.

Finalmente, o Homo sapiens sapiens, contemporâneo ao anterior e provável causador da sua extinção, tendo como característica singular uma grande habilidade manual e artística, deixou seus primeiros traços nas cavernas dos Pirineus e outras regiões da Europa e da Ásia, há cerca de 220 mil anos. As relações entre essas diversas variedades de Homo erectus, porém, estão longe de ser bem conhecidas.

1) Assinale a alternativa correta. De acordo com as descobertas da arqueologia e da paleontologia, o homo sapiens-sapiens se desenvolveu:

a) A partir da criação de uma espécie dotada de capacidades especiais, reproduzidas à imagem e semelhança de formas superiores e sobrenaturais, tendo permanecido estável e imutável através dos tempos com o destino de povoar e dominar o planeta.

b) Como a forma mais sofisticada de evolução, sendo, portanto o resultado de um processo contínuo de progresso das espécies em direção a uma forma definitiva e superior de vida biológica, podendo ser tomada como modelo do projeto evolutivo pelo qual todas as espécies devem passar.

c) A partir de transformações anatômicas sucessivas e formas de adaptação ao meio e às demais espécies, pertencendo a um grupo de espécies que desenvolveram uma capacidade simbólica como instrumento adaptativo e de organização das relações com o ambiente e com os demais indivíduos da espécie.

d) A partir da evolução casual e súbita de uma família de símios que começou a gerar uma prole com cérebro avantajado e a postura ereta.

e) Como resultado de uma evolução prevista, pois nenhuma outra espécie teria tido capacidade de desenvolver raciocínio, postura ereta e comportamento modelável pela cultura.

2) Entre as características de comportamento que estão associadas à nossa evolução para o humano, é ERRADO afirmar que foram determinantes:

a) A capacidade de cooperar, a linguagem e a transformação da natureza. b) A acumulação de conhecimentos e a plasticidade de comportamento.

c) A aquisição da postura ereta, o polegar opositor que capacita habilidades manuais e a caixa craniana em aumento progressivo.

d) A sociabilidade, a socialização e a simbolização. e) Os instintos, a dificuldade de adaptação a novos meios, uma prole biologicamente evoluída.

3) A respeito do evolucionismo, podemos afirmar que:

(Parte 1 de 10)

Comentários