Doenças de transmição hídrica

Doenças de transmição hídrica

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O que é Doença Relacionada à Água ou de Transmissão Hídrica? Há vários tipos de doenças que podem ser causadas pela água. São assim denominadas quando causadas por organismos ou outros contaminantes disseminados diretamente por meio da água. Em locais com saneamento básico deficiente (falta de água tratada e/ou de rede de esgoto ou de alternativas adequadas para a deposição dos dejetos humanos), as doenças podem ocorrer devido à contaminação da água por esses dejetos ou pelo contato com esgoto despejado nas ruas ou nos córregos e rios. A falta de água também pode causar doenças, pois, sua escassez impede uma higiene adequada. Incluem‐se também na lista de doenças de transmissão hídrica, aquelas causadas por insetos que se desenvolvem na água. São inúmeros os contaminantes: microrganismos como bactérias, vírus e parasitas, toxinas naturais, produtos químicos, agrotóxicos, metais pesados, etc. É muito importante conhecer essas doenças e a forma como elas afetam a saúde dos grupos populacionais, onde são adquiridas, e quais ações e cuidados ajudam a preveni‐las ou reduzir suas ocorrências. Como essas doenças se transmitem para o ser humano? Essas doenças se transmitem de várias maneiras: Por ingestão de água contaminada: são doenças provocadas devido à ingestão direta de água contaminada, em geral, em locais onde não há sistema de abastecimento de água tratada, e os grupos populacionais fazem uso de minas, poços, bicas, ou então, utilizam água mineral de fontes contaminadas. Eventualmente, acidentes no sistema de abastecimento de água tratada, ou problemas em sua manutenção podem acarretar contaminações e causar doença na população que se serve do mesmo. Muitas dessas doenças causam diarréia aguda; segundo a OMS, 80% das diarréias agudas no mundo estão relacionadas ao uso de água imprópria para consumo, não tratada, a sistema de esgoto ausente ou inadequado ou a práticas de higiene insuficientes, especialmente em países ou áreas onde são precárias as condições de vida. Estes casos resultam em 1,5 milhão de mortes a cada ano, afetando principalmente crianças menores de 5 anos, devido à desidratação. As principais doenças relacionadas à ingestão de água contaminada são: cólera, febre tifóide, hepatite A e doenças diarréicas agudas de várias etiologias: bactérias ‐ Shigella, Escherichia coli; vírus – Rotavírus, Norovírus e Poliovírus (poliomielite – já erradicada no Brasil); e parasitas – Ameba, Giárdia, Cryptosporidium, Cyclospora. Algumas dessas doenças possuem alto potencial de disseminação, com transmissão de pessoa para pessoa (via fecal‐oral), aumentando assim sua propagação na comunidade. Podem também, ser transmitidas por

Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo –SES/SP Coordenadoria de Controle de Doenças ‐ CCD Centro de Vigilância Epidemiológica – CVE/CCD Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar – DDTHA/CVE

