Análise de riscos ou gestão de perdas?

Análise de riscos ou gestão de perdas?

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Análise de Riscos ou Gestão de Perdas?

Engº Antonio Fernando Navarro1

Neste breve artigo tratamos da relação existente entre Análise de Riscos e Gestão de Perdas, e da complementaridade existente.

Observa-se em muitos trabalhos que, por Análise de Riscos, pode ser entendida a técnica ou conjunto de ferramentas de gestão, às quais, corretamente aplicadas podem fornecer resultados inerentes aos riscos, como por exemplo: suas características, freqüência de ocorrências e severidade de perdas, os quais podem ser qualitativos ou quantitativos. A questão entre obter informações qualitativas ou quantitativas dependerá do grau de aprofundamento da análise em questão.

Por Gestão de Perdas compreende-se o conjunto de estratégias que visam ao controle ou acompanhamento das perdas e dos resultados subseqüentes. De maneira ampla a gestão possibilita o melhor acompanhamento dos planos de ação que devem ser empreendidos, para a análise, interpretação de resultados, elaboração de planos de eliminação e ou mitigação de perdas, e a avaliação de resultados.

O risco, ou o evento, contra o qual se está elaborando um plano de prevenção ou de eliminação de perdas, ou também contratando uma apólice de seguros, deve atender a algumas particularidades para que seja enquadrado como tal, ou seja: deverá ter que ser futuro; ser incerto; ser possível; ser independente da vontade das partes, e conduzir a uma perda que poderá vir a ser mensurável. Procura-se entender como e porquê esse risco vem a se manifestar, qual a periodicidade das manifestações, ou da freqüência das ocorrências ou eventos, e qual é a extensão das perdas sentidas ou observadas, com fins de se reduzir a severidade dos prejuízos. Ainda, buscam-se meios de reduzir a extensão das perdas a outros ambientes, locais ou equipamentos, com o emprego de mecanismos de proteção, confinando as conseqüências dos eventos.

1 Antonio Fernando Navarro é físico, engenheiro civil, engenheiro de segurança do trabalho, mestre em saúde e meio ambiente, doutorando em engenharia civil, especialista em gerenciamento de riscos, engenheiro e professor da Universidade Federal Fluminense – UFF/RJ – e-mail: navarro@vm.uff.br; afnavarro@terra.com.br.

O Gerenciamento de Riscos (Risk Management) é um conjunto de técnicas de abordagem, com vistas à análise qualitativa e quantitativa dos eventos, por meio das quais busca-se identificar, avaliar e tratar os riscos que sejam emergenciais e/ou latentes, capazes de provocar perdas financeiras, pessoais, patrimoniais e de responsabilidades civis. As técnicas de Gerenciamento de Riscos, quando bem empregadas transformam-se em um elemento de antecipação ou de previsão de um cenário de perdas futuras.

O Gerenciamento de Riscos pode ser utilizado como uma das ferramentas dos programas de qualidade e produtividade, na medida em que, com a identificação dos riscos que possam vir a afetar bens, e com a análise das conseqüências, diretas ou indiretas, de forma prematura ou preventiva, consegue-se evitar que um empreendimento industrial venha a sofrer paralisações ou perdas.

O processo, ou o conjunto de tecnologias empregadas no Gerenciamento de

Riscos possibilita o surgimento de meios que atenuam as perdas ameaçadoras dos patrimônios das empresas, reduzindo suas severidades ou gravidades, através da eliminação dos riscos ou do controle dos eventos e de suas conseqüências. De uma certa forma, ao se controlar as perdas e por conseguinte, reduzir a parte dos custos variáveis, estar-se-á aumentando o nível de Produtividade da empresa.

A Produtividade pode vir a ser expressa pela razão entre o Faturamento e os

Custos incidentes para a obtenção do faturamento. Os custos devidos a perdas não são todos perfeitamente mensuráveis ou previsíveis. Pela inexistência de um maior controle ou de dados confiáveis parte-se para a contratação de seguros, como um atenuante ou como uma forma de transferência dos riscos. Ocorre que, quase sempre, as coberturas oferecidas pelas seguradoras prevêem a inclusão de franquias ou de participações obrigatórias para a empresa, obrigando-as a retenção de parte dos riscos incidentes.

