Francisco Brennand - Aspectos da construção de uma obra em escultura cerâmica

Francisco Brennand - Aspectos da construção de uma obra em escultura cerâmica

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francisco brennand camila da costa lima aspectos da construção de uma obra em escultura cerâmica

Editora afi liada:

CIP – Brasil. Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

L697f

Lima, Camila da Costa

Francisco Brennand : aspectos da construção de uma obra em escultura cerâmica / Camila da Costa Lima. – São Paulo : Cultura Acadêmica, 2009.

Anexos Inclui bibliografi a ISBN 978-85-7983-040-2

1. Brennand, Francisco, 1927-. 2. Escultura em cerâmica brasileira –

Século X. 3. Trabalhos em cerâmica – Brasil. 4. Escultura brasileira – Século X. I. Título.

09-6243. CDD: 730.981 CDU: 73.036(81)

© 2009 Editora UNESP

Cultura Acadêmica Praça da Sé, 108 01001-900 – São Paulo – SP Tel.: (0xx11) 3242-7171 Fax: (0xx11) 3242-7172 w.editoraunesp.com.br feu@editora.unesp.br

Dedico este livro a todos que, de algum modo, colaboraram para sua concretização; especialmente ao Claudio, ao sentimento não descrito em palavras, pela companhia, paciência e atenção em todos os momentos; a meus pais, Elza e Sérgio, a quem ofereço minhas conquistas; à Carolina, pelo apoio e incentivo.

Agradeço a Francisco Brennand, pela delicadeza em responder a meus e-mails; à professora Lalada, pela orientação na realização deste trabalho; ao professor do Instituto de Artes

José Leonardo, pela dedicação em ensinar; aos professores da Unesp (campus de Bauru),

Comin e Solange, por me iniciarem em escultura e cerâmica.

1 Um artista chamado Francisco Brennand 17 2 Linguagens e estilo 69 3 Métodos e processos 125

Considerações fi nais 181 Referências bibliográfi cas 185 Anexos 193

Por que um artista cria, de onde partem suas ideias, como é seu método para elaboração de sua obra, seu processo de execução?

Essas foram algumas questões que ajudaram a nortear o rumo desta pesquisa. A curiosidade de saber sobre o que está por trás da obra que chega a nossos olhos acabada, bela, pronta para ser admirada; talvez, sabendo-se sobre o processo envolvido em sua realização, o modo como vemos essa obra torna-se diferente, seria como, de certa forma, acompanhar um pouco de seu nascimento, para enfi m habitar o mundo.

O objetivo principal desta pesquisa está justamente em levantar informações sobre os elementos formadores da obra em escultura cerâmica de Brennand, as influências recebidas pelo artista, seu processo de criação e a materialização de sua obra, enfatizando o barro como sua matéria de trabalho e diferencial de sua produção.

Na obra de Brennand tudo chama muito a atenção, principalmente pelo fato de ser ele um artista que trabalha em distintas modalidades e faz uso de variados materiais. Apesar das diferentes técnicas trabalhadas pelo artista, há um elo que relaciona sua produção (independentemente da técnica e material). Por esse motivo, para realizar um estudo sobre sua arte em escultura cerâmica, houve a necessidade de se comentar sobre seu desenho, pintura em tela e mural, uma vez

12 CAMILA DA COSTA LIMA que sua produção de esculturas não se originou isoladamente. Em meio à vasta obra de Francisco Brennand, sua escultura se destaca, seja pelo material de que é feita, suas formas e volumes.

O tema abordado pelo artista é o mesmo, independentemente do material ou técnica utilizados. Rege sua produção o mistério da origem da vida e todos os elementos associados a esta temática: o nascimento, o ovo, fi guras de corpos e de seus fragmentos, a fi gura da mulher – geradora da vida. Na obra de Brennand há ainda uma forte infl uência mitológica, assunto que será abordado ao longo deste trabalho, de modo a facilitar um entendimento sobre a criação do artista.

Francisco Brennand é um artista contemporâneo, nordestino, cuja produção possui forte significado e importância para a arte brasileira. Na década de 1970, participou do Movimento Armorial, junto a outros nomes importantes da cultura pernambucana, como Ariano Suassuna. Sua formação artística, misto de um aprendizado europeu com o brasileiro, soma-se a um fator determinante, que vai além do espaço e do tempo e está marcado em sua própria origem: a ligação de sua família com a indústria cerâmica.

Sua escultura é também brasileira no material. As argilas utilizadas vêm do nordeste, de regiões que produzem variedades não encontradas em nenhum outro local. Seus temas, ideias e formas, entretanto, superam nacionalidades e regionalismos.

Inegavelmente o material utilizado por Brennand em sua escultura exerce notável fascínio para quem a aprecia. O domínio que o artista possui sobre a técnica da cerâmica, bem como os processos e transformações envolvidos na concepção de sua escultura, é elemento diferencial no resultado dessas obras. Talvez parte do “encanto” da escultura de Brennand esteja justamente no material – sua cerâmica com características técnicas e estéticas únicas.

