8 Sistema Reprodutor

8 Sistema Reprodutor

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Sistema Reprodutor

"CADA PARTO É UM PARTO." (Paul Claudel)

Semiologia do Sistema Reprodutor Feminino NEREU CARLOS PRESTES

Semiologia da Glândula Mamaria de Éguas,

Cadelas e Gatas FRANCISCO LEYDSON F. FEITOSA

Semiologia da Glândula Mamaria de Ruminantes EDUARDO HARRY BIRGEL

Semiologia do Sistema Reprodutor Masculino

Semiologia do Sistema Reprodutor Feminino

CARLOS PRESTES ILUSTRAÇÕES: Médica Veterinária Diane Hama Sassaki

O sistema reprodutivo das fêmeas constitui-sc de ovários, ovidutos, cornos e corpo uterino, cerviz, vagina, vestíbulo c vulva. As estruturas internas são sustentadas pelo ligamento largo: mesovário que sustenta o ovário; mesossalpinge que ancora o oviduto e o mesométrio que mantém o útero. Nervos autónomos inervam o ovário, o oviduto e o útero, enquanto as fibras sensitivas e parassimpáticas do nervo pudendo atendem a vagina, vulva e clitóris. Embriologicamente, os duetos de Múller fundem-se na porção caudal para originar o útero, cerviz e a porção anterior do canal vaginal. O oviduto torna-se sinuoso, adquirindo epitélio diferenciado e fímbrias pouco antes do nascimento.

As medidas dos ovários variam corn a idade, raça, número de partos, estado nutricional e fase do ciclo reprodutivo. Na vaca e na ovelha, têm forma de azeitona; na porca, parecem cachos de uva e, na égua, têm aspecto de rim, contendo a fossa de ovulação. Nas gatas, os ovários têm o tamanho e a forma lembrando um grão de arroz, parcialmente cobertos por uma bursa c, nas cadelas, o tamanho varia na dependência do ciclo estral, localizando-se próximo aos rins, sendo recobertos pela gordura periovárica. Desempenham dupla função, liberando os oócitos e promovendo a estcroidogênese.

As tubas ou ovidutos podem ser divididos em quatro segmentos funcionais: as fímbrias, o infundíbulo, a ampola e o istmo, vascularizadas por ramos das artérias uterinas e ovarianas. Apresentam funções singulares de conduzir o óvulo e os espermatozóides em direções opostas e, simultaneamente, permitir a fertilização e as primeiras clivagens e conduzir os embriões ao útero.

O útero é composto por dois cornos, um corpo curto e uma cerviz, também denominada de colo, com forma, comprimento e diâmetro variáveis de espécie para espécie. As paredes são constituídas por uma mucosa interna, uma camada muscular lisa intermediária e uma serosa externa (peritôneo), inervados por ramos simpáticos dos plexos uterino e pélvico. Os vasos sanguíneos são numerosos, espessos e sinuosos, representados principalmente pela artéria uterina média, um ramo da artéria ilíaca interna ou externa que supre o órgão e aumenta muito de diâmetro durante a gestação, permitindo-se palpar e sentir o frémito nos grandes animais gestantes mediante manipulação por via retal.

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O endométrio uterino é revestido por células epiteliais com típica função secretória e glândulas sinuosas e ramificadas. O volume e a composição do fluido uterino variam durante as fases do ciclo reprodutivo e apresentam as funções de permitir condições para a capacitação espermática e fornecer subsídios nutritivos ao embrião (blastocisto) até que se complete a implantação/placentação.

O útero apresenta ampla capacidade de distenção, permitindo a gestação; contrai-se fortemente no momento do parto, facilitando a expulsão dos produtos e involui rapidamente no puerpério, garantindo a depuração do órgão, preparando-se para nova prenhez.

A cerviz (Quadro 8.1) caracteriza-se pela espessa parede ligando o fundo vaginal ao corpo do útero, contendo saliências anelares na vaca e pequenos ruminantes, anéis em "saca-rolha" na porca, anel único com dobras de mucosa e protrusão na égua e textura firme nas cadelas e gatas. Permanece firmemente fechada, exceto durante o cio, e apresenta um muco (tampão cervical) que é expelido pela vagina, constituído de macromoléculas de mucina de origem epitelial.

