Batalha Espiritual

Batalha Espiritual

(Parte 1 de 9)

Batalha Espiritual

Escrito por Nelson Galvão. INTRODUÇÃO

Há pelo menos dez anos atrás, vivia-se a era da incredulidade. Naquela época, tudo o que concernia ao metafísico, ao transcendente, ao espiritual, era rechaçado. O ―bonito‖ era ser cético quanto ao mundo religioso. Aliás, esta era a ―religião‖ da maioria. O precursor deste mundo incrédulo foi o marxismo que influenciou todas as áreas da sociedade e, por incrível que pareça, também à religião.

No entanto, em nossos dias, com a virada do milênio, percebe-se uma volta à espiritualização- muito semelhante à era medieval. É tão notória esta mudança de cosmovisão que é possível ver-se cientistas - outrora, a categoria que levava a bandeira do ceticismo- com seus amuletos da sorte, pirâmides na cintura ou em baixo da cama para atrair ―bons fluìdos‖, etc.

Como foi no período do ceticismo, esta nova filosofia de vida, também têm influenciado a muitas áreas da sociedade, inclusive à religião. E nesta categoria, encontram-se os evangélicos.

No mundo evangélico, nunca se viu tanta ventilação de novas doutrinas como se tem visto em nossos dias. Entre as novas doutrinas, encontra-se o Movimento de Batalha Espiritual. Este, oferece uma nova cosmovisão sobre a esfera espiritual, especialmente sobre os demônios, e como enfrentar este mundo de espíritos.

Creio que o Movimento de Batalha Espiritual é uma antítese da cosmovisão, principalmente norte americana, de que o diabo não existe. Porém, como antítese, tem-se exacerbado em várias áreas, em seu afã por demônios, e, por isso, deixado a desejar em muitas doutrinas bíblicas.

De início, estaremos mostrando, biblicamente, a realidade da guerra espiritual; em seguida, mostraremos as origens do Movimento de Batalha Espiritual e seus ensinos, confrontando-os com as Escrituras. Em seguida, veremos a proposta das Escrituras sobre a guerra espiritual, e, por fim, veremos os prós e os contra, do Movimento em questão.

A nossa proposta é analisar doutrinariamente o Movimento de Batalha Espiritual e não ―atacar pedra‖ em quem está trabalhando, como muitos possam crer. Nosso propósito, é ser ―bereano‖; ou seja, analisar até que ponto o que está sendo pregado nos púlpitos do Movimento de Batalha Espiritual, está de acordo com a sã doutrina.

1.1 A batalha espiritual nas Escrituras

A Bíblia está repleta de relatos de batalhas, guerras, confrontos e todo tipo de coisas que denotam conflitos. Só para termos uma idéia de como este assunto é tratado em grande escala nas Escrituras, a palavra ―batalha‖- assim como foi traduzida- encontra-se em cinqüenta trechos das Escrituras. A palavra sinônima ―guerra‖, encontra-se em duzentos e oito versículos. São referências que descrevem a luta entre nações, pessoas individuais, Deus e o homem, o homem cristão e a sua velha natureza, a Igreja e o mundo, a Igreja e o diabo.

Esta última a ser referida, revela-nos uma espécie de guerra que é bastante diferente da que estamos acostumados a ver nos noticiários de T.V, mas, não menos horrenda e, até mais terrível: a Batalha Espiritual.

Em Ap. 12:4, encontramos a referência à primeira batalha espiritual que foi travada: ―arrasta a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra‖. Esta é uma referência de João a Satanás que rebelou-se contra Deus e arrastou consigo a terça parte dos anjos. Desde então, nós vemos, através da Bíblia, Satanás fazendo guerra contra Deus e o Seu povo:

―Então ele me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do anjo do Senhor, e Satanás estava à sua mão direita, para se lhe opor‖. (Zc. 3:1).

Encontramos, também, citações da batalha que o crente deve fazer contra Satanás: ―..não deis lugar ao diabo‖. (Ef. 4:7); Revesti-vos de toda armadura de Deus para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo‖. (Ef. 6:1). Em Tg 4:7, está escrito: ―Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós‖. Esta palavra ―resisti‖, a qual Tiago refere-se, no grego é ―anqi(sthte‖, ela é derivada de ‖anqi)sthmi‖, que traduzido é ―colocarse contra, opor-se, permanecer firme‖. Esta palavra é aplicada da mesma forma- o combate que o crente deve fazer ao diabo- em, pelo menos, mais duas formas no Novo Testamento: Ef 6:13 e 1 Pe 5:8,9. Isso denota, de forma direta, uma luta espiritual que está se travando. Sobre isso, Paulo Romeiro comenta de forma plausìvel: ―A Bìblia fala muitas vezes sobre tal conflito. Sim, existe uma contínua e intensa batalha entre a luz e as trevas, entre Cristo e Satanás, entre a Igreja e o inferno‖[1].

