(Parte 2 de 7)

Alfred Binet / René Zazzo; tradução: Carolina Soccio Di Manno de Almeida;
142 p.: il. – (Coleção Educadores)
Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-7019-533-3

Zazzo, René. organização: Carolina Soccio Di Manno de Almeida; Danilo Di Manno de Almeida. – Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. 1. Binet, Alfred, 1857-1911. 2. Educação – Pensadores – História. I. Almeida, Carolina Soccio Di Manno de. I. Almeida, Danilo Di Manno de. II. Título.CDU 37

Binet editado por selma.pmd21/10/2010, 08:584

Apresentação, por Fernando Haddad, 7

Ensaio, por René Zazzo, 1

Uma vida, uma pluralidade de caminhos, 13 O indivíduo, objeto de ciência, 15 A medida em psicologia, 19 O educador, balanço e perspectivas, 25

Binet no Brasil, por Danilo Di Manno Almeida, 29

O efeito Binet, 32 Binet atual, 42

Textos selecionados, 47 Os textos e as traduções, 47

A “Evolução” dos Testes e da Escala Métrica, 48 A questão metodológica, 49 Concepções e ações pedagógicas em seu tempo, 49 Binet em debate com sua época, 52

Métodos novos para o diagnóstico do nível intelectual dos anormais, 54 Aplicação dos métodos novos ao diagnóstico do nível intelectual nas crianças normais e anormais do hospício e da escola primária, 65 O desenvolvimento da inteligência nas crianças, 67 Testes para medida do desenvolvimento da inteligências nas crianças, 70

Binet editado por selma.pmd21/10/2010, 08:585

Prefácio do Dr. Simon, 80 Psicologia individual, a descrição de um objeto, 8 Pesquisas de pedagogia científica, 91 A inteligência dos imbecis, 94 Rembrandt: segundo um novo modo de crítica de arte, 97 Novas pesquisas sobre a medida do nível intelectual nas crianças, da escola, 100 A psicologia na escola primária, 103 A miséria fisiológica e a misérias social, 105 Comissão dos anormais, 110 Os sinais físicos de inteligência nas crianças, 1 Pierre Janet, J-M Charcot; sua Obra psicológica, 117 O balanço da psicologia em 1908, 118 O balanço da psicologia em 1909, 120 O balanço da psicologia em 1910, 125

Cronologia, 131

Bibliografia, 135

Obras de Binet, 135 Obras sobre Binet, 137 Obras de Binet em português, 137

Obras sobre Binet em português, 137

Binet editado por selma.pmd21/10/2010, 08:586

O propósito de organizar uma coleção de livros sobre educadores e pensadores da educação surgiu da necessidade de se colocar à disposição dos professores e dirigentes da educação de todo o país obras de qualidade para mostrar o que pensaram e fizeram alguns dos principais expoentes da história educacional, nos planos nacional e internacional. A disseminação de conhecimentos nessa área, seguida de debates públicos, constitui passo importante para o amadurecimento de ideias e de alternativas com vistas ao objetivo republicano de melhorar a qualidade das escolas e da prática pedagógica em nosso país.

Para concretizar esse propósito, o Ministério da Educação instituiu Comissão Técnica em 2006, composta por representantes do MEC, de instituições educacionais, de universidades e da Unesco que, após longas reuniões, chegou a uma lista de trinta brasileiros e trinta estrangeiros, cuja escolha teve por critérios o reconhecimento histórico e o alcance de suas reflexões e contribuições para o avanço da educação. No plano internacional, optou-se por aproveitar a coleção Penseurs de léducation, organizada pelo International Bureau of Education (IBE) da Unesco em Genebra, que reúne alguns dos maiores pensadores da educação de todos os tempos e culturas.

Para garantir o êxito e a qualidade deste ambicioso projeto editorial, o MEC recorreu aos pesquisadores do Instituto Paulo Freire e de diversas universidades, em condições de cumprir os objetivos previstos pelo projeto.

