Ensaio sobre o desenvolvimento e a aprendizagem segundo o sócio-interacionismo

Ensaio sobre o desenvolvimento e a aprendizagem segundo o sócio-interacionismo

(Parte 1 de 3)

Anuário da Produção

Acadêmica Docente Vol. I, Nº. 3, Ano 2008

Nilson Robson Guedes Silva

Faculdade Anhanguera de Limeira nilson.silva@unianhanguera.edu.br

O papel da escola em discussão

Tendo como referencial as contribuições de Vygotsky e os seus desdobramentos, aborda a concepção de desenvolvimento e de aprendizagem segundo o Sócio-Interacionismo. Para a discussão do papel da escola, aborda alguns 'pontos' relevantes da teoria vygotskyana, tais como a Mediação, o Pensamento e a Linguagem, a Fala Interior, o Desenvolvimento e a Aprendizagem e a Escrita. Conclui que o principal papel da escola, nesta concepção, é o de identificar o nível de desenvolvimento dos alunos para que possa atuar na Zona de Desenvolvimento Proximal de cada um e, assim, 'dirigir' o ensino para a consolidação das habilidades que já estão desencadeadas.

Palavras-Chave: Educação; teorias da aprendizagem; sócio-interacionismo; papel da escola.

Having as referential the contributions of Vygotsky and its unfolding, it according to approaches the conception of development and learning Sociointeractionismo. For the quarrel of the paper of the school, it approaches some points excellent of the vygotskyan theory, such as the Mediation, the Thought and the Language; it says Interior, the Development and the Learning and the Writing. It concludes that the main paper of the school, in this conception, is to identify the level of development of the pupils so that it can act in the Zone of Development Proximal of each one e, thus, 'to direct' education for the consolidation of the abilities that already are unchained.

Keywords: Education; Theories of learning; Socio-interactionismo; function of school.

Anhanguera Educacional S.A.

Correspondência/Contato

Alameda Maria Tereza, 2000 Valinhos, São Paulo CEP 13.278-181 rc.ipade@unianhanguera.edu.br

Coordenação

Instituto de Pesquisas Aplicadas e Desenvolvimento Educacional - IPADE

Artigo Original

Recebido em: 07/10/2008 Avaliado em: 16/02/2008

Publicação: 13 de março de 2009

Ensaio sobre o desenvolvimento e a aprendizagem segundo o sócio-interacionismo

Anuário da Produção Acadêmica Docente • Vol. I, Nº. 3, Ano 2008 • p. 121-132

Há muito boas razões para o interesse que temos hoje em dia pela obra de Vygotsky. Sua obra centrou-se, consistentemente, na idéia da emergência de novas formas na psiché humana sob orientação social. Essa perspectiva é tanto original quanto extremamente pertinente para as ciências sociais de nossos dias. A maior parte da psicologia e das ciências educacionais contemporâneas estão em estagnação devido à perspectiva estática que herdamos da história das ciências sociais do ocidente nos últimos séculos. (OLIVEIRA, 1997, p. 7).

Vygotsky, teórico soviético nascido em 1896, formou-se em direito pela Uni- versidade de Moscou e freqüentou cursos de História e Filosofia na Universidade Popular de Shanyaskii. Nessa mesma universidade, também aprofundou seus estudos em literatura e psicologia e, ainda, estudou medicina em Moscou e em Kharkovi.

Considerado como um gênio por alguns autores, dedicou-se à compreensão dos mecanismos psicológicos típicos do ser humano - os considerados mais complexos, superiores - aqueles que “[...] envolvem o controle consciente do comportamento, a ação intencional e a liberdade do indivíduo em relação às características do momento e do espaço presentes” (OLIVEIRA, 1997, p. 26). São as chamadas funções psicológicas superiores ou processos mentais superiores.

