Trabalho Congresso

Trabalho Congresso

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ANÁLISE DO PERFIL DE PACIENTES DE MAMOGRAFIA DO HOSPITAL UNIVERSITÁRIO JÚLIO MÜLLER

Débora Fernanda Dutra Souto Mendonça

deborafsouto@gmail.com

Tecnólogo em Radiologia 05/10/2011

RESUMO

Para a realização deste trabalho, estudamos, durante um ano, o perfil dos pacientes encaminhados ao serviço de mamografia no Hospital Universitário Júlio Müller (localizado na cidade de Cuiabá/MT). O hospital dispõe de um mamógrafo utilizado 8h/dia, durante 5 dias da semana, para o atendimento da comunidade de Cuiabá e municípios vizinhos. Neste ambiente, acompanhamos os dados de 2.611 exames realizados e sua correlação com o sistema BI-RADS®. Uma análise quantitativa destes dados nos permitiu conhecer o perfil da população mato-grossense que procura este serviço. Além da classificação BI-RADS®, foram obtidas informações como: quantidade de atendimentos, distribuição etária das pacientes, entre outras. Uma vez que não foram encontradas pesquisas semelhantes em nenhuma publicação no estado de Mato Grosso, não foi possível a comparação dos resultados com os de outros centros especializados em mamografia na região. Portanto, para uma análise comparativa e, portanto, mais conclusiva, faz-se necessário o engajamento dos estudantes/pesquisadores do estado, a fim de que tenhamos pesquisas quantitativas que nos permitam elaborar um mapa regional que reproduza a realidade dos serviços de mamografia no estado de Mato Grosso.

Palavras-chave: mamografia, detecção precoce, câncer de mama, sistema BI-RADS®.

1. INTRODUÇÃO

Cada vez mais o câncer de mama tem se tornado uma preocupação mundial constante, devido ao alto índice de óbitos, representando um grave problema de saúde pública. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que a cada ano, em todo mundo, ocorram mais de 1.050.000 novos casos de câncer de mama1. No Brasil, dados da fonte Pfizer – Indústria Farmacêutica2 aponta para o câncer de mama:

  • 400 mil mulheres diagnosticadas com a doença;

  • 50 mil novos casos da doença estimados para 2009, ficando atrás apenas do tumor de pele não melanoma, com 59 mil novos casos por ano.

Dados do INCA3 indicam que o câncer de mama é o segundo tipo mais frequente no mundo, o câncer de mama é o mais comum entre as mulheres, respondendo por 22% dos casos novos a cada ano. Se diagnosticado e tratado oportunamente, o prognóstico é relativamente bom.

  No Brasil, as taxas de mortalidade por câncer de mama continuam elevadas, muito provavelmente porque a doença ainda é diagnosticada em estágios avançados. Na população mundial, a sobrevida média após cinco anos é de 61%. 

O meio mais eficaz e barato de diagnosticar a doença é a mamografia. Esta é capaz de detectar precocemente o câncer de mama, por ser capaz de mostras lesões na sua fase inicial ainda muito pequenas (de milímetros), bem antes do tumor ser palpável. Nestes casos, o diagnóstico precoce possibilita maiores chances de cura e métodos menos drásticos de tratamento. O exame mamográfico é realizado em um aparelho de raios-X apropriado, denominado mamógrafo. Este aparelho é capaz de produzir uma técnica especial utilizada para a visualização de patologias nos tecidos mamários, e esta técnica especial produzida é a mamografia.

A compressão adequada do tecido mamário gera uma série de vantagens para a paciente como:

  • Redução da dose de radiação, uma vez que, com a compressão há uma significativa diminuição na espessura da mama.

  • Aumento da resolução da imagem, devido à imobilização da mama e da paciente.

  • Diminuição das distorções com aproximação da mama ao filme.

  • Aumento do contraste da imagem, com a redução da espessura há uma diminuição da dispersão da radiação.

