Paul Anthony Samuelson - Fundamentos Da Análise Econômica (Os Economistas)

Paul Anthony Samuelson - Fundamentos Da Análise Econômica (Os Economistas)

(Parte 3 de 5)

Mesmo depois de todos esses anos, Samuelson permanece fiel à idéia de que é possível realizar uma síntese para a Ciência Econômica e que é através do método matemático que é possível realizá-la. Para ele, “a síntese neoclássica pode eliminar a possibilidade paradoxal da poupança ser esterilizada66 e pode, neste sentido, validar as noções clássicas relativas à formação de capital e produtividade. Por outro lado, as sociedades modernas necessariamente executam políticas fiscais e monetárias — e são estas políticas que formatam o resultante comportamento do consumo de pleno emprego e investimento”.67 Ou seja, a possibilidade de integrar as proposições keynesianas à análise clássica oferece respostas superiores para os problemas enfrentados pelas economias nos dias de hoje. Ainda, Samuelson diz que, ao morrer, seu único pecado será ter sido um economista matemático e que, ao se arrepender disto para entrar no paraíso, ainda assim, dirá enfaticamente: mas foi útil. Em resumo, Samuelson é fundamentalmente um economista eclé-

63Samuelson, Paul A.; Economics in the Golden Age: a personal memoir; in: Brown, E. Cary and

Solow, Robert M. — Paul Samuelson and Modern Economic Theory, McGraw-Hill, 1983. 64Feiwel, George R.; Samuelson and Neoclassical Economics, Kluwer-Nijhoff, 1982; “Samuelson and the age after Keynes”, p. 218. 65Feiwel, George R.; Samuelson and Neoclassical Economics, Kluwer-Nijhoff, 1982; “Samuelson and the age after Keynes”, p. 219. 66Samuelson se refere ao paradoxo da poupança que implica a contradição entre a necessidade de poupar parte da renda para financiar investimentos e expandir o produto e o fato de, ao realizar poupança, sinalizar baixo nível de consumo desestimulando os investimentos e contraindo o produto e a renda. 67Feiwel, George R.; Samuelson and Neoclassical Economics, Kluwer-Nijhoff, 1982; “Samuelson and the age after Keynes”, p. 211.

tico, excepcionalmente inteligente e didático, capaz de encantar e despertar a curiosidade de economistas a leigos; e nos faz refletir sobre a evolução do pensamento econômico e não sobre suas controvérsias. Ele é capaz de resgatar, para o economista, a crença na capacidade de oferecer respostas para os nossos problemas sem o uso de bolas de cristal: “Em resumo, economia não é astrologia nem teologia”.68

Agradeço os comentários e sugestões de Antônio Carlos Alves dos Santos, Cláudia Helena Cavalieri, Carlos Dias Correa, Evelyn Tan, Maria Angélica Borges e Paulo Sandroni. Os erros que porventura existirem são de inteira responsabilidade da autora.

Cristina Helena Pinto de Mello

CRISTINA HELENA PINTO DE MELLO é professora de graduação em Ciências Econômicas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e do curso de pós-graduação em Administração da Universidade São Judas. Doutoranda no programa de Economia de Empresas da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas.

68Samuelson, Paul A.; Economics in the Golden Age: a personal memoir; in: Brown, E. Cary and Solow, Robert M. — Paul Samuelson and Modern Economic Theory, McGraw-Hill, 1983.

1. AKERLOF, George A.; Paul A. Samuelson: A Personal Tribute and a Few Reflections. In: FEIWEL, G.; Samuelson and Neoclassical Economics, 1982. 2. ARROW, Kenneth J. — Samuelson Collected; The Journal of Political Economy, vol. 75, out. 67, nº 5, p. 730-738. 3. BROWN, E. Cary and SOLOW, Robert M. — Paul Samuelson and

Modern Economic Theory, McGraw-Hill, 1983. 4. EATWELL, John; MILGATE, Murray; NEWMAN, Peter (ed.) —

General Equilibrium, The New Palgrave, Macmillan Reference Books, 1989. 5. FEIWEL, G. (ed) — Samuelson and Neoclassical Economics, Kluwer-Nijhoff, 1982. 6. FISCHER, Stanley — Paul Anthony Samuelson — in Palgrave

Dictionary in Economics. 7. HAHN, Franklin — Equilibrium and Macroeconomics; M.I.T.

