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As Tabelas 5 e 6 apresentam alguns valores médios ou faixas de valores para parâmetros medidos nos efluentes brutos de curtumes – cargas poluentes e concentrações típicas.

Tabela 5 - Dados típicos de parâmetros medidos em efluentes brutos de curtumes com processos convencionais completos – distribuição por etapas básicas ou macro-etapas do processo (matéria-prima: peles bovinas salgadas; dados em kg / t pele)

Etapa Básica do Processo

Uso de Água (m/ t) (1)

DQO DBO Sólidos

Suspensos Cromo

(Cr ) SulfetoN Total(2)

Cloreto Sulfato Óleos e Graxas

Sólidos

Dissolvidos

Totais (3)

(1) volume de efluentes gerados ~ uso de água (2) N Total – teor de nitrogênio total (orgânico e amoniacal). (3) resíduo não filtrável solúvel

Tabela 6 - Caracterização de efluentes líquidos brutos, homogêneos, após peneiramento, de uma indústria que executa curtimento ao cromo, não recicla banhos residuais e tem etapa de oxidação de sulfeto

Parâmetros Concentrações

Sólidos Sedimentáveis90,0 ml/l DQO7250 mg/l

DBO52350 mg/l Cromo Total (Cr+3)94,0 mg/l

Sulfeto26,0 mg/l Fonte: Claas & Maia, 1994 [15]

Como se vê pelas Tabelas 5 e 6, as cargas poluentes emitidas são significativas. Considerando também os dados volumétricos da Tabela 4, vê-se que a fase de ribeira, até a etapa anterior ao curtimento, é a responsável pela maior parte das cargas poluentes e tóxicas dos efluentes de curtumes. Por exemplo, o sulfeto, presente nos efluentes da ribeira, é mais tóxico para o ser humano do que o cromo do curtimento, considerando que este está na sua forma trivalente. A sub-etapa principal contribuinte para este alto potencial poluidor da ribeira é a depilação/caleiro.

Tomando-se o dado médio da Tabela 5 para DBO (cerca de 67 kg/t pele), considerando-se um peso médio de 23 kg/pele salgada e uma carga orgânica média de esgoto doméstico de 54 g DBO/habitante.dia, o potencial poluidor de carga orgânica biodegradável de um curtume integrado, que processe 3.0 peles/dia, seria equivalente ao de uma população de cerca de 85.600 habitantes.

Assim, vê-se que o impacto ambiental potencial dos efluentes líquidos é significativo. Além da carga poluidora em si, caso certos cuidados operacionais não sejam tomados, os efluentes líquidos dos curtumes que realizam a ribeira podem apresentar problemas de odor devido à formação de gás sulfídrico, proveniente do sulfeto, o que pode causar incômodos à população no entorno.

Portanto, os curtumes normalmente possuem estações de tratamento desses efluentes (controle via tratamento “fim-de-tubo”), visando minimizar seus impactos ambientais e atender à legislação vigente. O tratamento dos efluentes líquidos, usualmente empregado, consiste das seguintes etapas:

-segregação dos efluentes da ribeira daqueles do curtimento (principalmente curtimento ao cromo) e do acabamento. Entre outros aspectos, isto possibilita operações de reciclagem dos banhos de depilação e de curtimento, o que alguns curtumes já realizam. Os efluentes do curtimento ao cromo passam por tratamento específico para separação do cromo, normalmente por precipitação alcalina, como hidróxido de cromo trivalente. O sobrenadante da precipitação é encaminhado para a homogeneização ou equalização dos efluentes gerais. No entanto, há curtumes que não fazem esta segregação, procedendo à remoção do cromo no tratamento primário. -tratamento preliminar – remoção dos sólidos em suspensão maiores, mais grosseiros, por gradeamento e/ou peneiramento nas linhas de efluentes. Alguns curtumes também instalam caixas de gordura, principalmente para efluentes da ribeira.

