Plantas invasoras

Plantas invasoras

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE ZOOTECNIA, VETERINÁRIA E AGRONOMIA DEPARTAMENTO DE AGRONOMIA DISCIPLINA DE PLANTAS INVASORAS (Codicred: 34213-4)

Material de Apoio para as Aulas Teóricas da Disciplina de PLANTAS INVASORAS

Prof. Fernando Felisberto da Silva

Uruguaiana, RS Agosto de 2006

PLANTAS INVASORAS 2 SUMÁRIO

Importância do estudo das plantas invasoras3
Aspectos botânicos das plantas invasoras, ciclos de vida e hábito8
Reprodução, dispersão, origem e habitat das plantas invasoras14
Interferência das plantas daninhas19
Nível de dano econômico em plantas daninhas3
Métodos de controle de plantas daninhas36
Absorção e translocação de herbicidas4
Modo de ação geral dos herbicidas52
Inibidores da ACCase54
Inibidores da ALS60
Inibidores da EPSPS65
Auxinas sintéticas69
Inibidores do FSI74
Inibidores do FSII80
Inibidores da Protox84
Inibidores da síntese de carotenóides8
Inibidores da parte aérea90
Inibidores da síntese da tubulina93
Tecnologia de aplicação de herbicidas95
Resistência de plantas daninhas a herbicidas103
Interações dos herbicidas no solo e ambiente120
Formulações dos herbicidas125
Controle de plantas daninhas em ambientes aquáticos: ênfase em arroz irrigado128
Controle de plantas daninhas em frutíferas138
Controle de plantas daninhas em pastagens142
Controle biológico de plantas daninhas145

Bibliografia complementar ........................................................................................... 148

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1.1 Introdução

As plantas invasoras, em termos de nomenclatura botânica, são consideradas plantas pioneiras, ou seja, plantas evolutivamente desenvolvidas para a ocupação de áreas onde, por algum motivo, a vegetação original foi profundamente alterada, ocorrendo grande disponibilidade de nichos de crescimento vegetal. Estas plantas têm a função de criar habitats adequados ao início de uma sucessão de populações que culmina no restabelecimento da vegetação original.

Com o desenvolvimento da sociedade humana, as áreas agrícolas foram expandidas e houve grande continuidade entre plantas pioneiras e o aparecimento de novas espécies. Assim as comunidades infestantes foram se tornando cada vez mais densas, diversificadas e especializadas na ocupação dos agroecossistemas, passando a interferir profundamente nas atividades agrícolas.

Durante o seu processo evolutivo as plantas daninhas adquiriram grande capacidade de sobrevivência em áreas com grande intensidade de distúrbio e baixo estresse ao desenvolvimento de vegetação, ou seja, as áreas agrícolas em geral.

As características que asseguram a sobrevivência das plantas pioneiras em áreas de elevado distúrbio, são: elevada produção de diásporos, dotados de capacidade de disseminação em curtas e longas distâncias, em larga faixa de condições ambientais e por longo período de tempo; diásporos com capacidade de dormência; estruturas de reprodução com elevada longevidade; desuniformidade no processo de germinação, florescimento, frutificação, brotação de gemas em tubérculos, bulbos ou rizomas; rápido crescimento vegetativo e florescimento; produção de estruturas reprodutivas alternativas; plantas autocompatíveis, mas não totalmente autógamas ou apomíticas; quando alógamas, utilizam também os agentes de polinização não específicos, como o vento; utilização de processos especiais de competição, como alelopatia e hábito trepador; quando perenes apresentam vigorosa reprodução vegetativa ou regeneração de fragmentos e fragilidade na região do colo, de modo a não poderem ser arrancadas totalmente do solo.

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Estas características tornam difícil a eliminação destas plantas do ambiente onde a agricultura e a pecuária são praticadas. Por esta razão estas plantas são consideradas invasoras, por estarem presentes em locais onde não são desejáveis ou onde não deveriam estar, e daninhas, por interferirem prejudicialmente nas atividades agropecuárias. Uma planta pode ser invasora e permanecer assim, sem causar dano, por todo ciclo da cultura ou atividade, mas caso aumente sua população, ultrapassando determinados níveis, passará a ser considerada daninha, pois estará acarretando prejuízos econômicos. A escolha do termo pioneira, invasora ou daninha dependerá muito da interpretação do profissional responsável pelo diagnóstico da situação. Ainda são utilizados os termos inços, mato, praga, planta espontânea, entre outros para definir estas plantas.

