anaplasmose

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REVISTA CIENTÍFICA ELETRÔNICA DE MEDICINA VETERINÁRIA – ISSN: 1679-7353

Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária é uma publicação semestral da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia de Garça – FAMED/FAEF e Editora FAEF, mantidas pela Associação Cultural e Educacional de Garça ACEG. Rua das Flores, 740 – Vila Labienópolis – CEP: 17400-0 –

Ano VIII – Número 15 – Julho de 2010 – Periódicos Semestral

MACHADO, Gustavo Puglia

Médico Veterinário, Mestrando do Departamento de Higiene Veterinária e Saúde Pública da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" - UNESP, Campus Botucatu, São Paulo, Brasil. E-mail: machadogp@yahoo.com.br

DAGNONE, Ana Sílvia

Médica Veterinária, Docente do Departamento de Clínica Médica e Terapêutica de Pequenos Animais da Faculdade de Medicina Veterinária do Centro Universitário de Rio Preto - UNIRP, Campus I, São Paulo, Brasil. E-mail: asdagnone@terra.com.br

SILVA, Bruna Fernanda

Bióloga, Doutoranda do Departamento de Parasitologia Veterinária do Instituto de Biociência de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" - UNESP, Campus Botucatu, São Paulo, Brasil. E-mail: brusilvabio@gmail.com

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Ano VIII – Número 15 – Julho de 2010 – Periódicos Semestral

A anaplasmose trombocítica canina cujo parasita Anaplasma platys infecta trombócitos circulantes de cães é causada por uma bactéria gram negativa estritamente intracelular. É transmitida por carrapatos, sendo responsável pelo aparecimento de um quadro clínico denominado trombocitopenia cíclica canina, cujos sinais clínicos mais comuns são anorexia, letargia, perda de peso e depressão. Diferentemente a Ehrlichia canis, causa uma trombocitopenia não cíclica. e os seu sinais clínicos são mais acentuados. As inclusões intracelulares do parasita no esfregaço sanguíneo corado apresentam semelhanças com granulações intracitoplasmáticas de plaquetas normais, podendo levar a erros no diagnóstico clínico-laboratorial. Palavras-chave: Anaplasma platys, trombocitopenia, cães.

Canine thrombocytic anaplasmosis wich parasite is Anaplasma platys that infects canine platelets, is a disease caused by gram negative intracellular bacteria. It is a tickborne disease, with a clinical picture named canine cyclic thrombocytopenia which clinical signs more commonly seen are anorexia, lethargy, loss of weight and apathy, differently of Ehrlichia canis that causes non-cyclic thrombocytopenia, and its clinical signs are more severe with anorexia, loss of weight limbs edema, vomiting, limphadenopathy, polyarthritis, epistaxis, ecchimosis and dyspnea. The parasite

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Ano VIII – Número 15 – Julho de 2010 – Periódicos Semestral intracytoplasmatic inclusions in stained blood smear show similarities with intracitoplasmatyc inclusion of normal platelets, and it can cause diagnostic mistakes. Key words: Anaplasma platys, thrombocytopenia, dogs.

A anaplasmose trombocitica canina é uma doença causada por uma bactéria gram negativa, pertencente à ordem Rickettssiales, família Anaplasmataceae e gênero Anaplasma (BAKER et al., 1987; DUMLER et al., 1995; HARRUS et al., 1997; FERREIRA et al., 2008). O agente etiológico da anaplasmose canina que infecta as plaquetas do cão é denominado de Anaplasma platys causando um quadro clínico denominado de trombocitopenia infecciosa cíclica canina. Há ainda um outro agente pertencente a esta família denominado Anaplasma phagocytophilum (DUMLER et al., 1995; FERREIRA et al., 2008) que pode parasitar os leucócitos polimorfonucleares dos cães, ainda não descrito em cães no Brasil.

O agente A. platys é visualizado como inclusões basofílicas no interior de plaquetas em esfregaços corados com corante Giemsa ou Panótico. O vetor carrapato conhecido é o Riphicephalus sanguineus (SIMPSON et al., 1991; INOKUMA et al., 2000; SOUZA et al., 2004). A evolução da anaplasmose trombocítica canina varia de leve a severa no cão (DUMLER et al., 1995; FERREIRA et al., 2008). É caracterizada por trombocitopenia cíclica com parasitemia inicial onde um grande número de plaquetas são parasitadas. Alguns dias após a infecção há a diminuição

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Ano VIII – Número 15 – Julho de 2010 – Periódicos Semestral brusca no número de plaquetas e o agente causal desaparece da circulação. A contagem plaquetária retorna a valores próximos aos de referência em aproximadamente quatro dias (HARRUS et al., 1997; INOKUMA et al., 2000; GASPARNI et al., 2008). A parasitemia e trombocitopenia subseqüentes tendem a ocorrer periodicamente em intervalos de uma a duas semanas. Por este motivo a doença também é conhecida como trombocitopenia cíclica canina. Com a diminuição do número de plaquetas infectadas, a trombocitopenia pode continuar severa ou diminuir de intensidade. Os sinais clínicos começam após um período de incubação de oito a quinze dias, com alguns sinais digestivos (vômito e/ou diarréia), anorexia e distúrbios hemostáticos (HARVEY, 2006; GASPARNI et al., 2008).