‐ Perguntas e Respostas e Dados Estatísticos –

alimentos devido às mãos mal lavadas de preparadores de alimentos, portadores/assintomáticos ou doentes. Casos individuais de doença diarréica aguda, em geral, não são de notificação compulsória. No Estado de São Paulo, notificam‐se casos de diarréia aguda atendidos pelas unidades sentinela em municípios participantes do programa de Monitorização da Doença Diarréica Aguda (MDDA), ou quando constituem forte suspeita de surtos/epidemia e de determinadas doenças como Cólera e Febre Tifóide (Doenças de Notificação Compulsória). A hepatite A também é de notificação obrigatória, tanto casos individuais quanto surtos. Por contato da pele/mucosas com água contaminada: são doenças causadas devido ao contato da pele ou mucosas com água contaminada por esgoto humano ou por fezes ou urina de animais. Destacam‐se como principais doenças, algumas verminoses transmitidas pela pele (água ou solo contaminados), a esquistossomose (água contaminada e presença de determinadas espécies de caramujo no seu ciclo de transmissão) e a leptospirose (águas, principalmente de enchentes, solo úmido ou vegetação, contaminados pela urina de rato). A esquistossomose (descrita mais adiante) e a leptospirose são de notificação compulsória. As verminoses somente são notificadas quando se manifestam por surtos. Para saber sobre leptospirose acesse: http://www.cve.saude.sp.gov.br/htm/CVE_DAT.HTM Por falta de água ou de rede de esgoto/alternativas adequadas para deposição de dejetos ou práticas precárias de higiene: a falta de água impede a higienização adequada e pode causar uma série de doenças, por exemplo, tracoma devido à Chlamydia trachomatis, doença conhecida por não se lavar o rosto ‐ os olhos, de rotina; piolhos ou escabiose, que passam de pessoa para pessoa. Locais sem rede de esgoto ou sem banheiros ou fossas adequadas para a deposição de dejetos humanos possibilitam a transmissão da ascaridíase (Ascaris lumbricóides, adquirida devido à ingestão de ovos do parasita), de helmintíases ou outras verminoses, cujos parasitas podem ser carreados para água ou para os alimentos também por meio das moscas. Água tratada e equipamentos de saneamento (banheiros, latrinas, fossas) e comportamentos adequados de higiene são importantes para redução das doenças relacionadas a saneamento e higiene. Essas doenças não são de notificação compulsória, exceto quando se manifestam por surtos, podendo haver em determinadas regiões de risco, programas especiais de prevenção e controle. Por insetos/vetores que se desenvolvem na água: são aquelas transmitidas pela picada de mosquitos/vetores que se desenvolvem na água tal como dengue, febre amarela, filariose, malária e algumas encefalites. Em enchentes pode haver um aumento de insetos potencialmente de risco para essas doenças. Segundo a OMS, no mundo, mais de 1 milhão de pessoas morrem a cada ano devido às doenças veiculadas por mosquitos. Dengue, febre amarela, malária e outras doenças que se manifestem com sintomas febris agudos, com icterícia e/ou hemorragia (Síndrome Febril Íctero‐Hemorrágica Aguda) são de notificação compulsória. Para saber mais sobre essas doenças acesse: http://www.cve.saude.sp.gov.br/htm/CVE_DAT.HTM O que são Doenças relacionadas às Águas de Recreação? São aquelas transmitidas em piscinas, parques aquáticos, spas, rios, lagos ou oceanos, por meio de ingestão, contato com a pele ou olhos, ou pela respiração. Causam uma variedade enorme de sintomas, incluindo diarréia aguda, infecções de pele, otites, conjuntivites, sintomas neurológicos, doença respiratória, etc.. As doenças diarréicas, em geral, são causadas

pelo parasitas Cryptosporidium e Giardia, pelas bactérias Shigella e alguns tipos de E. coli, e pelo vírus Norovírus, enteropatógenos que freqüentemente estão presentes nessas águas. As doenças causadas por águas de recreação não são de notificação compulsória, exceto quando se manifestam por surtos. Dados sobre ocorrência de conjuntivites (não necessariamente devido à transmissão por águas de recreação) podem ser obtidos no site: http://www.cve.saude.sp.gov.br/htm/CVE_CONJU.HTM O tratamento da água para beber, bem como a coleta, tratamento e disposição adequada do esgoto sanitário no meio ambiente são fatores fundamentais para a redução da transmissão dessas doenças, em todas as suas formas, na população. Há regulamentos sanitários e recomendações para o tratamento de águas para lazer doméstico, para piscinas e parques aquáticos de uso público e outros ambientes, que se cumpridos previnem ou reduzem a ocorrência dessas doenças (acesse o site: http://www.cvs.saude.sp.gov.br Quais são os sintomas das doenças relacionadas à ingestão de água contaminada/ saneamento deficiente? Os mais comuns são: diarréia líquida, náusea, vômitos, cólicas abdominais, e febre em alguns casos. A doença dura de um dia a uma semana, em geral três dias. Entre aquelas que se manifestam com diarréia aguda estão as enteroviroses causadas mais freqüentemente pelo rotavírus e norovírus, as parasitoses por Cryptosporidium e Giardia, e as causadas por bactérias como Campylobacter, Escherichia coli, Shigella e Vibrio cholerae (cólera). Essas bactérias podem causar quadros mais graves e até óbito, principalmente em crianças, gestantes, idosos e pessoas imunocomprometidas, com danos e complicações em outros órgãos. Entre as Samonellas, a de maior importância relacionada à água é a febre tifóide, causada pela Salmonella Typhi, veiculada por água ou alimentos contaminados com esgoto (por ex., verduras e frutas rasteiras) e também, por alimentos preparados por mãos sujas ou mal lavadas de portadores (pessoas que tiveram a infecção e permanecem contaminadas, sem sintomas). Provoca transtornos abdominais (cólicas, diarréia e constipação) e febre alta, e nos casos mais graves, várias complicações que podem levar ao óbito. A hepatite A é causada por um vírus que pode ser veiculado pela água ou alimentos contaminados com esgoto/dejetos humanos e também por alimentos preparados por indivíduos com a doença (com ou sem sintomas), devido às mãos sujas ou mal lavadas. Afeta o fígado, causando mal‐estar, prostração, náusea, vômito e icterícia, e mais raramente, óbito. Entre as toxinas naturais estão as algas cianofíceas que liberam determinadas toxinas que podem causar diarréia, proliferando‐se em águas poluídas com esgoto humano. Além disso, o despejo de resíduos químicos, agrotóxicos, metais pesados em rios e represas causam doenças, nem sempre de fácil identificação, por se desenvolverem de forma lenta, além de contaminarem peixes e outros animais. Em algumas ocasiões, o despejo destas substâncias químicas no ambiente é de tamanha proporção que ocasiona intoxicações agudas e danos graves à saúde das populações locais. Para saber sobre contaminações ambientais e risco de doenças acesse: http://www.cve.saude.sp.gov.br/htm/cve_amb.html Qual o tratamento para as doenças relacionadas à ingestão de água contaminada/ saneamento deficiente? Para aquelas com manifestação diarréica o tratamento básico é feito a partir de ingestão de sais hidratantes orais, e de muito líquido (água potável/tratada, sucos). Para os casos mais

