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10Capítulo Aplicando o SiBCTI

Aldo Pereira Leite

Fernando Cezar Saraiva Amaral

Flavio Hugo Barreto Batista da Silva Roberto da Boa Viagem Parahyba

Onde Não Irrigar, Um Estudo de Caso (I)

A opção pela irrigação no processo de produção agrícola é uma decisão tomada com base na probabilidade de se atingir certo nível de rentabilidade com segurança e eficácia. A eficácia da irrigação identifica-se por uma relação custo/benefício, cuja maximização depende dos fatores que vão desde as condições de mercado para os produtos agrícolas, passando pelas limitações do solo até as características de desempenho do equipamento e sua manutenção (Wegener, 2005). A tomada de decisão portanto entre irrigar ou não uma determinada terra deverá estar assentada em uma base de dados ampla e consistente que dê ao tomador a máxima segurança possível. Desta forma, a existência de um sistema de classificação do ambiente focando especificamente a irrigação é condição imprescindível para esta correta tomada de decisão.

Não obstante o relevante trabalho de alguns órgãos públicos e privados no tocante ao desenvolvimento de extensas áreas com irrigação na região Semi-Árida brasileira, gerando vários exemplos bem sucedidos de correta aplicação dos recursos; por outro lado, por uma série de causas, muitos erros foram cometidos com relação à implantação de alguns perímetros irrigados. Áreas impróprias foram equivocadamente assumidas como tendo potencial para desenvolverem vultosos programas de irrigação. Infelizmente existem vários exemplos sendo um deles o Projeto Baixio de Irecê, localizado no Médio São Francisco, município de Xique-Xique, Estado da Bahia (Figura 1), que apresenta uma grande parte de seus solos originalmente sem aptidão para exploração com irrigação.

Deste Perímetro foi selecionado um perfil modal que representa essa área problemática (Figura 2) e que será utilizado para exemplificar a utilização do SiBCTI.

Os perfis classificados como CAMBISSOLO HÁPLICO Carbonático vértico apresentam características vérticas bem marcantes (Figura 2), não sendo classificados como Vertissolos por apresentarem textura média, menor que 35% de argila (Embrapa, 2004c). (Figuras 3 e 4)

Figuras 5 e 6 - Vegetação de caatinga na área do Perímetro Baixio do Irecê, com diferentes valores de umidade no solo.

A vegetação de caatinga hiperxerófila é constituída de diversas espécies, sendo a jurema preta (Mimosa tenuiflora) e a carqueja (Calliandra depauperata), as de maior ocorrência (Figuras 5 e 6).

Aplicando o SiBCTI

Figuras 1 e 2 - Canal principal de irrigação do projeto Baixio do Irecê ao fundo, rio São Francisco e rachaduras em superfície, evidenciando o caráter vértico no Perfil Baixio do Irecê.

Figuras 3 e 4 - Perfis de CAMBISSOLO HÁPLICO Carbonático vértico A moderado textura média sob relevo plano, detalhando a transição dos horizontes Biv e CBv.

191Aplicando o SiBCTI

A seguir são apresentados dados analíticos e morfológicos do solo indicado. As informações necessárias ou importantes ao preenchimento do SiBCTI estão grafadas em vermelho.

•PERFIL- Baixio do Irecê 1 - NÚMERO DE CAMPO - P09 - DATA - 1/1/03

•CLASSIFICAÇÃO- CAMBISSOLO HÁPLICO Carbonático vértico A moderado textura média relevo plano.

- Perímetro Baixio do Irecê, Xique-Xique; área da Codevasf. Coord. GPS - 23L 783.574W e 8.841.144S.

•SITUAÇÃO, DECLIVE E COBERTURA VEGETAL SOBRE O PERFIL - Área plana, 0 a 1%; Caatinga média.

•ALTITUDE- 419m (GPS)

•LITOLOGIA, CRONOLOGIA E FORMAÇÃO GEOLÓGICA - Terciário/Quaternário. Calcário caatinga.

•MATERIAL ORIGINÁRIO- Alteração do calcário caatinga.

• PEDREGOSIDADE - Presente.

• ROCHOSIDADE - Ausente.

•RELEVO LOCAL- Plano.

•RELEVO REGIONAL- Plano.

•EROSÃO- Não aparente.

•VEGETAÇÃO PRIMÁRIA- Caatinga Hipoxerófila com Carqueja

(Calliandra depauperata) e jurema preta. (Mimosa tenuiflora).

