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Alceu Amoroso Lima | Almeida Júnior | Anísio Teixeira

Aparecida Joly Gouveia | Armanda Álvaro Alberto | Azeredo Coutinho Bertha Lutz | Cecília Meireles | Celso Suckow da Fonseca | Darcy Ribeiro Durmeval Trigueiro Mendes | Fernando de Azevedo | Florestan Fernandes Frota Pessoa | Gilberto Freyre | Gustavo Capanema | Heitor Villa-Lobos

Helena Antipoff | Humberto Mauro | José Mário Pires Azanha

Julio de Mesquita Filho | Lourenço Filho | Manoel Bomfim

Manuel da Nóbrega | Nísia Floresta | Paschoal Lemme | Paulo Freire Roquette-Pinto | Rui Barbosa | Sampaio Dória | Valnir Chagas

Alfred Binet | Andrés Bello

Anton Makarenko | Antonio Gramsci

Bogdan Suchodolski | Carl Rogers | Célestin Freinet

Domingo Sarmiento | Édouard Claparède | Émile Durkheim

Frederic Skinner | Friedrich Fröbel | Friedrich Hegel Georg Kerschensteiner | Henri Wallon | Ivan Illich

Jan Amos Comênio | Jean Piaget | Jean-Jacques Rousseau

Jean-Ovide Decroly | Johann Herbart

Johann Pestalozzi | John Dewey | José Martí | Lev Vygotsky

Maria Montessori | Ortega y Gasset Pedro Varela | Roger Cousinet | Sigmund Freud

Ministério da Educação | Fundação Joaquim Nabuco

Coordenação executiva Carlos Alberto Ribeiro de Xavier e Isabela Cribari

Comissão técnica

Carlos Alberto Ribeiro de Xavier (presidente)

Antonio Carlos Caruso Ronca, Ataíde Alves, Carmen Lúcia Bueno Valle,

Célio da Cunha, Jane Cristina da Silva, José Carlos Wanderley Dias de Freitas, Justina Iva de Araújo Silva, Lúcia Lodi, Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero

Revisão de conteúdo

Carlos Alberto Ribeiro de Xavier, Célio da Cunha, Jáder de Medeiros Britto, José Eustachio Romão, Larissa Vieira dos Santos, Suely Melo e Walter Garcia

Secretaria executiva Ana Elizabete Negreiros Barroso

Conceição Silva

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Alberto Munari

Tradução e organização Daniele Saheb

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ISBN 978-85-7019-546-3 © 2010 Coleção Educadores MEC | Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana

Esta publicação tem a cooperação da UNESCO no âmbito do Acordo de Cooperação Técnica MEC/UNESCO, o qual tem o objetivo a contribuição para a formulação e implementação de políticas integradas de melhoria da equidade e qualidade da educação em todos os níveis de ensino formal e não formal. Os autores são responsáveis pela escolha e apresentação dos fatos contidos neste livro, bem como pelas opiniões nele expressas, que não são necessariamente as da UNESCO, nem comprometem a Organização.

As indicações de nomes e a apresentação do material ao longo desta publicação não implicam a manifestação de qualquer opinião por parte da UNESCO a respeito da condição jurídica de qualquer país, território, cidade, região ou de suas autoridades, tampouco da delimitação de suas fronteiras ou limites.

A reprodução deste volume, em qualquer meio, sem autorização prévia, estará sujeita às penalidades da Lei nº 9.610 de 19/02/98.

Editora Massangana

Avenida 17 de Agosto, 2187 | Casa Forte | Recife | PE | CEP 52061-540 w.fundaj.g ov.br

Coleção Educadores

Edição-geral Sidney Rocha

Coordenação editorial

Selma Corrêa

Assessoria editorial Antonio Laurentino

Patrícia Lima

Revisão

Sygma Comunicação Revisão técnica

Jeanne Marie Claire Sawaya Ulisses Ferreira de Araújo

Ilustrações Miguel Falcão

Foi feito depósito legal Impresso no Brasil

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Fundação Joaquim Nabuco. Biblioteca)