Press, 1984. 9. HUNT, E.K. — História do Pensamento Econômico, Ed. Campus. 10. LINDBECK, Assar — The Prize in Economic Science in Memory of Alfred Nobel; Journal of Economic Literature, vol. XI, março de 1985. 1. LINDBECK, Assar — Paul Anthony Samuelson’s Copntribution to

Economics; Swedish Journal of Economics, 1970, p. 341-354. 12. Literatura Econômica — 1970: Paul Anthony Samuelson, 3(3/4): 221-268, 1981. 13. MACKENNA, Edward J. and Zannoni, Diane C., “The Relation

Between the Rate of Interest and Investment in Post Keynesian Analysis”; Eastern Economic Journal, vol XVI, nº 2, abril/junho de 1990. 14. MILLER, Roger LeRoy, Microeconomia, McGraw-Hill, 1981. 15. NAPOLEONI, Claudio; Smith, Ricardo, Marx; Graal. 1981. 16. PINDYCK, Robert S. e RUBINFELD, Daniel L.; Microeconomia, Makron Books, 1991.

17. ROBINSON, Joan — Misundestandings in the Theory of Production; in Feiwel, 1982. 18. SAMUELSON, Paul Anthony — Fundamentos da Análise Econômica, Abril Cultural, 1983. 19. SAMUELSON, Paul Anthony e NORDHAUS, Willian — Economia,

Makron Books. 20. SAMUELSON, Paul Anthony — “The Classical Fallacy”; Journal of Economic Literature, vol. XI, junho de 1994, p. 620-639. 21. SPANOS, Aris; Statistical Foundations of Econometric Modelling;

Cambridge Press, 1993. 2. WILLIAMSON, J.; A Economia Aberta e a Economia Mundial; Ed. Campus, 1989.

A meus pais A meus pais

A versão original deste livro apresentada em 1941 à Comissão do Prêmio David A. Wells da Universidade de Harvard tinha o subtítulo “A Significância Operacional da Teoria Econômica”. Àquela época, a maior parte do material apresentado já contava vários anos, tendo sido concebida e escrita originalmente em 1937. Fez-se necessária uma demora ainda maior na publicação por causa da guerra e do acréscimo de materiais suplementares, que foram além da concepção original da obra indicada por seu subtítulo, e que fizeram dela um tratado. Devido à tensão do trabalho ligado à guerra, eu não pude dedicar às obras surgidas nos últimos anos toda a atenção que merecem, nem mesmo para abarcar todos os desdobramentos de meu próprio pensamento. Felizmente, o passar do tempo tem sido benévolo para com a análise aqui contida, e quando ela se aproxima dos tópicos tratados no magistral Value and Capital do Professor Hicks, a semelhança de pontos de vista tem sido confortadora.

Meu maior débito é para com Marion Crawford Samuelson, cujas contribuições foram realmente inumeráveis. O resultado foi um amplo melhoramento, dos pontos de vista matemático, econômico e estatístico. Sem sua colaboração, o livro realmente não teria sido escrito, e um simples agradecimento dado a ela como esposa não pode fazer justiça ao auxílio prestado. Tampouco o curioso costume moderno de excluir da renda nacional o valor dos serviços da esposa pode justificar a exclusão do nome dela da folha de rosto.

Os meus agradecimentos por muitos anos de prolongado estímulo devem ser dados aos professores Schumpeter, Leontief e E. B. Wilson, enquanto toda uma legião de alunos de pós-graduação de Harvard marcou o trabalho que se segue. O leitor irá notar o quanto devo à valiosa contribuição à Economia do Bem-Estar feita pelo professor Abram Bergson. Sou grato ao Conselho de Pesquisas em Ciências Sociais e à Congregação da Universidade de Harvard pelas oportunidades que me deram de realizar pesquisas independentes, e ao Departamento de Economia da Universidade de Harvard por sua cortês aceitação dos atrasos na publicação devidos à guerra.