•USO ATUAL- Sem uso.

192Aplicando o SiBCTI

•CLIMA- BSwh de Köppen (Clima bastante quente. A temperatura média do mês mais frio é superior a 18°C. Semi-árido. A estação chuvosa é no verão} e 4aTh de Gaussen.

•DESCRITO E COLETADO POR- Enio Fraga da Silva, Adoildo Melo e Getúlio.

POROS:A – muitos, pequenos e médios; BA – comuns,pequenos e médios; Bi- poucos, pequenos e médios; CB – poucos, muito pequenos; e Cv – raros, muito pequenos.

RAÍZES:Ap – muitas, finas e médias; BA – comuns, finas e médias e poucas, grossas; Bi – poucas, finas e médias; CB – raras, finas; Cv – ausentes.

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OBSERVAÇÕES:Perfil no mesmo local do Perfil L01 do levantamento de Issa e

Manuel Batista. - Horizonte A coletado em mini-trincheira próximo do perfil.

- Rachaduras no perfil.

- Cascalhos em superfície.

- No Horizonte CB seixos (calhaus e matacões).

- Houve chuva no dia 03/1/2003.

AMOSTRAGEM:Química e granulometria – A, BA, Bi, CB e Cv.

Densidade do solo – A, BA, Bi. Retenção e Condutividade hidráulica – A, BA, Bi

194Aplicando o SiBCTI 194Aplicando o SiBCTI

195Aplicando o SiBCTI

a q ue s u l f œ r i c o g/ k g

R e la ı es M o le c u la re s

H o r i z ont e

C (org n i c o ) g/ k g

N g/ k g

Mn O vre g k g

E q ui val e nt de Ca g k g

B i v

CB v

C v

P a st a sa t u ra d a

Sais s o lœ v e is cm olc kg

C o n s t a es h d r i ca g 10 0g

Umid a d e

H o r i z ont e

C o n dut i v i da de dS o C

Ca 2+

Mg 2+

Cl-

` gua di s p o ve l mÆ xi m a

Bi v

CB v

Observação: Para maiores informações sobre a obtenção dos parâmetros, consulte os capítulos 3 e 4.

A condutividade hidráulica (K) obtida correspondeu a 0,04 cm h-1, (CODEVASF, 2000) em conssonância que o baixo valor da velocidade de infiltração.

Foram executados testes de infiltração, método do infiltrômetro de duplo cilindro, em duplicidade e próximo aos locais de coleta dos perfis, para obtenção da Velocidade de Infiltração Básica (I), conforme Figura a seguir. Nela pode-se perceber o baixíssimo valor da velocidade de infiltração o que certamente, trará problemas para qualquer planta cultivada não adaptada a esta condição do solo (Embrapa 2004c).

Figura 7 - Curvas de infiltração acumulada (I) e de velocidade de infiltração média (Vim) de um Vertissolo Cromado Carbonático típico.

Quando as espessuras dos horizontes não coincidem com as camadas definidas pelo SiBCTI, o preenchimento dos dados deverá seguir três possíveis possibilidades:

•Situação 1- Quando uma camada do SiBCTI engloba dois ou mais horizontes, seus dados devem compor uma média ponderada;

•Situação 2- Quando uma camada do SiBCTI engloba parte de um horizonte, esse deve representar toda a camada;

•Situação 3- Quando não há dados de horizontes (solo raso p.e.) para preenchimento da camada do SiBCTI (camada profunda p.e.) esta deve ser receber valor “zero”.

Usando o solo descrito anteriormente e analisando a tela Propriedades do Solo I, alguns comentários a respeito do parâmetro profundidade são pertinentes. Pela descrição do solo, a ocorrência de camada semipermeável ocorre a partir de 38 cm. Essa constatação

Aplicando o SiBCTI se deve ao fato da descrição da estrutura (maciça; muito duro, firme, muito plástico e muito pegajoso), logo, uma descrição dessas, num solo como esse, é típica de camada barreira. Como o teste de condutividade hidráulica apresentou movimentação da água, mesmo que muito baixa, ela é enquadrada como semipermeável.

A descrição do perfil assinala ainda que o último horizonte (Cv), já transicional para a rocha, vai de 52-64 cm até 100cm+, ou seja, o pedólogo não avaliou como pertinente aprofundar a coleta mesmo percebendo que o horizonte continuava além dos 100 cm. Como não se sabe o que está abaixo dessa profundidade, considera-se em termos de preenchimento do SiBCTI como limite esses 100 cm, para o parâmetro profundidade do impermeável, ou, até onde vai a descrição do solo.

