Caderno de atenção básica de saúde do idoso

Caderno de atenção básica de saúde do idoso

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Cadernos de Atenção Básica - n.º 19

Brasília - DF 2006

Secretaria de Atenção à Saúde Departamento de Atenção Básica

Cadernos de Atenção Básica - n.º 19 Série A. Normas e Manuais Técnicos

Brasília - DF 2006 ã 2006 Ministério da Saúde. Todos os direitos reservados. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e que não seja para venda ou qualquer fim comercial. A responsabilidade pelos direitos autorais de textos e imagens dessa obra é da área técnica. A coleção institucional do Ministério da Saúde pode ser acessada, na íntegra, na Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde: http:// w.saude.gov.br/bvs

Série A. Normas e Manuais Técnicos Cadernos de Atenção Básica; 19

Tiragem: 1.ª edição – 2006 – 10.0 exemplares

Elaboração, distribuição e informações: MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Atenção à Saúde Departamento de Atenção Básica Esplanada dos Ministérios, Bloco G, 6.º andar, sala 645 CEP: 70058-900, Brasília - DF Tels.: (61) 3315-2582 / 3315-2497 Fax.: (61) 3226-4340 Home page: http://www.saude.gov.br/dab

Supervisão Geral: Luis Fernando Rolim Sampaio – Departamento de Atenção Básica/SAS/MS Maria Cristina Boaretto- Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas/SAS/MS

Coordenação Técnica: Antonio Dercy Silveira Filho – Departamento de Atenção Básica/SAS/MS José Luiz Telles – Área Técnica de Saúde do Idoso/DAPE/SAS/MS

Elaboração Técnica: Yeda Aparecida de Oliveira Duarte – USP/SP Edenice Reis da Silveira – DAB/SAS/MS Ana Cristina Ribeiro Fonseca - Área Técnica de Saúde do Idoso/DAPE/SAS/MS Antonio Dercy Silveira Filho – Departamento de Atenção Básica/SAS/MS José Luiz Telles – Área Técnica de Saúde do Idoso/DAPE/SAS/MS

Colaboração: Alba Lucy Giraldo Figueroa- Núcleo Técnico da Política de Humanização/SAS/MS Ana Paula Abreu - Área Técnica de Saúde do Idoso/DAPE/SAS/MS Angela Donini – Programa Nacional de DST/AIDS/SVS/MS Claudia Araújo de Lima - Área Técnica de Saúde da Mulher/DAPE/SAS/MS Cristina Ramos - CGPAN/DAB/SAS/MS Daisy Maria Coelho de Mendonça - DAB/SAS/MS Dillian Adelaine S. Goulart – CGPAN/DAB/SAS/MS Elaine Inocêncio (in memorian) – Programa Nacional de DST/AIDS/SVS/MS Elizabeth Sousa Hernandes Cagliari – Área Técnica Saúde do Idoso/DAPE/SAS/MS Fabiola Sulpino Vieira – Coordenação de Acompanhamento e Avaliação da Qualidade de produtos farmacêuticos/DAF/SCTIE Gerson Fernando Pereira – Programa Nacional de DST/AIDS/SVS/MS Giani Silvana Schwengber Cezimbra – Área Técnica de Saúde da Mulher/DAPE/SAS/MS Gustavo Tenório da Cunha - Núcleo Técnico da Política de Humanização/SAS/MS Helio de Oliveira – Coordenação Geral de Informação e Análises Epidemiológicas/DASIS/SVS Ivo Brito – Programa Nacional de DST/AIDS/SVS/MS Júlia Nogueira – CGDANT/SVS/MS Lucinda da Costa Reis Neves - Área Técnica de Saúde do Idoso/DAPE/SAS/MS Ludmila Suaid – Programa Nacional de DST/AIDS/SVS/MS Marco Polo Dias Freitas - CGDANT/SVS/MS Maria Auxiliadora da Silva Benevides - Núcleo Técnico da Política de Humanização/SAS/MS Ronaldo Hallal – Programa Nacional de DST/AIDS/SVS/MS Rosa Maria Sampaio Vilanova de Carvalho – Coordenação Nacional de Hipertensão e Diabetes/DAB/SAS/MS Tânia Márcia Gomes Trindade - Área Técnica de Saúde da Criança/DAPE/SAS/MS

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Ficha Catalográfica _

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica.

