A Circulação das Idéias do Urbanismo

A Circulação das Idéias do Urbanismo

(Parte 1 de 4)

Evolução Urbana

A CIRCULAÇÃO DAS IDÉIAS DO URBANISMO “Desde o século XIX até Brasília, nos anos 60.”

PORTO ALEGRE, 20 DE JANEIRO DE 2011

Aridson Renato Monteiro Andrade Prof.ª Célia Ferraz de Souza

A CIRCULAÇÃO DAS IDÉIAS DO URBANISMO “Desde o século XIX até Brasília, nos anos 60.”

De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas.

Ítalo Calvino, Cidades invisíveis

Trabalho apresentado a

Professora Célia Ferraz de Souza da disciplina Evolução Urbana do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

ÍNDICE 1 – INTRODUÇÃO

2 - O QUADRO CONTEXTUAL DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

2.1 - O PORQUÊ DO SURGIMENTO DOS UTOPISTAS

2.2 - HAUSSMANN E SUAS INFLUÊNCIAS

2.3 - ÀS CRÍTICAS E AS POSIÇÕES DE CAMILO SITTE

2.4 - AS PROPOSTAS NO FINAL DO SÉCULO XIX DE SORIA Y MATA, E. HOWARD E TONY GARNIER

2.5 - AS INFLUÊNCIAS DO MOVIMENTO RACIONALISTA

2.6 - O PAPEL DA CORRENTE RACIONALISTA E DA CORRENTE EMPIRISTA (CULTURALISTA

3 - A CIDADE MODERNISTA – BRASÍLIA

4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS 5 – REFERÊNCIAS

Esse trabalho é resultado de uma pesquisa realizada no acervo de documentos da disciplina de Evolução Urbana, Propur UFRGS e livros relativos ao assunto, integrando não só o conjunto das informações, mas também desenhos e mapas das cidades, e também fotografias. Nesse sentido, o que pretendo alcançar com esses estudos, consistem na abordagem de temas relacionados à circulação das idéias do urbanismo, desde o inicio do século XIX até Brasília, nos anos 60.

Essa “circulação” será desenvolvida desde o quadro contextual da revolução industrial, abrangendo o porquê do surgimento dos utopistas, as influências do grande mentor Haussmann e, às críticas e as posições de Camillo Sitte. Nos finais do séc. XIX procuro entender as propostas apresentadas por Ebenezer Howard e o Modelo da Cidade-Jardim, Arturo Soria y Mata e o Modelo da Cidade Linear e por fim, Tony Garnier e o Modelo da Cidade industrial, embora por serem apenas modelos, serviram de grande ajuda no urbanismo do século X. Para além de explicar o surgimento do pensamento urbanista do movimento racionalista, estabelecerei a avaliação do papel da Corrente Racionalista (progressista) e da Corrente Empirista (culturalista) que tratavam de ordens de abordagens, com fundamentos e implicações distintas. No entanto, segundo consta, uma maior maturidade teórica desses temas, só foi alcançado no século X.

Ainda “circulando” nesses conceitos estudados, pensamentos, estudos e realizações, o urbanismo na cidade do presente era e é ainda hoje uma das chaves para uma mudança qualitativa da sociedade e da vida humana. Por fim, pretendo com o resultado acabado de um urbanismo que tem como origem a Carta de Atenas estudar Brasília (Brasil) e o seu plano piloto proposto pelo Lúcio Costa, construída a partir do projeto escolhido por meio do concurso público lançado pelo Presidente Kubitschek, em 1957 e que Sociólogos, historiadores e geógrafos, entre outros, já se ocupavam exaustivamente da controversa questão da transferência da Capital para o interior do país.

Do que foi levantado, ficam clara as mudanças que foram surgindo desde o começo da “Revolução Industrial” e são esses conceitos, utopias e ideologias que permearam os variados tipos de intervenção na cidade existente do século X, apresentados desde o começo deste estudo.

