Manejo Ecológico do Solo

Manejo Ecológico do Solo

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Manejo Ecológico do Solo

Tereza Cristina de Oliveira Saminêz1 Francisco Vilela Resende2

Introdução

Nos sistemas naturais a ciclagem dos nutrientes ocorre através dos processos de formação e decomposição da biomassa vegetal (fluxo orgânico) e através das entradas e saídas de nutrientes por via não orgânica (fluxo mineral). O fluxo mineral é decorrente da ação de agentes físicos, sendo as entradas via chuva, vento e decomposição de rochas e as saídas por lixiviação, erosão e fixação (a curto prazo). Os ecossistemas naturais possuem mecanismos para minimizar as perdas de nutrientes, sobretudo na vegetação (Khatounian, 2001).

Nos agroecossitemas as principais saídas do fluxo mineral se dão por lixiviação, erosão e exportação pelas culturas, e as entradas por fertilizantes e corretivos. A capacidade de reserva de nutrientes dos solos, retenção de nutrientes no complexo coloidal e matéria orgânica (MO), será maior quanto maior a presença de argilas do tipo 2:1 e teor de MO. Para os solos mais intemperizados, pobres em argilas 2:1 e MO, como os de cerrado, maior é a importância do fluxo orgânico de nutrientes. A preservação dos nutrientes nos solos dependerá diretamente do manejo do solo e da biomassa vegetal. Assim, dependendo do manejo da biomassa vegetal dada pelo produtor, maior ou menor será a quantidade de nutrientes a serem incorporados ao sistema, via adubação (fluxo mineral). Segundo Hernani et al. (1995), como alternativas de manejo da biomassa vegetal têm-se a rotação e consorciação de culturas, e o uso de espécies de adubos verdes.

Preparo do solo

O conceito de solo como um corpo predominantemente mineral, morto, focalizado no manejo agroquímico e como mero substrato para as plantas deve ser abandonado pelo olericultor que se adentrar ao sistema orgânico de produção. Na linha de raciocínio da agricultura orgânica o solo deve ser encarado como um organismo vivo e sua fertilidade baseada em aspectos físicos, químicos e também biológico, que no modelo convencional de agricultura é relegado a um segundo plano.

Na olericultura convencional trabalha-se com intensa movimentação do solo para construção de canteiros, leiras, abertura de covas e sulcos, muitas vezes utilizando-se de intensa mecanização, que resultam na degradação física e desequilíbrio biológico do solo. No sistema orgânico de produção de hortaliças deve-

1 Engª Agrª, Msc em Agronomia, Área de Concentração Solos, Pesquisadora da Embrapa Hortaliças. Caixa Postal 218, CEP 70359-970 - Brasília –DF. E-mail: tereza@cnph.embrapa.br. 2 Eng° Agrº, Dr. em Fitotecnia, Pesquisador da Embrapa Hortaliças. E-mail: fresende@cnph.embrapa.br Os tópicos bases e princípios de sistemas orgânicos, Planejamento da horta e Requisitos básicos para produzir organicamente foram adaptados do texto de Carlos Armênio Khatounian.

se adotar uma abordagem conservacionista, evitando-se a mobilização excessiva e compactação do solo.

O preparo do solo no primeiro ano de cultivo deve basear-se em aração, gradagem e levantamento dos canteiros (Sudo et al., 1997). Nos anos subsequentes evitar, na medida do possível, o uso de enxada rotativa e outros implementos que causem degradação excessiva de solo. Recomenda-se um sistema de preparo de solo com mecanização reduzida, deixando-o sempre protegido por cobertura morta ou verde.

Os canteiros devem ter de 0,80 m a 1,0 m de largura, 15 a 20 cm de altura e estar distanciados uns dos outros em aproximadamente 30 cm (Vieira et al., 1997). Para hortaliças de canteiro ou leiras como alface, cenoura, alho, rúcula, batata-doce, mandioquinha-salsa, etc, o olericultor orgânico pode trabalhar com canteiros ou camalhões semi-defintivos reduzindo a freqüência de máquinas e implementos nas áreas de produção. Desta forma, os canteiros são apenas reparados com enxadas, após cada cultivo. A adubação orgânica é aplicada sobre os canteiros ou leiras e sua incorporação feita pelos próprios organismos do solo.

