Os Assassinatos da Rua Morgue

Os Assassinatos da Rua Morgue

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Os Assassinatos da Rua Morgue 109

Um conto de Edgar Allan Poe

UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Desenho Industrial

Rio de Janeiro 2007.2

Projeto acadêmico do aluno

Érico Lebedenco para a matéria COMPUTACAO GRAFICA EM PROGRAMAÇÃO VISUAL I

110 HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS

“A proposta deste projeto gráfico é dar ao leitor a impressão de estar lendo um livro antigo, da época em que a história foi publicada pela primeira vez. Intervenções gráficas, simulando defeitos no impresso, foram utilizadas nos trechos do texto em que o autor omite detalhes (como nomes ou datas), criando um clima de suspense.”

– Érico Lebedenco

Os Assassinatos da Rua Morgue 1 OS ASSASSINATOS DA RUA MORGUEin tru orgu

112 HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS 112 HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS

Os Assassinatos da Rua Morgue 113

Que canto entoaram as sereias, ou que nome

Aquiles adotou, quando se ocultou entre as mulheres, são perguntas que, conquanto embaraçosas, não se acham além de quaisquer conjecturas.

– Sir Thomas Browne

As faculdades do espírito, denominadas analíticas, são , em si mesmas, bem pouco suscetíveis de análise. Apreciamo-las somente em seus efeitos. O que delas sabemos,entre outras coisas, é que são sempre, para quem as possui em grau extraordinário, fonte do mais intenso prazer. Da mesma forma que o homem forte se rejubila com suas aptidões físicas, deleitando-se com os exercícios que põem em atividade seus músculos, exultam os analistas com essa atividade espiritual, cuja função é destrinchar enredos. Acha prazer até mesmo nas circunstâncias mais triviais desde que ponham em jogo seu talento. Adora os enigmas, as advinhas, os hieróglifos, exibindo nas soluções de todos eles um poder de acuidade, que, para o vulgo, toma o aspecto de coisa sobrenatural. Seus resultados, alcançados apenas pela própria alma e essência, têm, na verdade, ares de intuição.

Essa faculdade de resolução é, talvez, bastante revigorada pelo estudo da matemática e especialmente pelo do mais alto ramo desta, que injustamente e tão só por causa de suas operações retrógradas, tem sido denominada de análise. Como se fosse a análise por excelência. No entanto o cálculo em si mesmo não é análise. O jogador de xadrez por exemplo, exercita um, sem fazer uso da outra. Daí decorre ser o jogo de xadrez grandemente mal apreciado nos seus efeitos sobre a natureza mental.

Não pretendo escrever aqui um tratado, mas simplesmente prefaciar uma estória bastante singular com algumas observações um tanto

114 HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS à ligeira. Aproveitarei, pois, a ocasião para afirmar que os mais altos poderes do intelecto reflexivo se põem mais decidida e mais utilmente à prova no modesto jogo de damas do que em todas as complicadas frivolidades do xadrez. Neste último jogo, em que as peças têm movimentos diferentes e estranhos, com diversos e variados valores, o que é complexo - erro bastante comum - se confunde com o que é profundo. A atenção é nele posta poderosamente em jogo. Se ela se distrai por um instante, comete-se um erro que resulta em perda ou em derrota.

Como os movimentos possíveis não são somente múltiplos, como também intrincados, as possibilidades de tais enganos se multiplicam. E em nove casos dentre dez é o jogador mais atento, e não mais hábil, quem ganha. No jogo de damas, pelo contrário, e que os movimentos são únicos e pouco variam, as probabilidades de engano ficam diminuídas e, a atenção não estando de todo absorvida, todas as vantagens obtidas pelos jogadores só o são graças uma perspicácia superior.

Concretizando o que dissemos, suponhamos um jogo de dama em que as pedras fiquem reduzidas a quatro damas, e onde, sem dúvida, não se deve esperar engano algum. É evidente que aqui a vitória pode ser decidida - estando as duas partes em iguais condições - somente por algum movimento muito hábil, resultado dum forte esforço intelectual. Privado dos recursos habituais, o analista coloca-se no lugar de seu adversário, identifica-se com ele, não poucas vezes descobre, num simples relance de vista, o único meio - às vezes absurdamente simples - de induzi-lo a um erro ou precipitálo num cálculo errado.

O jogo de whist1 tem sido famoso desde muito por sua influência sobre o que se chama “faculdade de calcular” e conhecem-se homens do elevado valor intelectual que dele auferem um deleite aparentemente inacreditável, ao passo que menosprezam o jogo de xadrez como frívolo. É fora de dúvida que nenhum jogo análogo existe que tão grandemente exercite a faculdade de análise. O melhor jogador de xadrez da cristandade não passa de ser o melhor enxadrista; mas o jogador proficiente de whist tem capacidade de êxito em todas as especulações de bem maior importância, em que o espírito luta com o espírito. Quando digo jogador proficiente, quero significar essa perfeição no jogo, que inclui o conhecimento de todas as fontes donde pode derivar um proveito legítimo. E estas não É uma variante do jogo de cartas na qual predomina o recurso ao cálculo das probabilidades. (N. do E.)