O espaço vaginal é uma estrutura tubular de comprimento variável, constituída de superfície epitelial, uma fina camada muscular que lhe permite os movimentos de contração e de uma serosa. Apresenta odor sui generis para cada espécie animal, é um forte atrativo sexual, lubrificada por secreções da própria parede vaginal, produtos de glândulas sebáceas e sudoríparas, muco cervical, fluido endometrial tubárico e células esfoliativas. Essa capacidade de descamação epitelial permite observação e tipificação celular características de cada momento hormonal do ciclo estral, na maioria das espécies domésticas. É o órgão copulatório e via fetal mole no momento do parto, apresentando pH e flora microbiológica típica. Na porção ventral do vestíbulo, abre-se o meato urinário externo.

O genital feminino exterior é composto pela vulva, glândulas vestibulares e pelo clitóris. Embora não faça parte do aparelho reprodutor, a região perineal tem enorme importância nos animais domésticos, pois eventuais defeitos de conformação acarretam posicionamento anómalo da vulva, refletindo-se no desempenho reprodutivo do animal (Figs. 8.1 a 8.6).

Quadro 8.1 - Funções da cerviz.

1. Facilitar o transporte espermático. 2. Atuar como reservatório de espermatozóides. 3. Agir na seleção de espermatozóides viáveis.

Figura 8.1 - Ilustração esquemática do aparelho reprodutor da vaca, vista dorsal. Vulva, vestíbulo e conduto vaginal abertos, permitindo a visualização da cerviz, clitóris e meato urinário externo.

A fisiopatologia da reprodução dos animais domésticos é um capítulo muito rico e altamente estudado. Os sinais e sintomas são exibidos isoladamente ou envolvendo outros sistemas orgânicos. Deve ser lembrada a estacionalidade reprodutiva dos equídeos e de algumas raças de pequenos ruminantes. De forma geral, a referência do proprietário ou a observação do técnico detectam as seguintes anormalidades: anestro prolongado, ciclos irregulares, ninfomania, estros curtos, comportamento masculinizado, defeitos anatómicos da genitália externa, aumento de volume no períneo ou projeções anormais exteriorizadas pela vulva, distensão abdominal, dor, con-

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Figura 8.2 - Representação do aparelho reprodutor da vaca. CE = corno uterino esquerdo; CD = corno uterino direito; OE = ovário esquerdo; OD = ovário direito; CO = corpo do útero; C = cerviz; Vá = vagina; Vê = vestíbulo; MUE = meato urinário externo; CL = clitóris; Vu = vulva; T = tuba.

trações e esforços expulsivos, crostas aderidas na cauda c períneo, corrimento vaginal sanguinolento (fazer o diagnóstico diferencial com proestro e estro em cães), folículo ovariano persistente, tumores ovarianos produtores de estrógeno, tumor venéreo transmissível (cães), cistite, laceração vaginal, metrorragia, coagulopatias, corpo estranho vaginal, descolamento placentário durante a gestação, subinvolução dos sítios placcntários (cães). Outras secreções vaginais incluem corrimento verde escuro (puerpério inicial em cães), secreção marrom fétida (morte com decomposição fetal), secreção serossanguinolenta, secreção purulenta (infecções), secreção marrom ou enegrecida (mumificação fetal). Cuidado especial deve ser dado às hemorragias via vagina nos grandes animais, decorrentes de varizes vaginais ou lacerações e rupturas extensas dos órgãos genitais. Distúrbios locais e aqueles de ordem metabólica podem influenciar sobremaneira as manifestações do aparelho reprodutor feminino. Polidipsia e poliúria são sinais mais relatados nos casos de piometra em pequenos animais.

O material básico necessário para o exame do aparelho reprodutor compreende:

Luva plástica descartável. Lubrificante (não utilizar óleo vegetal). Água e sabão ou detergente neutro. Papel toalha.

Faixa ou plástico para forrar a cauda. Solução fisiológica.