Jean Piaget / Alberto Munari; tradução e organização: Daniele Saheb. – Recife:
156 p.: il. – (Coleção Educadores)
Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-7019-546-3
CDU 37

Munari, Alberto. Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. 1. Piaget, Jean, 1896-1980. 2. Educação – Pensadores – História. I. Saheb, Daniele. I. Título . Jean Piaget_fev2010.pmd 21/10/2010, 09:334

Apresentação, por Fernando Haddad, 7

Ensaio, por Alberto Munari, 1

O combate de uma vida: a ciência, 12 O descobrimento da infância e da educação, 14 Da aventura do BIE aos princípios educacionais de Piaget, 16 A longa construção da epistemologia genética, 2 A dupla leitura do construtivismo genético, 24 Piaget atual, 25

Textos selecionados, 27

O Nascimento da Inteligência na Criança, 27 Jean Piaget - Sobre a Pedagogia: textos inéditos, 4 Psicologia e Pedagogia, 68 O Estruturalismo, 105

Cronologia, 141

Bibliografia, 143

Obras de Jean Piaget, 143 Obras sobre Jean Piaget, 147 Obras de Jean Piaget em português, 151

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6 Jean Piaget_fev2010.pmd 21/10/2010, 09:336

O propósito de organizar uma coleção de livros sobre educadores e pensadores da educação surgiu da necessidade de se colocar à disposição dos professores e dirigentes da educação de todo o país obras de qualidade para mostrar o que pensaram e fizeram alguns dos principais expoentes da história educacional, nos planos nacional e internacional. A disseminação de conhecimentos nessa área, seguida de debates públicos, constitui passo importante para o amadurecimento de ideias e de alternativas com vistas ao objetivo republicano de melhorar a qualidade das escolas e da prática pedagógica em nosso país.

Para concretizar esse propósito, o Ministério da Educação instituiu Comissão Técnica em 2006, composta por representantes do MEC, de instituições educacionais, de universidades e da Unesco que, após longas reuniões, chegou a uma lista de trinta brasileiros e trinta estrangeiros, cuja escolha teve por critérios o reconhecimento histórico e o alcance de suas reflexões e contribuições para o avanço da educação. No plano internacional, optou-se por aproveitar a coleção Penseurs de léducation, organizada pelo International Bureau of Education (IBE) da Unesco em Genebra, que reúne alguns dos maiores pensadores da educação de todos os tempos e culturas.

Para garantir o êxito e a qualidade deste ambicioso projeto editorial, o MEC recorreu aos pesquisadores do Instituto Paulo Freire e de diversas universidades, em condições de cumprir os objetivos previstos pelo projeto.

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Ao se iniciar a publicação da Coleção Educadores*, o MEC, em parceria com a Unesco e a Fundação Joaquim Nabuco, favorece o aprofundamento das políticas educacionais no Brasil, como também contribui para a união indissociável entre a teoria e a prática, que é o de que mais necessitamos nestes tempos de transição para cenários mais promissores.

É importante sublinhar que o lançamento desta Coleção coincide com o 80º aniversário de criação do Ministério da Educação e sugere reflexões oportunas. Ao tempo em que ele foi criado, em novembro de 1930, a educação brasileira vivia um clima de esperanças e expectativas alentadoras em decorrência das mudanças que se operavam nos campos político, econômico e cultural. A divulgação do Manifesto dos pioneiros em 1932, a fundação, em 1934, da Universidade de São Paulo e da Universidade do Distrito Federal, em 1935, são alguns dos exemplos anunciadores de novos tempos tão bem sintetizados por Fernando de Azevedo no Manifesto dos pioneiros.

Todavia, a imposição ao país da Constituição de 1937 e do

Estado Novo, haveria de interromper por vários anos a luta auspiciosa do movimento educacional dos anos 1920 e 1930 do século passado, que só seria retomada com a redemocratização do país, em 1945. Os anos que se seguiram, em clima de maior liberdade, possibilitaram alguns avanços definitivos como as várias campanhas educacionais nos anos 1950, a criação da Capes e do CNPq e a aprovação, após muitos embates, da primeira Lei de Diretrizes e Bases no começo da década de 1960. No entanto, as grandes esperanças e aspirações retrabalhadas e reavivadas nessa fase e tão bem sintetizadas pelo Manifesto dos Educadores de 1959, também redigido por Fernando de Azevedo, haveriam de ser novamente interrompidas em 1964 por uma nova ditadura de quase dois decênios. A relação completa dos educadores que integram a coleção encontra-se no início deste volume.

