Medicamentos que interferem em exames laboratoriais

Medicamentos que interferem em exames laboratoriais

(Parte 2 de 13)

O fígado é o maior e algumas vezes o único sítio de biotransformação de fármacos. Ocasionalmente o fármaco é biotransformado em outros tecidos como os rins, pele, pulmões, sangue e trato gastrintestinal.

O processo de excreção impede que as substâncias estranhas ou nocivas fiquem no organismo. Podendo ser excretados por diversas vias: urina, bile, fezes, suor, saliva, leite.

O rim é considerado o principal órgão de excreção. É controlado por três processos – filtração glomerular, reabsorção tubular e transporte ativo. E dependerá do grau de ligação do medicamento com as proteínas plasmáticas e das características físico-químicas do fármaco.

As substâncias ativas que são excretadas nas fezes, são ingeridas por via oral e, em grande parte, não são absorvidas pelo trato gastrintestinal ou são metabólitos excretados ativamente pelo fígado através da bile e não são reabsorvidos. Pela via biliar normalmente, são excretados fármacos de alto peso molecular, como os muito polares e aqueles que são ativamente englobados em micelas de sais biliares, colesterol e fosfolipídeos.

3 1. 2. Farmacodinâmica

É um processo que descreve os diversos modos em que os medicamentos agem no organismo, após ingestão oral ou absorvido pela pele ou injetado. Esse processo é dependente das propriedades físico-químicas e via de administração, pois um medicamento pode atuar em uma área específica do corpo exercendo influência fisiológica. Raramente um medicamento produz um efeito novo e sim modifica funções já existentes. Para que esse processo ocorra, o medicamento precisa se ligar a receptores.

A união entre o medicamento e seu respectivo receptor indica o início de uma série de eventos resultando no efeito farmacológico. Os medicamentos são relativamente não seletivos, ou seja, atuam em muitos tecidos e órgãos diferentes. No entanto, outros são extremamente seletivos, afetando um órgão ou sistema de forma isolada.

Existem também medicamentos que não dependem de receptores para exerce efeito. São agentes quimicamente (como o hipoclorito de sódio) e fisicamente (como o sulfato de magnésio) ativos e constituintes bioquímicos falsos (como a timina).

3 2. Exames laboratoriais e seus resultados (KROLL E ELIN, 1994; RAVEL, 1995; HENRY et al., 1999; SACHER et al., 2000):

Os exames laboratoriais podem ser utilizados para diversas finalidades. Eles fornecem resultados que devem ser interpretados concomitantes com os problemas identificados na avaliação clínica do paciente. Assim, o médico poderá tomar uma decisão clínica confirmando ou excluindo um diagnóstico e definição do tratamento. Uma outra utilidade é, além de controle clínico e terapêutico, o monitoramento diagnóstico. Os programas de rastreamento de saúde pública e de medicina preventiva também utilizam os exames laboratoriais como instrumento de pesquisa.

Não existe um exame absolutamente preciso. Existem diversos fatores que podem interferir nos resultados dos exames como: a preparação do paciente (como a hora do dia, jejum ou alimentado, injeção de drogas, tabagismo), a forma de coleta da amostra (como método de venopunção, frascos adequados para coleta, identificação da amostra), a manipulação da amostra (transporte, processamento, armazenamento), a análise (como precisão do método, acurácia do método, automação), a forma de emissão dos resultados (com cálculos errôneos, comunicação impressa ou verbal sem clareza), efeito dos medicamentos.

A interferência causada por medicamentos constitui em um grande problema, pois o paciente pode estar em uso de vários medicamentos (prescritos ou não). Essas interferências medicamentosas podem ser divididos em: efeitos fisiológicos in vivo do fármaco e seus metabólitos, e efeitos in vitro resultantes de uma propriedade físico-química em processos analíticos.

Os efeitos fisiológicos in vivo manifestam-se de diversas maneiras, como: os medicamentos que induzem lesões em tecidos ou órgãos (por exemplo: a anfoterencina B que induz nefrotoxicidade), os medicamentos que alteram funções de órgãos (por exemplo: a sinvastatina que aumenta os níveis de alanina aminotransferase e de aspartato aminotransferase), o efeito de competição por medicamentos (por exemplo: o deslocamento da tiroxina das proteínas de ligação pela fenitoína), a interação entre medicamentos (por exemplo: a amiodarona aumenta o efeito da digoxina que, por sua vez, eleva sua concentração sérica).

Os efeitos in vitro manifestam-se na interferência do medicamento com o método de análise (por exemplo: o ácido ascórbico em grande quantidade reduz o nível de glicose sérica no método da glicose-oxidase). Por mais que os métodos e as tecnologias de análises modificaram-se durantes as décadas, ainda é susceptível a interferência por medicamentos. Essas informações valem tanto para métodos enzimáticos quanto para métodos imunológicos.

Com o conhecimento dessas interferências, novos métodos ou aparelhos que quantificam ou identificam determinada substância, são inseridos no mercado mundial. Esses meios de análise são previamente testados e possuem manuais que indicam o tipo de medicamento interferente.