Para entendermos melhor esta batalha, precisamos tomar conhecimento de como ela começou

1.2 A origem da batalha espiritual

Procurar saber a origem desta guerra cósmica leva-nos a indagar sobre a origem do mal. No entanto, não iremos nos deter neste assunto. Aqui, é necessário sabermos que existe uma origem para o mal e que esta, é identificada com o diabo.

De acordo com as Escrituras, o Diabo é o chefe da apostasia. Em Is 14:12, Satanás é identificado como sendo a Estrela da Manhã e Filho da Alva. Isso quer dizer que houve um tempo em que este ser angelical criado por Deus, rebelou-se contra o seu Criador (Ez 28:12-19), querendo ser igual a Ele e, consequentemente, foi expulso do céu juntamente com os seus seguidores (Mt 25 41; 12:24; Ef 2:2; Ap 12:7).

É aí que começa toda a guerra, com o propósito de Satanás de ser igual a Deus e, por isso, opor-se a tudo o que Deus faz ou o que se chama pelo Seu nome ( Mt 13: 24-30; Lc 2:3).

2- O MOVIMENTO “BATALHA ESPIRITUAL”

―Precisamos nos guardar contra dois perigos extremos. Não podemos tratá-lo com muita leviandade, para não subestimar seus perigos. Por outro lado, também não podemos nos interessar demais por ele.‖2

2.1 Sua origem

Na religião, existem várias posições a respeito do assunto de demônios. Existem aqueles que se mantêm céticos a respeito da crença em demônios e, categoricamente, afirmam que isto é coisa da idade média ou superstição. O teólogo católico, especialista em demoniologia e parapsicologia, Oscar Quevedo, disse o seguinte sobre o diabo:

Tudo o que foi dito sobre ele está no paganismoFalar em línguas, ter uma

força descomunal e outras atitudes que indicam que alguém está possuído pelo demônio, tudo isso pode ser explicado pela psicologia ou pela parapsicologia.3

Existem outros que crêem na existência dos demônios, mas mantêm indiferença a respeito do assunto. Aqui no Brasil, principalmente, está havendo uma super-valorização deste tema. Na novela global: ―suave veneno‖, está uma curiosidade: o diabo, personagem vivido pelo autor Aguinaldo Silva. Para vencê-lo, tem o paranormal Uálber, personagem vivido pelo autor Diogo Vilela.

Os autores do trama, apostaram no ―carisma‖ do diabo, no meio brasileiro. Aguinaldo Silva, chegou a dizer o seguinte: ― No Brasil, as pessoas acreditam que o diabo realmente interfere em nossa vida, mais até do que os santos.‖4 Sim, esta é uma realidade brasileira, o espiritualismo. No entanto, também nos círculos evangélicos, atravessa-se uma onda de super-valorizão de anjos e demônios. Estão sendo promovidas reuniões de guerra, libertação, ―poder‖. Seminários sobre batalha espiritual são comuns.

As livrarias foram invadidas por uma série de livros que tratam deste tema. Livros que têm exercido grande influência no meio evangélico como o de Frank Peretti, Este Mundo Tenebroso ( Ed. Vida).

A esta ênfase dada aos demônios, pelo menos aqui no Brasil, atribuímos a responsabilidade a um pastor norte americano chamado C. Peter Wagner. Ele é autor de trinta livros e é a atual autoridade no campo de guerra espiritual. Em seu livro intitulado Oração de Guerra (Ed. Unilit), ele nos conta como foi originado este movimento de guerra espiritual. Peter Wagner é representante do Movimento de Crescimento da Igreja, fundado por Donald MacGavran, em 1955. Em 1980 começou a interessar-se sobre as dimensões espirituais do crescimento eclesiástico. Em 1989, percebeu que o evangelismo funciona melhor quando é realizado através de oração e que Deus tem dotado certos indivíduos que se mostram incomumente poderosos no ministério da intercessão.

Pensando sobre a idéia de como conciliar evangelismo e intercessão, Peter Wagner reuniu um grupo de cinqüenta intercessores para orarem em um hotel, localizado em frente do local onde seria o segundo congresso de Lausanne.