graves que exijam internação, pode ser necessária hidratação endovenosa e outros procedimentos médicos dependendo das manifestações clínicas e órgãos afetados. Não há vacinas para a grande maioria de patógenos. Há vacina para determinados tipos de rotavírus (indicada para criança menores de 1 ano – está no calendário infantil de vacinação desde 2006) e contra a hepatite A. A vacina contra a hepatite A não está incluída no calendário infantil do PNI/MS (Programa Nacional de Imunização/Ministério da Saúde), por isso não se encontra disponível nos postos de saúde. Contudo, no Estado de São Paulo, vem sendo utilizada para controle/bloqueio de surtos de grandes proporções, adquirida e aplicada pelo serviço público de saúde municipal nessas ocasiões. Utiliza‐se, também, a imunoglobulina comum para profilaxia da doença em comunicantes domiciliares ou contatos próximos. As vacinas contra a cólera e febre tifóide não conferem imunidade duradoura e são utilizadas em situações específicas, em geral, associadas à viagem ou tipo de ocupação profissional. O que é surto de doença relacionada à ingestão de água contaminada/saneamento deficiente? Considera‐se surto causado por ingestão de água quando duas ou mais pessoas apresentam a mesma doença, após consumirem água contaminada da mesma origem. Essa definição aplica‐ se, também, para um grupo de pessoas que adoeça com a mesma doença tendo se exposto a uma mesma fonte de contaminação, seja por ingestão, contato, inalação ou outras fontes ou formas/veículos/vetores de transmissão. A investigação epidemiológica torna‐se de extrema importância para se identificar e diferenciar a causa da transmissão e a partir dessa constatação tomar as medidas mais eficazes de controle e prevenção. Quais as causas mais freqüentes de contaminação da água para consumo humano? A implantação de sistemas públicos de água tratada e de esgoto reduziu drasticamente os casos de diarréia e de outras doenças infecciosas. Essas medidas, associadas a uma maior oferta de ações básicas de saúde (programa da saúde da criança, sais orais, programa da saúde da família/agentes comunitários) contribuíram, especialmente, para a redução da mortalidade pelas doenças entéricas. Contudo, águas provenientes de bica, fontes, poços (inclusive artesianos) e até mesmo água mineral (engarrafada sem os procedimentos adequados, ou de fontes clandestinas) respondem por parte dos surtos notificados veiculados por água. Saneamento básico deficiente, especialmente a falta de rede de esgoto ou de alternativas para a deposição de dejetos, em áreas rurais ou de invasão populacional em periferia urbana, é um importante fator de risco para a ocorrência de surtos de diarréia, de hepatite A e de febre tifóide e para a persistência da circulação de microrganismos patogênicos na população. Outro importante fator de risco é o esgoto produzido pelas áreas urbanas e periféricas, e de áreas de invasão populacional, jogado em rios, córregos, represas, sem tratamento prévio. Populações no entorno, ao fazer uso dessa água estão expostas às várias doenças que podem ser adquiridas por ingestão ou contato, em atividades ocupacionais ou de lazer. Quem faz a vigilância das doenças de transmissão hídrica no Estado de São Paulo? É feita pelas seguintes instituições: ‐ Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE), da Secretaria de Estado da Saúde e equipes de vigilância epidemiológica, regionais e municipais, são responsáveis pela captação e investigação dos surtos e das doenças de notificação compulsória. No CVE, a vigilância das