Envelhecimento e saúde da pessoa idosa / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica – Brasília : Ministério da Saúde, 2006. 192 p. il. – (Série A. Normas e Manuais Técnicos) (Cadernos de Atenção Básica, n. 19)

ISBN 85-334-1273-8

1. Saúde do Idoso. 2. Serviços de Saúde. 3. Sistema Único de Saúde. I. Título. I. Série. NML WT31 _

Catalogação na fonte – Coordenação-Geral de Documentação e Informação – Editora MS – OS 2006/1285

Títulos para indexação: Em inglês: Ageing and Health of the Elderly Person Em espanhol: Envejecimiento y Salud del Anciano

1 – INTRODUÇÃO8
2 –POLÍTICAS PÚBLICAS DE RELEVÂNCIA PARA A SAÚDE DA PESSOA IDOSA NO1

APRESENTAÇÃO...............................................................................................................................7 SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE – SUS

3 –HUMANIZAÇÃO E ACOLHIMENTO À PESSOA IDOSA NA ATENÇÃO BÁSICA14
3.1 – COMUNICAÇÃO COM A PESSOA IDOSA16
4 – PROMOÇÃO DE HÁBITOS SAUDÁVEIS20
a – Alimentação Saudável20
b – Prática Corporal/Atividade Física21
c – Trabalho em Grupo com Pessoas Idosas23
5 –ATRIBUIÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA ATENÇÃO BÁSICA NO ATENDIMENTO27
6 –AVALIAÇÃO GLOBAL DA PESSOA IDOSA NA ATENÇÃO BÁSICA30
a – Alimentação e Nutrição3 2
b – Acuidade Visual34
c – Acuidade Auditiva34
d – Incontinência Urinária34
e – Sexualidade34
f – Vacinação35
g – Avaliação Cognitiva35
h – Depressão36
i – Mobilidade36
j – Queda37
k – Avaliação Funcional37
7 – SUPORTE FAMILIAR E SOCIAL41
a - Avaliação da Funcionalidade Familiar41
b - Avaliação Estresse do Cuidador43
c - Violência Intrafamiliar e Maus Tratos contra a pessoa idosa43
8 –AVALIAÇÃO MULTIDIMENSIONAL RÁPIDA DA PESSOA IDOSA48
9 – FRAGILIDADE EM IDOSOS50
10 – ENVELHECIMENTO E MEDICAMENTOS5
1 – OSTEOPOROSE59
12 – QUEDAS67
13 – HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA71
14 – DIABETES MELLITUS80
15 – INCONTINÊNCIA URINÁRIA92
16 – DEPRESSÃO101
17 – DEMÊNCIA108
18 – ENVELHECIMENTO E AIDS116
19 – ATENÇÃO DOMICILIAR ÀS PESSOAS IDOSAS125
20 –GERENCIAMENTO OU CUIDADOS COM A PESSOA EM PROCESSO DE127
21 –COMO PROCEDER NO CASO DE ÓBITO DA PESSOA IDOSA131
ANEXO 1 – AVALIAÇÃO DA VISÃO (CARTÃO JAEGER)136
ANEXO 2 – AVALIAÇÃO DA AUDIÇÃO (TESTE DO SUSSURRO)137
ANEXO 3 – AVALIAÇÃO COGNITIVA (MINI EXAME DO ESTADO MENTAL,138
ANEXO 4 – AVALIAÇÃO DE DEPRESSÃO (ESCALA DE DEPRESSÃO GERIÁTRICA142
ANEXO 5 – AVALIAÇÃO DE EQUILÍBRIO E MARCHA (TINNETI)143
ANEXO 6 – AVALIAÇÃO DAS ATIVIDADES BÁSICAS DE VIDA DIÁRIA (KATZ)145
ANEXO 7 – AVALIAÇÃO DAS ATIVIDADES INSTRUMENTAIS DE VIDA147
ANEXO 8 – AVALIAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA FUNCIONAL (MEDIDA148
ANEXO 9 – AVALIÇÃO DA FUNCIONALIDADE FAMILIAR (APGAR DE FAMÍLIA)168
ANEXO 10 – AVALIAÇÃO DA ESTRUTURA FAMILIAR (GENOGRAMA)171
ANEXO 1 – AVALIAÇÃO DOS RECURSOS FAMILIARES E COMUNITÁRIOS (ECOMAPA)174
ANEXO 12 – AVALIAÇÃO DA SOBRECARGA DOS CUIDADORES (ZARIT)176
ANEXO 13 – AVALIAÇÃO DA PRESENÇA DE VIOLÊNCIAS E MAUS TRATOS178
ANEXO 14 – DEZ PASSOS PARA UMA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL PARA180
ANEXO 15 – FICHA DE NOTIFICAÇÃO DE VIOLÊNCIA185

