A religião grega antiga

A religião grega antiga

A RELIGIÃO GREGA ANTIGA Pedro Paulo Abreu Funari1

Resenha de: MIKALSON, J. D. Ancient Greek Religion. Malden: Blackwell, 2005, 228 p.

Jon D. Mikalson, catedrático da Universidade da Virginia, nos Estados Unidos, é autor do clássico Athenian Popular Religion (1983), renomado estudioso da religiosidade grega. Este volume pretende ser uma introdução à religião grega, de forma inovadora, ao enfatizar a integração da tradição literária com as fontes arqueológicas e ao dar ênfase à práxis quotidiana. Distancia-se, pois, dos modelos normativos, para explorar a imensa variedade de expressões religiosas gregas antigas. Enfatiza, ao logo de todo o volume, que a religiosidade grega expressava-se, no dia-a-dia, de formas sempre muito locais e particulares. Por isso mesmo, opta por descrevê-la em sua diversidade.

Inicia com os santuários e o culto e com a centralidade do altar e do lugar sagrado (temenos) e a função do sacerdote (hiereus) e da sacerdotisa (hiereia), que no quotidiano não se distinguiam das outras pessoas. Examina, também, a terminologia usada para designar os santuários. Volta-se, em seguida, para os deuses e heróis, cujas histórias eram de caráter essencialmente local, variando, portanto, muito. Mesmo os doze deuses olímpicos e pan-helênicos só existiam nos relatos específicos a cada comunidade. Por isso mesmo, descreve sete mitos de culto e cinco cultos principais, com aporte substancial da Arqueologia.

O capítulo dedicado à religiosidade familiar e aldeã mostra a importância do patriarcado e da preservação da memória familiar. A tumba era de primordial importância, como lembrança (mneme) e monumento (mnema), assim como os rituais da fertilidade, como no caso das Dionisíacas rurais. As mulheres, apesar da segregação, exerciam importantes funções religiosas. Em Atenas, havia cerca de quarenta funções sacerdotais femininas e, em cultos como o de Esculápio (Asclepius), as mulheres se destacavam em oferendas e agradecimentos, como atestam muitas inscrições reproduzidas no volume. As festas religiosas e funerais eram os momentos nos quais as mulheres eram vistas em

1 Professor Titular de História Antiga, DH/IFCH/Unicamp e Coordenador-Associado do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE/Unicamp), ppfunari@uol.com.br.

público e Mikalson lembra que ali surgiam os flertes, como se fosse a religião a permitir a fertilidade. A religião políade também merece destaque, com sua preocupação com a fertilidade das colheitas, dos animais e dos seres humanos, assim como com a saúde, a prosperidade econômica, a segurança marítima e com as identidades locais.

O capítulo dedicado ao indivíduo é particularmente original, ao tratar de um aspecto menos explorado pelos estudiosos. Ainda aqui, enfatiza como a religiosidade individual só tinha sentido em sua comunidade local e como os deuses da tragédia – com os quais temos familiaridade – diferiam das divindades da prática religiosa. Ao voltar-se para o tema da morte e do além, propõe que essa distinção fosse muita marcada. Enquanto a tradição literária mencionava um certo tipo de sobrevivência após a morte, as inscrições efetivamente encontradas mostram que nada esperavam. Os epitáfios só mencionam a permanência da lembrança do morto, não de sua continuidade, de que forma fosse. Reconhece, contudo, que esta generalização deve ser matizada pela existência de cultos de mistérios que, aparentemente, prometiam um além menos vazio. O volume conclui com um estudo da posteridade helenística, com ênfase nas novas características da religiosidade, da incorporação de divindades como a sacralização do poder real.

As principais contribuições originais do volume consistem no uso da documentação e no foco nas especificidades. O livro está salpicado de trechos de documentos da tradição literária, comentados, complementados por um amplo recurso às fontes arqueológicas, na forma de inscrições, edifícios, vasos, estatuária, entre outros. Isto permite ao leitor examinar os argumentos do autor que, de maneira muito apropriada, alerta que cada uma de suas interpretações já foi contestada por alguém. Esta atitude é muito salutar, pois, ao mesmo tempo em que apresenta um quadro coerente, alerta para a inevitável subjetividade do discurso historiográfico. Em seguida, mas não menos relevante, afasta-se dos modelos normativos, que tendem a homogeneizar a sociedade grega, assim como estilhaça o conceito de pertencimento (belonging). Articula seu discurso em torno da diversidade e da heterogeneidade, das identidades fluidas e contextuais, com pertencimentos múltiplos e mutáveis. A religiosidade grega aparece com muito mais multifacetada e diversa, assim como os seus praticantes muito mais variados e inconstantes. Isto se explica, em parte, por seu interesse reiterado pela religiosidade popular, expressa não só em seu clássico de 1983, como em Honor thy gods: popular religion in Greek Tragedy, de 1991. A especificidade das manifestações populares já o havia levado a questionar as interpretações totalizantes, mas foram as discussões da teoria social das últimas décadas a sedimentar sua postura crítica aos modelos normativos. Por todos estes méritos, deve saudar-se esta obra introdutória de leitura tão agradável e prazerosa.

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