História Geral da África 2

História Geral da África 2

(Parte 6 de 6)

De fato, as condições rigorosas que o rio impunha às sociedades humanas que viviam às suas margens, e que a ele deviam sua subsistência, só foram reconhecidas

XLVIntrodução Geral pouco a pouco. Tornaram-se inelutáveis apenas quando a civilização egípcia tinha mais de 700 anos. Os grupos humanos que constituíram essa civilização tiveram tempo, portanto, para se acostumar gradualmente às exigências impostas pela ecologia do Nilo.

A partir do final do Neolítico, entre -30 e -2400 aproximadamente, o nordeste da África, incluindo o Saara, desfrutou de um sistema climático relativamente úmido. Nesse período, o Egito não dependia exclusivamente do Nilo para sobreviver. A estepe ainda se estendia a leste e a oeste do vale, abrigando caça abundante e favorecendo uma criação de gado considerável. A agricultura era, então, apenas um dos componentes da vida cotidiana, competindo em importância com a criação de gado e mesmo com a caça, conforme se atesta pela Pedra de Palermo. Esta nos leva a inferir que o cálculo dos impostos devidos à autoridade central pelos notáveis do regime baseava-se não no rendimento das terras que possuíam, mas no número de cabeças de gado a cargo de seus pastores. A cada dois anos, fazia-se um censo dessa riqueza básica. As cenas que decoram as mastabas do Antigo Império, do final da IV até a VI dinastia (-2500 a -20), mostram claramente que a criação de gado ocupava um lugar essencial na vida dos egípcios daquele tempo.

Assim, podemos supor que a busca do controle do rio pelo homem a realização fundamental da civilização egípcia, pois que possibilitou seu florescimento – foi provavelmente estimulada, no princípio, não pelo desejo de fazer melhor uso das cheias para a agricultura, mas, especialmente, pela necessidade de evitar os danos provocados pelas inundações. Muitas vezes se esquece de que o transbordamento do Nilo não é apenas benéfico; pode acarretar calamidades. Foi sem dúvida em função dessa ameaça que os habitantes do vale aprenderam a construir diques e barragens para proteger suas povoações, e a cavar canais para drenar seus campos. Dessa maneira, foram lentamente adquirindo uma experiência que passou a ser vital, na medida em que o clima da África, entre os paralelos 13 e 15, ao norte, acabou por tornar-se tão seco quanto é hoje, transformando em deserto absoluto as vizinhanças do vale do Nilo, tanto no Egito como na Núbia. A partir de então, toda a vida do vale passou a ser estritamente condicionada pelas cheias do rio.

Pelo emprego das técnicas de construção de diques e escavação de canais, aperfeiçoadas ao longo dos séculos, os egípcios pouco a pouco desenvolveram o sistema de irrigação por bacias (hods), garantindo, assim, não apenas sua sobrevivência em um clima cada vez mais desértico, mas ainda a possibilidade de expansão (cf. capítulos 4 e 8). O princípio desse sistema era simples, mas sua operação era complexa e exigia sincronização. Utilizava duas elevações naturais

XLVIÁfrica antiga formadas pelo Nilo ao longo de suas margens, no decorrer de milhares de cheias, ano após ano. Essas defesas naturais, gradualmente reforçadas pelos habitantes das margens para se defender das cheias repentinas, eram suplementadas por aterros de retenção, verdadeiras barragens artificiais que, sem dúvida, tiveram origem naquelas construídas pelos antigos habitantes para proteger suas moradias quando as águas do rio subiam.

Ao mesmo tempo, foram construídos diques paralelos ao Nilo, que acabaram por dividir o Egito em uma série de bacias (daí o nome do sistema). O solo dessas bacias era nivelado, de maneira que, quando o rio subisse, a bacia ficasse inteiramente submersa. Canais de drenagem eram abertos nos aterros paralelos ao rio para permitir que as bacias se enchessem. Depois de permanecer por algum tempo, para impregnar os campos, a água era devolvida ao rio. Além disso, um sistema de canais utilizando o declive natural do vale levava água da montante para as áreas mais baixas localizadas na jusante do rio, de maneira a irrigar terras que mesmo uma enchente muito grande não alcançaria.

Esse sistema, que os egípcios gradualmente aprenderam por experiência própria, apresentava as vantagens de assegurar uma distribuição equitativa de água e matéria orgânica por toda a terra cultivável, irrigar aquelas partes do vale que, de outra maneira, teriam permanecido estéreis e, finalmente, e acima de tudo, controlar o Nilo e suas enchentes. O preenchimento das bacias e o desvio da água de montante para jusante através de canais, tinham por efeito moderar a correnteza do rio, evitando as consequências desastrosas de uma repentina liberação de milhões de metros cúbicos de água, que destruíam tudo à sua passagem. A diminuição da correnteza, por sua vez, facilitava a deposição do limo, do qual a água se encontrava carregada.

