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Evidentemente, ciência e técnica (mesmo desvinculada do fazer “artístico”) são motivas de orgulho para o homem. As máquinas tornam-se cada vez mais sofisticadas, proporcionando enormes benefícios em todos os setores; o avanço da medicina traz alívio a muitas pessoas, as pesquisas interplanetárias revelam a existência de novos mundos, expandindo o conhecimento a limites jamais sonhados.

Não obstante, outros aspectos trazem à luz um terrível impasse: além do aprisionamento causado pelo fascino da técnica industrial - que leva muitas vezes ao menosprezo pela capacidade criadora do homem, bem como de sua própria essência espiritual com um todo, pensemos também nos males decorrentes do uso indevido da energia atômica, no poder de destruição da indústria bélica, no desequilíbrio ecológico gerado pela poluição, e nos problemas de aceitação da ciência e da técnica ocidentais em outros tipos de cultura.

Diante do real, talvez possamos trazer de volta a dimensão originária da téchne4eda epistéme5,resgatando, portanto, a plenitude do criar e do conhecer.

Nos últimos três séculos, a ciência e a tecnologia foram capazes de alterar a fase do mundo, com mudanças radicais como nunca se teve notícia antes. O rigor de o novo saber e a eficácia da nova técnica propõem a inúmeras questões filosóficas, entre elas a necessidade de criticar os mitos que inevitavelmente daí surgiram. Como decorrência do cientificismo, desenvolveu-se o mito da especialista, cuja conseqüência é a de tecnocracia: apenas teria capacidade de decisão o técnico competente, portanto, saber é poder.

Ciência Moderna e Contemporânea transforma a técnica em tecnologia, isto é, passa da máquina-utensílio à máquina como instrumento de precisão, que permite conhecimentos mais exatos e novos conhecimentos. Essa transformação traz duas conseqüências principais: a primeira se refere ao conhecimento cientifico e a segunda, ao estatuto dos objetos técnicos:

Oconhecimento científico é concebido como lógica da invenção (para solução de problemas teóricos e práticos) e como lógica da construção (de objetos teóricos), graças á possibilidade de estudar os fenômenos sem depender apenas dos recursos de nossa percepção edenossa inteligência. É assim que, por exemplo, Galileu se refere ao telescópio como instrumento cuja função não é a de simplesmente aproximar objetos distantes, mas de corrigir as distorções de nossos olhos e garantir-nos a imagem correta das coisas. Ao mesmo foi dito sobre o microscópio, sobre a balança de precisão, sobre o cronômetro.

Em nosso tempo, os instrumentos técnico-tecnológicos vão além da correção de nossa percepção, pois corrigem falhas de nosso pensamento, uma vez que é inteligência artificial (o computador foi chamado de “cérebro eletrônico”) mais acurada do que nossa inteligência individual. Evidentemente, são conhecimentos científicos que permitem a construção desses instrumentos, mas dando-lhe capacidades que cada um de nos, enquanto indivíduo, não possui. Ora, os objetos técnico-tecnológicos ampliam a idéia da ciência como invenção e construção dos próprios fenômenos;

Os objetos técnicos são criados pela ciência como instrumentos de auxilio ao trabalho humano, máquinas para dominar a Natureza e a sociedade, instrumentos de precisão para o conhecimento científico e, sobretudo, em sua forma contemporânea, como autômatos.

4Téchne : relativo às diversas modalidades da criação humana, incluindo, é claro, o que hoje se considera como "arte" propriamente dita. 5Epistéme : relativo ao conhecimento em geral.

Estes são os objetos técnico-tecnológicos por excelência, porque possuem as seguintes características, marcas do novo estatuto desse objeto:

--São conhecimento cientifico objetivado, isto é depositado e concretizado num objeto.

São resultado e corporificação de conhecimentos científicos;

-São objetos que possuem em si mesmo o princípio de sua regulação, manutenção e transformação. As máquinas antigas dependiam de forças externas para realizar suas funções (alavancas, polias, manivelas, força muscular de seres humanos ou animais, força hidráulicas, etc.). As máquinas modernas são autômatos porque, dado o impulso elétrico-eletrônico inicial, realizam por si mesmas todas as operações para as quais foram programadas, incluindo a correção de sua própria ação, as realimentações de energia, a transformação. São auto-reguladas e autoconservadas, porque possuem em si mesmas as informações porque possuem em si mesmas as informações necessárias ao seu funcionamento.

-Como conseqüência, não são propriamente uns objetos singulares ou individuais, mas um sistema de objetos interligados por comandos recíprocos:

-São sistemas que, uma vez programados, realizam operações teóricas complexas, que modificam o conteúdo dos próprios conhecimentos científicos, isto é técnicotécnológicos fazem parte do trabalho teórico.

