Pimentão - Cultivo

Pimentão - Cultivo

(Parte 1 de 3)

Cultivo do Pimentão Claúdia Silva da Costa Ribeiro

Q Origem

Com a chegada dos navegadores portugueses e espanhóis ao continente americano, muitas espécies de plantas foram descobertas, entre elas as pimentas. As pimentas do gênero Capsicum já eram utilizadas pelos índios americanos (nativos) e mostravam-se mais picantes que a pimenta-do-reino (Piper nigrum), cuja busca foi, possivelmente, uma das razões das viagens que culminaram com o descobrimento do Novo Mundo.

Então, o centro de origem do pimentão, assim como das pimentas cultivadas e silvestres é o continente americano. Depois do descobrimento das Américas, as pimentas foram introduzidas em diferentes áreas e hoje encontram-se dispersas pelo mundo. No entanto, há de se esclarecer que, depois de selecionadas nas áreas originais (centros primários), estas plantas podem (e muitas vezes o foram) ser introduzidas em áreas diferentes, onde, pelo processo de seleção, continuam gerando novos tipos morfológicos. Por esse motivo, as novas áreas são consideradas centros secundários.

Assim, o centro primário de diversidade de C. annuum var. annuum (a forma domesticada mais variável e largamente cultivada, a qual pertence o pimentão) inclui México e América Central; centros secundários existem no sudeste e centro da Europa, África, Ásia e partes da América Latina.

Foi substancial a contribuição histórica brasileira na dispersão destas plantas pelo mundo, eficientemente feita pelos portugueses e pelos povos que eram transportados em suas embarcações. As rotas de navegação no período de 1492-1600 permitiram que as espécies picantes e doces de pimentas viajassem o mundo. As pimentas foram então, introduzidas na África, Europa e posteriormente na Ásia. A China e a Índia cultivam anualmente cerca de 1.0.0 ha de pimenta. Os tailandeses e coreanos são tidos como os maiores consumidores de pimenta do mundo - consome-se 5 a 8 g de pimenta/dia/pessoa.

Q Importãncia Econômica

O cultivo de pimentões é uma atividade significativa para o setor agrícola brasileiro, sendo responsável anualmente por cerca de 13.0 ha de área cultivada, com a produção de aproximadamente 280.0 toneladas de frutos. O pimentão figura entre as dez hortaliças mais importantes do Brasil. A produção de pimentão existe em todos os estados da federação, mas concentra-se nos estados de São Paulo e Minas gerais que plantam, em conjunto, aproximadamente 5.0 ha, com considerável produção de 120 mil toneladas. Somente o mercado nacional de sementes de pimentão movimenta US$ 1,5 milhão.

O cultivo de pimenta ocorre praticamente em todas as regiões do país e é um dos melhores exemplos de agricultura familiar e de integração pequeno agricultor-agroindústria. A área anual cultivada é de 2.0 ha e os principais estados produtores são MG, GO, SP, CE e RS.

Q Valor Nutricional

Os frutos de Capsicum são fontes importantes de três antioxidantes naturais: a vitamina

C, os carotenóides e a vitamina E. Há evidências de que os antioxidantes previnem doenças degenerativas como o câncer, doenças cardiovasculares, catarata, mal-de-Parkinson e mal-de- Alzheimer, por seqüestrarem radicais livres.

As pimentas doces e os pimentões possuem alto teor de vitamina C; algumas variedades de pimentão possuem até 340 miligramas por 100 gramas (ver tabela 1). Um fruto de pimentão vermelho possui quantidade de vitamina C (180 miligramas por 100 gramas) suficiente para suprir as necessidades diárias de até seis pessoas. É importante ressaltar que, na secagem, os frutos perdem praticamente toda a vitamina C, e no cozimento a perda é de cerca de 60%.