Durante esta intercessão, Peter Wagner diz que recebeu de Deus o que denominou de ―parábola viva‖. Ele deu esse nome a um acontecimento durante a intercessão. Uma das intercessoras, Juana Francisco, foi acometida de uma crise asmática, rapidamente levaram-na às pressas para o hospital. Esperando a recuperação da amiga no hospital, outras duas intercessoras, Mary Lance e Cidy Jacobs, tiveram uma mensagem que logo identificaram como sendo de Deus. Juana Francisco havia sido atacada por um espírito da macumba. Recebendo a revelação, as duas intercessoras fizeram uma oração quebrando o poder do demônio enquanto, no mesmo momento, Bill Bright, estava com a enferma orando em prol da cura. O que aconteceu foi que no mesmo momento a mulher ficou boa.

Peter Wagner interpretou este episódio como sendo uma lição de Deus ao Seu povo. A partir daí ele tomou para si os seguintes princípios: (1) A evangelização do mundo é uma questão de vida ou morte; (2) A chave para a evangelização do mundo consiste em ouvirmos a Deus e obedecermos àquilo que tivermos ouvido. ―Elas sabiam que Deus queria que a maldição fosse anulada, pelo que entraram em ação‖5; (3) Deus usará a totalidade do corpo de Cristo para completar a tarefa da evangelização do mundo.

Naquela mesma conferência de Lausanne, em Manila, foram abordados os temas de espíritos territoriais e da intercessão espiritual em nível estratégico.

O interesse sobre o assunto cresceu e foi organizado um grupo de pessoas que se interessavam por guerra espiritual. Peter Wagner tornou-se o líder deste grupo que posteriormente foi denominado de ―Rede de Guerra Espiritual‖. Entre os membros deste grupo podemos mencionar Larry Lea, John Dawson, Cindy

Jacobs e Edgardo Silvoso.

2.2. Seus ensinos

2.2.1. Duas forças contrárias: Deus X Diabo

O termo ―dualismo‖ é uma transliteração da palavra latina ―dualis‖ , que quer dizer aquilo que contém dois. Esta expressão foi cunhada para transmitir a idéia do Zoroastrismo, que é a crença em um poder bom, chamado Ormazd, e um poder mal, chamado Ahriman. Neste sistema, acredita-se que existem duas forças opostas: a boa e a má. Estes poderes estão sempre em conflito entre si, podendo resultar em vitórias temporárias, de um lado ou de outro. Apesar destas vitórias, nunca nenhum dos dois deixarão de existir.

―Estamos em guerra! É a guerra de todas as guerrasa grande batalha

Agora que sabemos o que é dualismo, vejamos algumas declarações: espiritual entre Deus e o diabo no campo de batalha de nossas almas, com a eternidade toda pendendo na balança.‖6 e também :

―Pai celestial, eu me ajoelho em adoração e louvor diante de ti. Eu me cubro com sangue do Senhor Jesus Cristo para me proteger durante este período de oração.

Eu me submeto a ti completamente e sem reservas em todos os setores de minha vida. Eu tomo posição contra toda operação de Satanás que possa me impedir neste período de oração e me dirijo exclusivamente ao Deus vivo e verdadeiro, recusando-me a qualquer envolvimento com Satanás em minha oração.‖ 7

Ainda podemos citar esta:

―Quando Satanás e suas tropas interferem com a obra de Deus na terra, então você sabe que é hora de entrar em ação. A guerra espiritual está rugindo em um nìvel cósmico. E talvez você seja convocado para participar da mesma.‖ 8

Diante de tais citações podemos pensar que elas vem da boca de adeptos do Zoroastrismo ou de alguém que prega as idéias do Yin e Yang, do Neoconfucionismo ou do Taoísmo. No entanto, quem pensa isso está redondamente enganado, estas declarações vêm da boca de pregadores cristãos propagadores do Movimento de Batalha Espiritual.

Quando começamos a estudar sobre ―batalha espiritual‖, o ensino com que logo nos deparamos é o de que existem duas forças- ainda que não iguais em poder- lutando entre si para ganhar a posse das almas dos mortais.

Embora entre os pregadores do Movimento de Batalha Espiritual se negue o dualismo em seus ensinos, podemos ver a realidade da doutrina dualista de Deus X diabo, entre declarações como vimos a cima.

No cristianismo não existe lugar para o dualismo, ou o cristão crê que Deus é soberano sobre todas as coisas- e isso inclui a natureza, o coração humano, os governos e o diabo- ou vive em angústia temendo o demônio.

2.2.2 Espíritos Territoriais

De acordo com o ensino do Movimento de Batalha Espiritual, o Diabo designou um demônio, ou vários deles, para controlarem cidades, regiões e países. O objetivo destes ―governantes espirituais‖ seria impedir a glorificação de Deus em seus respectivos territórios.

C. Peter Wagner diz em seu livro Oração de guerra:

(Parte 1 de 9)

Comentários