Os Assassinatos da Rua Morgue 115 são apenas numerosas, mas complexas, e jazem freqüentemente em recessos do pensamento, totalmente inacessíveis a uma inteligência comum.

Observar atentamente equivale a recordar com clareza; e, conseqüentemente, o jogador de xadrez capaz de concentração intensa será bom jogador de whist, porquanto as regras de Hoyle, baseada apenas no simples mecanismo do jogo, são geralmente bastante inteligíveis. Por isso, ter uma boa memória e jogar de acordo com “livro” são pontos comumente encarados como o sumo do bem jogar. Mas é nas questões acima dos limites da simples regra que se evidencia o talento do analista. Em silêncio, faz ele uma série enorme de observações e inferências. O mesmo talvez façam seus parceiros e a diferença de extensão das informações obtidas não se encontra tanto na validade da dedução como na qualidade da observação.

O necessário é saber o que se tem de observar. Nosso jogador não se confina no seu jogo, nem rejeita deduções nascidas de coisas externas ao jogo, somente porque é o jogo seu objetivo do momento. Examina a fisionomia do parceiro, comparando-a cuidadosamente com a de cada um de seus adversários. Considera a maneira pela qual são arrumadas as cartas em cada mão; e muitas vezes conta pelos olhares lançados pelos seus possuidores às suas cartas, os trunfos e figuras que têm.

Nota cada movimento do rosto, à medida que o jogo se adianta, coligindo um cabedal de idéias, graças às diferenças fisionômicas indicativas de certeza, surpresa, triunfo, ou pesar. Da maneira de recolher uma vasa, adivinha se a pessoa pode fazer outra da mesma espécie. Reconhece um jogo fingido da maneira com que é lançada a carta na mesa. Uma palavra casual ou inadvertida, uma carta que cai acidentalmente, ou que é virada, e o conseqüente olhar de ansiedade ou despreocupação com que é apanhada, a contagem das vasas pela sua ordem de arrumação, embaraço, a hesitação, a angústia ou a trepidação, tudo isso são sintomas para sua percepção aparentemente intuitiva, do verdadeiro estado das coisas. Realizadas as duas ou três primeiras jogadas, está ele de posse completa das cartas que estão em cada mão e portanto, joga suas cartas com uma tão absoluta precisão como se o resto dos jogadores houvesse mostrado as suas.

O poder analítico não deve confundir-se com a simples engenhosidade porque, se bem que seja o analista necessariamente engenhoso, muitas vezes acontece que o homem engenhoso é notavelmente incapaz

116 HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS de análise. A capacidade de construtividade e de combinação, por meio da qual usualmente se manifesta a engenhosidade e à qual os frenólogos (a meu ver, erroneamente) atribuem um órgão separado, supondo-a uma faculdade primordial, tem sido tão freqüentemente encontrada naqueles cujo intelecto está quase nos limites da idiotia, que atraiu a atenção geral dos tratadistas de moral social. Entre o engenho e a habilidade analítica existe uma diferença muito maior, na verdade, do que entre a fantasia e a imaginação, mas de caráter estritamente análogo.

Verificar-se-á, com efeito, que os homens engenhosos são sempre fantasistas e os verdadeiramente imaginativos são, por sua vez, sempre analíticos. A estória que se segue aparecerá ao leitor como um comentário luminoso das proposições que acabo de anunciar.

Residindo em Paris, durante a primavera e parte do verão de 18..., travei ali conhecimento com um Sr. C. Augusto Dupin, jovem cavalheiro de excelente e ilustre família. Em conseqüência duma série de acontecimentos desastrosos, ficara reduzido a tal pobreza que a energia de seu caráter sucumbira aos reveses, tendo ele deixado de freqüentar a sociedade e de esforçar-se em recuperar sua fortuna. Graças à condescendência de seus credores, mantinha-se ainda de posse dum resto de seu patrimônio, com cuja renda conseguia, com rigorosa economia, prover-se do necessário, sem cuidar de coisas supérfluas. Tinha na verdade um único luxo: os livros, que, em Paris, podem ser adquiridos a baixo custo.

Nosso primeiro encontro se deu numa escura livraria da Rua Montmartre, onde o acaso de estarmos à procura do mesmo livro, notável e raro, nos fez entrar em estreitas relações. Via-mo-nos freqüentemente. Interessou-me intensamente a pequena estória de família que ele me contou, com toda aquela sinceridade característica do francês, quando se trata de si mesmo. Causou-me também admiração a vasta extensão de suas leituras e, acima de tudo, empolgaram-me a alma o intenso fervor e a vívida frescura de sua imaginação. Procurando em Paris certas coisas que me interessavam, vi que a convivência com tal homem seria para mim tesouro inapreciável.