  • Dissociação dos tecidos mamários, diminuindo a superposição e permitindo que lesões suspeitas sejam detectadas com mais facilidade e segurança.

A mamografia, quanto ao seu objetivo, pode ser classificada em mamo grafia de rastreamento (screeming) e mamografia diagnóstica.

Os benefícios da descoberta precoce aliada ao tratamento do câncer mamário são bastante expressivos, sendo maiores do que o risco mínimo da radiação e o desconforto da realização do exame. Nos últimos anos, com o aumento da procura e consequente crescimento do número de exames, houve a necessidade de padronização dos laudos e criação de uma maior integração entre os profissionais especialistas criando-se a Classificação BI-RADS®.

Em 1992, o ACR (Americam College of Radiology) elaborou um conjunto de recomendações para a padronização de laudos de mamografia, que ficou conhecido pela sigla BI-RADS® (Breast Imaging Reporting and Data System). Este sistema, criado com o objetivo de uniformizar e padronizar o diagnóstico das patologias mamárias permite um melhor entendimento entre a classe médica (não-radiologistas e mastologistas, por exemplo), possibilitando separar casos benignos, malignos e suspeitos. Além de classificar estatisticamente o grau da doença a nível mundial. A partir de 2003, em sua quarta (e mais recente) edição, o BI-RADS® passou a contar com sete categorias para achados mamográficos (sendo a mesma metodologia também aplicada na classificação de exames de ultra-sonografia e ressonância magnética das mamas).

Tabela 1 - Categorias BI-RADS® 3:

CATEGORIAS

INTERPRETAÇÃO

RISCO

CONDUTA

0

Inconclusivo

Exame adicional (ultrassonografia, magnificação ou compressão localizada).

1

Benigno

0,05%

Controle anual a partir dos 40 anos.

2

Provavelmente Benigno

0,05%

Controle anual a partir dos 40 anos.

3

Suspeito para malignidade

Até 2%

Repetir em 6 meses (eventualmente biópsia)

4 (A, B, C)*

Altamente Suspeito para malignidade

>20%

Biópsia

5

Com malignidade comprovada

>75%

Biópsia

6

Lesão já biopsiada e diagnosticada como maligna, mas não retirada ou tratada.

100%

* (4A: suspeita leve; 4B: suspeita moderada; 4C: suspeita forte, porém não sendo a lesão típica de câncer).

2. METODOLOGIA E ESTRATÉGIA DE AÇÃO

Este trabalho é um estudo estatístico e retrospectivo da análise de dados de aproximadamente 2611 pacientes submetidos ao exame de mamografia no Hospital Universitário Júlio Müller, localizado na cidade de Cuiabá/MT. Os dados coletados fazem parte de um levantamento realizado entre julho/2008 e junho/2009. A partir dos formulários de perfil do paciente e dos dados analisados, foram construídas tabelas e gráficos (capítulo seguinte), permitindo uma melhor visualização da situação em análise, o que nos auxiliou na conclusão deste trabalho. A apresentação gráfica dos resultados foi realizada com o auxílio do programa Microsoft Excel 2003. Os laudos mamográficos com a classificação BI-RADS® foram obtidos via rede a partir do banco de dados de exames radiográficos do HUJM.

3. RESULTADOS

Percebemos durante a pesquisa, que a procura pelo atendimento no setor foi bem maior nos primeiros meses de análise (julho-outubro), com uma demanda menor nos meses seguintes devido ao período de recesso e férias dos funcionários.

Figura 1 - Fichas analisadas durante 12 meses.

Na coleta mensal dos dados referentes a pacientes que se submeteram ao exame de mamografia, observamos uma distribuição de pacientes por faixa etária, de: 51% acima dos 50 anos, 47% entre 35-50 anos e 2% pacientes que apresentavam idade menor que 35 anos. Desta forma, os dados demonstram uma distribuição equilibrada, tendo em vista a obrigatoriedade do exame a partir dos 40 anos.