Neste curso abordaremos alguns temas referentes às espécies de plantas invasoras com potencial de causar danos aos cultivos agrícolas, como sua biologia, seus aspectos reprodutivos, sua interferência nas atividades agrícolas e suas formas de manejo e controle.

1.2 Importância econômica e social

As plantas invasoras apresentam inúmeras contribuições agronômicas importantes, destacando-se: a melhoria da conservação, estrutura e fertilidade do solo; o fato de poderem servir de abrigo e alimento para inimigos naturais, além de servir como plantas iscas ou armadilhas no controle de determinadas pragas; o aumento da diversidade vegetal de determinadas áreas degradadas; em alguns casos podem ser fonte de alimento para animais; entre outras contribuições.

Sua principal importância, no entanto, está associada ao fato de causarem danos aos cultivos agrícolas, recebendo, inclusive, a denominação de plantas daninhas. Os principais problemas que estas plantas ocasionam são: a) redução da produtividade e do valor da terra

A presença das plantas daninhas nas áreas cultivadas resulta na redução da produtividade, tanto pela competição direta pelos fatores de produção, quanto pela interferência sobre as plantas cultivadas, como ocorre no caso da alelopatia. Algumas plantas daninhas extraem grandes quantidades de nutrientes do solo, como é o caso da beldroega (Portulaca oleracea) para o potássio e o amendoim-bravo ou leiteiro (Euphorbia heterophylla) para o nitrogênio.

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Outras plantas daninhas, estas consideradas tóxicas, quando presentes em pastagens podem resultar em morte ou doenças em animais, representando sério prejuízo na pecuária. Como exemplo temos o mio-mio (Baccharis cordifolia) e a mariamole (Senecio brasiliensis) na região sul do Brasil.

Alguns métodos utilizados repetidamente na mesma área para o controle de determinadas plantas daninhas podem ter efeito também sobre a cultura principal, a qual está se tentando proteger. Estes efeitos dizem respeito a lesões nas raízes, no caso de métodos mecânicos de controle, ou fitotoxicidade, no caso da utilização irracional de herbicidas, diminuindo assim a produtividade.

Da mesma forma, qualquer terra infestada por plantas daninhas tem seu valor reduzido, especialmente se estas espécies forem perenes, como a grama-seda (Cynodon dactylon) em áreas de lavouras anuais ou caraguatá (Eryngium horridum) em pastagens. b) perda da qualidade do produto agrícola

As plantas daninhas podem causar perdas de qualidade do produto vegetal, especialmente na colheita, quando ocorre a presença de restos vegetais das mesmas, muitas vezes ainda verdes. Isto resulta diretamente em impurezas que indiretamente provocam a elevação do teor de umidade no produto e o favorecimento do surgimento de fungos.

Quando o produto a ser colhido destina-se a sementes o problema tem importância ainda maior, existindo uma legislação específica que regulamenta a produção de sementes e fixa normas e limites a certas espécies daninhas presentes nos campos de produção e no produto final.

A presença de plantas daninhas em pastagens pode reduzir a área de pastejo disponível e depreciar a qualidade do alimento, no caso do consumo de certas daninhas pelos animais, resultando em perda de peso e rendimento final. c) disseminação de pragas e doenças

Um grande número de insetos, nematóides, patógenos e ácaros, utilizam-se das plantas daninhas como hospedeiras. Como exemplo podemos citar o caso do caruru (Amaranthus viridis) e do picão-roxo (Ageratum conyzoides) conhecidos hospedeiros de mosca-branca (Bemisia tabaci) e do nematóide (Tetranychus telarius). d) maior dificuldade e custo no manejo da área

Há a necessidade de um amplo planejamento antes da implantação da lavoura, envolvendo desde o preparo mais intenso do solo até intervenções adicionais

PLANTAS INVASORAS 6 durante o ciclo de cultivo, visando o controle das plantas daninhas. O não controle pode trazer sérias conseqüências durante a condução da lavoura, como perda de produtividade e problemas na colheita, decorrentes de embuchamento e quebra de máquinas ou dificuldade de acesso manual à cultura.

Estes fatores acabam por elevar os custos de produção, o que pode resultar em menor renda ao agricultor ou elevação do preço pago pelo consumidor. e) problemas com manejo e perda de água

As plantas daninhas que ocorrem em lagos, represas, rios e canais de irrigação podem causar sérios prejuízos.