Binet editado por selma.pmd21/10/2010, 08:587

Ao se iniciar a publicação da Coleção Educadores*, o MEC, em parceria com a Unesco e a Fundação Joaquim Nabuco, favorece o aprofundamento das políticas educacionais no Brasil, como também contribui para a união indissociável entre a teoria e a prática, que é o de que mais necessitamos nestes tempos de transição para cenários mais promissores.

É importante sublinhar que o lançamento desta Coleção coincide com o 80º aniversário de criação do Ministério da Educação e sugere reflexões oportunas. Ao tempo em que ele foi criado, em novembro de 1930, a educação brasileira vivia um clima de esperanças e expectativas alentadoras em decorrência das mudanças que se operavam nos campos político, econômico e cultural. A divulgação do Manifesto dos pioneiros em 1932, a fundação, em 1934, da Universidade de São Paulo e da Universidade do Distrito Federal, em 1935, são alguns dos exemplos anunciadores de novos tempos tão bem sintetizados por Fernando de Azevedo no Manifesto dos pioneiros.

Todavia, a imposição ao país da Constituição de 1937 e do

Estado Novo, haveria de interromper por vários anos a luta auspiciosa do movimento educacional dos anos 1920 e 1930 do século passado, que só seria retomada com a redemocratização do país, em 1945. Os anos que se seguiram, em clima de maior liberdade, possibilitaram alguns avanços definitivos como as várias campanhas educacionais nos anos 1950, a criação da Capes e do CNPq e a aprovação, após muitos embates, da primeira Lei de Diretrizes e Bases no começo da década de 1960. No entanto, as grandes esperanças e aspirações retrabalhadas e reavivadas nessa fase e tão bem sintetizadas pelo Manifesto dos Educadores de 1959, também redigido por Fernando de Azevedo, haveriam de ser novamente interrompidas em 1964 por uma nova ditadura de quase dois decênios. A relação completa dos educadores que integram a coleção encontra-se no início deste volume.

Binet editado por selma.pmd21/10/2010, 08:588

Assim, pode-se dizer que, em certo sentido, o atual estágio da educação brasileira representa uma retomada dos ideais dos manifestos de 1932 e de 1959, devidamente contextualizados com o tempo presente. Estou certo de que o lançamento, em 2007, do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), como mecanismo de estado para a implementação do Plano Nacional da Educação começou a resgatar muitos dos objetivos da política educacional presentes em ambos os manifestos. Acredito que não será demais afirmar que o grande argumento do Manifesto de 1932, cuja reedição consta da presente Coleção, juntamente com o Manifesto de 1959, é de impressionante atualidade: “Na hierarquia dos problemas de uma nação, nenhum sobreleva em importância, ao da educação”. Esse lema inspira e dá forças ao movimento de ideias e de ações a que hoje assistimos em todo o país para fazer da educação uma prioridade de estado.

Fernando Haddad Ministro de Estado da Educação

Binet editado por selma.pmd21/10/2010, 08:589

10 ANTONIO GRAMSCI

Binet editado por selma.pmd21/10/2010, 08:5810

René Zazzo2

“A antiga pedagogia é como uma carruagem fora de moda: range, mas ainda pode ser útil. [A nova pedagogia] tem o aspecto de uma máquina de precisão; mas as peças parecem não ter relação umas com as outras, e a máquina tem um defeito: ela não funciona.”

Assim Alfred Binet se expressa no capítulo final de seu último livro, Ideias modernas sobre as crianças. Publicada em 1911, esta obra é um balanço crítico do que “trinta anos de pesquisas experimentais [...] nos ensinaram sobre as coisas da educação”. Entretanto, o autor não se limita a um resumo de suas pesquisas – as suas e as dos outros –; ele se empenha em sugerir novas pesquisas, a esboçar, assim, “a obra de amanhã”. Mas não haverá amanhã para ele: Binet morre alguns meses depois da publicação de seu livro. O balanço toma, então, ares de um testamento.