A longevidade é, sem dúvida, um triunfo. Há, no entanto, importantes diferenças entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento. Enquanto, nos primeiros, o envelhecimento ocorreu associado às melhorias nas condições gerais de vida, nos outros, esse processo acontece de forma rápida, sem tempo para uma reorganização social e da área de saúde adequada para atender às novas demandas emergentes. Para o ano de 2050, a expectativa no Brasil, bem como em todo o mundo, é de que existirão mais idosos que crianças abaixo de 15 anos, fenômeno esse nunca antes observado.

Muitas pessoas idosas são acometidas por doenças e agravos crônicos não transmissíveis

(DANT) - estados permanentes ou de longa permanência - que requerem acompanhamento constante, pois, em razão da sua natureza, não têm cura. Essas condições crônicas tendem a se manifestar de forma expressiva na idade mais avançada e, freqüentemente, estão associadas (comorbidades). Podem gerar um processo incapacitante, afetando a funcionalidade das pessoas idosas, ou seja, dificultando ou impedindo o desempenho de suas atividades cotidianas de forma independente. Ainda que não sejam fatais, essas condições geralmente tendem a comprometer de forma significativa a qualidade de vida dos idosos.

É função das políticas de saúde contribuir para que mais pessoas alcancem as idades avançadas com o melhor estado de saúde possível. O envelhecimento ativo e saudável é o grande objetivo nesse processo. Se considerarmos saúde de forma ampliada torna-se necessária alguma mudança no contexto atual em direção à produção de um ambiente social e cultural mais favorável para população idosa.

No trabalho das equipes da Atenção Básica/Saúde da Família, as ações coletivas na comunidade, as atividades de grupo, a participação das redes sociais dos usuários são alguns dos recursos indispensáveis para atuação nas dimensões cultural e social.

Dentro dessa perspectiva, o Caderno de Atenção Básica – Envelhecimento e

Saúde da Pessoa Idosa foi construído, tendo como referência o Pacto pela Vida 2006 e as Políticas Nacionais de: Atenção Básica, Atenção à Saúde da Pessoa Idosa, Promoção da Saúde e Humanização no SUS. Também foi levada em consideração a realidade do envelhecimento populacional. O objetivo deste Caderno é dar uma maior resolutividade às necessidades da população idosa na Atenção Básica.

Este Caderno de Atenção Básica foi elaborado com a finalidade de oferecer alguns subsídios técnicos específicos em relação à saúde da pessoa idosa de forma a facilitar a prática diária dos profissionais que atuam na Atenção Básica. Com uma linguagem acessível, disponibiliza instrumentos e promove discussões atualizadas no sentido de auxiliar a adoção de condutas mais apropriadas às demandas dessa população. Tudo foi pensado no sentido de se obter uma abordagem integral para às pessoas em seu processo de envelhecer.

José Gomes Temporão Secretário de Atenção à Saude

O envelhecimento, antes considerado um fenômeno, hoje, faz parte da realidade da maioria das sociedades. O mundo está envelhecendo. Tanto isso é verdade que estima-se para o ano de 2050 que existam cerca de dois bilhões de pessoas com sessenta anos e mais no mundo, a maioria delas vivendo em países em desenvolvimento.

No Brasil, estima-se que existam, atualmente, cerca de 17,6 milhões de idosos.

O retrato e o crescimento da população idosa brasileira em um período de 50 anos podem ser observados na figura 1:

FIGURA 1: ENVELHECIMENTO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA, POR SEXO, NOS ANOS 2000, 2025 E 2050.