Um dos prejuízos mais significativos é elevar a perda de água em lagos e represas via transpiração. Calcula-se que em uma represa coberta com aguapé (Eichornia crassipes) as perdas são 3,7 vezes maiores que em uma represa sem vegetação. Esta espécie também causa sérios problemas quando presente em canais de irrigação, diminuindo o fluxo de água.

Outra espécie, a taboa (Typha angustifolia), provoca grandes inconvenientes quando presente em represas e lagos, já que a espécie se espalha rapidamente, reduzindo as dimensões do espelho d’água e impossibilitando o seu uso para pescaria ou lazer. Há casos que a presença de grande número de algas poder prejudicar a qualidade da água para utilização residencial.

A disseminação das espécies nestas condições é muito ampla e facilitada pela própria água, especialmente quando esta é usada para irrigação.

A presença de plantas daninhas aquáticas em açudes destinados a piscicultura também é problemática, pois acabam provocando problemas em relação a dinâmica dos gases, quantidade de luz e nutrientes na água. f) problemas em outras áreas da atividade humana

Nas áreas de lazer e de esporte, como gramados, parques e jardins, a ocorrência de outras espécies causa problemas estéticos e práticos. Campos de futebol, golfe, tênis, etc. devem apresentar apenas as poáceas próprias para o seu uso. No entanto, é muito comum a ocorrência de pega-pega (Desmodium sp.) e de outras espécies, prejudicando a finalidade e a estética.

Existem outras áreas, como nas áreas industriais, ao redor de tanques e construções, ao longo de estradas, cercas e oleodutos, nos leitos de ferrovias, e vias públicas e nas áreas residenciais, onde também a presença de plantas daninhas é problemática e seu controle é trabalhoso e oneroso.

PLANTAS INVASORAS 7 g) danos causados à vida e à saúde humana

Em lavouras colhidas manualmente a presença de plantas com espinhos é extremamente desagradável, causado grandes problemas, como ferimentos nas mãos, braços e rosto dos trabalhadores, como o capim-carrapicho (Cenchrus echinatus) e a unha-de-gato (Acacia plumosa).

Muitas plantas possuem folhas ou frutos com substâncias tóxicas, como a cicuta (Conium maculatum), que quando ingeridas podem provocar a morte. Outros problemas são mais comuns como as dermatites, as irritações da pele e as alergias, a exemplo da urtiga (Jatropha urens), a losna-branca (Parthenium hysterophorus) e o capim-gordura (Melinis minutiflora).

Outras plantas que acumulam água na base de suas folha ou em outras partes, como as bromeliáceas, podem hospedar insetos que transmitem doenças.

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2.1 Introdução

Identificar as plantas invasoras e conhecer a sua biologia é fundamental para o manejo destas plantas. Isto inclui o conhecimento de seu hábito e características em função do local onde está ocorrendo, a fim de que se possa escolher o momento oportuno para a intervenção e o método de manejo que melhor se adapta.

Em alguns casos apenas o manejo adequado dos solos é suficiente para o controle de uma espécie daninha. Como exemplo podemos citar o caso da samambaia (Pteridium aquilinum) em pastagens, a qual é tóxica para o gado. Sabe-se que esta espécie é perene e ocorre em solos de baixa fertilidade e com elevada acidez. Para o seu controle é necessário apenas a elevação do pH e o aumento da fertilidade do solo, o que trará efeitos positivos também à pastagem.

Para que medidas desta natureza sejam realizadas é necessário em primeiro lugar a correta classificação das espécies de plantas invasoras (sistemática) e em segundo, o conhecimento de suas características, em particular, e seu comportamento.

Neste capítulo será abordado aspectos relativos a sistemática das plantas invasoras, aos seus ciclos de vida e ao hábito de crescimento.

2.2 Classificação

Em nosso estudo adotaremos o sistema Cronquist de classificação. De uma maneira geral, têm-se classificado as plantas invasoras em Classe, Família, Gênero e Espécie.

Certamente a diferenciação das classes é o primeiro passo na correta classificação destas plantas. A classe Magnoliopsida (Dicotyledoneae) possui um grande número de famílias, mais de 40, sendo as mais representativas no Brasil as famílias: Asteraceae, Convolvulaceae, Malvaceae, Amaranthaceae, Solanaceae,

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