O autor diferencia a capacidade de controlar conscientemente as ações, a atenção voluntária, a memorização ativa, o pensamento abstrato e o comportamento intencional de outras atividades psicológicas do ser humano, atividades essas consideradas elementares - as ações reflexas, reações automatizadas e os processos de associação simples entre eventos. Para melhor compreensão do que estamos falando, exemplificamos cada uma dessas atividades consideradas elementares:

a) ações reflexas: quando encostamos à boca do bebê o seio da mãe ou, ainda, o bico de uma mamadeira, ela começará imediatamente a sucção do mesmo; b) reações automatizadas: um som forte leva o ser humano a movimentar a cabeça para a direção de onde o barulho veio; c) processos de associações simples entre eventos: o ato de o indivíduo evitar o contato de sua mão, ou de qualquer parte de seu corpo, com uma chama de fogo, exemplifica esse processo.

Oliveira apresenta-nos uma ilustração que nos ajuda a melhor compreender a diferença entre processos elementares e processos superiores. A autora afirma ser “[...] possível ensinar um animal a acender a luz num quarto escuro. Mas o animal não seria capaz de, voluntariamente, deixar de realizar o gesto aprendido porque vê uma pessoa dormindo no quarto” (1997, p. 26). A intenção do ser humano em realizar ou não uma ação é que é entendida enquanto um comportamento superior.

Nilson Robson Guedes Silva

Anuário da Produção Acadêmica Docente • Vol. I, Nº. 3, Ano 2008 • p. 121-132

O processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação é chamado por Vygotsky de mediação. A Figura 1 mostra-nos a influência desse elemento na relação do indivíduo com o meio.

S = Estímulo R = Resposta X = Elemento Mediador

Figura 1. Influência da mediação na relação indivíduo × meio

Para o autor, “nesse novo processo, o impulso direto para reagir é inibido, e é incorporado um estímulo para auxiliar que facilita a complementação da orientação por meios indiretos” (VYGOTSKY, 1991, p. 45). O ser humano não se relaciona diretamente com o meio, mas, sempre, essa relação é intermediada por dois elementos: a) os instrumentos; e b) os signos (Figura 2).

Figura 2. Elementos de intermediação – ser humano × meio

Os instrumentos estão, basicamente, relacionados à atividade material produtiva do ser humano, ou seja, é um elemento que faz a mediação entre o trabalhador e seu objeto de trabalho. Esse elemento facilita e amplia as possibilidades, pelo homem, de transformação da natureza. “Ele carrega consigo, portanto, a função para a qual foi criado e o modo de utilização desenvolvido durante a história do trabalho coletivo. É,

Atividade Mediada

Signos Instrumentos

Ensaio sobre o desenvolvimento e a aprendizagem segundo o sócio-interacionismo

Anuário da Produção Acadêmica Docente • Vol. I, Nº. 3, Ano 2008 • p. 121-132 pois, um objeto social e mediador da relação entre o indivíduo e o mundo” (OLIVEIRA, 1997, p. 26).

Utilizados primitivamente pelo ser humano, tais instrumentos foram sendo aperfeiçoados pelo processo de transmissão aos membros do grupo social. Apesar de alguns animais também utilizarem alguns instrumentos, não têm a capacidade de produzi-los para fins específicos e, ainda, não os guardam para um uso futuro e nem preservam a função dos mesmos para transmissão a outros membros do grupo social.

Já os signos, outro elemento importante da mediação, representam outros objetos, eventos ou situações. Vygotsky afirma que “o uso de signos conduz os seres humanos a uma estrutura específica do comportamento que se destaca do desenvolvimento biológico e cria novas formas de processos psicológicos enraizados na cultura” (1991, p. 45).