Aplicando o SiBCTI

No parâmetro pH em água tem-se a primeira evidência da situação 1 definida anteriormente. O SiBCTI trabalha para esse parâmetro com a camada fixa de 0-20 cm. No entanto, o pedólogo descreveu o solo como tendo o horizonte A indo de 0-10 cm e o BA de 10-2 cm. Então, para preenchimento desse parâmetro do SiBCTI, procedemos à média ponderada: [(10 cm x 6,7) + (10 cm x 7,1)] / 20 = 6,9.

198Aplicando o SiBCTI

Ainda nesse parâmetro, é apresentado um exemplo da situação 2. Considerando a terceira camada pré-definida 60-120 cm, ela não coincide com o horizonte Cv, que como todo o solo, só vai até 100 cm. Evidentemente, o valor do pH (H) desse horizonte, que é 8,7, representará toda a camada 60-120 cm do SiBCTI.

Como mais um exemplo da situação 2, tome-se o parâmetro Capacidade (ou lâmina ou camada) de Água Disponível (C). A terceira camada do SiBCTI vai de 0-120 cm. Como o perfil descrito só vai até 100 cm, logo, o cálculo é realizado como se todo o armazenamento de água hipoteticamente fosse até 120 cm, ou seja, representando toda a camada até 120: C0-120 = C0-20 + C20-60 + C60-120 = [(8,6 x 1,5 x 100 / 100) + (9,7 x 1,51 x 100 / 100)] + [(9,7 x 1,51 x 20 / 100) + (1,3 x 1,4 x 160 / 100) + (12,5 x 1,37 x 220 / 100)] + [(12,5 x 1,37 x 40 / 100) + (9,7 x 1,51 x 560 / 100)] = 184 m

Ainda nessa tela é acrescentado um exemplo da situação 3. Considerando o parâmetro condutividade elétrica no extrato de saturação (E). Para esse parâmetro, o SiBCTI necessita do valor para a camada 120-240 cm. Como o solo descrito só vai até 100 cm, o sistema é preenchido com valor “zero”. Esse procedimento não prejudicará a avaliação final uma vez que o SiBCTI já foi previamente calibrado para esse tipo de situação, qual seja, o solo não atingir a seção de controle.

vértico+ custo e captação da água + cultura manga + sistema de irrigação localizado como:

Finalmente na quarta tela, é executada a classificação do ambiente. A manga foi escolhida por ser uma cultura que tem se expandido bastante na região Semi-Árida. Podese perceber que o sistema classifica esse ambiente: CAMBISSOLO HÁPLICO Carbonático a 6 Z I

Na segunda tela, Propriedades do Solo I, destacam-se alguns parâmetros com valores bastante desfavoráveis em termos de classificação de terras para irrigação. Percebe-se que a baixíssima Velocidade de Infiltração (I) e a presença de Zona ou Ambiente de Redução (W) próximo da superfície exercerão um impacto muito elevado e desfavorável na classificação final.

A terceira tela refere-se à qualidade e custo da água de irrigação. Nesse caso, como a mancha de solo representada pelo perfil descrito está próxima da captação e sendo esta água do rio São Francisco, portanto de excelente qualidade, os parâmetros dessa tela não prejudicarão a avaliação final desse ambiente.

Aplicando o SiBCTI

•o primeiro parâmetro “a” indica retorno potencial superior ou seja, a cultura escolhida (manga) é uma cultura elencada como de rentabilidade implícita superior, da mesma forma que a água para irrigação tem baixo custo de captação.

•o sistema resgata o parâmetro mais limitante, ou seja, aquele que exerceu maior influência na classificação final da terra. No caso, por ser maiúscula e de cor vermelha, fica caracterizado que é um parâmetro ligado a solo e sendo “Z” representa o parâmetro profundidade do solo.

•o sistema resgata também o segundo parâmetro mais limitante. Da mesma forma que comentado acima, a letra “I” representa um parâmetro de solo e representa a velocidade de Infiltração.

Aplicando o SiBCTI

201Aplicando o SiBCTI

Onde Irrigar, Um Estudo de Caso (I)

Ao contrário do exemplo apresentado, caracterizado por solos com extremas limitações e que não devem, no nível tecnológico atual, serem irrigados, tem-se o exemplo de solos em que o avanço da tecnologia estão permitindo a utilização da agricultura irrigada e conseqüentemente, incorporação deles ao processo produtivo.