Figura 2 - Distribuição etária dos 2.193 pacientes analisados.

Os resultados apresentados neste trabalho, conforme demonstram as figuras 3 e 4, apontam para o rastreamento do câncer de mama como o principal motivo de procura na realização de exames em mamografia. Este fato reflete que há uma maior preocupação dos pacientes em relação à prevenção do câncer de mama, resultado de intensas campanhas de conscientização promovidas pelo governo e por entidades não-governamentais. Ressaltando que a mamografia de rastreamento é o exame de prevenção do câncer de mama, e a mamografia diagnóstica é aquela indicada aos pacientes que apresentam algum sintoma clínico.

Figura 3 - Motivo da procura pelo exame mamográfico.

Figura 4 - Total de mamografias realizadas, prevalência de exames para rastreamento.

A figura 5 traz a porcentagem de laudos dentro de cada categoria BI-RADS®. Verificamos a existência de uma maior frequência nas categorias 1 e 2, onde o risco de malignidade é zero, confirmando a preocupação com o controle de rotina anual. É importante ressaltar que a categoria BI-RADS® 0 se refere às imagens mamográficas consideradas inconclusivas, necessitando de uma complementação com outros exames, ou mesmo da repetição do exame mamográfico. Observamos ainda que, sendo relativamente pequeno o número de exames estudados nesta pesquisa, a análise dos dados referentes às categorias 5 e 6 (malignidade) foi prejudicada.

Figura 5 - A distribuição dos laudos pela classificação BI-RADS® confirma a maior procura por exames para rastreamento do câncer de mama.

A figura 6 mostra o total de laudos classificados nas categorias BI-RADS® durante 12 meses de pesquisa. Dos 2.611 exames realizados, foram encontrados 2.338 laudos, dos quais apenas 12 não continham a classificação BI-RADS®. Os erros de digitação, falhas no cadastramento dos pacientes, entre outros, impossibilitaram a análise de 274 laudos, isto é, cerca de 10,5% dos exames.

Figura 6 - Total de laudos com BI-RADS®.

4. CONCLUSÃO

A fim de determinar o perfil dos pacientes que buscam o exame de mamografia no HUJM, avaliamos a ocorrência dos fatores de risco que mais contribuem para o desenvolvimento da doença mamária. Estas informações são de grande importância quando se deseja implementar políticas que visem a otimização do atendimento no setor de mamografia, tanto no HUJM quanto em outros hospitais da região. Nesta perspectiva, o objetivo imediato do trabalho ora apresentado é subsidiar um novo planejamento do serviço de mamografia do HUJM, que contemple a realidade da população local e produza diagnósticos com mais agilidade e precisão.

A análise etária das pacientes mostrou uma distribuição equilibrada, tendo em vista a obrigatoriedade do exame mamográfico de rastreamento em mulheres acima dos 35 anos de idade. Os resultados mostram que 98% dos exames foram realizados em mulheres desta faixa etária. Outro resultado digno de nota, e em concordância com o resultado anterior, diz respeito à porcentagem de exames para rastreamento. Quase 60% dos exames foram realizados em pacientes assintomáticas, o que demonstra a preocupação com a prevenção do câncer de mama, resultado do esforço governamental e da sociedade civil na conscientização da população.

Durante a revisão bibliográfica, não foram encontradas pesquisas semelhantes em nenhuma publicação no estado de Mato Grosso, o que impossibilitou a comparação dos resultados com os de outros centros especializados em mamografia na região. Portanto, para uma análise comparativa e, portanto, mais conclusiva, faz-se necessário um maior empenho dos estudantes/pesquisadores do estado, a fim de que tenhamos pesquisas quantitativas que nos permitam elaborar um mapa regional que reproduza a realidade dos serviços de mamografia no estado de Mato Grosso.

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