Muitas vezes, um bom programa de prevenção de perdas conduz a diminuição das ocorrências, ou então, à limitação da extensão de suas conseqüências a um nível aceitável ou gerenciável. Em função disto tudo, as empresas que têm um maior controle sobre o seu patrimônio e sobre as suas perdas costumam praticar a política do auto-seguro, transferindo para as Seguradoras somente a parcela de risco que seria financeiramente insuportável.

Graficamente, um dos principais conceitos de Qualidade e de Produtividade pode vir a ser expresso, de maneira simplificada por:

Faturamento

Produtividade = Custos

Pela amplitude de sua área de atuação a Gerência de Riscos não é uma técnica exata, mas sim de aproximação. Não é uma técnica ou um conjunto de procedimentos que defina de modo preciso: haverá um incêndio naquele equipamento nos próximos 200 dias de operação; mas sim, e tão somente que, dentre uma amostra de 2.0 equipamentos existentes em um empreendimento industrial e em funcionamento ocorre, em média, um incêndio a cada 200 dias.

Essa aproximação se deve ao fato de não se ter condições de matematizar totalmente os riscos, face às suas inúmeras variáveis. O que se faz é, por meio de processos matemáticos, estatísticos ou atuariais, e levando-se em conta o histórico de eventos ocorridos, projetar um comportamento provável e futuro para os riscos.

Exemplificando o que acabamos de apresentar anteriormente, consideremos a análise de um determinado equipamento, sujeito ao risco de incêndio. De modo amplo, para que esse venha a estar envolvido pelo incêndio deverá estar operando sob certas variáveis, dentre as quais destacamos:

Estar sobrecarregado; Estar operando continuamente, sem interrupção; Estar envolto por uma atmosfera propícia (com presença de substâncias combustíveis ou comburentes); Não possuir um adequado plano de manutenção corretiva ou preventiva; Estar empregando materiais, substâncias ou produtos que facilitem a ação do incêndio, sem os cuidados necessários.

Se qualquer um dos fatores elencados acima, envolvendo a operação de um motor, vier a ocorrer de forma isolada ou em conjunto isso já será suficiente, com uma grande probabilidade, para o surgimento de um incêndio.

Deve-se salientar que muitas correntes de disseminação da cultura do

Gerenciamento de Riscos pregam a identificação e a mensuração de riscos, através da utilização de fórmulas matemáticas. Entendemos que, para os riscos extremamente simples, ou para as análises de riscos com poucas variáveis ou com variáveis previamente conhecidas, uma fórmula é um elemento simplificador de uma análise ou de uma idéia, visto que não demanda, para a conclusão do trabalho, de qualquer análise pessoal. Porém, para riscos de maior complexidade a simples adoção de uma fórmula ou de uma regra de análise não significa um pré-requisito para uma boa análise, ou para uma análise confiável. Cabe-se destacar que análises pessoais podem enriquecer o resultado de um trabalho como também podem vir a comprometê-lo. Se o trabalho de análise precisa ser despersonalizado a aplicação de fórmulas passa a ser importante. Por outro lado, se o mais importante é a exteriorização do conhecimento do engenheiro de risco de nada valerá a aplicação de formulações matemáticas.

Não faz tanto tempo assim quando aguardávamos nos noticiários de televisão, principalmente em vésperas de feriados, a repórter informar se ia chover ou não. A intuição e experiência do meteorologista prevalecia sobre qualquer tipo de cálculo. Com o passar do tempo, foram desenvolvidos programas de computação extremamente potentes e complexos, que determinam, com uma razoável precisão, se irá chover dentro dos próximos 4 ou 5 dias. É lógico que nem todos os riscos têm a complexidade de uma previsão do tempo, principalmente se podemos traçar um modelo matemático confiável.

Para uma previsão de risco de incêndio os conceitos poderão variar desde resultados bem simples até resultados mais complexos. Tudo dependerá do que irá se fazer com essa análise. Em grandes empreendimentos industriais espera-se poder oferecer, com uma pequena margem de erro um cenário mais realista possível. Para trabalhos menos sofisticados e que não requerem maior conhecimento técnico pode-se pensar em algo bem simples, como por exemplo, o incêndio iniciando-se em uma lixeira, dessas de escritório. As perguntas que podem vir a ser feitas para a obtenção de dados preliminares são as seguintes:

Qual a probabilidade de um cesto de lixo de escritório vir a pegar fogo?