Agradeço também aos editores de Econometrica e Review of Economic Statistics por terem permitido a reprodução de partes de meus artigos publicados anteriormente. Os capítulos IX e X foram tirados quase inteiramente de dois artigos que apareceram em Econometrica, enquanto parte do capítulo XI apareceu em Review of Economic Statistics.

Cambridge, Massachussetts Janeiro de 1945

Introdução

A existência de analogias entre as características centrais de várias teorias implica a existência de uma teoria geral que subjaz às teorias particulares e as unifica com relação a essas características centrais. Esse princípio fundamental da generalização por abstração foi anunciado pelo eminente matemático norte-americano E. H. Moore há mais de trinta anos. O propósito das páginas que se seguem é deslindar suas implicações para a economia teórica e aplicada.

Um economista de intuição muito apurada teria talvez suspeitado desde o início que campos aparentemente diversos — a economia da produção, o comportamento do consumidor, o comércio internacional, as finanças públicas, os ciclos econômicos, a análise da renda — possuem semelhanças formais surpreendentes, e que da análise desses elementos comuns resultaria uma economia de esforços.

Não posso afirmar ter sido essa a visão inicial. Só depois de custoso trabalho em cada um desses campos foi que me apercebi de que essencialmente as mesmas desigualdades e teoremas apareciam sempre e que eu estava desperdiçando meu tempo, demonstrando sempre os mesmos teoremas.

Eu tinha consciência, é claro, de que cada campo continha incógnitas interdependentes, determinadas por condições de equilíbrio provavelmente eficazes — fato esse que sempre tem sido percebido por muita gente. Porém, e isso me leva ao segundo propósito fundamental desta obra, ninguém havia assinalado — que eu soubesse — que existem teoremas significativos formalmente idênticos nesses campos, todos formulados por métodos essencialmente análogos.

Isso não é de surpreender, uma vez que apenas uma fração mínima dos textos de Economia, tanto teórica como aplicada, se preocupou com a dedução de teoremas operacionalmente significativos. Pelo menos em parte, isso resultou das más idéias preconcebidas no campo da metodologia segundo as quais as leis econômicas deduzidas de proposições a priori apresentavam rigor e validade independentemente de todo comportamento humano empírico. Só alguns poucos economistas, porém, chegaram a esse ponto. A maioria deles teria se contentado em enunciar teoremas significativos, se algum lhes tivesse ocorrido. De fato, as obras econômicas são repletas de falsas generalizações.

Não temos que cavar muito fundo para encontrar exemplos. De fato, centenas de artigos eruditos têm sido escritos sobre o tema utilidade. Tome-se um pouco de má psicologia, adicione-se uma pitada de má filosofia e ética e generosas porções de má lógica, e qualquer economista pode provar que a curva da demanda de uma mercadoria apresenta uma inclinação negativa. O instinto dele é bom: a tentativa de formular um teorema significativo e útil deve ser elogiada — muito mais que a posição inócua de que a utilidade é sempre maximizada porque as pessoas fazem o que fazem. Como é alentador então um artigo como o de Slutsky,1 que tentou, obtendo sucesso parcial, deduzir de uma vez por todas as hipóteses sobre o comportamento do equilíbrio preço-quantidade implícitas na teoria da utilidade.

Os economistas têm se consolado com seus parcos resultados pensando que estavam forjando ferramentas que com o tempo dariam fruto. A promessa está sempre no futuro; somos como atletas altamente exercitados que nunca participam de uma corrida e, em conseqüência, perdem sua condição física por treinarem demais. Ainda é muito cedo para se afirmar que as inovações do pensamento da última década puderam deter os sinais inequívocos de decadência que se encontravam claramente presentes no pensamento econômico anterior a 1930.

Quando falo de um teorema significativo, quero dizer simplesmente uma hipótese sobre dados empíricos que pode, presumivelmente, ser refutada, mesmo que apenas em condições ideais. Um teorema significativo pode ser falso. Pode ser válido, mas de pouca importância. Sua validade pode ser indeterminada e difícil ou impossível de verificar, do ponto de vista prático. Assim, com os dados existentes, pode ser impossível verificar a hipótese de que a demanda de sal apresenta a elasticidade –1,0. Mas ela é significativa porque, em condições ideais, pode-se imaginar um experimento pelo qual poder-se-ia refutar essa hipótese. A proposição de que, se a demanda fosse inelástica, um aumento do preço elevaria a renda total não é um teorema significativo nesse sentido. Ela não implica nenhuma hipótese — certamente nem mesmo a de que existe uma demanda que é inelástica — e é verdadeira simplesmente por definição. Possivelmente ela terá tido uma certa utilidade “psicológica” ajudando os economistas a formularem as perguntas corretas aos fatos, mas mesmo eu tenho algumas dúvidas a esse respeito.

