Seletividade de herbicidas para culturas e plantas daninhas

Seletividade de herbicidas para culturas e plantas daninhas

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Capítulo 9 - SELETIVIDADE DE HERBICIDAS PARA CULTURAS E PLANTAS DANINHAS

Rubem Silvério de Oliveira Jr.1

Resumo: A seletividade esta relacionada à tolerância diferencial, sendo um fator relativo e particularmente característico para uma determinada interação herbicida-planta daninha-cultura-condições edafoclimáticas. A seletividade pode ser derivada de uma aplicação na qual o tempo ou o espaço separe duas espécies de plantas de sensibilidade semelhante. Na ausência desses dois casos, a seletividade pode ocorrer devido à atuação diferencial de um herbicida nas plantas, o que acontece basicamente porque estas diferem quanto a fatores relacionados à absorção, translocação e metabolismo do herbicida em questão, ou em relação ao manejo ou ao método de aplicação do mesmo. Outros avanços recentes relacionam-se à inclusão de substancias químicas protetoras na formulação de alguns herbicidas, bem como no desenvolvimento de plantas tolerantes a herbicidas através de biotecnologia.

1 Professor Adjunto do Departamento de Agronomia, Universidade Estadual de Maringá.

Introdução

A seletividade de herbicidas é a base para o sucesso do controle químico de plantas daninhas na produção agrícola, sendo considerada como uma medida da resposta diferencial de diversas espécies de plantas a um determinado herbicida. Uma vez que a base da seletividade aos herbicidas é o nível diferencial de tolerância das culturas e das plantas daninhas a um tratamento específico, a seletividade trata-se, portanto, de um fator relativo, e não absoluto. Quanto maior a diferença de tolerância entre a cultura e a planta daninha, maior a segurança de aplicação.

Alguns herbicidas, como os fenoxicarboxílicos, controlam preferencialmente plantas daninhas de folhas largas e não gramíneas, enquanto outros herbicidas, como as dinitroanilinas, controlam principalmente gramíneas. Outros herbicidas, como o paraquat, controlam gramíneas e folhas largas anuais, mas não controlam plantas daninhas perenes. O efeito seletivo do herbicida é, portanto, uma manifestação das complexas interações entre uma planta, o herbicida e o ambiente no qual a planta se desenvolve.

Um herbicida seletivo é aquele que é muito mais tóxico para algumas plantas do que para outras dentro dos limites de a) uma faixa específica de doses; b) método de aplicação e c) condições ambientais que precedem e sucedem a aplicação. Erros cometidos pelo usuário, tais como escolha imprópria do produto, época de aplicação, dose ou equipamento podem anular a diferença entre espécies tolerantes e susceptíveis e ambas podem ser injuriadas, ocasionando a perda da seletividade. A maneira por meio da qual a seletividade se expressa varia para cada combinação específica cultura-planta daninha e é normalmente bastante especifico. Portanto, talvez o mais correto fosse julgar se determinado tratamento, e não um herbicida especificamente, é seletivo para determinada cultura. Por tratamento seletivo entende-se aquele que controla plantas indesejáveis (plantas daninhas) sem afetar seriamente aquelas que são de interesse (as culturas). A espécie que não sofre injúrias é considerada tolerante e a injuriada susceptível.

Fatores que determinam a seletividade

Embora constitua-se da interação de diferentes fatores, para fins didáticos os principais aspectos relacionados à seletividade dos herbicidas para as plantas podem ser classificados em três categorias:

1. Fatores relacionados às características do herbicida ou ao método de aplicação

Dose

A dose de um herbicida é expressa como a quantidade (peso ou volume) da substância a ser aplicada por unidade de área. A dose de aplicação de um herbicida deve ser tal que as plantas daninhas sejam efetivamente controladas com pouco ou nenhum dano para as plantas cultivadas. Por exemplo, as triazinas foram inicialmente introduzidas como esterilizantes de solo não seletivos, usados em doses de 20 a 40 kg/ha. Mais tarde, descobriu-se que elas poderiam ser usadas seletivamente em certas culturas como alfafa e algodão, quando aplicadas em doses entre 1 e 2 kg/ha.

Além disso, uma determinada dose pode ser seletiva para uma espécie e letal para outra. No caso do imazethapyr, por exemplo, a soja apresenta uma tolerância cerca de 20 vezes superior à do milho (Tabela 1).

Tabela 1. Comparação da atividade herbicida e taxa de metabolismo de imazethapyr em plantas de soja e milho. Fonte: Shaner & Mallipudi (1991).