“Eu procurei meu caminho”, disse ele, “entre a antiga pedagogia e aquela que nos prometem os inovadores, gente do laboratório.” Foram lembradas suas palavras? Ou, pelo menos, engajamo- nos nesta via mediana considerada por Binet? Este perfil foi publicado em Perspectives: revue trimestrielle d’éducation comparée.

Paris, Unesco: Escritório Internacional de Educação, n. 1-2, 1993, p. 101-112. René Zazzo (França) é diretor do Laboratório de Psicologia da Criança (École Pratique des Hautes Études, Paris). Professor na Universidade de Paris X, atualmente aposentado. Foi presidente da Sociedade Francesa de Psicologia, da Associação de Psicologia Científica de Língua Francesa e cofundador da Sociedade para o Estudo da Debilidade Mental. É autor de quinze obras, entre as quais Le devenir de l’intelligence, Conduites et conscience, L’attachement, Le paradoxe des jumeaux e Reflets de miroir et autres doubles.

Binet editado por selma.pmd21/10/2010, 08:5811

Ele critica a pedagogia tradicional por ser muito verbal, muito moralizadora, mas, ainda que seus procedimentos sejam passíveis de crítica, tem o mérito de estar envolvida na vida das escolas. Então “guardemos sua orientação, seu gosto pelos problemas reais”.

Quanto aos inovadores, seu mérito está em ter feito valer, na pedagogia como na pedologia, a experimentação, a exigência de controle e de precisão. Mas seus testes aplicados às cegas e suas experiências muito fragmentárias são, na maior parte das vezes, inúteis: “Essa gente não tem noção da escola e da vida [...] eles parecem nunca colocar a cara para fora de seu laboratório.”

E conclui: “A antiga pedagogia deve nos apresentar os problemas a serem estudados; a nova pedagogia, os procedimentos de estudo.”

Os problemas? Lendo Ideias modernas sobre as crianças, vemos que Binet realizava, simultaneamente, uma sondagem sobre os alunos preguiçosos, uma pesquisa sobre a melhor maneira de instruir os surdos-mudos e uma experiência de educação moral em uma classe de crianças anormais.

Quanto a esse último aspecto, constatamos que Binet professa que não há, propriamente, uma pedagogia especial. A pedagogia é a mesma para todos, diz ele. Ela consiste em ir do fácil ao difícil, evidentemente levando em conta as capacidades da criança, o que exige do professor conhecer cada um de seus alunos.

A observação é banal, mas a questão introduz procedimentos: para avaliar o nível de instrução das crianças, para conhecer seu nível de desenvolvimento, sua inteligência.

Adivinhamos aqui o que ele vai explicar a respeito do nível de desenvolvimento, como imaginou e pôs em prática, com seu colaborador Théodore Simon, seu famoso teste de inteligência “Binet- Simon”. Psicólogos do mundo inteiro conhecem esse teste, traduzido e adaptado em uma dezena de línguas – a tal ponto que a celebridade do instrumento eclipsou o autor: Alfred Binet desapareceu na sombra do “Binet-Simon”.

Binet editado por selma.pmd21/10/2010, 08:5812

Pelo contrário, gostaríamos de mostrar como a construção desse teste esclarece o modo de pensar de Binet e é o resultado de uma sucessão de passos. Mas falemos, primeiro, do próprio Binet, porque, para entender bem e antes de situá-lo na história intelectual de sua época, seria bom lembrar alguns marcos de sua biografia e de sua carreira.

Uma vida, uma pluralidade de caminhos

Filho de um médico e de uma pintora, Alfred Binet nasce em

Nice, no ano de 1857. Em Paris, termina seus estudos secundários no Lycée Louis-le-Grand e se inscreve na Faculdade de Direito.

Ao longo dos estudos jurídicos, manifesta interesses que são de ordem totalmente diferente. Em 1880, a prestigiosa Révue philosophique, dirigida por Théodore Ribot, publicou os dois primeiros artigos de Binet sobre psicologia das sensações e das imagens, assuntos que eram debatidos no momento. Ribot incentiva Binet a se manter na direção em que acabara de se engajar.

(Parte 2 de 7)

Comentários