Neste estudo tento mostrar que de fato existem teoremas significativos em diferentes campos dos assuntos econômicos. Eles não são deduzidos do nada nem de proposições a priori sobre verdade universal

1SLUTSKY, E. “Sulla teoria del bilancio del consumatore”. In: Giornale degli Economisti. LI, 1915. p. 1-26.

e aplicabilidade no vácuo. Eles partem quase completamente de dois tipos de hipóteses muito gerais. A primeira é a de que as condições de equilíbrio são equivalentes à maximização (ou minimização) de alguma grandeza. A Parte Primeira trata desse aspecto do assunto de modo razoavelmente exaustivo.

Contudo, quanto nos afastamos das unidades econômicas simples, constatamos que a determinação das incógnitas não tem relação com uma posição de extremo. Mesmo nas teorias mais simples dos ciclos econômicos há falta de simetria nas condições de equilíbrio, de forma que não há possibilidades de se reduzir diretamente o problema a uma questão de máximo ou mínimo. Em vez disso, são especificadas as propriedades dinâmicas do sistema, e formula-se a hipótese de que o sistema se encontra em equilíbrio ou em movimento “estável”. Por meio daquilo que eu chamei de Princípio de Correspondência entre a estática comparada e a dinâmica, podem-se deduzir, de uma hipótese tão simples, teoremas operacionalmente significativos definidos. Quem estiver interessado apenas numa estática fecunda precisa estudar a dinâmica.

A validade empírica ou fecundidade dos teoremas, é claro, não pode sobrepujar a da hipótese original. Ademais, a hipótese da estabilidade não tem valor teológico2 ou normativo; assim, o equilíbrio estável poderia se verificar ao nível de desemprego de 50%. A plausibilidade de uma hipótese de estabilidade como essa é sugerida pela observação de que as posições de equilíbrio instável, mesmo que existam, são estados transitórios, não persistentes, e, portanto, mesmo com o cálculo de probabilidades mais grosseiro seriam observadas menos freqüentemente do que os estados estáveis. Quantas vezes o leitor já viu um ovo em pé? De um ponto de vista formal, freqüentemente convém levar em conta a estabilidade dos movimentos não estacionários.

Numa boa porção da Parte Segunda analisa-se o comportamento dinâmico dos sistemas por si mesmo, sem levar em conta suas implicações no sentido da estática comparada. E nos últimos capítulos da Parte Primeira fui além da concepção original do livro, incluindo assuntos tais como a economia do bem-estar. Apesar de o conteúdo lógico dos teoremas enunciados aqui ser diferente, existe uma unidade de método subjacente.

No começo, esperava-se que a discussão pudesse não ser técnica.

Bem depressa, porém, tornou-se evidente que tal procedimento, embora possível, exigiria um texto várias vezes maior que o atual. Ademais, cheguei à conclusão de que o dito de Marshall de que “parece duvidoso que alguma pessoa gaste bem seu tempo lendo alentadas traduções de doutrinas econômicas em linguagem matemática se não tiverem sido feitas por ela mesma” deve exatamente ser revertido. A trabalhosa

2HENDERSON, L. J. The Order of Nature. Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press, 1917.

elaboração literária de conceitos matemáticos essencialmente simples que caracteriza a maior parte da moderna teoria econômica não só não compensa, do ponto de vista do progresso da ciência, como também exige uma ginástica mental de um tipo especificamente corrompido.

Por outro lado, tentei evitar os floreios matemáticos, e o matemático puro irá reconhecer logo o caráter essencialmente elementar dos instrumentos usados. O meu interesse pessoal pela Matemática tem sido secundário e subseqüente a meu interesse pela Economia. Contudo, o leitor poderá encontrar algumas partes difíceis de acompanhar. Para aliviar a tarefa, coloquei os teoremas puramente matemáticos em dois apêndices em separado, o segundo dos quais fornece à teoria das equações diferenciais uma introdução razoavelmente autocontida.