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Assim, pode-se dizer que, em certo sentido, o atual estágio da educação brasileira representa uma retomada dos ideais dos manifestos de 1932 e de 1959, devidamente contextualizados com o tempo presente. Estou certo de que o lançamento, em 2007, do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), como mecanismo de estado para a implementação do Plano Nacional da Educação começou a resgatar muitos dos objetivos da política educacional presentes em ambos os manifestos. Acredito que não será demais afirmar que o grande argumento do Manifesto de 1932, cuja reedição consta da presente Coleção, juntamente com o Manifesto de 1959, é de impressionante atualidade: “Na hierarquia dos problemas de uma nação, nenhum sobreleva em importância, ao da educação”. Esse lema inspira e dá forças ao movimento de ideias e de ações a que hoje assistimos em todo o país para fazer da educação uma prioridade de estado.

Fernando Haddad Ministro de Estado da Educação

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JEAN PIAGET1 (1896-1980)

Alberto Munari2

A ideia de considerar o grande epistemólogo e psicólogo suíço educador poderia surpreender à primeira vista: de fato, como chamar de “educador” a Jean Piaget, que jamais exerceu esta profissão, que sempre negou considerar-se pedagogo, chegando ao ponto de declarar que “Em matéria de pedagogia, não tenho opinião” (Bringuier, 1977, p.194), e cujos escritos sobre educação3 não ultrapassam 3%4 do conjunto de sua obra?

A perplexidade pode ser totalmente justificada quando se pensa exclusivamente na produção científica do próprio Piaget. Porém, torna-se menor quando se pensa no considerável número de obras Este perfil foi publicado em Perspectives: revue trimestrielle d’éducation comparée.

Paris, Unesco: Escritório Internacional de Educação, v. 24, n. 1-2, p. 321-337, 1994. Alberto Munari (Suíça) é psicólogo e epistemológo, professor da Universidade de Genebra, onde dirige, desde 1974, a Unidade de Psicologia da Educação. Alberto Munari colaborou com Piaget de 1964 a 1974 e obteve, em 1971, seu título de doutor em psicologia genética experimental, sob a orientação de Piaget. Tem diversas publicações, dentre as quais se destacam The Piagetian approach to the scientifc method: implications for teaching [A abordagem piagetiana do método científico: implicações para o ensino]; La scuola di Ginebra dopo Piaget [A escola de Genebra desde Piaget] (em colaboração) e o recente (1993) Il sapere ritovato: conoscenza,formazione, organizzazione [O saber reencontrado: conhecimento, formação, organização]. Piaget, 1925, 1928, 1930, 1931, 1932, 1933a, 1933b, 1934a, 1934b, 1935, 1936a, 1939a, 1939b, 1942, 1943, 1944, 1949a, 1949b, 1949c, 1954a, 1957, 1964, 1965, 1966a, 1966b, 1969, 1972a, 1972b, 1973; Piaget & Duckworth, 1973. Além disso, Piaget redigiu, na qualidade de diretor do Bureau International d’Éducation (BIE), cerca de quarenta discur- sos e relatórios, todos publicados aos cuidados do BIE, entre 1930 e 1967. Talvez um pouco menos de mil páginas (aí compreendidos os discursos e os relatórios redigidos para o BIE) sobre um total estimado em torno de 35.0 páginas, sem contar as traduções!

Jean Piaget_fev2010.pmd 21/10/2010, 09:31 de outros autores que se referem às implicações educacionais da obra piagetiana5. De fato, há muitos anos, inúmeros educadores e pedagogos de diversos países se referem explicitamente à obra de Piaget para justificar suas práticas ou princípios. Mas trata-se sempre da mesma interpretação? Faz-se referência invariavelmente à psicologia de Piaget, ou evocam-se outros aspectos de sua obra complexa e multiforme? A qual dos tão diversos “Piagets” devem-se as contribuições mais importantes: ao Piaget biólogo, ao epistemólogo, ao psicólogo, ou se está particularmente em dívida com o “político” da educação – que é como se poderia qualificar o Piaget diretor do Bureau Internacional de Educação?