Na escultura de Brennand todo o seu conjunto atrai: tema, forma, dimensão e, principalmente, a matéria de que é feita – fosse outro material e sua escultura não teria as mesmas características. O barro é uma matéria que acompanha a própria evolução do homem, sua manipulação é uma das mais antigas ações da humanidade. Suas características são singulares, assim também como o processo que envolve a técnica da cerâmica: modelagem, esmaltação, queima.

Meu interesse pela obra de Francisco Brennand vem de longe.

No ano de 1999 tive contato pela primeira vez com suas obras. Havia terminado uma exposição de esculturas do artista na Pinacoteca do Estado de São Paulo, mas ainda habitava o lugar uma obra ou outra, sufi ciente para captar minha atenção.

Até o momento não tinha uma real dimensão da produção de

Brennand e principalmente de seu trabalho em outras técnicas. Acreditava, assim como grande parte do público que aprecia sua obra sem grande aprofundamento, que Brennand produzia apenas esculturas, que fosse exclusivamente um escultor.

As formas, cores, o material, a dimensão de suas esculturas em muito me admiraram e, a partir do catálogo da exposição que havia terminado “Brennand – Esculturas 1974 /1998”, acompanhado do belo ensaio de Olívio Tavares de Araújo (também curador da exposição) “Proposta para uma Leitura de Brennand”, conheci um pouco mais sobre o artista e sua produção. Até o momento, ainda não possuía muito conhecimento sobre a cerâmica, o que ocorreria um pouco adiante e acrescentaria maior interesse sobre a escultura de Brennand, como também a esta técnica.

No ano de 2002 realizei o trabalho de conclusão do curso de

Graduação, com a análise de um conjunto de esculturas de Brennand – trabalho ainda breve e de caráter inicial – que me trouxe o interesse em dar continuidade à pesquisa.

Os anos foram passando e meu interesse pela obra de Brennand, assim como pela cerâmica, aumentou. A motivação e curiosidade me levaram como aluna especial, no ano de 2006, a conhecer a professora Lalada Dalglish. Sua experiência e conhecimento em cerâmica despertaram em mim uma atração ainda maior por esta área; ao cursar a disciplina “Tridimensionalidade: Fundamentos da Cerâmica, do popular ao contemporâneo” descobri um pouco mais da história, das variedades e particularidades que envolvem esta técnica, ainda hoje pouco pesquisada e explorada, dentro da dimensão de sua riqueza.

Cada novo conhecimento sobre Brennand, bem como pela cerâmica, signifi cava uma surpresa, mas principalmente, ao aprender e realizar relações sobre os métodos empregados pelo artista, seus

14 CAMILA DA COSTA LIMA processos e suas ideias para elaboração de sua obra foram aspectos que em muito me envolveram.

Faz-se importante ressaltar o fato de ter conhecido pessoalmente a “Ofi cina Brennand”1 no ano de 2007, o que possibilitou um grande avanço para a pesquisa. Ter contato direto com sua variada obra, a noção real da dimensão de seu projeto e produção são aspectos que não se encontram em livros. A Ofi cina Brennand trata-se, acima de tudo, de um lugar de criação e, justamente por isso, acredito que seja este um lugar sagrado, abençoado, especial.

Talvez meu olhar não fosse o mesmo se não tivesse presenciado a obra de Brennand in loco, conversado com monitores, visto funcionários trabalhando, conhecido os fornos, visto montanhas de barro ainda sem tratamento e sem forma. Esses aspectos me fi zeram ter certeza de que não queria realizar nesta pesquisa apenas a análise de uma obra (ou conjunto de obras) ou, ainda, somente um levantamento de suas origens e sua história, mas, sim, oferecer informações sobre o processo de materialização de sua escultura, tendo em vista a riqueza do processo da produção de Brennand.

Vi a necessidade de realizar uma pesquisa que não fosse apenas um relato com base em dados biográfi cos sobre o artista, mas, sim, uma reunião de dados que envolvesse os variados fatores relacionados ao desenvolvimento das técnicas, temas, processos utilizados por Brennand para a produção de suas esculturas cerâmicas.

Claro, para chegar a uma análise próxima de seu processo de criação, teria que percorrer o caminho de sua história pessoal, abordando aspectos relacionados com a sua formação artística, e também descrever algumas de suas obras para chegar a um estudo sobre sua produção.

Esta pesquisa se caracteriza como descritiva, para qual houve levantamento bibliográfi co e pesquisa de campo, a fi m de proporcionar uma leitura abrangente sobre a concepção da escultura cerâmica de

1 A Ofi cina Brennand, na cidade do Recife, reúne a variada obra de Francisco

Brennand – o Museu permanente do artista –, além de abrigar a Fábrica em que são realizados as esculturas e os revestimentos cerâmicos.

Francisco Brennand. Para tanto, divide-se em três capítulos, relacionados a três aspectos de suma importância para compreensão da obra do artista: o aspecto biográfi co (a formação do artista), o aspecto conceitual (temas e linguagens que caracterizam a obra) e o aspecto técnico (a materialização da obra de arte).