E isso mesmo, francamente, lho disse. Resolvemos por fim morar juntos durante minha permanência em Paris e, como minha situação financeira era muito melhor que a dele, a mim coube a despesa de alugar e mobiliar, num estilo adequado à um tanto fantástica melancolia de nos-

827op

Os Assassinatos da Rua Morgue 117 sos caracteres, uma velha e grotesca casinha, quase em ruínas, há muito desabitada, em virtude de superstições de que não indagamos, e situada em solitário recanto do bairro de São Germano.

sivosNossa reclusão era completa. Não recebíamos visitas. Para dizer

Se a rotina da vida que ali levávamos viesse a ser conhecida do mundo, ter-nos-iam como doidos ou, talvez, por simples malucos inofena verdade, tínhamos mantido sigilo absoluto a respeito do lugar de nosso retiro até mesmo para com nossos antigos camaradas. Havia muitos anos que Dupin cessara de travar novos conhecimentos, ou de ser conhecido em Paris. Vivíamos, pois, sozinhos os dois.

Tinha meu amigo uma esquisitice - que outro nome posso lhe senão esse? - que era a de amar a noite por amor da noite. E dessa esquisitice, bem como de todas as outras dele, me deixei eu contagiar, abandonando-me ao sabor de suas extravagantes originalidades. A negra divindade não podia viver sempre conosco, mas nós, lhe imitávamos a presença. Aos primeiros albores da manhã fechávamos todos os pesados postigos de nossa velha casa, acendiamos um par de círios, fortemente perfumados, que emitiam uma luz fraca e pálida. Gráças a ela, mergulhávamos nossas almas nos sonhos, líamos, escrevíamos, ou conversávamos, até que o relógio nos advertisse da chegada da verdadeira escuridão. Então, saía pelas ruas, de braço dado, continuando a conversa do dia, ou vagando por toda parte, até hora avançada, à procura, entre as luzes desordenadas e as sombras da populosa cidade, daquelas inumeráveis excitações cerebrais que a tranqüila observação pode proporcionar.

Em tais ocasiões, não podia deixar eu de notar e de admirar em

Dupin (embora a rica idealidade de que era ele dotado a isso conduzisse, como era de esperar) certa habilidade analítica peculiar. Parecia, também, sentir acre prazer no exercitá-la, senão mais exatamente em exibila, e não hesitava em confessar a satisfação disso lhe provinha. Diziame, com vanglória e com uma risadinha escarninha, que a maioria dos homens tinha para ele janelas no coração, acompanhando geralmente tal afirmativa de provas diretas e bem surpreendentes de seu profundo conhecimento de minha própria pessoa.

Seus modos, nesses momentos, eram frios e abstratos; seus olhos tinham uma expressão vaga, ao passo que sua voz, geralmente de belo timbre de tenor, elevava-se agudamente, num tom que seria insolente, não fosse a ponderação e inteira segurança da enunciação. Obser-

118 HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS vando-lhe esses modos, muitas vezes fiquei a meditar sobre a velha filosofia da Alma Dupla, e divertia-me com a idéia de um duplo Dupin: o criador e o analista.

Não se suponha, do que acabo justamente de dizer, que estou circunstanciando algum mistério, ou escrevendo algum romance. O que descrevi na pessoa desse francês foi simplesmente o efeito de uma inteligência excitada, ou talvez doentia, mas um exemplo melhor da natureza de suas observações na época em questão.

Passeávamos, certa noite, por uma comprida e suja rua, nas vizinhanças do Palais Royal. Estando, aparentemente ambos nós, ocupados com os próprios pensamentos, havia já uns quinze minutos que nenhum dos dois dizia uma só sílaba. Subitamente, Dupin pronunciou as seguintes palavras:

– A verdade é que ele é mesmo um sujeito muito pequeno e daria mais para o Théâtre des Variétés.

Não pode haver dúvida alguma a respeito - respondi, inconscientemente, e sem reparar, a princípio (tão absorto estivera em minha meditação), a maneira extraordinária pela qual as palavras de meu companheiro coincidiam com o objeto de minhas reflexões. Um instante depois dei-me conta do fato e meu espanto não teve limites.

– Dupin - disse eu, com gravidade -, isto passa as raias de minha compreensão. Não hesito em dizer que estou maravilhado e mal posso dar crédito a meus sentidos. Como é possível que soubesse você que eu estava pensando em...

Aqui me detive, para certificar-me, sem sombra de dúvida, se ele realmente sabia em quem pensava eu.

– Em Chantilly - disse ele. - Por que parou? Não estava você justamente a pensar que o tamanho diminuto dele não se adequava à representação de tragédias?

Era esse precisamente o assunto de minhas reflexões. Chantilly era um antigo sapateiro remendão da Rua São Diniz, que, fanático pelo teatro, atrevera-se a desempenhar o papel de Xerxes, na tragédia de Crébillon, do mesmo nome, tendo por isso merecido críticas violentas.

– Diga-me, pelo amor de Deus - exclamei -, qual foi o processose
é que há algumque o capacitou a sondar o íntimo de minha alma.

Eu estava, na verdade, mais surpreso do que desejava parecer.

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