A probabilidade desse evento ocorrer dependerá do local em que ela estiver localizada, do tipo de lixo contido nele, do grau de cultura das pessoas que transitam pelas proximidades, do fato de possuir ou não tampa, e outros fatores mais.

Se a lixeira não estiver em um local com grande tiragem de ar certamente o incêndio demorará para irromper-se. Se o lixo nela contido não for combustível não haverá chance para o incêndio iniciar-se. Se as pessoas tiverem um elevado nível de conscientização certamente não permitirão que alguém jogue algo que possa gerar um incêndio. Se a lixeira tiver uma tampa, pela falta de oxigenação em seu interior a possibilidade de um incêndio ocorrer será remota. Provavelmente, não há necessidade de criar-se modelos probabilísticos para a determinação da possibilidade de ocorrência de incêndio em uma lixeira. O mais provável é que alguém já tenha alguma estatística montada em cima de ocorrências verificadas em uma determinada instalação industrial ou em conjuntos de escritórios.

É importante abordar este assunto desta forma, porque muitas vezes somos compelidos a dar pareceres ou esclarecer se determinado risco irá materializar-se, e, mesmo se ocorrendo, será capaz de gerar perdas humanas, materiais ou financeiras, equivalentes a milhares de unidades monetárias.

Voltando à exemplificação anterior percebe-se que, mesmo se tratando de um estudo aparentemente simples, como o envolvendo uma lixeira, dessas mais baratas, não se deve descuidar da boa interpretação dos dados obtidos. Normalmente, em atividades de escritório, e nesse recipiente que começam a maioria dos incêndios. Podemos mesmo afirmar que ultrapassa a 60% a estatística de incêndios originários em lixeiras.

Lembramo-nos de um trabalho de Gerenciamento de Riscos que envolvia um parecer acerca de uma obra marítima, caracterizada pela deposição de um enrocamento que avançava sobre o mar uns 400 metros, e a seguir projetava-se da direção paralela à costa, por uns 500 metros. Durante a fase do projeto executivo e bem no início dos serviços, optou-se por construir-se o molhe do enrocamento em duas fases, ao invés de uma só fase. Ao sermos consultados fomos verificar as cartas náuticas de correntes marinhas e o Departamento de Hidrografia e Navegação do Ministério da Marinha, a fim de obter dados referentes à altura e à força da “onda centenária”. Como o próprio nome indica, uma onda centenária é aquela que ocorre somente a cada 100 anos, e com uma intensidade tal que a torna ímpar. Pois bem, analisamos os fatos e chegamos à conclusão que a possibilidade de ocorrer uma onda centenária, naquela época do ano era bem remota. Esclarecemos os riscos que se corria ao mudar-se o planejamento da execução. Em um período de um ano e meio ocorreram duas ondas centenárias, com elevadas perdas para o projeto. Para melhor exemplificar, pedras de 4 a 6 toneladas foram arrastadas como se fossem cascalhos de rio, por longas distâncias.

O número de etapas básicas empregadas no processo de identificação e

Gerenciamento de Riscos pode variar substancialmente de autor para autor, não sendo algo prédeterminado. Entretanto, alguns parâmetros devem ser conhecidos. Dentre os quais citamos:

I.1. FUNÇÃO DO GERENCIAMENTO DE RISCOS

A função do Gerenciamento de Riscos é a de reduzir perdas e minimizar os seus efeitos. Isso quer dizer que assume-se a existência de perdas em todos os processos industriais, como um fato perfeitamente natural. Entretanto, por meio de técnicas, basicamente de inspeções e de análises, procura-se evitar que essas perdas venham a ocorrer com certa freqüência, ou reduzir os efeitos dessas mesmas perdas, limitando-as a valores aceitáveis, ou dentro do perfil estipulado pela empresa em seus orçamentos anuais.

Não existe um método único de Gerenciamento de Riscos, ou uma metodologia padrão. Costuma-se confrontar os procedimentos em vigor com procedimentos-padrão para aquele tipo de etapa, analisando as possíveis alterações existentes, através de um amplo conhecimento das várias etapas da atividade analisada.

O Gerenciamento de Riscos é um contínuo processo de busca de defeitos, ou de quase-defeitos, com vistas à sua prevenção. Esses defeitos são chamados riscos.