Na transmissão entre cães sugere-se que ocorra principalmente pelo carrapato vermelho do cão, Riphicephalus. sanguineus, mas também através da inoculação de sangue de animal infectado, sendo que os cães parasitados desenvolvem trombocitopenia cíclica, com uma ou duas semanas de periodicidade, que ocorre simultaneamente com a parasitemia das plaquetas (SOUZA et al., 2004; HARVEY et al., 2006; GASPARNI et al., 2008). O ciclo de desenvolvimento deste agente no cão ainda não está completamente definido, entretanto sugere-se ser similar ao da Ehrlichia canis (DAGNONE, 2002; GASPARNI et al., 2008).

A infecção aguda pelo Anaplasma platys caracteriza-se pela parasitemia cíclica dos trombócitos seguida de trombocitopenia e linfoadenopatia generalizada. Após um período de trombocitopenia as plaquetas tendem a retornar a valores (200.0 - 400.0 mm3) normais após três a quatro dias e estas fases acontecem em intervalos de uma a duas semanas (INOKUMA et al., 2000; HARVEY et al., 2006; GASPARNI et al.,2008; WOODY & HOSKINS, 1991). Ela leva também pode levar a uma redução da agregação plaquetária associada a uma trombocitopenia regenerativa. A medula óssea pode apresentar hiperplasia megacariocítica na fase aguda da doença,

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Ano VIII – Número 15 – Julho de 2010 – Periódicos Semestral podendo ocorrer hipergamaglobulinemia com elevação dos valores de IgM e IgA e redução dos níveis de ferro e da capacidade de fixação deste (GASPARNI et al., 2008).

Hematologicamente, parasitemias e trombocitopenias aparecem ciclicamente com um período médio de dez dias. Nos dias em que ocorre trombocitopenia, as inclusões não são observadas. O número de plaquetas parasitadas decresce durante o ciclo, porém a trombocitopenia permanece acentuada para tornar-se branda posteriormente (DUMLER et al., 1995; HARVEY, 2006; GASPARNI et al., 2008; DAGNONE, 2008).

Com a evolução do quadro, a trombocitopenia tenderá ao agravamento e a tendência cíclica diminuirá. O número de eritrócitos e leucócitos sofrerá redução ligeira, não caracterizando anemia e/ou leucopenia (HARVEY et al., 2006; GASPARNI et al., 2008; DAGNONE, 2008).

Como já citado anteriormente, a anaplasmose trombocítica canina é responsável pelo aparecimento de um quadro clínico denominado trombocitopenia cíclica canina (WOODY & HOSKINS, 1991; DAWSON et al., 1991; DUMLER et al., 2001). Depois de um período de incubação de 8 a 15 dias, a infecção pelo A. platys é caracterizada pela parasitemia ciclica das plaquetas seguida por trombocitopenia e generalizada linfoadenomegalia (DAWSON et al., 1991). Os sinais clínicos mais comuns são anorexia, letargia, perda de peso, depressão (DAWSON et al., 1991; GASPARNI et al., 2008) e raramente, manifestações hemorrágicas, a despeito de severa trombocitopenia (DAWSON et al., 1991; DAGNONE, 2002). Em alguns casos observa-se diminuição na contagem total de leucócitos e volume globular com discreta hipoalbuminemia e hiperglobulinemia (WOODY & HOSKINS, 1991). As plaquetas parasitadas e a trombocitopenia diminuem durante a infecção crônica, resultando em raras plaquetas parasitadas no esfregaço sangüíneo (FRENCH et al., 1983; DAWSON et al., 1991; TRAPP et al., 2006).

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O Anaplasma platys pode ser visualizado como uma inclusão intracitoplasmática em plaquetas em esfregaços sanguíneos feitos de sangue de total ou papa de leucócitos. Através do método de papa de leucócitos onde a amostra de sangue com EDTA será submetida à centrifugação em baixa rotação (2000rpm), para separação da camada plasmática, das camadas leucocitárias e eritrocitária, sendo então realizado esfregaço sanguíneo delgado da camada leucocitária, seguido da coloração do esfregaço pela técnica de coloração com Giemsa, Wright ou Panótico, podendo assim identificar com maior facilidade as inclusões intracitoplasmática (denominadas de mórulas) do agente etiológico em plaquetas do animal parasitado (DAWSON et al., 1991; DUMLER et al., 2001; INOKUMA et al., 2001).