O combate de uma vida: a ciência

Comecemos pintando o pano de fundo. Figura típica de acadêmico “iluminado”, Jean Piaget lutou toda a sua vida contras as instituições e os preconceitos intelectuais de sua época – e, talvez, também, contra suas próprias preocupações espiritualistas e idealistas da juventude (Piaget, 1914, 1915, 1918) – para defender e promover o enfoque científico.

Incitado por um pai “de espírito escrupuloso e crítico, que não gostava das generalizações apressadas” (Piaget, 1976, p.2); ini- ciado muito cedo à precisão da observação naturalista pelas mãos A propósito, a literatura mundial é extremamente rica e é difícil estabelecer uma lista completa. Entre as obras de referência “clássicas” podem ser citadas: Campbell & Fuller, 1977; Copeland, 1970; Duckworth, 1964; Elkind, 1976; Forman & Kuschner, 1977; Furth, 1970; Furth & Wachs, 1974; Gorman, 1972; Kamii, 1972; Kamii & De Vries, 1977; Labinowicz, 1980; Lowery, 1974; Papert, 1980; Rosskopf & al., 1971; Schwebel & Raph, 1973; Sigel, 1969; Sinclair & Kamii, 1970; Sprinthall & Sprinthall, 1974; Sund, 1976; Vergnaud, 1981.

Nós mesmos, com a ajuda de alguns colegas que colaboravam em nosso grupo, notadamente, Donata Fabbri,analisamos, em muitas ocasiões as implicações educacionais da psicoepistemologia piagetiana: Bocchi et al., 1983; Ceruti et al., 1985; Fabbri, 1984, 1985, 1987a, 1987b, 1988a, 1988b, 1989, 1990, 1991, 1992; Fabbri & Formenti, 1989, 1991; Fabbri et al., 1992; Fabbri & Munari, 1983, 1984a, 1984b, 1985a, 1985b, 1988, 1989, 1991; Fabbri & Panier-Bagat, 1988; Munari, 1980, 1985a, 1985b, 1985c, 1987a, 1987b, 1987c, 1988, 1990a, 1990b, 1990c, 1992; Munari et al., 1980.

Jean Piaget_fev2010.pmd 21/10/2010, 09:3312 do malacólogo Paul Godet, diretor do Museu de História Natural de Neuchatel, sua cidade natal (id., ib., p.2 e 3); lançado, ainda estudante, na arena da confrontação científica internacional, em 1911, com a idade de 15 anos, publica seus primeiros trabalhos em revistas de grande circulação. Piaget foi muito rapidamente seduzido pelo charme e pelo rigor da pesquisa científica. Escutemos suas próprias palavras:

Esses estudos, por prematuros que fossem, foram de grande utilidade para minha formação científica; além disso, funcionaram, poderia dizer, como instrumentos de proteção contra o demônio da filosofia. Graças a eles, tive o raro privilégio de vislumbrar a ciência e o que ela representa antes de sofrer as crises filosóficas da adolescência. Ter tido a experiência precoce destes dois tipos de problemática constituiu, estou convencido, o motivo secreto da minha atividade posterior em psicologia (id., ib., p.3).

Assim, apesar de duas importantes “crises de adolescência”, uma religiosa e outra filosófica, Piaget chegou, progressivamente, à convicção íntima de que o método científico era a única via de acesso legítima ao conhecimento, e que os métodos reflexivos ou introspectivos da tradição filosófica, no melhor dos casos, só podiam contribuir para elaborar certo tipo de conhecimento (Piaget, 1965b).

Essa convicção, cada vez mais forte, determinou as opções básicas que Piaget adotou até os anos 20 do século passado e que ele nunca mais modificou, seja no campo da psicologia que decidira estudar; seja no da política acadêmica que decidira defender; seja, finalmente, no compromisso que aceitara enfrentar diante dos problemas da educação.

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