O envelhecimento populacional é uma resposta à mudança de alguns indicadores de saúde, especialmente a queda da fecundidade e da mortalidade e o aumento da esperança de vida. Não é homogêneo para todos os seres humanos, sofrendo influência dos processos de discriminação e exclusão associados ao gênero, à etnia, ao racismo, às condições sociais e econômicas, à região geográfica de origem e à localização de moradia.

A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) define envelhecimento como “um processo seqüencial, individual, acumulativo, irreversível, universal, não patológico, de deterioração de um organismo maduro, próprio a todos os membros de uma espécie, de maneira que o tempo o torne menos capaz de fazer frente ao estresse do meio-ambiente e, portanto, aumente sua possibilidade de morte”.

O envelhecimento pode ser compreendido como um processo natural, de diminuição progressiva da reserva funcional dos indivíduos – senescência - o que, em condições normais, não costuma provocar qualquer problema. No entanto, em condições de sobrecarga como, por exemplo, doenças, acidentes e estresse emocional, pode ocasionar uma condição patológica que requeira assistência - senilidade. Cabe ressaltar que certas alterações decorrentes do processo de senescência podem ter seus efeitos minimizados pela assimilação de um estilo de vida mais ativo.

Fonte: IBGE

Dois grandes erros devem ser continuamente evitados. O primeiro é considerar que todas as alterações que ocorrem com a pessoa idosa sejam decorrentes de seu envelhecimento natural, o que pode impedir a detecção precoce e o tratamento de certas doenças e o segundo é tratar o envelhecimento natural como doença a partir da realização de exames e tratamentos desnecessários, originários de sinais e sintomas que podem ser facilmente explicados pela senescência.

O maior desafio na atenção à pessoa idosa é conseguir contribuir para que, apesar das progressivas limitações que possam ocorrer, elas possam redescobrir possibilidades de viver sua própria vida com a máxima qualidade possível. Essa possibilidade aumenta na medida em que a sociedade considera o contexto familiar e social e consegue reconhecer as potencialidades e o valor das pessoas idosas. Portanto, parte das dificuldades das pessoas idosas está mais relacionada a uma cultura que as desvaloriza e limita.

As doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT) podem afetar a funcionalidade das pessoas idosas. Estudos mostram que a dependência para o desempenho das atividades de vida diária (AVD) tende a aumentar cerca de 5% na faixa etária de 60 anos para cerca de 50% entre os com 90 ou mais anos.

Dentro do grupo das pessoas idosas, os denominados "mais idosos, muito idosos ou idosos em velhice avançada" (idade igual ou maior que 80 anos), também vêm aumentando proporcionalmente e de forma muito mais acelerada, constituindo o segmento populacional que mais cresce nos últimos tempos, 12,8% da população idosa e 1,1% da população total. A figura 2 mostra a projeção de crescimento dessa população em um período de 70 anos, permitindo estimar o impacto dessas modificações demográficas e epidemiológicas

FIGURA 2: POPULAÇÃO BRASILEIRA DE 80 ANOS E MAIS, POR SEXO, 1980 A 2050.

É nesse contexto que a denominada “avaliação funcional” torna-se essencial para o estabelecimento de um diagnóstico, um prognóstico e um julgamento clínico adequados, que servirão de base para as decisões sobre os tratamentos e cuidados necessários às pessoas idosas. É um parâmetro que, associado a outros indicadores de saúde, pode ser utilizado para determinar a efetividade e a eficiência das intervenções propostas.

Fonte: IBGE

A avaliação funcional busca verificar, de forma sistematizada, em que nível as doenças ou agravos impedem o desempenho, de forma autônoma e independente, das atividades cotidianas ou atividades de vida diária (AVD) das pessoas idosas permitindo o desenvolvimento de um planejamento assistencial mais adequado.

A capacidade funcional surge, assim, como um novo paradigma de saúde, proposto pela

Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI). A independência e a autonomia, pelo maior tempo possível, são metas a serem alcançadas na atenção à saúde da pessoa idosa.

A dependência é o maior temor nessa faixa etária e evitá-la ou postergá-la passa a ser uma função da equipe de saúde, em especial na Atenção Básica. O cuidado à pessoa idosa deve ser um trabalho conjunto entre equipe de saúde, idoso e família.

A Atenção Básica é o contato preferencial dos usuários com os sistemas de saúde.

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