-oxidação prévia do sulfeto residual em meio alcalino, proveniente de banhos e lavagens da ribeira, antes de homogeneizá-los com outros efluentes ácidos, de forma a prevenir a formação de gás sulfídrico (H2S) - tóxico, precursor de corrosão e um dos principais responsáveis por problemas de odor nos curtumes.

-homogeneização ou equalização dos efluentes.

-tratamento primário dos efluentes equalizados, físico-químico, para remoção de parte da matéria orgânica e de alguns metais residuais, principalmente cromo - coagulação, floculação e decantação primária. -tratamento secundário biológico, normalmente lagoas aeradas, facultativas ou lodos ativados, para remoção da carga orgânica residual do tratamento primário.

Se bem projetado e operado, este sistema básico de tratamento normalmente é capaz de enquadrar os efluentes dos curtumes nos padrões de lançamento estabelecidos pela legislação vigente. Como ilustração, a Tabela 7 mostra valores típicos de eficiências para tratamentos de efluentes de curtumes com processamento convencional, desde a pele bruta até o couro acabado.

Tabela 7 – Eficiências de alguns tipos de tratamento de efluentes e de suas combinações na remoção de algumas cargas poluentes de curtumes

Parâmetro DQO DBO S Cr(2) S2-(3)

N Total

% ou mg/l (1)%mg/l%mg/l%ml/lmg/lmg/l%mg/l

Remoção de gordura (flotação por ar dissolvido)

Oxidação de sulfeto (caleiro e lavagens)

Precipitação do cromo1-10

Homogeneização + sedimentação

Homogeneização + tratamento químico + sedimentação

Homogeneização + tratamento químico + flotação

Fonte: IPPC, Fevereiro 2003 [2] (1) % = porcentagem de remoção ou redução do parâmetro pelo referido tratamento; mg/l = concentração do parâmetro no efluente após o referido tratamento (2) Cr = cromo total (3) S = sulfeto b. Emissões Atmosféricas / Odores

Normalmente as emissões dos curtumes são compostos voláteis gerados nas várias operações dos curtumes, que causam odores, por vezes perceptíveis fora dos limites destas indústrias e até problemas de saúde ocupacional, dependendo das instalações e dos procedimentos operacionais destes curtumes.

Na “barraca” (armazenamento de matéria-prima – peles), principalmente amônia é emitida, proveniente da decomposição parcial da proteína das peles.

Na parte molhada (ribeira até pré-acabamento), odores desagradáveis podem ser gerados por substâncias como gás sulfídrico, amônia, subprodutos aminados e outros.

No acabamento, pode-se ter emissões de compostos voláteis provenientes de solventes orgânicos, partículas de água em suspensão (aerossóis) e material particulado sólido (operações de rebaixamento, lixamento e desempoamento).

Em algumas regiões do estado de São Paulo, o odor (mau cheiro), proveniente da formação de gás sulfídrico, derivado do sulfeto, de mercaptanas e de outros compostos orgânicos gerados por reações de decomposição de matéria orgânica, também é um problema ambiental importante a ser controlado e resolvido pelo setor. Estas substâncias podem ser formadas tanto no processo produtivo como no STAR ou ETE dos curtumes.

c. Resíduos Sólidos

Como indicado na Figura 4, dentro do processo produtivo do couro, pode-se destacar os seguintes resíduos sólidos como sendo os de maior geração: aparas não caleadas e caleadas, carnaça, material curtido (farelo de rebaixadeira e aparas / tiras curtidas) e lodos dos sistemas de tratamento dos efluentes líquidos. A Tabela 8 mostra os principais resíduos sólidos gerados por etapa produtiva.

Tabela 8 – Principais resíduos sólidos gerados – distribuição pelas principais etapas geradoras do processo (kg resíduos / t pele salgada)

Macro-etapa do

Processo Etapa doProcesso

Resíduos Gerados

Resíduokg / t

Ribeira Pré-descarne e/ouDescarneCarnaça70 – 350

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