O cultivo mínimo ou plantio direto é feito sobre a cobertura morta da cultura anterior, normalmente adubos verdes ou restos culturais, sem que seja feito um novo preparo de solo. As espécies a serem usadas como cobertura morta devem ser selecionadas segundo seu potencial de formação de palhada. Coquetéis de gramíneas e leguminosas, além de espécies de adubos verdes, podem ser utilizados como formadores de palhada. Para isto é necessário aguardar até que as plantas completem seu ciclo. São relatados com bons resultados os exemplos do plantio de tomate e pimentão sobre palhada de aveia preta, e vagem e pepino sobre palhadas de gramíneas. O cultivo mínimo e plantio direto são usados para cultivo orgânico de hortaliças plantadas em covas e/ou sulcos como brássicas, cebola, pimentão, quiabo, berinjela, jiló, tomate, promovendo revolvimento mínimo do solo e usados espécies adequadas para formação de palhada.

Fertilidade do solo

A produção de hortaliças é uma atividade extremamante desgastante quanto à fertilidade do solo. Apenas as forrageiras de corte, plantas para produção de silagem ou feno causam maior impacto na fertilidade do solo do que as hortaliças. Este desgaste se dá pelo uso intensivo do solo e retirada elevada de biomassa e nutrientes da área (Esquema 1).

Portanto, ao iniciar o cultivo orgânico de hortaliças em uma área, é fundamental a realização da análise química do solo para verificar seu pH e teores totais de nutrientes e de matéria orgânica. Ao longo dos anos, análises periódicas devem ser realizadas com o objetivo de acompanhar possíveis oscilações do pH e dos teores de nutrientes totais. A manutenção do solo em equilíbrio é o foco principal dos sistemas orgânicos de produção e a análise periódica do solo é o principal instrumento de acompanhamento deste fator, além de fornecer os suportes para seu restabelecimento.

A correção do solo ou calagem deve ser realizada três meses antes do plantio. Recomenda-se usar calcário dolomítico de boa qualidade e em quantidades nunca superiores a duas toneladas por hectare, por ano (Brasil, 1999). A elevação exagerada do pH pode causar redução na produção, por diminuir a disponibilidade de micronutrientes, tais como: Boro (B); Cobre (Cu), Ferro (Fe), Manganês (Mn) e Zinco (Zn) (Vieira, 1997). A quantidade de calcário e adubos a serem utilizados serão calculados com base na análise química do solo. Em relação a fosfatagem deve-se utilizar fontes de fósforo permitidas para o cultivo orgânico, que são os Termofosfatos, Fosfatos naturais e /ou Fosfatos Reativos (Brasil, 1999). Todas as fontes de nitrogênio, potássio e micronutrientes permitidas em cultivos orgânicos encontram-se descritas na instrução normativa do Ministério da Agricultura (Brasil 1999).

Em solos de primeiro ano recomenda-se a utilização de espécies de adubos verdes, leguminosas como Crotalária juncea, feijão de porco, feijão guandu, dentre outras, respeitando-se a época de plantio dessas culturas. Utiliza-se também algumas gramíneas consorciadas com essas leguminosas. Neste caso, o sorgo e o milheto são recomendados, devendo-se utilizar por volta de 30% de gramínea e 70% de leguminosas (a adubação verde será tratada mais detalhamente a seguir).

Esquema 1. Desgaste e recuperação da fertilidade do solo segundo o tipo de cultura.

Desgaste de FertilidadeRecuperação de fertilidade

Fonte: Khatounian (2001)

Matéria orgânica

A matéria orgânica do solo é o produto da acumulação de resíduos de plantas e animais parcialmente decompostos e re-sintetizados. Esses materiais, em ativo estado de decomposição, são submetidos ao ataque contínuo de microrganismos. A matéria orgânica dentre outras vantagens esta relacionada diretamente ao conceito de solo como organismo vivo que é um dos grandes princípios dos sistemas orgânicos de produção. A matéria orgânica do solo pode ser originada no próprio

Feno, silagem, forrageira(corte)

Olericultura Culturas anuais

Culturas anuais – plantio direto

Culturas perenes – entrelinhas vegetadas

Culturas perenes - arborizadas

Pastagens – pastejo direto

Pastagens – leguminosas fixadoras

Pousio arbustivo Pousio árboreo solo, fazendo parte na formação do solo ou ser originada pela ação do homem: massa vegetal localizada (adubo verde) ou materiais orgânicos trazidos de fora e incorporados ao solo, como adubos orgânicos.