Risco é uma chance de perda e provavelmente, o mais importante degrau no processo de identificação e gerenciamento das perdas.

Com as informações obtidas por intermédio da aplicação das várias técnicas adotadas no Gerenciamento de Riscos e o emprego de metodologias específicas pode-se também quantificar riscos. A partir do momento que se qualifica e quantifica um risco tem-se a sua real magnitude ou sua expressão matemática.

A qualificação é a identificação do tipo de risco ou da qualidade, se é que podemos assim dizer à respeito das características dos eventos que podem surgir. Trata-se de um risco de incêndio, ou de um risco de explosão, ou de um risco de danos elétricos, etc..

A quantificação é a determinação do valor da perda, expressa em percentual do valor dos bens ou em valores absolutos, ou do tamanho do prejuízo a se verificar no futuro. O risco, se ocorrer, poderá gerar uma perda que irá afetar 48% do patrimônio da indústria. A perda potencial é de cerca de $ 500,0.

Como veremos adiante, tanto o tipo de risco quanto o valor da perda gerada são bastante importantes para a fixação do custo do risco, ou seja, do valor que a perda, se ocorrida, pode assumir. Essa informação é muito importante para a execução de um programa de tratamento do risco. Em função do custo do risco, que pode vir a ser razoavelmente calculado por processos simples, consegue-se elaborar um plano de retenção das perdas ou de transferência para uma Seguradora, por intermédio de um contrato de seguros. Se as perdas são pequenas e a probabilidade de virem a ocorrer é baixa, com toda a certeza pode se tratar de um caso de retenção do risco, ou de um auto-seguro. Por outro lado, se a perda tem características de vir a apresentar danos severos, é o momento de se pensar em transferi-la, por intermédio da contratação de uma apólice de seguros.

Passaremos a entender nos capítulos que se sucederão que uma transferência de risco não é uma operação isolada. O fato de se transferir um risco não é um pressuposto de que todas as preocupações da empresa estarão resolvidas, ou todos os prejuízos serão reembolsados, ou as perdas reparadas.

Normalmente existem mecanismos dentro do contrato de seguros que transformam a empresa em co-responsável pelas perdas, ou seja, se um sinistro vier a ocorrer, a empresa terá que bancar uma parte do mesmo e a seguradora a quem ela transferiu a responsabilidade será responsável pela diferença. Esse mecanismo de co-responsabilidade é o que denominamos de franquia ou participação obrigatória do segurado (POS). Assim, a empresa por não ter condições técnicas de repassar 100% tem que se preparar para evitar as ocorrências dos eventos. Uma das formas de prevenção se dá por intermédio da aplicação das técnicas corretas de Gerenciamento de Riscos, associada a adoção de mecanismos ou de sistemas de prevenção de perdas. No tocante a esses, iremos destinar alguns capítulos para tratar do assunto especificamente.

I.2. ORIGEM DO GERENCIAMENTO DE RISCOS

A Gerência de Riscos surgiu como técnica nos Estados Unidos, no ano de 1963, com a publicação do livro Risk Management in the Business Enterprise, de Robert Mehr e Bob Hedges. Seguramente uma das fontes de consulta ou de inspiração dos autores foi um trabalho de Henry Fayol, divulgado na França em 1916. A origem da Gerência de Riscos é a mesma da Administração de Empresas, a qual, por sua vez, conduziu aos processos de Qualidade e de Produtividade.

Por ser uma técnica relativamente nova, sua divulgação e adaptação pelos países variou de acordo com as necessidades de momento, das experiências dos técnicos que a difundiram, da fase de desenvolvimento pela qual estava passando o país e outros motivos mais. No Brasil o seu ingresso deu-se na segunda metade da década de 1970, com aplicação voltada especificamente para a área de seguros, com vistas à prevenção de riscos em bens patrimoniais, segurados pelas empresas do setor.

Desta forma, seus conceitos começaram a se propagar juntamente com os conceitos prevencionistas do Mercado Segurador Brasileiro, principalmente no que diz respeito ao risco de incêndio. Porém, com o intercâmbio entre os países e a melhor compreensão da técnica vislumbrou-se um melhor futuro para a mesma.

Quase ao final da década de 70, com o desenvolvimento da Engenharia de

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