Duas mudanças fundamentais ocorrem ao longo da evolução do ser humano e do desenvolvimento de cada indivíduo. A criança, até uma certa idade, na maioria das situações em que age o faz diretamente, sem intermediação. A partir de um determinado momento sua ação passa, cada vez mais, a ser intermediada por recursos externos que vão se internalizando de forma paulatina. Assim, são desenvolvidos sistemas simbólicos, tais como a fala, que organizam os signos em estruturas complexas e articuladas. Abordando o tema, Oliveira afirma que

[...] tanto o processo de internalização como a utilização de sistemas simbólicos são essenciais para o desenvolvimento dos processos mentais superiores e evidenciam a importância das relações sociais entre os indivíduos na construção dos processos psicológicos [...] Ao longo do processo de desenvolvimento, o indivíduo deixa de necessitar de marcas externas e passa a utilizar signos internos, isto é, representações mentais que substituem os objetos do mundo real. (OLIVEIRA, 1997, p. 34-35).

Essa representação da realidade é dada socialmente. O indivíduo percebe e organiza o real através do grupo cultural onde ele se desenvolve. No entendimento da autora, “é a partir de sua experiência com o mundo objetivo e do contrato com as formas culturalmente determinadas de organização do real que os indivíduos vão construindo seus sistemas de signos” (OLIVEIRA, 1997, p. 37). Tais signos constituem-se numa espécie de código para decifração do mundo.

A internalização dessa cultura pelo indivíduo não ocorre de forma passiva, mas sim através de um processo de transformação e síntese. Ele toma posse “[...] das formas de comportamento fornecidas pela cultura, num processo em que as atividades externas e as funções interpessoais transformam-se em atividades internas, intrapsico-

Nilson Robson Guedes Silva

Anuário da Produção Acadêmica Docente • Vol. I, Nº. 3, Ano 2008 • p. 121-132 lógicas” (OLIVEIRA, 1997, p. 38), ou seja, o desenvolvimento do ser humano ocorre de fora para dentro.

Em trabalho empírico para conhecer a relação entre os instrumentos e os signos, para início do trabalho Vygotsky apresenta-nos três condições: I) analogia e pontos comuns aos dois tipos de atividades; I) diferenças básicas entre instrumentos e signos; I) elo psicológico real existente entre um e outro.

I) Analogia e pontos comuns aos dois tipos de atividades: a Figura 2 mostra-nos a relação lógica entre o uso de instrumentos e o uso de signos. Vygotsky afirma que “[...] a analogia básica entre signo e instrumento repousa na função mediadora que os caracteriza. Portanto, eles podem, a partir da perspectiva psicológica, ser incluídos na mesma categoria” (1991, p. 61).

I) Diferenças básicas entre instrumentos e signos: a diferença fundamental entre os dois elementos é que, enquanto o instrumento tem como função servir como um condutor da influência humana sobre o objeto da atividade, ou seja, ser orientado externamente, o signo é orientado internamente - constitui um meio da atividade interna dirigida para o controle do próprio indivíduo. Enquanto o instrumento controla a natureza, o signo controla o comportamento.

I) Elo psicológico real existente entre um e outro: o controle da natureza e o controle do comportamento estão mutuamente ligados, assim como a alteração provocada pelo homem sobre a natureza altera a própria imagem do homem.

[...] a relação entre o pensamento e a palavra não é uma coisa, mas um processo, um movimento contínuo de vaivém do pensamento para a palavra, e vice-versa. Nesse processo, a relação entre o pensamento e a palavra passa por transformações que, em si mesmas, podem ser consideradas um desenvolvimento no sentido funcional. O pensamento não é simplesmente expresso em palavras; é por meio delas que ele passa a existir. Cada pensamento tende a relacionar alguma coisa com outra, a estabelecer uma relação entre as coisas. Cada pensamento que se move, amadurece e se desenvolve, desempenhando uma função, soluciona um problema. Esse fluxo do pensamento ocorre como um movimento interior, através de uma série de planos. Uma análise da interação do pensamento e da palavra deve começar com uma investigação das fases e dos planos diferentes que um pensamento percorre antes de ser expresso em palavras. (VYGOTSKY, 1989, p. 108).

(Parte 1 de 3)

Comentários