1 – INTRODUÇÃO

crescimento demográfico das cidades, primeiro na Inglaterra (Londres), seguida pela França e Alemanha

O que posso dizer, é que a fundamental mudança das cidades foi gerada por uma complexidade digamos de acontecimentos, complexidade essa que se denominaram de "Revolução Industrial". A revolução industrial nesse parâmetro é quase imediatamente seguida por um rápido

Temos que entender o seguinte, quando grandes quantidades populacionais migravam do campo para a cidade em busca de trabalho, se criou grandes aglomerados populacionais, nos quais as pessoas que pertenciam à classe operária viviam em péssimas condições de vida, principalmente de higiene, muitas delas sem ter onde morar, ou habitando em locais insalubres e desconfortáveis ¹. O que aconteceu? Então a partir daí uma grande discussão em diversas áreas do conhecimento na busca por soluções para estes chamados “problemas urbanos”. Os urbanistas utópicos dão origem a uma posição anti-urbana, de inspiração romântica ² e que se opõe à industrialização, surgindo então à proposta de Cidade-Jardim. O inglês Ebenezer Howard estabelece de forma definitiva a teoria da Garden-City, através de duas publicações: Tomorrow (1898) e Garden-cities for Tomorrow (1902) ³. Estes urbanistas europeus progressistas e racionalistas, no geral, procuram conceber cidades ordenadas com uma conjugação de soluções utilitárias e plásticas.

Iniciado em julho de 1933, o IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna - C.I.A.M., cujo tema foi a “Cidade Funcional”, foi concluído dias após em Atenas. Segundo consta, analisaram trinta e três cidades, de quatro continentes e as conclusões deste encontro foram reunidas na Carta de Atenas 4. De acordo com a Carta de Atenas, a cidade possui quatro funções fundamentais, pelas quais o urbanismo deve velar: habitar; trabalhar; cultivar o corpo e o espírito e circular, sendo seus objetivos: a ocupação do solo, a organização da circulação e a legislação; na Cidade Pós-Liberal, as funções privilegiadas são as produtivas, e entre elas as terciárias (o comercio, a circulação) 5. Brasília, projeto de Lúcio Costa, é o resultado acabado de um urbanismo que tem como origem a Carta de Atenas: zonas urbanas bem definidas e separadas (edifícios públicos, setor residencial,hoteleiro, comercial, bancário), grandes espaços entre as edificações, circulação bem definida e eficiente. Chandighard na Índia, projeto de Le Corbusier, é também outro exemplo deste urbanismo racionalista (progressista). Durante o século X, muitas teorias surgiram para explicar o fenômeno urbano, mas os problemas da Revolução Industrial ainda estariam presentes na cidade moderna do século X. Nesse sentido, as administrações públicas, diante dos problemas tentavam reformular leis e criar novas com a intenção de amenizar os problemas.

¹ BENEVOLO, Leonardo. História da cidade. São Paulo: Perspectiva, 1996, pg. 552 - 567.

³ HOWARD, Ebenezer. Cidades-jardins de amanhã. Hucitec: São Paulo, 1996, pg. 38

² FILHO, Nestor Goulart Reis. Urbanização e teoria. São Paulo, 2000, pg. 39.

4 Carta de Atenas. C.I.A.M. 1933, Atenas. Disponível em: <http: //w.iphan.gov.br/>.

humanidade 6

Segundo autores os conflitos sócio-urbanos eram muitos: densidade demográfica, ocupação de áreas livres, segregação urbana, crises políticas e econômicas, lutas de grupos sociais reivindicando qualidade de vida (habitação, educação, saúde, lazer etc.). Outras reivindicações eram relativas aos direitos sociais, direito à liberdade de expressão, direito à cidade. O movimento do urbanismo moderno repercutiu em vários países e suas cidades, e as cidades do Brasil não são exceções. Hoje se questiona qual o urbanismo adequado para esta cidade moderna? Principalmente nas cidades dos países em desenvolvimento, bem diferente das mudanças da cidade no principio da industrialização, o urbanismo sempre teve um papel significativo quanto a sua representação e a representação social, na historia da

2 - O QUADRO CONTEXTUAL DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

Na Inglaterra, que como muitos autores retratam como berço da revolução industrial (um dos motivos foi por ser líder da Revolução Comercial), a cidade de Londres, por exemplo, passa na virada de 1801 á 1891 a ter, em menos de um século, o quíntuplo da sua população praticamente. O que acontece a partir daí? A revolução industrial transformou radicalmente a distribuição dos habitantes no território e isso levou as carências/dificuldades dos novos locais de fixação, que começam a manifestar-se em larga escala, na ausência de providências adequadas. Só para ter uma idéia da carência habitacional, as famílias que abandonavam o campo, procurando aglomerar nas industriais, ficavam alojadas nos espaços vazios disponíveis dentro dos bairros antigos, ou nas novas construções feitas: na periferia 7, que rapidamente se multiplicaram formando bairros novos e extensos em redor dos núcleos primitivos por assim dizer.