doenças causadas pela ingestão de água é coordenada pela Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar, estando também em seu âmbito, a vigilância da Esquistossomose (adquirida por contato). As demais zoonoses adquiridas pelo contato com a água e de notificação compulsória estão no âmbito da Divisão de Zoonoses. Tem papel importante a Divisão de Doenças Ocasionadas pelo Meio Ambiente que desenvolve a vigilância relacionada às causas ambientais das doenças, incluindo‐se as relacionadas às contaminações químicas/substâncias tóxicas. ‐ Laboratórios do Instituto Adolfo Lutz (IAL), da Secretaria de Estado da Saúde, central e regionais, e laboratórios públicos e conveniados ao SUS nos municípios, são responsáveis pelos exames laboratoriais para identificação do agente causador das doenças. ‐ Centro de Vigilância Sanitária, da Secretaria de Estado da Saúde, e equipes regionais e municipais respondem pela fiscalização de qualidade das águas (PRÓ‐ÁGUA) e outros problemas ambientais, etc.. Trata‐se de um processo integrado a outros órgãos como SVS/MS (Secretaria de Vigilância em Saúde/Ministério da Saúde), ANVISA (Agencia Nacional de Vigilância Sanitária), órgãos de saneamento e meio ambiente, como SABESP, CETESB, Secretaria de Meio Ambiente, entre outros. Por que surtos e determinadas doenças relacionadas à ingestão de água contaminada/saneamento deficiente devem ser notificados e investigados e como são identificados no Estado de São Paulo? A ocorrência de um surto levanta a suspeita de que possa ter ocorrido alguma falha no sistema de água ou esgoto, ou a emergência de algum outro fator de risco que passou a afetar a saúde da comunidade ou de determinado grupo de pessoas. Algumas doenças apresentam forte associação com água e saneamento, e o acompanhamento de sua tendência ‐ ocorrência da doença com aumento ou diminuição de casos, permite avaliar melhor as ações em saúde pública tomadas para seu controle e prevenção. Os surtos e doenças de notificação compulsória são identificados por meio dos seguintes subsistemas, coordenados pela Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar/CVE: 1) MDDA ‐ Monitorização da Doença Diarréica Aguda – é o registro semanal de casos de doença diarréica aguda nas unidades sentinela dos municípios. Essas unidades devem ser representativas do atendimento à diarréia na localidade, de modo que a identificação de aumento nesse serviço de saúde deve refletir, por decorrência, um aumento dos casos de diarréia em toda a comunidade. O sistema tem por objetivo identificar precocemente problemas de ordem coletiva que afetem a comunidade ou grupo de pessoas. É por isso, um bom sistema para se identificar precocemente surtos. Entretanto, o número de casos registrados não permite associação genérica com doenças relacionadas à ingestão direta de água, sem outros estudos complementares no local a ser avaliado. Assim, a avaliação e constatação de aumento do número de casos, ou de mudança de faixa etária ou da gravidade de casos são sinais de alerta para se desencadear a investigação de ocorrência de possíveis surtos ou epidemia no município, ou em locais e áreas geográficas específicas. Pela quantidade de eventos registrados não é viável a realização de exames laboratoriais para todos os casos. Tais exames somente são realizados quando há suspeita de ocorrência de surto ou epidemia, coletando‐se então, amostras de fezes ou outros espécimes biológicos das pessoas envolvidas nestes eventos.

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