Os frutos de Capsicum são também fontes de vitaminas do complexo B (tiamina, riboflavina, niacina, B-6 e ácido fólico) e de vitamina A. O pimentão vermelho contém 650 microgramas (µg) de retinol por 100 gramas de parte comestível, quantidade próxima da necessidade diária de um adulto, que é estimada em 750 microgramas. Algumas variedades podem apresentar de 3 a 10 miligramas de vitamina E por 100 gramas de parte comestível (as necessidades nutricionais de vitamina E foram fixadas em 10 miligramas para pessoa adulta).

Os frutos maduros de diferentes variedades de pimentas concentram altas quantidades de carotenóides. As pimentas doces são amplamente usadas como corantes naturais, na forma de extratos concentrados (oleorresinas) e de pó (colorau ou páprica). A pimenta vermelha é uma das hortaliças mais ricas em betacaroteno e betacriptoxantina, carotenóides com importante valor nutricional devido à provitamina A.

Os frutos de Capsicum são, ainda, fontes importantes de fibras, elementos essenciais no processo de digestão e que previnem problemas intestinais e reduzem o desenvolvimento de divertículos e de câncer do intestino grosso.

Tabela 1. Teor de vitaminas C e E em frutos de Capsicum e em outras espécies.

AlimentoVitamina CVitamina E (mg/100g de parte comestível)

Pimentão amarelo334 n/d* Pimentão verde 192 n/d Pimentão vermelho 180 n/d Pimenta vermelha 140 0,80

*n/d – não determinado

Q Clima

O desenvolvimento da planta de pimentão, assim como o florescimento e a frutificação, são influenciados pela temperatura. As variedades de pimentão cultivada (cultivares) são de origem tropical e não toleram frio e geadas, preferindo temperaturas mais altas. Assim, em regiões de clima temperado, o cultivo é feito na época em que não há riscos de ocorrência de geadas.

Maiores taxa e velocidade de germinação são obtidas entre 25o e 30oC. A emergência das plântulas também é beneficiada em temperaturas elevadas. A faixa de temperatura ideal para o florescimento fica entre 21o e 27oC. Em temperaturas abaixo de 15oC ocorre queda de flores. Tanto o pegamento de fruto quanto o seu crescimento, são favorecidos por temperaturas amenas (19 a 21oC). O mesmo não se observa em temperaturas acima de 35oC. Temperaturas altas acompanhadas de umidade relativa do ar baixa, também provocam queda de flores e de frutos recém-formados. Há maior tolerância até 40oC quando a umidade relativa do ar é elevada. Durante a floração e desenvolvimento dos frutos, é fundamental que umidade relativa do ar oscile entre 50-70%.

O pimentão é uma espécie exigente em luminosidade durante todo o seu ciclo vegetativo, e a falta de luz provoca o estiolamento da planta, alongando os entrenós e tornando os galhos frágeis.

Q Cultivares

Pimentão Não se sabe com precisão a data e muito menos o local em se iniciou o cultivo de pimentão no Brasil em maior escala. Há registros de que as primeiras cultivares de pimentão que aqui chegaram são de origem espanhola, do grupo "Casca Dura", de frutos cônicos, e foram introduzidas inicialmente em Mogi das Cruzes e Suzano, no Estado de São Paulo. As primeiras cultivares brasileiras de pimentão surgiram a partir de seleções feitas em populações destes materiais de origem espanhola. Até a última década de sessenta, as principais cultivares plantadas eram aquelas selecionadas por agricultores, que levavam em consideração o vigor da planta, frutos graúdos e de formato cônico, com polpa espessa e firme. Normalmente recebiam o nome do produtor - cv. Ikeda - ou do local onde eram cultivadas - cv. Avelar, no Estado do Rio de Janeiro, e cv. São Carlos, no Estado de São Paulo.

O pimentão doce tem sido foco de programas de melhoramento há várias décadas no

Brasil. Programas de melhoramento do setor público criaram uma grande parte dos materiais plantados até a década de oitenta. As cultivares da série Agronômico, desenvolvidas sob a liderança de H. Nagai, do Instituto Agronômico de Campinas, foram, e algumas ainda são, de grande importância para a produção nacional. São cultivares resistentes à doença conhecida como mosaico (causada por um vírus do gênero Potyvirus). Esta doença surgiu no Estado de São Paulo, na década de sessenta, e inviabilizou o cultivo de pimentão na região por alguns anos. Também foram conduzidos programas de melhoramento de pimentão na Universidade Federal de Viçosa (UFV-MG), na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e na Embrapa Hortaliças.