O adensamento e extensão sem precedentes dos bairros operários tornam quase impossível o escoamento dos detritos; para ter consciência, ao longo das ruas corriam águas servidas e esgotos a céu aberto, e qualquer recanto estava cheio de amontoados de lixo e imundices. Para entender o que se passava, diria que esta cidade, segundo autores era construída pela iniciativa privada, buscando o máximo lucro e aproveitamento e pior sem nenhum controle. Surge então a necessidade de uma ação pública, ordenando e propondo soluções. Ao nível das idéias, os primeiros intelectuais a estudar e a propor formas para corrigir os males da cidade industrial polarizaram-se em dois extremos: ou se defendia a necessidade de recomeçar do princípio, contrapondo à cidade existente, novas formas de convivência ditadas exclusivamente pela teoria, ou se procurava resolver os problemas singulares e remediar os inconvenientes isoladamente, sem ter em conta suas conexões e sem ter uma visão global, mas esses assuntos serão desenvolvidos, mais adiante.

6 SOUZA, Célia Ferraz de. Construindo o espaço da representação: ou o urbanismo de representação - Imagens Urbanas. Os diversos olhares na formação do imaginário urbano. Organizado por Célia Ferraz de Souza e Sandra Jatahy Pesavento. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1997, pg. 20.

BENEVOLO, Leonardo. História da cidade. São Paulo: Perspectiva, 1996, pg. 552 - 567

7 Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki

2.1 - O PORQUÊ DO SURGIMENTO DOS UTOPISTAS

A antigüidade greco-romana contribui para amenizar os laços de dependência que ligam a religião à organização do espaço constituído. Na Idade Média, embora toda a sociedade esteja imersa num ambiente profundamente religioso, são as autoridades leigas que procuram estabelecer um domínio no espaço urbano. A partir da Renascença, os fundamentos urbanísticos autônomos se encontram colocados, mas a ruptura com o passado não está de fato consumada. Se a razão se impõe cada vez mais, a utopia está presente nas portas das cidades 10. Para entender o surgimento dos utopistas8, precisamos entender antes o que se passava com a “Revolução Industrial”, sendo que, as mudanças econômicas provocadas pela Revolução Industrial impulsionaram o surgimento de uma nova classe social, o “proletariado industrial”– composto pelos camponeses encurralados nas cidades e explorados de forma desumana. Enquanto a burguesia comercial e industrial prosperava e enriquecia, a miséria, as doenças e o brutal e desumano regime de trabalho eram o destino do proletariado. A situação dos trabalhadores tornou-se insuportável e despertou os protestos, resistência e ações revolucionárias. Grandes utopistas como Robert Owen, Charles Fourier e Etienne Cabet influenciaram profundamente o pensamento e as ações políticas da época, pelas quais são considerados os precursores “clássicos” que pregaram mudanças na organização social e nas relações entre os homens, mais justas e respeitando a dignidade humana, na busca de uma nova estrutura social, a criação de uma nova sociedade, que induz a formulação de um espaço físico, oportunizasse a construção da sociedade idealizada.exemplo disso, seria New Harmony, de Owen (experiência fracassa, onde perde todo o capital empregado), e Falanstério (um edifício monumental no qual as pessoas viveriam de forma comunitária) de Fourier (Familistério - uma redução do modelo fourierista - de Godin), ou a Icária de Cabet que se transformaram em símbolos desse momento, propondo à alteração da estrutura física, para abrigar a sociedade sã, a sociedade de iguais, que seus autores haviam imaginado 9.

Os três proclamavam para a luta contra as tendências perversas da acumulação de riquezas desenfreada, por um lado, e o empobrecimento, a exploração e degradação dos trabalhadores, propondo uma ordem social na qual todos trabalham e ganham de acordo com suas necessidades sendo que idealizaram suas utopias no antigo estilo intelectual. Acreditaram em mudanças a partir da aceitação de novas relações sociais pelos poderosos da época, movidos por sentimentos humanitários e de compaixão com a miséria da classe trabalhadora. Somente a próxima geração de pensadores críticos, sobretudo Karl Marx e Friedrich Engels perceberam e pregaram que entre a propriedade e a pobreza, o capital e o trabalho, as relações seriam de confrontação e de luta de classes. Um dos temas mais calorosamente debatidos –foi “Reforma ou Revolução”. Socialistas científicos chamam-nos de os “Socialistas Utópicos”, pois suas experiências fracassaram porem a cidade ideal por eles imaginada penetrou na cultura moderna e continuam a servir de incentivo para o progresso das instituições urbanísticas até nossos dias 10, mesmo que aproveitaram somente a parte boa e realizável.