No Capítulo 1, apresentam-se alguns dados biográfi cos importantes relacionados com o desenvolvimento da carreira artística de Brennand, artistas e obras que desempenharam um papel fundamental para sua formação, como pintor e como ceramista. São abordados também a presença da cerâmica na história da família Brennand, a reconstrução da antiga cerâmica pertencente à família – a Cerâmica São João – e o início do projeto de vida do artista – a Ofi cina Brennand, construção em permanente crescimento que abriga grande parte da vasta obra do artista.

O Capítulo 2 reúne a variedade de técnicas trabalhadas pelo artista além da escultura cerâmica: desenho, pintura, painéis e relevos cerâmicos. A relação existente nessas diferentes técnicas, o “estilo brennandiano”2 – criação de um estilo característico do artista –, concentrando-se no repertório formal e conceitual que possibilitou a realização de sua obra em escultura cerâmica.

Também estão presentes os temas desenvolvidos por Brennand para concepção de suas obras, o princípio de sua criação – o mistério da vida – e todos os demais elementos relacionados a este tema, constantes e presentes nas diferentes linguagens utilizadas pelo artista. Ainda dentro do assunto, destaca-se a infl uência mitológica, criações impregnadas de signifi cados, crenças e refl exões do artista sobre elementos já existentes, ou por ele inventados e recriados.

Por fim, o Capítulo 3 compreende as técnicas e os processos utilizados para a materialização das esculturas cerâmicas: como nasce, fi sicamente, uma escultura cerâmica de Brennand? Nesse capítulo terá destaque todo o processo envolvido até a concretiza-

2 O termo brennandiano como defi nição do que é característico da obra de Francisco Brennand já foi utilizado por diversos autores, entre eles Ariano Suassuna, Fernando Monteiro e Olívio Tavares de Araújo.

16 CAMILA DA COSTA LIMA ção da escultura: o desenho inicial – estudo –, o modelo em menor escala, a modelagem, as diversas queimas, o processo de esmaltação, a montagem dos módulos das esculturas. Técnicas e processos que vêm sendo elaborados e readaptados constantemente por Brennand e por toda uma equipe de funcionários de sua Ofi cina.

Nesse capítulo também consta um breve levantamento sobre as fases envolvidas no processo da cerâmica, a fi m de esclarecer dados sobre a técnica e suas possibilidades. O uso de imagens, ainda mais que em outros momentos deste trabalho, é de importância fundamental para, além de ilustrar o que será comentado, estabelecer relações dentro do processo de elaboração de sua escultura.

Há uma variedade de material de pesquisa sobre Francisco Brennand, são várias as entrevistas, textos escritos pelo próprio artista, além de textos de críticos de arte, intelectuais e pesquisadores, catálogos e documentários. Tive acesso a diversas fontes, inclusive a oportunidade de trocar e-mails com o próprio artista, que sempre se mostrou muito atencioso e disposto a oferecer informações sobre sua obra. Fiz questão de, por achar de suma importância (além da beleza de suas palavras), utilizar ao longo da dissertação frases do próprio Brennand, pois acredito que estas ajudariam no enriquecimento do assunto tratado.

Ensaios, artigos, textos de críticos de arte e estudiosos da obra de Brennand, como Olívio Tavares de Araújo, Fernando Monteiro, Mark Bridge, Mariza Bertoli, André Carneiro Leão, Ferreira Gullar e Jacob Klintowitz, também foram de fundamental importância para conhecimento e refl exão sobre a obra do artista.

Ainda, apesar da existência de um vasto material literário sobre o conjunto da obra do artista, faltam informações técnicas a respeito de sua produção. Em geral são poucos os dados referentes aos processos técnicos de modelagem, esmaltação e queimas utilizados por Brennand e sua equipe.

A partir do conhecimento de sua ampla produção, de uma análise contínua sobre sua obra, do olhar atento, foi possível fazer relações e descobrir muito a respeito de suas criações – e estas descobertas estarão descritas ao longo do texto que segue.

1 UM ARTISTA CHAMADO FRANCISCO BRENNAND

Carta ao Filho Francisco, Você, o arqueólogo que desenterrou peças de milenários feitios, e deu às mesmas o seu caráter pessoal, no poderoso cadinho do seu cérebro criador, teve a inspiração de conservar, ora escondido, ora bem visível, o erotismo, que não morre, enquanto existir o homem sobre a terra.

Você, que transformou num templo de arte plástica essas velhas e desmanteladas ruínas de uma antiga olaria hoje, um verdadeiro e inigualável museu.

Agora, em Camocim de São Félix, esse pequeno paraíso, de belíssima paisagem, onde impera o silêncio, tão propício para a criatividade, volta a pintar.

E que pintura! A meu ver, a melhor que tem saído de uma palheta. Pintura cheia de força, de maravilhoso colorido.

Não sendo um expert, tenho a sensibilidade para sentir o que verdadeiramente é belo.

Estou certo – não sou um vidente, mas acredito no seu grande sucesso como pintor: quem sabe! Talvez um dos maiores do Brasil.

(Carta escrita em 1978 por Ricardo Brennand, pai de Francisco Brennand, apud Ferraz, 1997, p.1)

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