A Embrapa Hortaliças, no setor público, a Sakata e a Horticeres, no setor privado, são hoje condutores de substanciais programas de melhoramento genético de pimentão no Brasil. A Sakata lançou, em 1978, a cv. Magda, de fruto cônico, que ainda hoje é muito plantada por pequenos produtores de pimentão. Em 1989, lançou o híbrido Magali, aliando produtividade e frutos bem maiores (cônico alongado); em 1995, o híbrido Magali R, com resistência a viroses; e em 1998, o híbrido Martha, com resistência a viroses e tolerância à doença fúngica murchade-fitóftora ou requeima.

O programa de melhoramento da Horticeres está concentrado na resistência à murchade-fitóftora, causada pelo fungo Phytophthora capsici, que é a principal doença do pimentão. A companhia lançou quatro híbridos resistentes no mercado: "Atenas", "Apólo", "Hércules" e "Priscila".

Nos últimos vinte anos, o programa de melhoramento da Embrapa Hortaliças tem-se concentrado principalmente na resistência múltipla a doenças como murcha-de-fitóftora (Phytophthora capsici), mancha-bacteriana (Xanthomonas campestris pv. vesicatoria), murchabacteriana (Ralstonia solanacearum), mosaico (PVY) e vira-cabeça (TSWV). Como resultado deste trabalho, foram liberadas linhagens que estão sendo utilizadas tanto no Brasil como no exterior, a exemplo da linhagem CNPH 148, resistente à murcha-de-fitóftora (usada como fonte de resistência pela Horticeres), e da linhagem CNPH 703, padrão mundial de resistência estável e durável a Xanthomonas campestris pv. vesicatoria. Em recentes estudos sobre hortaliças no Estado de São Paulo, a principal demanda levantada por extensionistas foi a necessidade de novas cultivares resistentes a pragas e doenças, mais produtivas e adaptadas às condições locais de cultivo.

Para consumo de fruto in natura, o mercado brasileiro tem preferência por frutos de formato cônico, graúdos e de coloração verde-escuro. Cultivares do tipo quadrado restringemse às regiões Norte, Nordeste e ao Rio Grande do Sul. Esse tipo de pimentão tem grande aceitação nos mercados americano e europeu. Alguns países da Europa têm importado pimentões brasileiros de formato quadrado, durante o inverno europeu.

No mercado existe um predomínio de híbridos, que se caracterizam pela resistência múltipla a doenças (herdada dos dois pais), alto vigor, produtividade, precocidade de produção e uniformidade.

Além de cultivares de frutos verdes (quadrados ou cônicos) e vermelhos quando maduros, existe no mercado um grande número de híbridos de pimentão coloridos, em cores que variam do marfim ao púrpura, passando pelo creme, amarelo e laranja e podem também apresentar resistência a diferentes doenças (ver Tabela 2). A área cultivada com estes híbridos ainda é pequena, e as sementes, importadas, correspondem a 1% do volume total de sementes de pimentão comercializado no Brasil, sendo normalmente cultivados em estufas.

Pimentas A maioria das cultivares de pimentas plantadas no Brasil como a 'Malagueta' (C. frutescens), 'Dedo-de-Moça' (C. baccatum), 'Cumari' (C.baccatum var. praetermissum), 'De Cheiro' e 'Bode' (C. chinense), são consideradas variedades botânicas ou grupos varietais, com características de frutos bem definidas. Normalmente, o produtor produz sua própria semente, e as diferenças existentes dentro destes grupos estão relacionadas às diferentes fontes de sementes utilizadas para o cultivo.