Espécie Dose segura* (g/ha) Meia-vida (horas)

Soja >500 31 Milho 24 21

* Dose segura é considerada a dose mais alta que resulta em menos de 15% de injúria a cultura.

Formulação

A formulação de um herbicida é muito importante para determinar se este é ou não seletivo para uma determinada espécie. Talvez o exemplo mais claro disso seja a utilização de formulações sólidas (granuladas ou peletizadas), as quais permitem que, após a distribuição no campo, o herbicida não fique retido pelas folhas das culturas e caia no solo. Outra aplicação para estas formulações são as aplicações localizadas em pastagens, as quais objetivam o controle de espécies arbustivas ou de infestações localizadas em reboleiras, minimizando a área de pastagem pulverizada.

Substâncias conhecidas como adjuvantes são geralmente adicionadas para melhorar as propriedades de formulações líquidas; estes aditivos podem aumentar ou diminuir a fitotoxicidade do herbicida em questão. A adição de antídotos às formulações também pode ser usada para aumentar a tolerância da cultura a um herbicida específico.

Localização espacial ou temporal do herbicida em relação a planta

Localização espacial do herbicida (seletividade de posição)

A seletividade de herbicidas obtida pelo posicionamento físico é discutida aqui em referência a qualquer fator que resulte na separação espacial entre tecidos sensíveis da cultura e doses tóxicas dos herbicidas. A seletividade desejada é alcançada quando uma concentração tóxica do herbicida fica em contato com as plantas daninhas mas evita-se tais concentrações para as culturas.

O posicionamento do herbicida no espaço pode atuar como um fator de seletividade, evitando-se, por exemplo, que o produto aplicado entre em contato com partes subterrâneas que poderiam absorver o produto. Isto pode acontecer quando herbicidas são aplicados na superfície do solo e não incorporados, incorporados de maneira rasa ou aplicados apenas na área entre as linhas das culturas.

Algumas culturas perenes não sofrem danos após a aplicação de herbicidas aplicados ao solo por possuírem raízes profundas, o que evita o contato direto com altas concentrações do herbicida.

Vários outros fatores além do método e do momento de aplicação em relação ao estádio de crescimento da cultura ou da planta daninha podem influenciar a seletividade de posição, incluindo a incorporação mecânica, irrigações, formulação do herbicida, propriedades químicas do herbicida e do solo. Restrições ao uso de herbicidas relacionadas a estes fatores muitas vezes podem ser encontradas nos rótulos dos produtos comerciais. Variáveis ambientais também interagem com fatores físicos afetando a seletividade de herbicidas, e condições externas (precipitação, temperatura) que afetem o movimento dos herbicidas ou alterem a resposta fisiológica das plantas podem reduzir a seletividade.

A seletividade de posição é um dos fatores mais importantes para os herbicidas do grupo das dinitroanilinas. Estes herbicidas são absorvidos principalmente pelas plântulas das gramíneas antes da emergência. Como a maioria das sementes das plantas daninhas encontra-se nos primeiros centímetros de profundidade do solo e tais herbicidas são muito pouco móveis no perfil, acabam por afetar apenas as plantas daninhas e não a cultura.

Seletividade de posição em aplicações em pós-emergência:

Com respeito à aplicação de herbicidas em pós-emergência, pode-se alcançar seletividade ao evitar-se que o herbicida entre em contato com a cultura em locais de absorção preferencial dos herbicidas, tais como folhas ou gemas, ao mesmo tempo fazendo-o entrar em contato com as plantas daninhas já emergidas. Isto é, geralmente, alcançado através do uso de aplicações dirigidas na base das plantas ou através de pulverizações com equipamentos de proteção acoplados a barra de pulverização.

Aplicações localizadas são, geralmente, feitas depois que as plantas da cultura já atingiram um tamanho tal que permitam uma pulverização dirigida abaixo do dossel foliar, evitando contato direto com as folhas e gemas axilares (Figura 1). Nesta fase, as plantas daninhas devem estar pequenas, de modo que possam ser inteiramente cobertas pelo jato aplicado. Aplicações dirigidas em culturas plantadas em linhas requerem a adequação do equipamento de aplicação, normalmente com a utilização de pingentes e bicos de pulverização especiais. A maior vantagem deste tipo de utilização é que ela possibilita o uso de herbicidas não seletivos (que geralmente são de menor custo em relação aos seletivos) nas culturas.