Especulo metálico ou descartável compatível. Bandeja metálica estéril. Pinça de biopsia uterina. Aparelho para coleta de amostra para micro- biológico. Escovas para coleta citológica. Lanterna. Meios para transporte e fixação das amostras. Seringas. Pipetas. Álcool. Fósforo. Solução anti-séptica.

Sacro

Órgão genital feminino Figura 8.3 - Disposição anatómica do reto e do aparelho reprodutor da vaca em relação aos ossos rekicos. Vista lateral direita. Fémur

Vagina CervizCorpo

338 Semiologia Veterinária: A Arte do Diagnóstico uterino Corno uterino

Ovário direito esquerdo

Corno uterino direito

Figura 8.4 - Vista lateral direita e a relação anatómica do aparelho reprodutor da vaca com relação ao reto e bexiga, excluindo-se a representação óssea.

Figura 8.5 - Representação esquemática da disposição anatómica do aparelho reprodutor da égua. R = reto; Vê = vestíbulo vaginal; MUE = meato urinário externo; Vá = vagina; C = cerviz; Co = corpo uterino; CD = corno direito; CE = corno esquerdo; OD = ovário direito; U = uretra; B = bexiga urinária; L = ligamento largo.

Figura 8.6 - Representação anatómica do aparelho reprodutor da porca. Observar a sinuosidade dos cornos uterinos e a aparência dos ovários lembrando cacho de uva. CL = clitóris; Vu = vulva; Vê = vestíbulo; MUE = meato urinário externo; Vá = vagina; C = cerviz "em saca rolha"; Co = corpo uterino; CE = corno uterino esquerdo; CD = corno uterino direito; T = tuba; OD = ovário direito; OE = ovário esquerdo.

Vestíbulo

Vu

Semiologia do Sistema Reprodutor Feminino 339

Tabela 8.1 - Resumo da sequência do exame clínico do aparelho reprodutor feminino.

Identificação ou resenha Anamnese

Exame físico - Geral

- Específico

Exames complementares

- Raça, espécie, idade, eventuais particularidades - Primípara, plurípara

- Condição nutricional - Corrimento

- Coloração de mucosas, linfonodos,

- Parâmetros vitais: temperatura corporal, frequência cardíaca, frequência respiratória, frequência dos ruídos ruminais

- Distensão e tensão abdominal - Forma e dilatação da vulva

- Aumentos de volume, cicatrizes

- Exame retal

- Dosagem hormonal, exames microbiológicos e sorológicos, exames citológico e histológico

Figura 8.7 - Esquema ilustrativo da disposição anatómica do aparelho reprodutor da porca na cavidade abdominal.

Figura 8.8-Vista posterior de égua contida em tronco metálicoFigura 8.9 - Vista posterior de vaca contida em tronco. O

Observar a posição do ânus, vulva e hipertrofia de clitóris. animal apresenta prolapso cervicovaginal pós-parto normal.

340 Semiologia Veterinária: A Arte do Diagnóstico

Figura 8.13 - Útero de cadela com acúmulo de pus piometra. Figura 8.10 - Prolapso parcial de vagina em vaca.

Figura 8.1 - Laceração perineal de 39 grau em égua ocorrida no momento do parto. Nota-se a entrada do reto. Parte do espaço vaginal e ruptura completa do períneo e esfíncter anal.

Figura 8.12 - Prolapso parcial de útero em cadela pós-parto.

Figura 8.14 - Tumor no corpo do útero, provocando bloqueio mecânico do parto.

Identificação. Espécie, raça, nome, número, tatuagem, registro, idade, peso, eventuais particularidades (Tabela 8.1).

Anamnese. Pode ser inquiridora ou espontânea, procurando resgatar todo o histórico reprodutivo do animal. Anotar todas as observações do proprietário, tratador ou responsável e atentar para a alimentação, manejo sanitário, medidas preventivas, utilização de drogas medicamentosas e a situação dos outros animais do grupo ou rebanho. Tirar conclusões ou negligenciar alguns aspectos, nesse momento, não é recomendável.