Esses testes seguem um estudo que possui uma seleção do medicamento através de critérios de elegibilidade. Eles incluem, nesses criteriosos, itens como: a concentração sérica alta do medicamento, o conhecimento de interferência no método, a freqüência de uso do medicamento, a relevância in vivo, a documentação recente.

3 3. A correlação entre duas ciências: Farmácia e Biomedicina

Há uma grande quantidade de erros e perdas dos resultados de exames laboratoriais causados por interferentes medicamentosos, no entanto, a união da Farmácia e a Biomedicina envolvem uma reflexão sobre essa problemática. A Farmacoterapia é beneficiada com a conexão dessas duas ciências, como exemplo na escolha do fármaco e sua de dosagem ideal pode ser monitorada com a analise laboratorial. A Biomedicina é, também, beneficiada através da interpretação segura do resultado laboratorial, conforme o conhecimento prévio dos interferentes medicamentosos (SCHIFF et al., 2003). Enquanto a Farmácia é responsável por ordenar e dispensar os medicamentos, o

Laboratório é responsável pelo monitoramento desses medicamentos administrados para o paciente. A correlação entre a Farmácia e a Biomedicina, para análise dessas informações, é raramente encontrado (BATES et al., 1995; SCHIFF et al., 2003).

Um estudo realizado por Tegeder et al. (1999), demonstrou que 79% de eventos adversos detectados pela união da Farmácia e Biomedicina, não são rotineiramente reconhecidas.

Muitos hospitais e unidades de saúde não têm condições de obter um meio, como por exemplo a aquisição de um software, que monitore essas interferências ou dosagens em tempo real. A montagem de um protocolo para ordenar um monitoramento desses interferentes e dosagens, segundo os estudos de Schiff et al. (2003), poderia ser dividida nas seguintes categorias:

(A) Seleção de fármacos: que com a análise laboratorial poderia encontrar as contra-indicações e indicar as sugestões de medicamentos;

(B) Dosagens: onde a análise laboratorial identifica a dosagem do medicamento que está afetando (ou agravando) o quadro clínico do paciente e pode monitorar o uso do medicamento (como por exemplo: o monitoramento do teste de coagulação em uso de varfarina);

(C) Monitoramento: que é garantia do controle de valores laboratoriais anormais que podem sinalizar e indicar toxicidade pelo medicamento em uso;

(D) Interpretação laboratorial: que é a busca dos influentes ou dos interferentes, e os impactos, dos medicamentos nos resultados laboratoriais; (E) Melhoria da qualidade: que é o controle dos efeitos e toxicidades dos medicamentos. (SCHIFF et al., 2003)

Para melhor entendimento das interferências dos medicamentos nos resultados laboratoriais, segue um quadro (Quadro 1) que enumera uma seqüência dos medicamentos pelo nome genérico ou classe terapêutica com seus respectivos fármacos, a indicação terapêutica dos medicamentos, correlacionando com qual exame laboratorial sofre interferência e em qual grau, bem como o mecanismo que leva a essa interferência (WIRTH E THOMPSON, 1965; LADENSON E BOWERS,

1973; CHRISTIAN, 1975; YOUNG et al., 1975; SHER, 1982; MUTHER, 1983;

LETELLIER E DESJARLAIS, 1985; RYAN, 1987; FUNG E BRAZEAU et al., 1989; NOZUE, 1992; KROLL E ELIN, 1994; RAVEL, 1995; YOUNG, 1995; WOOD, 1995;

JOHNS E HAMMETT-STABLER, 1998; HENRY et al., 1999; CORDIOLI et al., 2000; KAILAJÄRVI et al., 2000; SACHER et al., 2000;TRYDING, 2003; YOUNG, 2000; WILSON et al., 2002; STEELE et al., 2005).

Medicamento Indicação Laboratorial Alteração Mecanismo de Ação

Paracetamol

Analgésico

Fosfatase Alcalina Aumento Alta dosagem associada a necrose hepática

BilirrubinaAumentoLesão hepática devido alta dosagem Glicose Diminuição

Antipirético

Cloro Aumento Acido ÚricoAumento Sódio Diminuição Bicarbonato Diminuição

Cálcio Diminuição

Acetazolamida

Hipotensor ocular

Cloro Aumento

Bilirrubina Aumento Acido ÚricoAumento Glicose Aumento Amônia Aumento

Diurético

Fosfatase Alcalina Aumento Sódio Diminuição Bicarbonato Diminuição

Cálcio Diminuição

Aciclovir

Ureia Aumento

Tratamento inicial e profilá-Fosfatase Alcalina AumentoAumento da função hepática tico de infecção cutänea eDiminuiçãoLeucopenia mucosa por Herpes BilirrubinaAumento

Creatinina Aumento Insuficiência renal reversível

Alopurinol Tratamento de artrite gotosa

Fosfatase Alcalina Aumento

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