8 Utopista é considerado um sujeito que propõe, para eliminar a pobreza e enfrentar os problemas sociais e políticos que afligem a sociedade, soluções imaginadas e consideradas dificilmente realizáveis.

9 SOUZA, Célia Ferraz de. Construindo o espaço da representação: ou o urbanismo de representação In Imagens Urbanas. Os diversos olhares na formação do imaginário urbano. Organizado por Célia Ferraz de Souza e Sandra Jatahy Pesavento. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1997, pg. 8.

Henrique. Sobre utopias e dystopias. Disponivel em < http://www.espacoacademico.com.br >. Acesso em: 08 janeiro 2011

2.2 - HAUSSMANN E SUAS INFLUÊNCIAS

Além de Londres, Haussmann influênciou várias outras cidades na França, nas colônias francesas e na Europa tais como Torino, Viena, Bruxelas. Antes de entrar no tema, é importante retratar o texto abaixo de CHEVALLIER, onde ele descreve bem a cidade de Paris no séc. XIX, pouco antes das intervenções de Haussmann:

Planta de Paris em 1853, antes dos trabalhos de Haussmann. Fonte: Livro História da Cidade, Leonardo Benévolo, pg. 589.

São estas as ruas da antiga Paris, ainda intactas

Uma congestão de casas apiloadas em qualquer parte do vasto horizonte. O que você observa? Acima, o céu está sempre encoberto, mesmo nos dias mais belos. (...) Olhando para isto, imaginamos se esta é Paris, e, tomados por um medo súbito, hesitamos em penetrar neste vasto dédalo onde já se acotovelam mais de um milhão de homens, onde o ar viciado de exalações insalubres se eleva, formando uma nuvem infecta que obscurece quase por completo o sol. A maior parte das ruas desta maravilhosa Paris nada mais é senão condutos sujos e sempre úmidos de água pestilenta. Encerradas entre duas fileiras de casas, as ruas nunca são penetradas pelo sol, que apenas roça o topo das chaminés. (...) Nessas ruas moram os trabalhadores mais bem pagos. Também há ruelas, que não permitem a passagem de dois homens juntos, cloacas de imundície e de lama onde uma população enfraquecida inala cotidianamente a morte. (CHEVALLIER, 1998)

O principal objetivo da reforma urbana idealizada por Haussmann para Paris é simplesmente o de liberar o tecido urbano para facilitar manobras militares. A grande transformação da cidade ocorre em um terço do tecido da cidade sobre a idéia da grande expansão daí vem o tema que desde a antiguidade o homem ao imaginar novas formas arquitetônicas ou urbanísticas, ou transformações da cidade ou das edificações, aprendeu a fazê-lo em modelo reduzidos 1. Um dos principais pontos da reforma de Haussmann é a reforma da "Ìlle de La Cité" em área militar. Para atingir esse objetivo, todas as edificações existentes são demolidas. Para Haussmann, “a arquitetura é um problema administrativo” e só deve visar os interesses de Napoleão, interesses esses, de cunho estritamente militares. A partir daí, é produzido um urbanismo totalmente racionalista visando apenas à técnica e desconsiderando o aspecto histórico.

1 SOUZA, Célia Ferraz de. Construindo o espaço da representação: ou o urbanismo de representação In Imagens Urbanas. Os diversos olhares na formação do imaginário urbano. Organizado por Célia Ferraz de Souza e Sandra Jatahy Pesavento. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1997, pg. 10.

A estratégia, sendo foco principal, a melhoria da circulação, o acesso rápido a toda a cidade como visão estratégica, estabelece uma imagem geral de modernidade. Esta mudança de imagem envolve também a questão da insalubridade, já retratada na Revolução Industrial através da aeração, do acesso à luz e da arborização. Para isso o que ele faz? Eliminam bairros considerados degradados, as ruas são arborizadas e recebem sistema de iluminação. Londres, a antiga cidade medieval, com traçado orgânico e ruas estreitas, é cortada por grandes eixos e contornada por um anel viário. São criadas praças com monumentos que servem como “cenários”, re-valorizar e re-enquadrar os monumentos, unindo-os através de eixos viários e criando efeitos de perspectiva. São criados vários bulevares, um novo elemento urbano, o Carrefour (rotatória) e são abertos parques e jardins públicos 12.

Esquema de trabalhos de Haussmann em Paris

Fonte: Livro História da Cidade, Leonardo Benévolo pg. 592.

Planta de Paris em 1873. Fonte: Livro História da Cidade, Leonardo Benévolo, pg. 593.

(Parte 1 de 4)

Comentários