Os solos tropicais apresentam naturalmente uma pequena fração de matéria orgânica, daí a importância da incorporação de materiais externos, como adubos orgânicos e adubos verdes a estes solos. Considerando a natureza da fração mineral da maioria dos solos tropicais a maior porção da capacidade de troca de cátions destes solos é proveniente da contribuição da matéria orgânica.

Para produção de hortaliças orgânicas, além de funcionar como reservatório de nutrientes e melhorar as propriedades químicas, biológicas e físicas do solo, a matéria orgânica atua em aspectos importantes para a produção destas culturas como: permite melhor arejamento do solo, reduz o efeito de erosão provocado pelas chuvas, aumenta a capacidade de retenção de água, melhora a estrutura do solo, melhora a drenagem e facilita o crescimento das raízes.

O olericultor orgânico deve ter em mente a possibilidade de reciclagem de restos vegetais e sobras do preparo e processamento, que na olericultura ocorrem com muita freqüência. A utilização do método de reciclagem de estercos animais e de biomassa vegetal permitem a independência do agricultor quanto à necessidade de incorporação de insumos externos ao seu sistema produtivo, minimizando custos, além de permitir usufruir os benefícios da matéria orgânica em todos os níveis.

Como componente essencial do solo, a matéria orgânica deve ser conservada e manejada em um nível de equilíbrio que permita o desenvolvimento de uma agricultura sustentável, pelo uso de métodos adequados de manejo de solo, compreendendo sistemas de preparo, rotação de culturas, adubação, estabelecimento de sistemas integrados de produção.

Adubação orgânica

Apesar da importância da adubação orgânica, o seu uso extensivo é limitado pela dificuldade de obtenção desses adubos em larga escala, bem como pelos problemas de transporte e distribuição. Entretanto seu uso é corriqueiro em culturas de exploração intensiva, como é o caso das hortaliças, inclusive no sistema convencional de produção. A escolha do adubo orgânico e a eficiência do seu uso dependem de alguns fatores, que devem ser considerados. Entre os principais destaca-se a qualidade e quantidade, os métodos de aplicação, os custos de sua aplicação e a disponibilidade local, evitando o transporte a grandes distâncias.

Os adubos orgânicos são volumosos, de valor variável em nutrientes, com a composição total raramente ultrapassando 10 a 20% dos teores encontrados nos fertilizantes minerais e são utilizados em quantidades bastante superiores a estes. Contudo, a utilização de adubos orgânicos não pode levar em conta apenas o seu teor em nutrientes, pois sua presença produz alterações positivas nas propriedades físicas e biológicas do solo.

Os adubos verdes, compostos orgânicos, esterco de animais, tortas e restos de culturas são alguns exemplos de adubos orgânicos utilizados no cultivo orgânico de Hortaliças. Nas tabelas 1, 2, 3, 4 e 5 são apresentados dados de caracterização química de alguns materiais.

O uso de estercos animais puros na olericultura orgânica é menos comum que nas formas compostadas por questões de ordem econômica e sanitária. Na cultura da cebola Pereira et al. (2002) avaliaram o uso esterco de curral (10, 20 e 40 t/ha) e esterco de galinha (5, 10 e 20 t/ha). Utilizando a cultivar CNPH 6400, no espaçamento de 0,25 x 0,25 cm, os autores mostraram que o esterco de curral na dose de 20 t/ha apresentou os melhores resultados para os caracteres: stand de plantas/m2, peso total de plantas/m2, peso total de bulbos/m2 e produção de total de bulbos do tipo I.

Tabela 1. Relação C/N e teores de N, P e K em fertilizantes orgânicos.

Esterco de carneiro Esterco de gado Esterco de galinha Esterco de porco Composto Palha de milho Palha de arroz Palha de feijão Capim colonião Grama Crotalária (C. juncea)* Guandu* Mucuna preta* Serragem de madeira

* Dados de florescimento em % na matéria seca. Adaptado de Kiehl (1985)

Tabela 2: Composição química (base seca) de alguns restos vegetais de interesse como matéria-prima para o preparo de fertilizantes orgânicos.

Material Matéria

Tabela 3: Teores de macro e micronutrientes de diversos resíduos orgânicos.

ResíduoC/N%Ppm

CN P2O5 Ca Mg K2ON a Fe Mn Cu Zn

Fonte: Adaptado de FUNDAÇÃO CARGILL (1983) e SOUZA (2002).

Tabela 4: Composição média e relação de proporção de NPK para diversas fontes de fertilizantes orgânicos e minerais.

Fertilizantes Orgânicos NPK

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