Talvez o melhor exemplo dessa condição seja constituído pelos NEOSSOLOS

QUARTZARÊNICOS, outrora conhecidos como Areias Quartzosas (Figuras 7 e 8). Esses solos, devido a limitações como baixíssima capacidade de retenção de cátions, de retenção de água, além da dominância da textura areia, inviabilizavam-no para a utilização com o sistema de irrigação por superfície, uma vez que naquela época, irrigações por aspersão ou localizadas principiavam ou não existiam. Essas limitações principalmente implicavam que esses solos fossem classificados como NÃO IRRIGÁVEIS por metodologias como as do BUREC.

Figuras 7 e 8 - Paisagem e perfil de NEOSSOLO QUARTZARÊNICO Órtico latossólico A fraco relevo plano (Perímetro Nilo Coelho – Petrolina/PE).

Atualmente, existem várias constatações da perfeita viabilidade desses solos para a exploração com agricultura irrigada. O avanço no manejo desses solos foi tão espetacular, que muitos agricultores chegam a afirmar que preferem trabalhar com eles em detrimento dos solos muito argilosos, principalmente aqueles com mineralogia do tipo 2:1, uma vez que o perfeito controle do teor de água disponível pode ser feito com a irrigação e do nível de fertilidade pela fertirrigação, de modo que o agricultor controla melhor seus recursos naturais via solo, monitorando e conduzindo seu talhão do jeito que lhe interessa. O que era então ponto negativo se transformou em ponto positivo. Além disso, como vantagem comparativa complentar, a presença de excelente drenagem natural faz com que esses solos praticamente não tenham risco de salinização.

A seguir é apresentado um exemplo desse solo. Da mesma forma que no exemplo do solo anterior, as informações analíticas e morfológicas necessárias ou importantes à utilização do SiBCTI estão grafadas em vermelho.

Aplicando o SiBCTI

- Nilo Coelho 4 – NÚMERO DE CAMPO – Petro 4 - DATA – 06/12/2002.

- NEOSSOLO QUARTZARÊNICO Órtico latossólico A fraco relevo plano.

- Área plana, 2 a 3%; Cultura de manga Haden com aproximadamente 6 anos - irrigado.

- Recobrimento pedimentar de materiais arenoso-argiloso sobre o Pré-cambriano.

- Sedimentos arenoso-argilosos.

- Ausente.

- Ausente.

- Plano.

- Não aparente. - Plano e suave ondulado.

- Fortemente drenado. - Caatinga Hiperxerófila.

- Cultura de manga Haden c/ +- 6 anos - irrigado com aspersor.

- BSwh’ - Clima bastante quente. A temperatura média do mês mais frio é superior a 18°C. Semi-árido. A estação chuvosa é no verão.

- Enio Fraga da Silva.

203Aplicando o SiBCTI DESCRIÇÃO MORFOLÓGICA

POROS:comuns e pequenos e médios no Ap e C1; muitos e pequenos no C2, C3, C4 e C5.

RAÍZES:comuns e finas no AP; poucas e finas no C1; raras e finas no C2; ausentes no C3, C4 e C5.

OBSERVAÇÕES:Perfil à 10m de 2 pés de manga.

AMOSTRAGEM:Química e granulometria – Todos.

Densidade (50 e 500 cm3) – Ap, C1, C2, C3 e C4. Retenção e Condutividade hidráulica - Ap, C1, C2, C3 e C4.

Os valores da velocidade de infiltração (I) e da condutividade hidráulica (K) no campo foram obtidos de CODEVASF (1980) e corresponderam a maior que 40 cm h-1 e maior que 32 cm h-1 respectivamente. Esses elevados valores já eram esperados, uma vez que a principal característica desta classe de solo é o domínio da textura areia ou arenosa.

204Aplicando o SiBCTI 204Aplicando o SiBCTI

205Aplicando o SiBCTI 205Aplicando o SiBCTI

A seguir são apresentadas as telas do SiBCTI com os dados desse solo. Na tela

Propriedades do Solo I, pode-se destacar em primeiro lugar a profundidade. Esse perfil é profundo, foi coletado até a seção de controle e preenchido as profundidades de semipermeável e impermeável até a profundidade descrita, mesmo que, como costuma acontecer nessa classe de solo, sua profundidade seja bem maior que a amostrada. Chama ainda atenção nessa tela a elevada condutividade hidráulica, bem diferente do solo analisado anteriormente.

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