Não é exagero dizer que esse sistema único de irrigação estava na própria raiz do desenvolvimento da civilização egípcia. Ele explica como a engenhosidade humana conseguiu progressivamente superar grandes dificuldades e modificar a ecologia natural do vale.

A nova ecologia, resultante da intervenção humana, envolvia um trabalho considerável. Depois de cada enchente, era necessário reparar os aterros, reforçar os diques e limpar os canais. Era uma tarefa coletiva contínua que, de início, provavelmente se realizava ao nível de cada povoação. No período histórico, esse trabalho era administrado e supervisionado pelo governo central. Se este último deixasse de garantir, no devido tempo, a manutenção de todo o sistema, a enchente seguinte poderia destruí-lo, e o vale retomaria ao seu estado original. No Egito, a ordem política condicionou amplamente a ordem natural. Para assegurar a subsistência de todos não era suficiente que o sistema de bacias funcionasse

Introduç ão Ger figura 4 Cheias sazonais do Nilo. (Fonte: Jacques Besançon, “L’Homme et le Nil”, Paris, Gallimard, NRF, p.79.)

XLVIIIÁfrica antiga regularmente. Uma das características das cheias do Nilo é o fato de que seu volume varia enormemente de um ano para o outro. As cheias podem ser fortes demais, destruindo tudo à sua passagem, ou fracas demais, impossibilitando uma irrigação satisfatória. Por exemplo, no período compreendido entre 1871 e 1900, apenas a metade das enchentes ocorridas já teria sido suficiente para suprir as necessidades do Egito.

A experiência logo ensinou os egípcios a desconfiar da inconstância do rio.

Para compensar a escassez periódica, era necessário estocar cereais para alimentar a população e – mais importante ainda com vistas ao futuro garantir quantidade suficiente de sementes para a semeadura seguinte, quaisquer que fossem as circunstâncias. Esses estoques de reserva eram fornecidos pelo governo central, graças ao duplo celeiro real, que estocava cereais em armazéns distribuídos por todo o país. Limitando o consumo em períodos de abundância e estocando o máximo possível para se precaver contra cheias insuficientes ou excessivas, o governo central passou a controlar, por assim dizer, a ordem natural e veio a desempenhar um papel muito importante.

Mudando profundamente as condições impostas pela natureza, o homem desempenhou um papel essencial na emergência e expansão da civilização no vale do Nilo. O Egito não é apenas uma dádiva do Nilo: é, acima de tudo, uma criação do homem. Daí a importância dos problemas antropológicos do vale.

A ocupação do vale do Nilo

Já no Paleolítico, o homem ocupava, se não o vale propriamente dito, pelo menos sua vizinhança imediata e em especial os terraços que o dominavam. A alternância de períodos úmidos e secos durante o Paleolítico e o Neolítico (cf. volume I) alterava inevitavelmente a densidade populacional, que ora aumentava, ora diminuía. Mas o fato é que, por mais que recuemos no tempo, o Homo sapiens sempre habitou o Egito.

A que raça ele pertencia? Poucos problemas antropológicos levantaram discussões tão apaixonadas. No entanto esse problema não é novo. Em 1874 já se discutia se os antigos egípcios eram “brancos” ou “negros”. Um século depois, um simpósio promovido pela Unesco no Cairo mostrou que a discussão não estava encerrada, e era provável que não se esgotasse tão cedo. Não é fácil encontrar uma definição de “negro”, do ponto de vista físico, que seja aceitável para todos. Recentemente, um antropólogo levantou dúvidas sobre a possibilidade de se encontrarem meios efetivos para determinar a raça a que um esqueleto pertence

XLIXIntrodução Geral

– pelo menos no que se refere a restos humanos muito antigos, como os do Paleolítico. Os critérios tradicionais adotados pelos antropólogos físicos – índice facial, comprimento dos membros, etc. – atualmente já não são aceitos por todos, e, como os antigos, voltamos a definir “negro” pelo tipo de cabelo e cor da pele – medida cientificamente, é verdade, pela proporção de melanina. Contudo, o valor desses índices é posto em dúvida por alguns. Nesse ritmo, depois de haver perdido, ao longo dos anos, a própria noção de raça “vermelha”, corremos sérios riscos de sermos obrigados a abandonar a noção de raça “branca” e raça “negra”. De qualquer modo, é muito duvidoso que os habitantes que introduziram a civilização no vale do Nilo tenham pertencido a uma raça única e pura. A própria história do povoamento do vale refuta essa possibilidade.