Osenso comum social ignora essas transformações da ciência e da técnica e conhece apenas seus resultados mais imediatos: os objetos que podem ser usados por nós (máquina de lavar, videogame, televisão a cabo, máquina de calcular, computador, robô industrial, etc...) Para usá-los, precisamos receber um conjunto de informações detalhadas e sofisticadas, tendemos a identificar o conhecimento científico com seus efeitos tecnológicos. Com isso, deixamos de perceber o essencial, isto é, que as ciências passaram a fazer parte das forças econômicas produtivas da sociedade e trouxeram mudanças sociais de grande porte na divisão social do trabalho, na produção e distribuição dos objetos, na forma de consumi-los. Não percebemos que as pesquisas científicas são financiadas por empresas e governos, demandando grandes somas de recursos que retornam, graças aos resultados obtidos, na forma de lucro e poder para os agentes financiadores.

Por não percebermos o poderio econômico das ciências, lutamos para ter acesso, para possuir e consumir os objetos tecnológicos, mas não lutamos pelo direito de acesso tanto aos conhecimentos como as pesquisas científicas, nem lutamos pelo direito de decidir seu modo de inserção na vida econômica e política de uma sociedade.

Eis porque, entre outros efeitos de nossa confusão entre ciências e tecnologia, aceitamos, no Brasil, políticas educacionais que profissionalizam os jovens no segundo grau, portanto, antes que tenham podido ter acesso às ciências propriamente ditas que destina poucos recursos públicos a área da pesquisa nas universidades. Portanto, mantendo os cientistas na mera condição de reprodutores de ciências produzidas em outros países e sociedade.

Além do problema anterior, isto é, de teorias científicas serem formuladas a partir de certas decisões e escolhas do cientista ou do laboratório onde trabalham os cientistas, com conseqüências sérias para os seres humanos, um outro problema também é trazido pelas ciências: o de seu uso. A teoria científica pode nascer para dar respostas a um problema prático ou técnico. Também a investigação científica pode ir avançando para descobertas de fenômenos e relações que já não possuem relação direta com os problemas práticos iniciais, como conseqüência, é freqüência, é freqüente uma teoria estar muito mais avançada do que as técnicas e tecnologias que poderão aplicá-las. Muitas vezes, alias, o cientista sequer imagina que a teoria terá aplicação prática. È exatamente isso que torna o uso da ciência algo delicado, que, em geral, escapa das mãos dos próprios pesquisadores. È assim, por exemplo, que a microfísica ou física quântica desemboca na fabricação das armas nucleares; a bioquímica e a genética, na de armas bacteriológicas. Teoria sobre a luz e o som permitem a construção de satélites artificiais, que, se são conectáveis instantaneamente em todo o globo terrestre para a comunicação e informação, também são responsáveis por espionagem militar e por guerras com armas teleguiadas.

Uma das características mais novas das ciências está em que as pesquisas cientificas passaram a fazer parte das forças produtivas da sociedade, isto é economia. A automação, a informatização, a telecomunicação determinam formas de poder econômico, modos de organizar o trabalho industrial e os serviços, criam profissões e ocupações novas, destroem profissões e ocupações antigas, introduzem a velocidade na produção de mercadorias e em sua distribuição e consumo, modificando padrões industriais, comerciais e estilos de vida. A ciência tornou-se parte integrante e indispensável da atividade econômica; tornou-se agente econômico e político.

Além de fazer parte essencial da atividade econômica, a ciência também passou a fazer parte do poder político. Não é por acaso, por exemplo, que governos criem ministérios e secretarias de ciências e tecnologias e que destinem verbas para financiar pesquisas civis e militares. Do mesmo modo que as grandes empresas financiam pesquisas e até criam centros e laboratórios de investigação cientifica, assim também os governos determinam quais as pesquisas que serão financiadas. Essa nova posição de ciências na sociedade contemporânea, além de indicar que é mínimo ou quase inexistente o grau de neutralidade e de liberdade dos cientistas, indica também que o uso das ciências define os recursos financeiros que nelas serão investidos. A sociedade, porém, não luta pelo direito de interferir nas decisões de empresas e governos quando estes decidem financiar um tipo de pesquisa em vez de outra. Dessa maneira, o campo cientifico torna-se cada vez mais distante da sociedade sem que esta encontre meios para orientar o uso das ciências, pois este é definido antes do inicio das próprias pesquisas e fora do controle que a sociedade poderia exercer sobre ele. Um exemplo de luta social para interferir as decisões sobre as pesquisas seus usos encontra-se nos movimentos ecológicos e em muitos movimentos sociais ligados a reivindicações de direito. De um modo geral, porém, a ideologia cientificista tende a ser muito mais forte que eles e a liminar os resultados que desejariam obter.