Os Sistemas de Equilíbrio e a Estática Comparada

A maioria dos tratados econômicos está voltada para a descrição de alguma parte do mundo real ou para a elaboração de elementos particulares abstraídos da realidade. Implícitas nessas análises estão certas uniformidades formais reconhecíveis, que de fato são características de todo método científico. Propomo-nos aqui investigar essas características comuns, na esperança de demonstrar como é possível deduzir princípios gerais que podem servir para unificar amplos setores da teoria econômica atual.

Em todo problema de teoria econômica, certas variáveis (quantidades, preços etc.) são designadas como incógnitas, em cuja determinação estamos interessados. Seus valores surgem como solução de um conjunto específico de relações impostas às incógnitas por suposição ou hipótese. Essas relações funcionais são válidas para um dado ambiente, um dado meio. É claro que a indicação completa desse ambiente exigiria a especificação de todo o universo; portanto, adotamos implicitamente uma matriz de condições dentro da qual a nossa análise irá se realizar.

Dificilmente bastaria, contudo, mostrar que em certas condições podemos indicar relações (equações) suficientes para determinar o valor de nossas incógnitas. É importante que nossa análise se desenvolva de forma a nos auxiliar a determinar como nossas variáveis se modificam qualitativa ou quantitativamente em face da ocorrência de mudanças nos dados explícitos. Assim, introduzimos explicitamente em nosso sistema certos dados sob forma de parâmetros, que, ao mudar, provocam variações em nossas relações funcionais. A utilidade de nossa teoria resulta do fato de que, por meio de nossa análise, muitas vezes podemos determinar a natureza das mudanças em nossas variáveis incógnitas que resultam de uma mudança dada em um ou mais parâmetros. Na verdade, nossa teoria será sem sentido do ponto de vista operacional, a menos que implique realmente algumas restrições com base em quantidades empiricamente observáveis, pelas quais possa ser refutada.

Esse, em resumo, é o método da estática comparada, isto é, a investigação das variações num sistema, de uma posição e equilíbrio para outra, sem levar em conta o processo de transição envolvido no ajuste. Por equilíbrio queremos dizer aqui apenas os valores de variáveis determinados por um conjunto de condições, sem atribuir conotações normativas ao termo. Como será mostrado mais tarde, sempre é possível estabelecer sistemas de equilíbrio completamente simples, sem significado real. Esse método de estática comparada é apenas uma aplicação especial da prática mais geral de dedução científica, na qual o comportamento de um sistema (possivelmente ao longo do tempo) é definido em termos de um dado conjunto de equações funcionais e condições iniciais. Dessa forma, boa parte da física teórica consiste em se supor equações diferenciais de segunda ordem em número suficiente para determinar a evolução através do tempo de todas as variáveis sujeitas a dadas condições iniciais de posição e velocidade. De modo semelhante, no campo da Economia têm sido sugeridos sistemas dinâmicos envolvendo uma relação entre variáveis em diferentes pontos do tempo (por exemplo, derivadas de tempo, integrais ponderadas, variáveis de intervalo, sistemas funcionais etc.) com o propósito de determinar a evolução de um conjunto de variáveis econômicas através do tempo.3 Mais tarde tratarei desses problemas dinâmicos.

O conceito de sistema de equilíbrio esboçado acima é aplicável tanto ao caso de uma única variável como ao chamado equilíbrio geral, que envolve milhares de variáveis. Do ponto de vista lógico, a determinação da produção de uma dada firma em condições de concorrência perfeita é precisamente igual à determinação simultânea de milhares de preços e quantidades. Sempre têm que ser tomadas proposições coeteris paribus. A única diferença está no fato de que, na análise do equilíbrio geral de, digamos, Walras, o conteúdo da disciplina histórica da Economia teórica é praticamente esgotado. Ocorre que as coisas que são tomadas como dados para aquele sistema são assuntos que tradicionalmente os economistas têm preferido considerar como externos à sua área. Entre esses dados, podem ser mencionados os gostos, a tecnologia, os arcabouços governamental e institucional e muitos outros.

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