O homem não penetrou repentinamente em um vale vazio ou habitado unicamente por animais selvagens. Estabeleceu-se na região gradualmente, ao longo de milhares de anos, à medida que a própria densidade dos grupos humanos ou as variações climáticas obrigaram-no a buscar novos recursos ou maior segurança. Devido à sua posição, no ângulo nordeste do continente africano, era inevitável que o vale do Nilo como um todo e o Egito, em particular, se tornassem o ponto de chegada das correntes migratórias oriundas não somente da África, mas também do Oriente Médio, e mesmo da Europa. Portanto, não é de surpreender que os antropólogos acreditem ter podido identificar, entre os muitos esqueletos nilóticos antigos, representantes das raças de Cro-Magnon, armenoides, negroides, leucodérmicos, etc., embora esses termos devam ser aceitos com reservas. Se algum dia existiu uma raça egípcia – e esta é uma questão aberta –, ela foi o resultado de miscigenações, cujos elementos básicos variaram no tempo e no espaço. Isso poderia ser verificado, se fosse possível obter um número suficiente de restos humanos para cada um dos períodos históricos e para as diferentes regiões do vale – o que está longe de ser o caso.

No entanto, um fato é inegável: a presença persistente, no Egito e na Núbia, de um determinado tipo físico que não se poderia definir como raça, uma vez que, conforme seja encontrado no Alto Egito ou no Baixo Egito, apresenta características ligeiramente diferentes. De cor mais escura no sul que no norte, esse tipo é, de maneira geral, mais escuro que no resto da bacia mediterrânea, incluindo o norte da África. O cabelo é preto e encaracolado; a face, arredondada e imberbe, era, no Antigo Império, ornada às vezes por um bigode. Em geral bastante esguio, é o tipo humano que conhecemos através dos afrescos, baixosrelevos e estátuas dos faraós; não nos devemos esquecer de que se tratava efetivamente de retratos, tal como exigiam as crenças funerárias dos egípcios, já que era o próprio indivíduo, e não uma noção abstrata, quem sobrevivia à morte.

LÁfrica antiga

Seria fácil, naturalmente, – selecionando determinados retratos e não levando em conta a totalidade daqueles que chegaram até nós – atribuir o tipo egípcio a uma raça particular; igualmente fácil seria, no entanto, escolher outros exemplos que negassem essas conclusões. De fato, qualquer pessoa pode ver que os indivíduos representados pela arte egípcia são os mais variados possíveis, com seus “perfis retos, perfis prognatas, algumas vezes com as maçãs do rosto salientes, como no caso de Sesóstris I, lábios carnudos, frequentemente encurvados; por vezes com nariz levemente adunco (Hemeomu, Pépi I, Gamal Abdel Nasser), mais frequentemente com um nariz grande e reto como o de Quéfren e, no sul, particularmente, com nariz chato e lábios mais grossos” (Jean Yoyotte).

Essa variedade mostra que, no vale do Nilo, estamos lidando com um tipo humano, e não com uma raça; um tipo que se constituiu gradualmente, tanto pelos hábitos e condições de vida peculiares ao vale, como pela miscigenação da qual é produto. Um exemplo notável disso é a estátua do Cheik-el-Beled, um retrato vivo do prefeito da aldeia de Sacará na época em que a estátua, com mais de 4 mil anos, foi descoberta. É mais do que provável que a estirpe africana, negra ou clara, tenha predominado no antigo Egito; não se pode, contudo, ir mais além no atual estágio dos nossos conhecimentos.

Escrita e meio ambiente

O Egito foi o primeiro país da África a fazer uso da escrita, a julgar pelo emprego, no sistema hieroglífico, de pictogramas representando objetos que estavam fora de uso havia muito tempo no início da época histórica. É possível situar essa invenção no período amratiense, também chamado Nagada I (cf. volume I), isto é, em torno de -4000, de acordo com as datas sugeridas pelo carbono 14. Assim, é um dos mais antigos sistemas de escrita de que se tem conhecimento. Desenvolveu-se muito rapidamente, pois já aparece constituído na paleta de Narmer, o primeiro monumento histórico egípcio, que pode ser datado de -3000. Além disso, a fauna e a flora utilizadas nos signos são essencialmente africanas.

A escrita egípcia é fundamentalmente pictográfica, como muitas escritas antigas, mas, enquanto na China e na Mesopotâmia, por exemplo, os sinais pictográficos originais evoluíram rapidamente para formas abstratas, o Egito permaneceu fiel ao seu sistema até o final de sua história.

Todos os objetos ou seres vivos que pudessem ser desenhados eram usados como sinais ou caracteres na escrita egípcia: para escrever a palavra “arpão” ou

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