São poucos os programas nacionais de melhoramento de pimentas. Destes destaca-se o desenvolvimento de cultivares de pimenta doce para processamento industrial, como páprica doce e pimenta picante dos tipos 'Jalapeño' e 'Cayenne' para molhos líquidos, coordenado pela Embrapa Hortaliças. Os prováveis fatores que restringem trabalhos de melhoramento com pimentas advém da dificuldade de se manusear as pequenas flores para a execução dos cruzamentos e multiplicação das sementes; a produção escassa de sementes por frutos, uma vez que estes normalmente são muito pequenos e ainda a picância extrema dos frutos, dificultando a extração das sementes. Outro fator importante é a área consideravelmente pequena de produção de pimentas, que implica no desinteresse das companhias de sementes de produzirem e comercializarem sementes.

Apesar do crescente interesse no cultivo pimentas, este ainda é feito por pequenos produtores que produzem suas próprias sementes ou compram frutos maduros em mercados e feiras e deles extraem as sementes que serão utilizadas para plantio. Normalmente estas sementes são de qualidade variável, com baixa germinação e muitas vezes transmissoras de doenças (já que são obtidas sem seguir regras básicas para a produção de sementes). A maioria das áreas cultivadas com pimentas, as plantas apresentam sintomas de manchabacteriana (Xanthomonas campestris pv. vesicatoria), doença transmitida a longas distâncias por meio de sementes.

Capsicum annuum é a espécie mais cultivada e inclui as variedades mais comuns deste gênero como pimentões e pimentas doces para páprica e consumo fresco e pimentas picantes como 'Jalapeño', 'Cayenne' entre outras, e ainda poucas cultivares ornamentais (colocar fotos).

As pimentas dos tipos 'Jalapeño' e 'Cayenne' podem ser consumidas frescas, ou na forma de molhos líquidos (frutos maduros e vermelhos), desidratados na forma de flocos ou pó, ou ainda em conservas (verdes) e escabeches. Estas pimentas são cultivadas principalmente nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás.

Os tipos mais comuns e cultivados da espécie C. baccatum no Brasil são as pimentas

'Dedo-de-Moça', 'Chifre-de-Veado' e 'Cambuci' (também conhecida como 'Chapéu de Frade'). Neste grupo de pimentas, a pungência dos frutos é menos intensa; há inclusive cultivares de pimenta 'Cambuci' que são doces. A pimenta 'Dedo-de-Moça' é cultivada principalmente nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul. Além de ser consumida fresca, em molhos e conservas, também é utilizada na fabricação de pimenta 'calabresa' (desidratada na forma de flocos com a semente). A pimenta 'Cumari' é bem popular na região Sudeste do Brasil e é encontrada também em estado silvestre, crescendo sob árvores diversas e em capoeiras. Normalmente as plantas são mantidas por alguns anos e chegam a formar verdadeiros arbustos. Os frutos desta pimenta são bem pequenos, arredondados ou ovalados, de coloração vermelha quando maduros.

C. chinense é a mais brasileira das espécies domesticadas e caracteriza-se pelo aroma acentuado dos seus frutos. Há tipos varietais desta espécie com frutos extremamente picantes, como a pimenta 'Habanero', muito popular no México. No Brasil, as mais conhecidas são as pimentas 'De Cheiro', 'Bode', 'Cumari do Pará', 'Murici', 'Murupi', entre outras. Há também, dentro da espécie, uma expressiva variabilidade de formatos e cores de frutos. A pimenta 'De Cheiro', que predomina no Norte do país, possui frutos de tom amarelo-leitoso, amarelo-claro, amarelo-forte, alaranjado, salmão, vermelho e até preto. A pungência também é variável, são encontrados frutos doces a muito picantes. Na região Centro-Oeste, é mais comum o cultivo da pimenta 'Bode', que tem frutos arredondados de cor amarela ou vermelha quando maduros, e da 'Cumari do Pará', que possui frutos ovalados de coloração amarela quando maduros. Ambas possuem pungência e aroma característicos que as destinguem das demais. A pimenta 'Murupi', cultivada nos estados do Amazonas e Pará, possui coloração amarela e o aroma das pimentas 'De Cheiro' e 'Bode'.

(Parte 1 de 3)

Comentários