Figura 1. Pulverizações localizadas em jato dirigido nas entrelinhas da espécie cultivada minimizam a exposição da cultura e maximizam a das plantas daninhas, podendo resultar no uso seletivo de um herbicida não seletivo.

Aplicações com proteção são geralmente usadas em culturas em que não se adequa a aplicação dirigida anteriormente descrita. Uma barreira física, normalmente montada na barra de aplicação, é usada para proteger a cultura da pulverização do herbicida. No entanto, plantas daninhas presentes nas linhas da cultura também não são alcançadas. Para reduzir a possibilidade de deriva durante a aplicação, pode-se usar baixas pressões e bicos que proporcionem gotas maiores durante a pulverização.

Diquat e paraquat, mesmo sendo herbicidas não seletivos, podem ser usados de uma forma seletiva, fazendo-se, por exemplo, a aplicação em jato dirigido localizado nas entrelinhas da cultura do milho.

2. Fatores relacionados às características das plantas

A seletividade a herbicidas pode ser obtida por meio de diferenças fisiológicas e morfológicas entre espécies de plantas. Tais diferenças estão relacionadas com a entrada de herbicidas nas plantas e seu efeito subsequente após a entrada. Os fatores fisiológicos que influenciam a atividade e a seletividade envolvem aspectos relacionados com a absorção, translocação, e metabolismo das plantas.

A. Seletividade associada à retenção e absorção diferencial

As características das folhas que influenciam na seletividade são basicamente aquelas que afetam a interceptação e a retenção do herbicida pulverizado tais como superfície e ângulo de inserção foliar, forma, número e arranjo do dossel. Lâminas foliares que formam ângulos de 45 graus ou mais com o plano horizontal retém menos calda pulverizada do que aquelas que são mais paralelas a esse plano.

O número de folhas e o seu arranjo nas plantas afeta a penetração do herbicida pulverizado no dossel foliar. Dosséis abertos permitem uma maior penetração da pulverização e, portanto, molhamento mais completo da planta. Dosséis foliares mais densos tendem a interceptar o jato de pulverização, interferindo na penetração.

Especificamente com relação às gramíneas, algumas características morfológicas dessas plantas dificultam ou reduzem a interceptação, absorção e translocação de herbicidas, fazendo com que poucas classes de herbicidas aplicados em pós-emergência possuam ação de controle dessas plantas. Estas características são:

• As folhas nascem em ângulos muito agudos e as gotículas dos herbicidas têm dificuldade de penetrar e de serem retidas pelo dossel. O efeito do ângulo foliar se torna mais pronunciado quando a superfície foliar também tem depósitos de ceras epicutilares.

• Os pontos de crescimento das gramíneas são localizados na base das plantas, e durante a fase inicial de crescimento, muitas vezes abaixo da superfície do solo. É, portanto, difícil matar gramíneas com herbicidas de contato que não atingem estes pontos de crescimento.

• Presença de meristema intercalar (internós), sistema vascular difuso, pouco funcional e sistema radicular fasciculado, o que limita a capacidade dos herbicidas de se translocarem e atingirem os respectivos locais de atuação.

Idade das plantas

A idade da planta afeta a absorção do herbicida, sua translocação e atividade nas plantas. Plantas jovens são mais susceptíveis a herbicidas do que plantas mais velhas, principalmente porque as plantas jovens possuem mais tecidos meristemáticos. Os tecidos meristemáticos são o centro da atividade biológica das plantas. Conseqüentemente, espera-se que os herbicidas que afetam processos metabólicos sejam muito tóxicos para plantas que possuem uma grande quantidade de tecidos meristemáticos e tenham pouca ou nenhuma atividade em plantas mais velhas, nas quais passam a predominar tecidos diferenciados.

Cultivar

Cultivares de cebola implantadas por meio de semeadura direta diferem entre si na tolerância a herbicidas. A cultivar Baia Periforme é mais tolerante do que as cultivares Granex e Texas Grano, em função da maior cerosidade foliar que apresenta (Tabela 2). A cerosidade diminui a retenção da calda pulverizada nas folhas, reduzindo a quantidade absorvida e o efeito fitotóxico de herbicidas aplicados em pós-emergência.

Tabela 2. Matéria seca da parte aérea de plantas de cebola (g/0,5 m) obtida 62 dias após a semeadura, após a aplicação de oxyfluorfen 30 dias após a semeadura. Fonte: Oliveira Jr. et al. (1997).

Dose Oxyfluorfen (kg/ha) Cultivares

Baia periforme Granex Texas Grano

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