Um esforço imenso é despendido pelo homem no domínio da natureza. Na medida do possível, alguns reservam para si as funções leves e encarregam outros do trabalho mais penoso. A predominância de escravos e servos no exercício das atividades manuais sempre levou à desvalorização desse tipo de trabalho, enquanto apenas as atividades intelectuais eram consideradas verdadeiramente dignas do homem. Os romanos, retomando a tradição da Grécia, chamavam de ócio (otium) não propriamente a ausência de ação ,mas o ocupar-se com as ciências, as artes, o trato social, o governo, o lazer produtivo. Ao ócio opunham o negocio (o nec-otium, ou seja, a negação do otium), enquanto atividade que tem por função satisfazer as atividades elementares .Evidentemente é o ócio que constitui para eles o ser próprio do homem , e alcançá-lo era privilégio reservado a poucos. Tal maneira de pensar supõe a existência da divisão social com a manutenção do sistema escravista ou da servidão. Mesmo Aristóteles sabia disso, e diz em sua política, que haveria escravidão enquanto as lançadeiras não trabalhassem sozinhas. A partir do final da idade media surge uma nova concepção a respeito da importância da técnica. Antes desvalorizada, ela torna-se o instrumento adequado para transformar o homem em "mestre e senhor da natureza".

Averiguando as circunstâncias sociais e econômicas que possibilitaram uma mudança tão decisiva para a história da humanidade, encontramos no surgimento da burguesia os elementos que tornaram necessária a nova maneira de pensar e agir. Os burgueses, ligados ao artesanato e comércio, valorizavam o trabalho e tinham espírito empreendedor. Ora, o sucesso e enriquecimento desse novo segmento social passam a exigir cada vez mais o concurso da técnica para a ampliação dos negócios: construção de navios mais ágeis, utilização da bússola para orientação nos mares em busca de novos portos, aperfeiçoamento dos relógios (tempo é dinheiro). Um bom exemplo do efeito transformador da técnica é a pólvora. Conhecida a muito nas civilizações orientais, como a China, onde era utilizada na confecção de fogos de artificio, ao ser levada para a Europa, ira redimensionar as artes bélicas, ao ser usada em canhões para o ataque aos até então inacessíveis castelos da nobreza.

Avalorização da técnica altera a concepção de ciência. Se antes o saber era contemplativo, ou seja, voltado para a compreensão desinteressada da realidade, o novo homem busca o saber ativo, o conhecimento capas de atuar sobre o mundo, transformando-o. Essa nova mentalidade permite o advento da ciência moderna. Galileu, ao tornar possível a revolução científica no século XVII, estabelece fecunda aliança entre o labor da mente e o trabalho das mãos, o que ira marcar a relação entre ciência e técnica.

*Atécnica torna a ciência cada vez mais precisa e objetiva. Por exemplo, o termômetro mede a temperatura melhor do que o faz a nossa pele.

*Aciência é um conhecimento rigorosas capas de provocar a evolução das técnicas; atecnologia moderna nada mais é do que ciência aplicada. Por exemplo, os estudos de termologia dão condições para a construção de termômetros mais precisos.

São profundas as alterações provocadas pelo advento da tecnologia em todos os setores da vida humana. Pode-se dizer que, em nenhum lugar e em tempo algum da historia da humanidade, ocorreram transformações tão fundamentais e com tal rapidez. Por maiores que sejam as diferenças entre as culturas do Antigo Oriente do terceiro milênio a.C. e a da Europa do século XV, nada se compara à transformação radical no modo de vida que se opera do século XVIII, a final do século X. Em apenas 300 anos, a ciência e a tecnologia alteraram fundamentalmente a maneira de pensar do homem contemporâneo.

As transformações das técnicas alteram as relações sociais. Enquanto o mundo agrícola e artesanal é marcado pela tradição, e fixa o homem ao campo, o advento das fabricas no século XVII estimula o aperfeiçoamento das máquinas e acelera o crescimento das cidades. Estabelecem-se novas relações de produção com o aparecimento da classe proletária assalariada e dos capitais de tentores dos meios de produção.

Oauge do desenvolvimento do sistema fabril se dá no século XIX, sobre tudo na

Inglaterra. O setor secundário (indústria) se sobrepõe em importância ao setor primário (agrícola), definindo as características dos países industrializados e, portanto, modernos: urbanização, utilização de várias formas de energia, organização erarquizada da empresa, técnico especializado versus operário semi-qualificado.

Apartir de meados do século X constata-se uma transformação tão radical como aquela ocorrida no início da era moderna. Na atual sociedade pós-industrial, a produção de bens materiais passa a exigir a ampliação dos serviços (setor terciário).Nessas circunstâncias, atecnologia que conta é em última análise a informação; basta ver como o cotidiano de todos se acha marcado pelo consumo de serviços de saúde, educação, recreação, comunicação, publicidade, empresas de comércio e finanças. Isso não significa que o setor secundário (industrial) perdeu importância, mas que também ele sofre alterações decorrentes da informatização.

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