Exame geral. Temperatura retal, linfonodos, pele e anexos, mucosas, exame convencional dos grandes sistemas e da glândula mamaria (inspeção, palpação e eventual análise da secreção). Atentar

Semiologia do Sistema Reprodutor Feminino 341 para o estado nutricional e eventuais distúrbios circulatórios (edema localizado ou difuso).

Exame específico externo. Baseia-se principalmente na inspeção e na palpação externa. Avaliar a distensão e a tensão abdominal, sinais de movimentos fetais ou contrações musculares e de timpanismo. Examinar a região perineal, vulva, cauda c glândula mamaria, verificando o edema e a quantidade, qualidade, odor e cor da secreção vaginal. Observar atentamente a posição, forma, grau de dilatação e relaxamento da vulva e ligamentos sacroisquiáticos. Aumentos de volume, cicatrizes, prolapsos e lesões devem ser criteriosamente anotados. Inspecionar os ossos pélvicos.

Embora a glândula mamaria mereça um exame semiológico especial, a inspeção externa deve se ater ao tamanho, à forma do úbere e dos tetos, pele, coloração e observação de nodosidades. A palpação auxilia sobremaneira as conclusões.

Exame específico interno. Nos animais em trabalho de parto, o exame obstétrico interno específico, quando necessário, deve ser realizado por via vaginal com manipulação direta com luva, nos grandes animais, e pelo toque digital, nos pequenos animais, após prévia higienização do períneo do animal, dos braços do operador e do material necessário e sob intensa lubrificação. Nos pequenos ruminantes e na porca, esse procedimento deve ser cuidadoso e sob intensa lubrificação, devido ao seu tamanho e riscos de lacerações e ruptura uterina (ver Figs. 8.7 a 8.14). Observar:

a) vias fetais: abertura e grau de lubrificação; b) bolsas fetais: ruptura, cor, odor e quantidade dos líquidos; c) feto: viabilidade, tamanho e apresentação, posição e atitude.

Para um exame ginecológico rotineiro, empregado fundamentalmente para animais não gestantes, sadios ou com problemas reprodutivos e para animais prenhes em situações especiais, inclui-se a palpação via retal para equinos e bovinos, a palpação abdominal para médios e pequenos animais e a vaginoscopia. Nos suínos, ovinos, caprinos e grandes cães ou animais obesos, a manipulação do abdome é difícil, comprometendo, em algumas circunstâncias, o diagnóstico.

Exames complementares como o Raio X, a ultra-sonografia, a endoscopia, a dosagem hormonal, os exames hematológicos e bioquímicos podem ser ferramentas essenciais.

Exame Retal em Grandes Animais

O examinador deve estar convenientemente trajado com bota, avental ou macacão, luva comprida e utilizar lubrificante durante a limpeza do reto e manipulação sobre os órgãos internos. As unhas devem ser aparadas e os animais devidamente contidos em troncos, para evitar acidentes. O conhecimento de anatomia e fisiologia é essencial para o reconhecimento das estruturas, para diferenciar útero vazio do gestante e a condição normal do estado patológico (Figs. 8.15 e 8.16).

Por convenção clássica, a espessura do útero da vaca vai de El (l dedo) até EVI, em que é impossível delimitá-lo manualmente. Para simetria:

• S = simétrico (ambos os cornos).

• AS = assimétricos. • AS+++ = corno direito maior que o esquerdo.

• + AS = corno esquerdo ligeiramente maior ao oposto.

GI = relaxado.

CII = contratilidade média. CHI = fortemente contraído.

A exploração retal deve atingir a cerviz, o útero e os ovários. A localização ovariana em geral não apresenta dificuldades e o tamanho do órgão depende da idade, da raça dos animais, da estação do ano (éguas), da fase do ciclo estral e de eventuais situações patológicas, principalmente os cistos e os tumores.

Fundamentalmente, dedilhando o ovário, buscase verificar a presença de folículos, de corpo lúteo ou aumentos de volume anómalos que, aliados a outros achados, nos auxiliam no diagnóstico.

Com o advento e uso da ultra-sonografia em larga escala, a mensuração do ovário e de cada folículo ficou fácil e altamente fidedigna, permitindo o estudo do comportamento ovariano, melhorando a acuidade de observação e dos métodos diagnósticos.

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