Muitos testes sorológicos estão disponíveis para a detecção de agentes da família

Anaplasmataceae, tais como fixação do complemento, hemaglutinação indireta, Reação de Imunofluorescência Indireta (RIFI), Ensaio Imunenzimático (ELISA), Dot-blot ELISA e Western blot. A RIFI foi desenvolvida para a detecção de anticorpos séricos, porém a maior desvantagem deste teste é o grande número de reações inespecíficas originadas por antígenos comuns a outros agentes do mesmo grupo. A detecção de anticorpo para agentes desta Família, também pode ser feita através do teste de Dot-blot ELISA. Este método não requer equipamento sofisticado, mostrando-se tão sensível e específico como a RIFI, sendo realizado de uma maneira mais rápida (FRENCH et al., 1983; MASSUNG et al., 1998; INOKUMA et al., 2001; TRAPP et al., 2006). No entanto já foi descrita a ocorrência de reação cruzada em cães PCR-positivos para Anaplasma platys testados em ELISA comercial para detecção de anticorpos de Anaplasma phagocytophilum (FERREIRA et al., 2008).

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A PCR (Reação em cadeia pela polimerase) dentre as diferentes técnicas de diagnóstico direto é considerada a de maior sensibilidade no diagnóstico desta doença e tem auxiliado na classificação taxonômica desta e de outros agentes infecciosos. Auxilia na identificação dos carrapatos que podem servir de vetores para esta doença, distinguem quais pacientes permanecem com infecção persistente, e quais animais com altos títulos na RIFI, foram tratados com sucesso (PERSING, 1996; MASSUNG et al., 1998; INOKUMA et al., 2001; BROWN et al., 2005) . A PCR também auxilia na detecção de novas cepas ou variantes de espécies e permite a detecção precoce de infecção (em alguns casos até quatro dias pós-infecção). Materiais biológicos que podem ser utilizados para a identificação do organismo incluem o sangue total ou frações celulares, tecidos frescos ou parafinados, medula óssea e carrapatos (PERSING, 1996; VINASCO et al., 2007).

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico diferencial para anaplasmose canina pode ser feito para doenças imunomediadas de natureza idiopática, secundária a drogas, neoplasias, infecciosas (erliquiose monocitica canina, cinomose, leishmaniose), pós-vacinal e microangiopatias (hemangioma, hemangiossarcoma) (DUMLER et al., 1995; DUMLER et al., 2001; HARVEY, 2006; MACHADO, 2004; MELTER et al., 2007).

A localização intraplaquetária da A. platys é um fator limitante na eficácia da terapia antibacteriana dificultando muitas vezes a erradicação deste patógeno do hospedeiro infectado. Entre as drogas eficazes no tratamento para anaplasmose, as tetraciclinas e seus derivados (doxiclina) estão

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Ano VIII – Número 15 – Julho de 2010 – Periódicos Semestral entre as que têm maiores probabilidades de eliminar o agente (WOODY & HOSKINS, 1991; DAWSON et al., 1991; DAGNONE et al., 2002) .

O dipropionato de imidocarb é bastante eficaz no tratamento da anaplasmose, principalmente em casos de co-infecção ou com infecção concomitante por Babesia spp (DAGNONE et al., 2002; DAGNONE et al., 2004).

A anaplasmose trombocítica canina é uma enfermidade de grande importância na clínica de pequenos animais, principalmente quando não diagnosticada precocemente, retardando o início da terapia adequada. Os sinais clínicos variam com a severidade da infecção, a resposta imunológica do hospedeiro, os órgãos atingidos e a presença de co-infecção com outros microrganismos transmitidos pelo mesmo vetor.

A incidência desta enfermidade vem aumentando nos últimos anos. Existem dificuldades no diagnóstico de A. platys através da observação de mórulas no interior de plaquetas devido ao caráter cíclico da trombocitopenia e o teste de imunofluorescência indireta detecta anticorpos para A. platys durante um curto período (3-7 dias) após o aparecimento de plaquetas parasitadas.

O diagnóstico etiológico é importante para o monitoramento epidemiológico, porém a maioria dos testes utilizados na rotina laboratorial apresenta limitações, no entanto com a recente introdução de técnicas diagnósticas de biologia molecular (PCR) na qual permitem caracterizar o gênero e a espécie da família Anaplasmataceae que está acometendo o paciente, apresentando maior sensibilidade e especificidade quando comparado a reação de imunofluorescência indireta, otimizando o diagnóstico.

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